Cuba e O Direito de Amar (1) | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

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Quarta-feira, 2/12/2020
Cuba e O Direito de Amar (1)
Marilia Mota Silva

+ de 2100 Acessos

Sem sair de casa por causa da pandemia, comecei a reler velhos cadernos de viagem. Um deles trazia notas de uma semana em Cuba, no século passado, quando não havia celular, nem e-mail, nem google. O muro de Berlim e a União Soviética ainda estavam em pé: 1989, pré-história.

O Banco Nacional de Cuba (BNC) faria um seminário sobre câmbio; o país começava a incentivar o turismo, a se abrir para o estrangeiro, e precisava aprender sobre operações cambiais. Fomos para esse seminário. A imagem que eu fazia de Cuba, naquela época, vinha do livro A Ilha, de Fernando de Morais; da figura romântica de Che Guevara, quando ainda não sabíamos de seu ardor por fuzilamentos, mesmo ele tendo deixado isso claro, em seu discurso na ONU, em 1964. Alguns amigos, igualmente juvenis e desinformados (em parte, consequência da ditadura militar), me pediram para "contar tudo", quando voltasse. Assim, tomei notas minuciosas.

Depois de algum tempo barrados na imigração, fomos liberados graças a dois funcionários do Banco que nos esperavam: Maria Antonia e Ismael.

Chegando ao hotel, nossos acompanhantes tomaram a frente, fizeram nosso check-in e nos entregaram um envelope com Certificados B. Em voz baixa e com um sentido de urgência, explicaram que havia quatro tipos de certificados: "A" para estrangeiros de outros países socialistas; "B" para estrangeiros de países capitalistas -nosso caso; "C" para funcionários cubanos que trabalham no exterior e "D" para estudantes do exterior que vem estudar em Cuba. O valor equivalia ao dólar.

Resolvemos comprar mais pesos e ficamos surpresos ao saber que lá se usava o dólar americano para todas as transações. Dólar ou certificados da Cubatur.

Convidamos Maria Antonia e Ismael para jantar conosco, e eles se recusaram vivamente. Os cubanos não podem entrar nos hotéis. Só se trabalharem lá.

O hotel Habana Riviera não tem o 13. andar, uma superstição americana que hoje em dia não se vê mais; as placas indicativas estavam apenas em inglês. O funcionário que nos acompanhou ao quarto disse que o hotel foi presente de um mafioso americano ao Presidente Fulgêncio Batista. Isso explica a decoração: carpetes vermelhos, estatuetas, quadros, candelabros, espelhos, dourados em profusão.
Mas agora o hotel pertence ao povo cubano, diz o funcionário, com orgulho evidente. Sorri em apoio, mas me veio o pensamento inevitável: Só que o povo não entra.

*****

Nossa suíte: uma sala de estar com duas geladeiras desligadas, espreguiçadeiras, sofás profundos, poltronas confortáveis, mesa de centro, mesa de jogo (sem jogos), abajures enormes, uma parede toda de espelho, cortinas pesadas, folhagens artificiais e uns toques orientais: uma divisória de papel translúcido e um samurai em tamanho natural, saltando de uma parede com sua espada. Devem ter reunido ali a decoração de outras duas ou três salas. O quarto em si era mais habitável. Havia dois banheiros e closet. E a encantadora vista para o mar e el Malecón.

Depois dos primeiros momentos, vimos que a manutenção estava um pouco descuidada: portas emperradas, lâmpadas que não acendiam, papel de parede despregando, cúpulas dos abajures manchadas, sinais de infiltraçao em vários pontos. Todo o hotel está assim, mas estão trabalhando em sua recuperação. É um hotel com ótimas instalações: piscina muito grande, plataformas de salto, restaurantes, bares, salões para shows e convenções, saunas, lojas.

*****

Domingo, 24.
Acordamos tarde demais para o café da manhã e saímos procurando uma cafeteria. Não havia comércio nas redondezas; os bonitos prédios de apartamentos estavam com a pintura descascada, as varandas cheias de entulhos, roupas em varais improvisados. Voltamos ao hotel. O pessoal do BNC nos esperava para o almoço.

Conhecemos o economista mexicano, Mazzoti, que também participaria do seminário; o argentino não havia chegado. Fomos a um restaurante distante da cidade, em um bosque silencioso, com cavalos e parquinhos para crianças. Coquetel de camarão, cherne, vinho húngaro, salada de cogumelos; filé-mignon; sobremesa também. E licor de marrasquino. Pedi piña-colada, mas só havia morritos, o drinque preferido de Hemingway, o garçom informou com um sorriso.

Quando perguntei sobre a assistência médica em Cuba (uma das perguntas que meus amigos me encomendaram), recebi uma resposta entusiasmada: há um médico para cada 120 famílias, e tudo é gratuito, inclusive cirurgia plástica. Cirurgia plástica por razões de estética; não só as reparadoras.

Outro assunto que despertou entusiasmo foi a novela O Direito de Amar, da Globo, que estava passando lá. Queriam saber dos atores, e o que aconteceria, e se o Brasil era daquele jeito ( a novela se passa no século XIX). Já sabiam que Lauro Corona, o galã romântico da história, tinha morrido, na vida real. Respondi o que sabia, e quando o mexicano comentou que a televisão estatal é sempre muito aborrecida, conseguiu uma explosão de gargalhadas, como se tivesse contado uma piada irresistível.

Margarida, à minha direita, disse que também adorava assistir à novela, uma coisa diferente, com atores tão bons! , e que trabalhava muito no Banco e também em casa, e que seu momento de descanso era a novela, que sabia que era ficção, mas adorava assim mesmo, e só lamentava o horário, começava às nove da noite e ia até às onze, três vezes por semana. Disse que se levantava às 6:00 da manhã e tinha que se esforçar para não dormir enquanto não via a novela. A melhor diversão que temos, repetiu.

O almoço terminou por volta das cinco horas. Cruzamos novamente o longo túnel que passa sob a baía. Comentei a bela obra de engenharia. Nosso anfitrião disse que tinha sido construído antes da Revolução. Explicou que a cidade está muito descuidada porque o governo decidiu investir no campo primeiramente, e a cidade teve que esperar. Mas agora, como pretendiam incrementar o turismo, iriam melhorar o visual de Havana.

*****

Segunda, 25.
Saí cedo, passeei pela cidade. Vi uma fila de mulheres e fui conversar com elas. Esperavam para comprar leite. A Loja de Laticínios abriria dentro de duas horas, às dez e meia. Quem chega cedo consegue levar alguma coisa, disseram. Quando chega, acaba logo.

Passei por uma igreja que abrigava uma gráfica. De vez em quando, sentava-me num banco de praça e conversava com quem estivesse por perto. Soube que quase não há construção de habitações novas em Cuba, desde a Revolução, há trinta anos. Então os filhos se casam e continuam morando com os pais, assim como seus filhos, quando se casam. São muitas famílias no mesmo espaço. Daí as varandas entulhadas.

Em compensação há crianças e adolescentes uniformizados por toda parte, nas praças, ruas, calçadas. Desfilam, fazem educação física, têm aulas ao ar livre. Algumas usam lenços vermelhos no pescoço, outras usam braçadeiras vermelhas com as letras CDR.

Passei por dois grupos de velhos turistas canadenses que as fotografavam com entusiasmo. As crianças pareciam habituadas e não se perturbavam.

Pedi um bandaid em uma farmácia. A atendente me deu um rolo de esparadrapo. Mostrei a bolha que se formava no meu calcanhar, ela procurou na própria bolsa e me deu um curita. Na farmácia não vendiam. Nas prateleiras praticamente vazias havia uns poucos frascos, sem embalagem, sem caixas coloridas. Desnecessárias, de fato.

Passei pelo museu Palacio de los Gobernadores com um bonito pátio interno. Estava fechado. Fui ao Castillo Real, do séc. XVII. Uma das salas estava aberta, com uma pequena exposição de pintura moderna, de artistas locais.

Na Catedral de Habana Vieja, vazia, sentei-me num dos bancos, olhando as paredes nuas, sem altares, santos ou pintura. Um homem saiu da porta junto ao altar, de onde teria sido a sacristia e veio sentar-se no banco à minha frente. Sebastian, o zelador. Perguntou se eu não achava a cidade feia; antes que eu respondesse, disse que a cidade estava se acabando, se destruindo. Repeti o que tinha ouvido: que havia outras prioridades para a aplicar o dinheiro, no campo, na produção de alimentos. Dinheiro há, ele disse, o que não há é interesse. Ninguém trabalha direito, porque de qualquer jeito, você só pode ter um par de sapato por ano, eu não posso ter um video nem comida direito. Comida aqui é um problema. Roupa também não tem. Ele falava baixo, olhando para a porta da igreja. Não pode falar isso para nenhum cubano, por favor, me entende? Tem gente vigiando. Olha pra trás, ele está sempre lá, se não é ele, é outro. Olhei e lá estava contra a luz de fora, a silhueta de um homem robusto, de pernas abertas e braços cruzados. Dizem que não há prostituição aqui, mas há, sim, só que as moças não recebem dinheiro, pedem uma roupa, qualquer coisa, e se o governo pergunta como conseguiram aquilo, elas dizem que receberam de presente, que uma familia de fora mandou.

Caiu um temporal, Sebastian foi cuidar de alguma coisa e sugeriu que eu conversasse com um velho que estava sentado na frente, perto da antiga sacristia. Ele teria histórias pra me contar. Fui, tinha mesmo que esperar que a chuva passasse.

Cumprimentei o velho de dentes e gengivas em mal estado, esperei que falasse, mas ele sorriu sem jeito, encolhido no banco. Achei a situação meio confusa e decidi ir embora. Mas o zelador me fazia sinal de trás da porta da sacristia entreaberta. Fui até lá, ele me pôs na mão uns papéis embolados e uma tira de papel dobrada. Não havia ninguém à vista, só o velho de cabeça baixa, mas mesmo assim, ele me dava sinais para ser discreta. Olhei o que tinha me dado. Onze notas de um dólar.
Queria que eu comprasse um par de sapatos para sua filha que ia fazer nove anos. E se desse, que eu comprasse também um par de meias. E comida. Turista pode comprar qualquer coisa, a gente não. Se eu quiser tomar uma cerveja, não posso. Se quiser viajar, mesmo aqui dentro de Cuba, também não posso. Devolvi-lhe o dinheiro, disse que não sabia se poderia voltar lá, que ficaria poucos dias. Ele me empurrou o dinheiro de volta, ansioso.

Ouvi vozes, começava a entrar gente, um grupo de turistas, e fui embora, constrangida, levando as onze notas na bolsa.

À noite, jantamos no hotel com Mazzoti e Planes, o argentino que finalmente havia chegado.

*****
Continua aqui


Marilia Mota Silva
Washington, 2/12/2020


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