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Terça-feira, 13/11/2018
Vespeiro silencioso: "Mayombe", de Pepetela
Renato Alessandro dos Santos

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“É bom falar, é bom conversar com um amigo, a quem se abre o coração”, diz Sem Medo a Teoria. São dois guerrilheiros, comandante e comandado, conversando no interior da floresta tropical que é Mayombe, que é Angola. “Guardar para si não dá, só quando se é escritor. Aí um tipo põe tudo num papel, na boca dos outros. Mas quando se é escritor é preciso desabafar, falando”. Este é Sem Medo. Qualquer semelhança com o orixá Ogun, o “prometeu africano”, não será mera coincidência.

Personagem admirável, o leitor segue-o de perto romance adentro, desconfiando de que o guerrilheiro poderia ser Pepetela. Seria possível? Seria, se a literatura não fosse ficção, o contrário da vida. “A acção é outra espécie de desabafo, muitos de nós utilizam esse método, outros batem na mulher ou embebedam-se”, continua Sem Medo. “(...) a conversa franca que me parece o melhor, a mim que não sou escritor. Não foi por acaso que os padres inventaram a confissão, ela corresponde a uma necessidade humana de desabafo”.

Tribalismo

Não há sequer um pôster de Marx ou Lênin nos muros de Dolisie ou em alguma árvore na floresta. São anos de chumbo. Mas os dois revolucionários ficariam orgulhosos lendo Mayombe. Os soldados encontram na guerrilha o caminho para a independência de Angola. É hora de pôr a teoria em prática: Pepetela, o escritor, aplica em seu romance o que Pepetela, o guerrilheiro, aprendeu em seus anos de luta armada. É coerente; é sedutor; é profundo. A ideologia percorre os labirintos da selva; vêm honestidade, honra e coragem, virtudes encontradas na maioria dos guerrilheiros, que, pensando no bem-estar social do grupo e do Mayombe, querem levar a revolução adiante. Angola para os angolanos.

Na guerra colonial contra Portugal, na selva, guerrilheiros de grupos diversos formam um conjunto que pode ser visto como simulacro de uma nação composta de um punhado de tribos (kimbundos, kikongos, umbundos), que, por força de lutar contra o inimigo em comum, esforçam-se para se entender, até porque, para se reconquistar um país, é preciso ter unidade e um caminho que leve todos a um mesmo lugar.

Mas, zumbindo, açoita o tribalismo que, dentro da cabeça do guerrilheiro, faz de Mayombe ― escrito em 1971 e publicado em 1980 ― um vespeiro, um microcosmo do que Angola vai acabar vivendo após 1975, quando a independência do país, automaticamente, transforma-se em uma guerra civil, e, na algaravia ímpar de culturas, de tradições e de códigos tribais, ninguém conseguirá se entender. É por isso que, mais do que a floresta gigantesca, Mayombe é Angola, rica em cultura ancestral, de tradição secular interrompida e desprezada pelo colonialismo português. Tudo obedecendo aos ditames da civilização ocidental. Um vexame.

Negro lá, índio cá

À mercê dessa realidade terrível, civilizar, para toda nação que foi pilhar África, significou ir aquém de aprender com outra cultura. A alteridade lusitana, ou melhor, a ausência dela, impôs a relação servil em que o europeu não se reconheceu no outro ― negro lá, índio cá ― e, por isso, longe de valorizar as diversas culturas encontradas pelo caminho, tentou apagar a alma da colônia, buscando por meio da política da assimilação, por fim oficializada por Salazar, alinhar africanos que deveriam ser, tendo a língua como elo, mais portugueses do que angolanos, moçambicanos, guineenses, são-tomenses e cabo-verdianos. As independências tardias, diferente do que houve no Brasil, um século e meio antes, trouxeram a guerra, e com ela refugiados, que, nômades, foram levar adiante ― mais uma vez ― a diáspora africana. Não é fácil ser mãe, suspira África, jamais reclamando de sua sorte, ou da falta dela.

Dentro de Mayombe, a floresta é o cenário principal, onde se ouvem muitas vozes: a narrativa traz vários narradores anexados ao fio principal, onisciente, que segue Sem Medo, o comissário e outros, enredo adentro, alterando a narração entre terceira e primeira pessoa. Leitores aspirantes ao serviço militar, aqueles que trazem o coração verde-oliva, vão se esbaldar com Mayombe, e os transes que enfrentam os guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular para Libertação de Angola) ou da UPA (União das Populações de Angola) ― nêmesis dos “tugas”, os portugas ― não têm nada de hollywoodiano, de batalhas épicas, mas traz o sangue daqueles que, caindo sobre o chão de seu país, chão de batalha, morreram por Angola, como reclama um bilhete em CAIXA ALTA deixado por Sem Medo, numa emboscada aos portugueses:

SACANAS COLONIALISTAS, VÃO À MERDA, VÃO PARA A VOSSA TERRA. ENQUANTO ESTÃO AQUI, NA TERRA DOS OUTROS, O PATRÃO ESTÁ A COMER VOSSA MULHER OU IRMÃ, CÁ NAS BERÇAS!

Polifonia

A história envolve o leitor. A tática de Pepetela, o autor, é deixar que, na fabulação, vários narradores-guerrilheiros deem sua versão do que vai. Quase todo mundo tem voz aqui; quer dizer, as mulheres e o inimigo, não. Quando o sobrinho de Sem Medo, Vewê, também um combatente, esperando alguma espécie de nepotismo, esbarra na ideologia austera do tio, seu comandante, cai em uma discussão que cresce como uma enchente, até que é interrompida pelo Comissário, que defende o sobrinho de Sem Medo, horrorizado pela truculência do outro. A superfície esconde a profundeza da alma humana, e o que poderia ser uma discussão passageira leva mais barulho para a base, onde, divididos, os guerrilheiros convivem, soterrados em dúvidas e insatisfação. Um por todos e todos por um? A ideia é essa, mas, em certas horas de desespero, fica mais para salve-se quem puder...

A fim de defender o que pensa, essa discussão é retomada por Mundo Novo, que, por meio de uma análise focada no tribalismo, oferece outro ponto de vista ao leitor, e assim vai, com um narrador por vez formando múltiplas vozes, numa polifonia cujo maior mérito é dar ao outro a possibilidade de se expressar, e não é assim que funciona entre adultos? Na base no meio da selva, no rio de surucucu, no quartel na cidade, ou no mato rasteiro do campo, o enredo vai tomando forma, levando a gente, atenta, a tiracolo.

Viver ou hibernar? Eis a questão

Os verdadeiros leitores de Mayombe não são aqueles estudantes forçados a encará-lo por causa do vestibular ― embora em muitos sempre há rebeldes em crisálida constante que, no livro, encontrarão razão de ser ― mas as pessoas que se sentirão recompensadas pela narrativa de Pepetela e que, certamente, partirão em busca de obras dele e de outros autores da contemporânea literatura africana de língua portuguesa, que está, como toda arte literária, sempre à espera de novos leitores dispostos a, com ela, compartilhar a vida, enriquecendo-a e multiplicando-a, imprevisível, uma vez que viver é “criação constante, morte e recriação”, enquanto “a rotina é exatamente o contrário da vida”, isto é, “é a hibernação”.



Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 13/11/2018


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