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COLUNAS

Terça-feira, 30/3/2004
Zuenir Ventura e a aventura da reportagem
Fabio Silvestre Cardoso

+ de 5100 Acessos
+ 1 Comentário(s)

No ano de 1989, o jornalista Zuenir Ventura foi designado pelo Jornal do Brasil para cobrir o desenlace de uma das investigações de maior repercussão nacional e internacional dos últimos anos: o assassinato do seringueiro e líder comunitário Chico Mendes, que havia morrido em dezembro de 1988, vítima de um complô de fazendeiros que faziam oposição às suas idéias. Em 1990, o jornalista voltou ao Acre para reportar aquele que seria chamado de “julgamento do século” da família (no caso, Darly Alves e Darci Alves, pai e filho) acusada de premeditar e cometer o assassinato de Chico Mendes. A reunião desses textos, além do relato da viagem feita ao local em 2003, está agora compilada no livro Chico Mendes: crime e castigo (Companhia das Letras, 241 págs.). Outro detalhe deve ser acrescentado: o livro é parte da coleção Jornalismo Literário, em que já foi publicado Hiroshima, de John Hersey, e A Sangue-Frio, de Truman Capote.

Apesar de boa parte ter sido escrita há quinze anos, as reportagens de Zuenir Ventura dão impressão de não terem envelhecido. O livro se inicia com o texto que descreve os momentos que antecedem a morte de Chico Mendes, e o parágrafo inicial lembra o início do romance Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel Garcia Márquez, como segue: “No dia em que Chico Mendes ia morrer, dia 22 de dezembro de 1988, Ilzamar Mendes queria assistir à morte de Odette Roittman. Durante aqueles últimos oito meses, o Brasil parava às 8h30 da noite – 6h30 no Acre – para se revoltar com a megera sem escrúpulos e sem caráter que se transformara no símbolo de um país que terminava o ano com 900% de inflação, o naufrágio do Bateau Mouche e uma sensação de impunidade generalizada – um país do Vale Tudo, como sugeria o título da novela da TV Globo de que Odete era vilã.”

Dessa maneira, logo no primeiro parágrafo, o leitor é trazido para dentro da história, sem recursos apelativos, como palavrões ou descrições “naturalistas”, mas pela ambientação realizada pelo repórter. Nesse sentido, os exemplos e as ilustrações de Zuenir Ventura ultrapassam a narrativa jornalística cotidiana, tornando o texto passível de ser lido outras vezes. É importante frisar, aliás, que o autor conta a história utilizando os personagens centrais como condutores. Com isso, a cada perfil, o leitor tem a possibilidade de conhecer toda a história aos poucos, num ritmo envolvente e estimulante.

É assim que ele conta a história de três personagens fundamentais: Chico Mendes, o garoto Genésio e o juiz Adair Longuini. Do seringueiro, o leitor conhece a história e seus ideais, aproveitando sempre o que era contado pelos amigos e pelos desafetos – que tornar-se-iam seus assassinos. Sobre Genésio, principal testemunha do assassinato, descobre a coragem, que contrasta com o medo, ao denunciar as pessoas que ora o ameaçavam de morte. E quanto ao juiz Adair Longuini, as palavras de Zuenir Ventura não poderiam ser mais enfáticas: “Quatro dias depois de começado, o julgamento que atraíra a atenção do país e do mundo chegava ao final de maneira impecável graças a Longuini, a única unanimidade a unir acusação e defesa.” Ao final deste capítulo (“Um juiz de direito”), Zuenir completa: “Depois do julgamento em Xapuri – que, talvez pela primeira vez, condenou um mandante – outra justiça precisa ser feita: um país que é capaz de juntar numa mesma história Chico Mendes, o garoto Genésio e o juiz Adair Longuini é um país que pode ter conserto.”

A apuração da reportagem não fica devendo em nada ao estilo do texto. Pelo contrário. Os elementos do bom jornalismo são respeitados em todos os momentos. Isto é, o leitor não percebe, ao longo da reportagem, qualquer tipo de contaminação ideológica na obra de Zuenir Ventura. Tampouco há qualquer imprecisão nos relatos: tanto os aliados de Chico Mendes quanto os que se defendiam das acusações tiveram suas versões apresentadas nos textos. Afora isso, pelo fato de se tratar de uma reportagem de um assassinato a sangue-frio de um líder popular, existe uma tendência a crer que o texto será enviesado, privilegiando, neste caso, o perfil de um Chico Mendes imaculado. Entretanto, o livro surpreende por traçar um retrato sóbrio do seringueiro.

Exemplo disso aparece na última parte do livro, quando o repórter retorna ao Acre quinze anos depois da morte de Chico Mendes: “Com todas as pessoas que entrevistei ou com quem conversei, levantei a questão. Queria saber até que ponto permanecia viva a memória de Chico quinze anos depois de sua morte. Como nesse terreno só se pode trabalhar com impressões, a minha é que sua presença na vida e no imaginário dos acreanos não seria tão forte quanto é se ele ainda estivesse vivo. Faz bem à imagem dos heróis morrer cedo. Que o diga Che Guevara, que provavelmente acabaria como Fidel se não tivesse ido embora antes.” Adiante, o autor ainda acrescenta: “Vê-lo com seus possíveis defeitos faz menos mal do que reverenciá-lo como mito. Ele não precisa ser endeusado para se descobrir que foi extraordinário líder.”

Além disso, Zuenir revela as diferenças encontradas nas cidades de Rio Branco e de Xapuri depois de tantos anos. Sobre a primeira, interpreta as palavras de um cronista acreano:”Rio Branco já tem direito até a nostalgia bucólica. Há quem reclame do progresso, ‘dos carrinhos de supermercado em detrimento de carregar sacolas pelo velho mercado central’. O lamento é de um cronista local: ‘O acreano de hoje faz rodinha em nossos arremedos de shopping, freqüenta com prazer as pizzarias, boates e outros bunkers da moda, com a mesma desenvoltura que paulistas e cariocas trafegam por sua selva de pedra, tão contrária à nossa’”. Em Xapuri, é o próprio autor que assinala as mudanças: O mais inesperado ocorreu na chegada. Antes de ir para o hotel, resolvemos dar um pulo ao centro para assistir a um anunciado comício ou festa, não sabíamos bem. Na realidade, era uma passeata. Sim, uma passeata, ou melhor, um: ‘Manifesto pela paz’. Em pequena escala, parecia repetição do que eu vivera semanas antes em Copacabana”. Com efeito, este último trecho do livro apresenta trechos que vão além das descrições geográficas.

No posfácio, o também jornalista Marcos Sá Correa escreve contando o “making of” da reportagem. Confirma, entre outras coisas, o que o leitor que chegar ao cabo do livro já saberá: somente um dos melhores jornalistas de nosso tempo poderia ser capaz de reportar comme il faut uma história dessa importância e com tanta profundidade, uma verdadeira aventura da reportagem.

Para ir além






Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 30/3/2004

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/4/2004
19h50min
Fábio - a qualidade do seu texto está excelente. Gosto do seue estilo. Uma curiosidade: a fazendo em que Chico Mendes nasceu, em Xapuri, era - ainda é, se não me engano - de um tio meu. Ele era lá um líder muito pouco expressivo - não conseguiu nem se eleger vereador da currutela. A importância do seu assassinato foi exgerada, por motivos discretos de jornalistas internacionais. Abração - Eduardo
[Leia outros Comentários de Eduardo]
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