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Terça-feira, 21/5/2002
Anauê
Bruno Garschagen

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Certamente, Plínio Salgado empinaria orgulhosamente a fronte se descobrisse como sua ideologia influenciou de forma tão profunda a pequena e sedutora Burarama, distrito de Cachoeiro de Itapemirim a 20 quilômetros do centro da cidade. Difícil prever, mas, talvez, largaria o copo de uísque por algumas horas para ler "Anauê: a apaixonante saga integralista numa colônia de imigrantes italianos (437 páginas, edição independente)", de José Marcelo Grillo, lançado recentemente.

Num grande esforço de reportagem, Grillo entrevistou dezenas de pessoas que viveram os fatos ocorridos nas décadas de 1930 a 1950. Colheu histórias reais e, na impossibilidade de fazer um romance histórico, devido ao desconforto que o assunto até hoje causa nas várias personagens vivas, algumas membros de sua família, recorreu ao romance de ficção. Alterou nomes verdadeiros, ficcionou trechos para intercalar capítulos verídicos, costurou uma linha dramática sem se prender necessariamente à realidade.

Giordano Berllone, Vitto Gardini e Giovanna Polline são os protagonistas da obra. Os dois imigrantes italianos vêem o vínculo de amizade que os unia se esfacelar pela opção político-ideológica: Berllone, o antiintegralista; Gardini, o integralista fervoroso. A jovem Giovanna entra na história como uma fagulha a triscar no pavio do coração do nem tão jovem Giordano. Só que naquela época as convenções tinham importância e a diferença de idade era um problema menor do que o fato de Giordano ser casado. A narrativa em terceira pessoa se desenvolve na ocupação pelos imigrantes de Burarama; na luta política para obter benefícios à nova terra; no contato com a doutrina forjada por Plínio Salgado; na divisão do então distrito em integralistas e não integralistas; no relacionamento com o prefeito de Cachoeiro da época Fernando Abreu (que receou perder a influência em Burarama com a ascensão do integralismo entre os italianos); nas brigas com os comunistas (há uma cena memorável de um tiroteio na antiga estação); no amor impedido entre Giordano e Giovanna; no reatamento dos antigos amigos; no pacto para tornar proibido o assunto integralismo, nunca mais exumado. Nunca, até Grillo desenterrar a história.

A versão macunaíma do facismo italiano ganhou o nome de integralismo. Forjada pelo escritor paulista Plínio Salgado, era temperada também por codimentos do nazismo alemão. Tinha por meta servir a Deus, ao Papa, a família. O lançamento oficial da Ação Integralista Brasileira como movimento político independente foi em 7 de outubro de 1932. A influência decisiva das idéias totalitárias importadas da Europa dos anos 1930 deveu-se ao clima intelectual do pós-Primeira Grande Guerra. Os ventos sopravam a favor do florescimento dos camisas-verdes. Livros e mais livros chegavam às livrarias trazendo farta literatura sobre o fascismo italiano. No Brasil, várias obras de análise da política nacional sob o viés antiliberal eram publicados, várias revistas e movimentos ideológicos ligados ao fascismo surgiam e eram aceitas como demonstração de que as idéias fascistas se alastravam em solo fértil. Até aí, os grupos simpatizantes das ideologias autoritárias estavam dispersos. A década de 1930 no Brasil se revelou um período em que posições políticas radicais ganharam consistência. Depois, membros desses clubinhos se uniriam na Ação Integralista Brasileira. Plínio Salgado nasceu em São Bento do Sapucaí (SP), em 1895. Inserido na escola modernista, forjou sua carreira de escritor. Publicou dezenas de livros, incluindo versão comentada dos Evangelhos e os romances "O Estrangeiro" e "Literatura e Política" - este, um libelo contrário às idéias liberais. Salgado carregava uma concepção espiritualista conservadora. Foi bastante influenciado pelos escritores Farias Brito (1862-1917), Jackson de Figueiredo (1891-1928) e Alberto Torres (1865-1917). Em busca do poder político, a Ação Integralista, a partir de outubro de 1932, se transformou no mais importante partido da extrema direita no Brasil daquela década. Ruiu com o Estado Novo. O golpe de Getúlio Vargas colocou o partido, assim como o Partido Comunista do Brasil (PcdoB), na ilegalidade.

Ao contrário da técnica comum em iniciar o romance de forma invertida (começando pela metade ou final da história), Grillo manteve a estrutura de começo, meio e fim. Se essa fórmula pode ser questionada por não entrar logo no tema integralismo, obriga o leitor a percorrer toda a obra diligentemente. Mas o abuso nas transcrições de jornais da época acaba interrompendo a leitura, tornando cansativo vários trechos do livro.

Grillo tinha nas mãos matéria-prima de primeira grandeza. Não lhe faltavam detalhes saborosos para um romance sensual, das disputas políticas, passando pelos conflitos ideológicos que colocaram amizades em xeque, à paixão reprimida pela moral da época, num período fundamental da história brasileira - a Era Vargas.

A literatura, entretanto, não faz concessões. Atravessar círculos de fogo e noites insones com demônios lambendo a fronte devem ser tomados antes como prazer à dolorosa experiência diante do resultado eficaz. Passou ao largo. "Anauê" é daqueles livros conjugados no futuro do pretérito. Poderia ter sido um bom romance; deveria ter sido.

"Anauê" seria uma boa obra se o autor tivesse investido na fórmula romance-reportagem, como Truman Capote em "A Sangue Frio" ou Bob Woodward e Carl Bernstein em "Os últimos dias". Livros que prescindem muito mais da minuciosa coleta e escrita fluida e coerente do que da interferência mágica do escritor, exigência da ficção. E quando temos conjugados esses fatores, nos deparamos com obras de fôlego como, além das já citadas, "Olga" e "Chatô", de Fernando Morais, "O anjo pornográfico" e a "Estrela solitária", de Ruy Castro, para ficar em algumas do escrete canarinho.

A comparação é prejudicada pelas diferenças de estilo, mas o texto de José Marcelo Grillo está mais maduro, se comparado com "Contos da Ema" (120 páginas, independente, 2000) e "Espelho meu" (122 páginas, independente, 1998), ambos de crônica. Ao enveredar pelo romance, entretanto, o autor assumiu os riscos de quem se lança na literatura: ou se escreve bem ou o resultado nos deixa com a sensação de que falta algo. E falta a Grillo o vigor verbal que dá vida e força ao texto - vigor que, se o escritor tem talento, só o tempo e a prática trará. Sua escrita escorreita, mas sem impacto. Espera-se em vão um verbo, uma elipse, um adjetivo, uma metáfora, uma imagem, uma frase, que não vêm.

Um equívoco estético foi a formatação da capa. Trata-se de uma modelo loira, cabelo ao vento, num uniforme integralista. Uma bela moça, mas a pose, o perfil, serviria para propaganda de xampu, sabonete ou até de leite de magnésia. Não para ilustrar a obra. Com um arquivo de fotos da época à disposição (inclusive do único núcleo integralista construído no País), Grillo preferiu colocar algo que chamasse a atenção do leitor. Acreditou que um rosto bonito fosse atrair leitores. Incorreu na mesma fragilidade de design que amaldiçoa 99,99% dos livros editados no Espírito Santo.

Apesar da falhas, "Anauê" é um trabalho íntegro do esforçado José Marcelo Grillo. Um escritor que tenta encontrar sua literatura publicando edições de seus livros com apoio de empresas locais, graças a uma lei municipal que permite o patrocínio da obra com dedução de Imposto Sobre Serviços e do Imposto Predial e Territorial Urbano. De sua minúscula Burarama, se mantém como abnegado construtor de um sonho, nem sempre realizável, que se organiza nas letras impressas de um papel em branco.


Bruno Garschagen
Cachoeiro de Itapemirim, 21/5/2002


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