50 Anos de Preguiça e Insubmissão | Rafael Lima | Digestivo Cultural

busca | avançada
79202 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> 7ª edição do Fest Rio Judaico acontece no domingo (16 de junho)
>>> Instituto SYN realiza 4ª edição da campanha de arrecadação de agasalhos no RJ
>>> O futuro da inteligência artificial: romance do escritor paranaense Roger Dörl, radicado em Brasília
>>> Cursos de férias: São Paulo Escola De Dança abre inscrições para extensão cultural
>>> Doc 'Sin Embargo, uma Utopia' maestro Kleber Mazziero em Cuba
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
Últimos Posts
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum
>>> Circo Roda Brasil
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães
>>> Contra os intelectuais
>>> Sem música, a existência seria um erro
>>> Orkut, um sonho impossível?
>>> Charges e bastidores do Roda Viva
>>> Pensamento do dia
>>> Por que votei nulo
Mais Recentes
>>> Ser Terapeuta - Depoimentos de Ieda Borchat - Paulo Barros pela Summus (1985)
>>> Coleção Tim Maia - 1970 - Livreto + CD de Abril - Tim Maia pela Abril (2014)
>>> Coleção Tim Maia V.3 - 1973 - sem o CD de Abril - Tim Maia pela Abril (2013)
>>> Aurélio - O Dicionário Da Língua Portuguesa - C/ Cd-rom de Aurélio Buarque De Holanda Ferreira pela Positivo (2004)
>>> C ++ Como Programar - sem Cd-rom de H.M Deitel - P J Deitel pela Bookman (2004)
>>> Fradim do Velho Nº 30 de Henfil pela Vozes (1980)
>>> Lobo de Ray-Ban - Revista da Peça - Raul Cortez - Christiane Torloni de Renato Borgui - José Possi Neto pela Tarot Pruduões - Ray-Ban (1991)
>>> O Heroi dos Tabuleiros - Col. Espelhos de Ricardo Criez pela FTD (2024)
>>> O Livro das Letras - um Alef Beit Místico de Lawrence Kushner pela Madras (2002)
>>> Box - Jornalismo Sitiado - [ 2dvds + Livro ] de Eugenio Bucci - Sidnei Basile pela Log on Cultura Marcas (2004)
>>> Ressignificando Sua Vida de Dr Mohamad Barakat pela Vital (2018)
>>> O Brincar E A Criança Do Nascimento Aos Seis Anos de Vera Barros De Oliveira pela Vozes (2010)
>>> Tua cor é o que eles olham (C/ autografo) de Sonia Euler Mororo pela H. P. Comunicação (2017)
>>> Lonely Planet Italy de Paula Hardy, Alison Bing, Abigail Blasi, Cristian Bonetto, Kerry Christiani, Gregor Clark, Joe Fullman, Duncan Garwood, Robert Landon, Vesna Maric pela Lonely Planet (2012)
>>> O Martelo Das Feiticeiras de Heinrich Kramer E James Sprenger pela Rosa Dos Tempos (2020)
>>> O Último Dia De Dava Shastri de Kirthana Ramisetti pela Astral Cultural (2023)
>>> A Economia Feminista: Por Que A Ciência Econômica Precisa Do Feminismo E Vice-versa de Hélène Périvier pela Bazar Do Tempo (2023)
>>> Abolicionismo. Feminismo. Já. de Angela Y. Davis; Gina Dent; Erica R. Meiners; Beth E. Richie pela Companhia das letras (2023)
>>> Imagens Do Além de Heigorina Cunha; Espírito Lucius pela Instituto De Difusão Espírita (2007)
>>> O livro mágico de aniversário com música e luzes de N/a pela Todolivro (2015)
>>> Wicca - Por Trás Da Bruxaria Branca de William Schnoebelen pela Proposito Eterno (2007)
>>> Quem se esconde na fazenda? de Debbie Tarbett pela Nobel (2018)
>>> From Immigrant to Ethnic Culture de Rakhmiel Peltz pela Stanford (1998)
>>> Revista Cinemin nº63 (5ª série) de Ebal pela Ebal (1990)
>>> Um Dono Para Buscapé de Giselda Laporta Nicolelis; Elisabeth Teixeira pela Moderna (2017)
COLUNAS

Terça-feira, 26/6/2001
50 Anos de Preguiça e Insubmissão
Rafael Lima
+ de 7800 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Provavelmente a grande injustiça pela qual Charles Schulz passou em vida foi não ter completado 50 anos fazendo sua daily strip. Peanuts foi a tira humorística mais importante de todos os tempos; basta dizer que o próprio módulo espacial que pousou na Lua foi batizado pela NASA como Snoopy. Quando parou de fazer sua tira, por causa do agravamento de seus problemas de saúde (há anos o traço já estava tremido), Schulz ganhou homenagens de tudo quanto era cartunista editorial americano.

Sua morte fez pensar nos sobreviventes, naqueles poucos que atravessaram décadas com um mesmo personagem. O primeiro nome que vem à mente é Lee Falk, 60 anos de Mandrake e Fantasma. Mas Falk "apenas" escrevia as tiras. Tinha que existir alguém prestes a completar 50 anos contínuos carregando nas costas o fardo de criar uma piada por dia, mesmo que com assistentes. Esse nome era Mort Walker.

Pouca gente sabe que, quando começou, Beetle Bailey (O Recruta Zero) nem recruta era: a história girava em torno do cotidiano na high school de um personagem cujos olhos nunca apareciam, sempre cobertos por um chapéu desbado que só aumentava-lhe o ar de desleixo. Mort, aos 27 anos, já tinha algum nome quando resolveu fazer um ganho extra com a tira. Depois de 6 meses sem cair na boca do povo - apenas 5% da população tinha ido para a high school -, e com o início da Guerra da Coréia, um editor sugeriu que Beetle se alistasse. Mort não deu uma de artista e ainda aproveitou o gancho para fazer graça. No primeiro quadro da tirinha, Zero está numa esquina quando vê duas ex-namoradas se aproximando, uma de cada canto. Fugindo do pior, corre para dentro da primeira loja que vê - um posto de alistamento militar... Já nessa época o mote humorístico era o desrespeito pela ordem estabelecida, e a preguiça crônica que fazia Zero dormir nos lugares mais incomuns. O que ninguém imaginava era o quanto esse engraçado vício iria fazer as patentes militares rodarem a baiana...

Os coadjuvantes que Mort Walker inventa para Zero tem a funcionalidade de uma tranca de carro, e a maneira como ele decide quais teriam vida curta e quais seriam mais explorados tem o pragmatismo de um dono de rancho selecionando ovos na granja. Eles são estilizados e caricaturais como convém ao humor: Cosmo, o empreendedor, vindo de New York; Platão, o intelectual no meio de xucros; Dentinho, o caipira inocente e burro; Quindim, o terror das mulheres, com bigodinho à la Quequé. Walker mostra aquele talento que Renato Aragão tinha quando era engraçado, de preparar toda uma situação, envolvendo o leitor até a surpresa, em geral uma piada visual, no último quadro da tira. Desenhista brilhante, já sabia todos os truques para fazer rir com seu desenho, mas simplificou o traço até que o ponto do minimalismo, aquele em que você olha uma bolinha com hachuras diagonais e acredita estar vendo uma almôndega, tal a força de seu universo icônico.

O que torna o humor o Recruta Zero genuinamente engraçado, e universal, é o fato de estarmos lidando com uma característica humana - a preguiça. Mort Walker não faz comentários-cabeça nem aposta na alta inteligência de seus leitores, porque sabe da transitoriedade da vida de uma tira diária. E é exatamente aqui que reside sua capacidade subversiva, ao expôr o ridículo da condição humana em situações extraordinárias, ao desmoralizar a autoridade, tematizada no eterno conflito Zero-Tainha, opressão/desobediência, gato-e-rato. A partir da década de 60 os leitores crescem, assim como os protestos formais do Exército, sem se dar conta do teatro de absurdo que iria protagonizar. A primeira providência foi banir a tira do Star and Stripes, o jornal oficial das forças armadas. A argumentação era a de amante traído: a Aeronáutica tinha Terry e os Piratas, um exemplo de patriotismo que chegou a merecer citação no Congresso; a Marinha tinha o Capitão César, outro herói militar, e o que tinha o exército? Um recruta vagabundo...

O aparecimento do cachorro Oto, com nome e tipo físico inspirados no cartunista Otto Soglow, tipifica exemplarmente o modo Walker de fazer humor. Não era preciso nem texto para achar graça na figura do rotundo Sgto. Tainha andando ao lado daquele cachorro igualzinho a ele, só que uniformizado, pelo quartel. Em tira antológica, após levar uma descompostura do Tainha por uma besteira que havia feito ("Pense, Oto, pense!"), Oto comenta, tristonho: "we can't all be snoopy". Trocadilho do nome do cão mais intelectual que os quadrinhos já viram com xereta, esperto. Em outra historieta, os recrutas se banham em um rio quando Platão dá pela falta das roupas, que eles haviam deixado na margem. No quadro seguinte, uma trinca de ursos uniformizados estende a bandeija para receber o rancho, enquanto o Cuca sussurra para o Tainha: "Eu avisei que essa idéia de vestir o cachorro não ia dar certo". O que os militares poderiam fazer contra um humor como esse, que já na década de 60 ultrapassava a barreira dos 1000 jornais?

Porque Walker nunca foi, de jeito nenhum, o tipo de cartunista revolucionário, provocador, que entra na lista negra de Nixon, que, enfim, enxerga antes as tendências, capturando o zeitgeist, como Jules Feiffer foi para a Manhattan do fim dos anos 50, Gary Trudeau (Doonesbury) para o meio político dos anos 70, Scott Adams (Dilbert) para o mundo corporativo dos anos 90, ou Quino (Mafalda) para a América Latina depois da II Guerra. Ele se alinha com temas mais universais em seus temas, menos contextualizados; não é o catalizador das mudanças, mas tem o papel importantíssimo de sintetizar e disseminar as novidades entre o mainstream, que o lê sem ficar ofendido. Assim, o papel do recruta na década de 70 é enorme. Logo nos primeiros anos é introduzido o tenente Durindana, um personagem negro de cabelo black power, bigode e cavanhaque, que já chega dizendo: "Não tem nenhum criolo nesse quartel?" Em cima dele vários comentários sobre o movimento negro são feitos, conquistando a simpatia dos leitores mais liberais. Quando Tainha e o Cuca resolveram entrar numa dieta, os Vigilantes do Peso (Weight Watchers) enviaram um abaixo assinado enorme aos jornais, dando força para eles não desistirem. Também é dessa época o aparecimento da Dona Tetê, a secretária boazuda que veio cobrir as férias da Srta. Blips, e talvez a pior das dores de cabeça de Mort Walker.

Dona Tetê era exatamente o tipo de alvo que o crescente movimento feminista queria. A tira foi acusada de sexismo para baixo, enchendo a caixa postal de Walker com cartas de protesto. Sempre ligado nos anseios de seu público, Mort vai aos poucos suavizando as piadas e diminuindo as investidas do General Dureza, e já em 1986 é possível ver a Srta Blips falando em "assédio sexual". Mort confessaria: "Tudo que eu quero é escrever uma história em quadrinhos cômica e se as pessoas começarem a reagir dessa maneira eu vou acabar desenhando sobre isso". Realmente acaba, mas não do jeito que esperava: em 1999, o General Dureza é enviado para um sensitivity program, tal a força do patrulhamento politicamente correto nos anos Clinton.

Em 2000, foi lançada uma seleção comemorativa com o melhor de 50 anos, feita pelo próprio Walker, que fecha com uma marco veradeiramente histórico: pela primeira vez, os olhos do Beetle Bailey foram mostrados. Fazia graça consigo mesmo, a marca do grande humorista. Aquele cujas questões são universais, clássicas, e cujo trabalho sobrevive 50 anos, ultrapassando os limites de saturação dos jornais, e envelhecendo muito menos do que as queixas dos seus detratores.


Rafael Lima
Rio de Janeiro, 26/6/2001

Mais Rafael Lima
Mais Acessadas de Rafael Lima em 2001
01. Charge, Cartum e Caricatura - 23/10/2001
02. O Tigrão vai te ensinar - 12/3/2001
03. A diferença entre baixa cultura e alta cultura - 24/7/2001
04. Sobre o ato de fumar - 7/5/2001
05. Um álbum que eu queria ter feito - 6/11/2001


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/1/2002
05h25min
hola .. como vai !?!??! sou um fãn do R. Zero e infelismente não acho + revista dele para minha coleção ... venho pedir a vc´s que se tiver com mandar tiras para mim via e-mail eu agradeseria !!!e a historia de R.Z esta bem escrita foi muito bom mesmo conhecer este site !!
[Leia outros Comentários de Clecio Nunes]
10/1/2002
08h39min
Clecio, as tiras do Recruta Zero nao estao sendo publicadas em nenhuma revista atualmente. Nos jornais, O Globo ainda publica diariamente. Na internet, leia na pagina do King Features syndicate, a agencia distribuidora: http://www.kingfeatures.com/features/comics/bbailey/about.htm
[Leia outros Comentários de Rafael Lima]
6/6/2002
16h14min
Rafael, você se lembra de uma revista que saía no final dos anos 70, com uma temática bem similar à do Zero? Era um recruta também, e as estórias se passavam em um quartel. Puxa, faz muito tempo, nao lembro nem o nome... Acho que era da RGE. Não sei nem qual era a origem daqueles quadrinhos (na época, eu estava recém aprendendo a ler, se tanto). Talvez fosse nacional. Desde já, obrigado.
[Leia outros Comentários de Leandro]
6/6/2002
16h42min
Leandro, ou eu muito me engano ou essa revista era uma espécie de pirataria do Zero, ou seja, um personagem da mesma temática com nome parecido (do mesmo jeito que a Vecchi fez com Tex e Chet). Não me lembro de ter lido, mas arriscaria dizer que o material era 100% nacional. Também não recordo o nome.
[Leia outros Comentários de Rafael Lima]
7/6/2002
13h40min
Olha só... depois de muito pesquisar... http://terra.arremate.com.br/user/images/85/858506.jpg Chamava-se "Recruta Biruta". Será que passou do número 1? Ah, e ao contrário do que imaginamos, era da Editora Abril. Grato.
[Leia outros Comentários de Leandro]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Vexame - os Bastidores do Fmi na Crise Que Abalou
Paul Blustein
Record
(2002)



Livro Filosofia Fundar a Moral
François Julien
Discurso
(2001)



Nostradamus o Milenio
John Hougue
Nova Fronteira
(1988)



Demolidor: o homem sem medo
Paul Crilley
Novo Século
(2017)



Arte e Tecnologia na Cultura Contemporânea
Maria Beatriz de Meeiros
Unb
(2002)



Os Bichos
Manoel Herzog
Realejo
(2012)



A Dignidade da Pessoa Humana
Vander Ferreira de Andrade
Cautela
(2007)



Sob Custódia
Anita Desai
Rocco
(1988)



O Mundo Ou Tratado Da Luz
René Descartes
Hedra
(2008)



A Practical English Grammar Exercises 1 e 2
A. J. Thomson / A. V. Martinet
Oxford
(1984)





busca | avançada
79202 visitas/dia
2,3 milhões/mês