O último estudante-soldado na rota Lisboa-Cabul | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 17/2/2022
O último estudante-soldado na rota Lisboa-Cabul
Elisa Andrade Buzzo
+ de 5900 Acessos

O último soldado norte-americano a abandonar o Afeganistão: Christopher Donahue é fotografado no aeroporto de Cabul, em agosto de 2021, após vinte anos de presença militar dos Estados Unidos no Afeganistão. Um último estudante a sair de uma biblioteca, num início de uma noite qualquer em 2021, depois de cerca de cinco anos de trabalhos pós-graduados. Mas algo fez o estudante relacionar a já histórica foto esverdeada, tirada com visão noturna, com a sua trivial situação momentânea, ainda que processual, em vias de andamento, mas também de retirada às escuras, em surdina. Esse algo talvez tenha a ver com guerras internas e externas, com tarefas e com escombros, com possibilidades de desistências diante da calculada derrota; e com ilusões de vitória, em frentes nas quais os discursos ressoam conforme os apelos ou os gritos dos importantes.

Pobre ou sortudo estudante; pois não há testemunhas desse momento, imagens não foram realizadas - a não ser, talvez, pelas câmeras de segurança. Estas, aliás, entrarão no limbo das imagens abandonadas, sem chance de publicidade, sem ineditismo pela banalidade total de seus argumentos parcos de sobrevivência necessária. As carteiras estão vazias e as fileiras foram já completamente abandonadas. As únicas armas visíveis talvez sejam a de policiais estrategicamente alojados na faculdade de ciências.

Assim como o último soldado a deixar Cabul, o último estudante a abandonar a biblioteca tem tanto a chance de encontrar personagens bastante desagradáveis como bastante agradáveis em sua saída. É nessa hora que aparece ou quem ele acha que não se parece com ele, e que, no entanto, mostra-se muito semelhante; ou então quem ele admira de uma forma profunda. Ou seja, alguém que ele ache que pode ter algo a ver com ele, porém a realidade demonstra entre eles algo como um abismo natural, uma trincheira superposta que necessita de tempos loucos de guerra e silêncios doidos de paz para ser transposta.

São esses personagens que também travam algum tipo de luta, e que no momento estão numa pausa, num compasso de espera. Abandonaram para, quem sabe depois, conquistar, quem sabe uma ideia, um poder, um conhecimento, ou mesmo uma ideia de poder que acariciam dobrando o corpo sobre si, e na saída a sustém com o corpo ereto, a fala dúbia, professoral, potencialmente opressora ou protetora dos pequenos. E se existisse uma fotografia desse último estudante abandonando o seu posto de trabalho? Como ela seria? Colorida? Refletida na noite? Apagada na noite ou com uma chama discreta alojada no crânio? De certeza, não seria ela capa ou primeira página de jornalismo algum, de coisa alguma de destaque; antes, um acontecimento totalmente imerso e obscurecido no tempo (escuro e qualquer). A ninguém interessa um estudante (e, ainda bem?) – que assim seja.

Olhos bem abertos, o soldado da fotografia porta um fardamento com acessórios pesados. E o estudante, quanto é ele carregado? Uma canga de livros e computadores, como um burro adejando fardos de boias de sustentação na água lodosa, na piscina incerta do conhecimento. A ponderar a estrutura aflitiva das coisas das quais não tem o devido controle. O estudante, afinal, inventa um incontrolável. Inventa qualquer coisa? Ou assim acha? Inventa, é certo, uma massa de manobra conveniente e necessária para continuar perseverando em sua manifestação ficcional documentada em análise dos fatos.

Na composição analítica, quem sabe inverdades sejam ditas, haja mais abuso utilizado do que uso útil acrescido, mas dobram os sinos das melhores intenções. Dobram, diariamente, às vezes com mais força eles são ouvidos, outras vezes com um ressonar menor, talvez mais brando, talvez mais diluído. Enquanto isso, em sua retirada, o soldado americano, fecha as porteiras invisíveis da ocupação. Desocupa para não mais voltar, ao menos disso não tem mais a intenção. O estudante, este, tem a esperança, e o dever, de sempre voltar, a este trabalho invisível que não cessa nem enseja término.

Há um sentimento interno de pertencimento, de se estar fazendo algo necessário e produtivo, para si, para a pátria ou para a humanidade, tanto neste estudante, tanto naquele soldado? O último estudante sai, e não encontra lugar onde pousar a sua mente no mundo. E então, fica em suspenso, tal como estaria o último soldado, que finalizou a sua missão, abandonou o seu posto, deixou para trás ruínas, toneladas de lixo militar a serem ainda considerados os seus efeitos? E o trabalho, afinal, foi pela metade ou a missão foi completada? Diz ele aos seus soldados, “Um trabalho bem-feito, estou orgulhoso de todos vocês”, quando entrou no último C-17 a partir. E ao estudante solitário, há mensagens de encorajamento e consideração?

Haveria dúvidas no soldado? Ou mais fácil obedecer a ordens superiores, tomar decisões em conjunto, e assim que tipos de adeuses advém de ordens, que tipos de adormecimento de consciências sobrevêm de decisões íntimas do livre-arbítrio? E a questão é: adiantou de algo ser o último? Adiantou a jornada? De que forma foram favorecidos na história os últimos, se o favorecimento implica em subcategorizar o outro? Talvez fosse melhor que o último fosse aquele com a oportunidade de observar as grandes ruínas, melhor podendo ver o todo? - mesmo, ser o escombro.


Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 17/2/2022

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