Inutilidades e pianos | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
38231 visitas/dia
947 mil/mês
Mais Recentes
>>> Companhia de Danças de Diadema leva "por+vir" ao palco do Teatro Clara Nunes
>>> 38ª Edição da Feira da Comunidade acontece no domingo, 29 de outubro, na A Hebraica
>>> Alex Flemming inaugura intervenção "Anaconda" na Casa-Museu Ema Klabin
>>> Fundação Ema Klabin abre Festival Internacional de Música Judaica
>>> Projeto Jardim Imaginário inaugura a instalação "Penetra" de Marcius Galan
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
>>> Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
>>> Noel Rosa
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Vegetativo
>>> Açaí com granola
>>> Em suspenso
>>> Nesse mundo de anjos e demônios
>>> A lâmpada
>>> Irredentismo
>>> Tabela periódica
>>> Insone
>>> Entre Súcubos e Íncubos
>>> Aonde eu quero chegar
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Prevendo o previsível
>>> O do contra
>>> Adiós, muchachos
>>> Bang bang: tiroteio de clichês
>>> absolutamente
>>> Estrangeirismos, empréstimos ou neocolonialismo?
>>> Verão Poesia Internacional BH
>>> Felicidade: reflexões de Eduardo Giannetti
>>> O grande livro do jornalismo
>>> Olga e a história que não deve ser esquecida
Mais Recentes
>>> No Começo Eram os Deuses
>>> Avenida Nievski e Notas de Petersburgo de 1836
>>> O Universo em suas Mãos
>>> Antonio Nobre Correspondência autores portugueses
>>> O Mistério de Cygnus - Desvendando o antigo segredo das origens da vida no universo
>>> Dobras no tempo
>>> Administração De Marketing
>>> Meus Enigmas Favoritos
>>> Manual de Reanimação Neonatal
>>> O Enviado
>>> Ovnis S.O.S. à Humanidade
>>> Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
>>> Patologia do Trato Genital Iferior
>>> Kris lundaard ( o mal que habita em mim )
>>> Os Astronautas de Yaveh
>>> Doenças Hepaticas e do Sistema Biliar em Crianças
>>> O Ovni de Bélem
>>> Mentes Perigosas
>>> Existiu Outra Humanidade
>>> Lesões Traumaticas em Dentes Deciduos-Tratamento e controle
>>> Truques da Mente
>>> Terapia Periodontal Não-Cirurgica-Periodontologia 2000 - 9
>>> Como Passar em Concursos ESAF - 3000 Questões Comentadas
>>> Como Passar Em Concursos da Cespe - 6800 Questões Comentadas
>>> Tudo é Possível
>>> Cirurgia Estetica Avançada
>>> Como se tornar um Líder Servidor
>>> Como Passar Em Concursos Fcc - 5800 Questões Comentadas
>>> Grande Outra Vez
>>> Molecular and Cellular Exercise Physiology
>>> Por Dentro do Priorado de Sião
>>> A Dama, Seu Amado E Seu Senhor
>>> Uma Exposição dos Sete Eras da Igreja
>>> George Lucas: Skywalking A Vida e a Obra do Criador de Star Wars
>>> Star Wars - Sombras do Império
>>> Star Wars - Troopers da Morte
>>> Star Wars - Herdeiro do Império - Vol. 1
>>> Star Wars - Provação
>>> Star Wars - Marcas da Guerra Livro 01
>>> Einstein O Campo Unificado
>>> Dez Lições de Sociologia
>>> Manual do paulistano moderno e descolado
>>> Amor e solidão
>>> Grammar Practice for Intermediate Students
>>> Sombra Errante- a perceptora na narrativa inglesa do século XIX
>>> A mecânica das águas
>>> Judy Moody salva o mundo!
>>> O nascimento do prazer
>>> Cálculo Volume 2
>>> Engenharia de Controle Moderno
COLUNAS

Quarta-feira, 16/8/2006
Inutilidades e pianos
Ana Elisa Ribeiro

+ de 2400 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Tia Lígia

Minha melhor amiga tem uma tia chamada Lígia. A tia Lígia é esposa de um desses caras que passaram a vida se mudando de cidade, de estado, por causa do emprego. Não sei se é funcionário público, do tipo auditor da Receita. Ou se é gerente de banco. Não sei. Mas o cara vivia pulando de galho em galho e a tia Lígia ia atrás. Do mesmo jeito que ela mal conseguia esquentar o assento, ela tinha lá suas mordomias. O empregão do maridão valia as penas previstas. Quando se casou, tia Lígia não sabia que seria assim, tão nômade, mas bem que gostava de ter grana de sobra, fazer boas viagens, ter bons casacos e criar os dois pimpolhos, nascidos entre uma estrada e outra, com mimos de mamãe ricaça.

Tia Lígia nem era muito apegada a nada. Era um transtorno fazer mudança, tirar menino da escola, matricular de novo, arrumar novos amigos para jogar buraco, essas coisas. Mas o maior problema de tia Lígia era o piano. Aquela coisa enorme pra lá e pra cá. E tia Lígia não largava a mão.

O trambolho carcomido por cupins estetas, o diabo do piano que ela punha na sala de toda casa em que morava. Mandava trazer o piano, depois mandava chamar o afinador de pianos, que cobrava uma fortuna. Mas tia Lígia não abria mão do piano. Ele tinha que ser o cenário de toda sala de estar em que tia Lígia morava. O mais interessante, no entanto, era que ninguém em casa, nem tia Lígia, sabia tocar piano.

Antônio

Eu tenho uma amiga casada há muitos anos. Ela é loura, magra, dos olhos tão azuis que deixam a gente cego. Os olhos dela parecem sempre bem cedo. Ela é professora e tem uma fala muito mansa.

A Áurea, minha amiga, é esposa do Antônio, que também é professor, só que de outro lugar. O Antônio teve uma vida difícil, cheia de arritmos que ele não deixou que se metessem nos planos dele. Antônio estudou, trabalhou, casou com a Áurea e teve dois filhos.

A infância do Antônio foi complicada. O pai saiu, a mãe desistiu, a avó reagiu como podia. Antônio cresceu, leu, escreveu e virou professor. Comprou um lote, construiu uma casa e expandiu os planos. Criou os meninos e mudou de vida, junto com a Áurea. Mas embora tudo isso pareça muito evoluído, tem uma coisa que Antônio não saciou na vida: a vontade de tocar piano.

Aquele instrumento grande, bonito e imponente lhe parecia uma jóia de fazer música. O som do piano e os pedais davam em Antônio uma paixão diferente. E bem que Antônio tentou. Insistiu, pediu, sugeriu, insinuou. Queria aprender a tocar piano. Mesmo com toda aquela agenda: "tocar piano bem leva 15 anos". Tempo não era problema para Antônio, ele era vivo que nem gente.

Antônio não desistia. Queria tocar. Não precisava nem dizer outra coisa. Não servia. O piano era o instrumento de cordas mais bonito do mundo. Até que um dia Antônio resolveu pedir. Atravessou, um dia, o caminho da avó e disse, com todas as notas: quero um piano. A avó sorriu. Teve uns dias para pensar. Todo corredor da casa era esconderijo. Antônio sonhava acordado, já tinha planos até de onde pôr o piano. A avó pensava e sofria. Onde já se viu? Um piano no meio da casa? Casa pequena, quarto, sala, banheiro. Onde enfiar um piano? Bobagem de menino que não sabe de nada. Antônio não teria tempo nem dinheiro para ter aulas de piano. Fazer o quê com aquele elefante branco?

Mas Antônio não desistiu. Pediu mais uma vez. Quero muito um piano. E a avó pensou em sanar o problema. Pôs Antônio na aula de datilografia.

Ana

Minha infância foi cheia de instrumentos musicais. O pai tinha o sonho de tocar teclados eletrônicos. Achava lindo. Piano não, porque demora demais a virar pianista, mas teclado é diferente, mais prático, mais rápido. E ler partitura? Era quase um segredo. Até que um dia o pai entrou numa escola de música. Aprendeu muito. Comprou teclado, modelo novo, teclado de móvel ou portátil. A casa cheia de música.

O irmão tocava flauta. Diz a mãe que flauta doce é o instrumento ideal para criança. Musicalização. Solfejo. Sabe solfejar. Daí eu também quis. O curso era o Leila Fletcher. Piano. Eu pedi uma guitarra, mas ganhei o curso de piano.

A professora ensinava a ler partitura e a entender arranjos. Também espetava meus pulsos quando eu os deixava caídos sobre as teclas. Piano é bonito, não posso negar. Mas o piano não era a minha praia. Pedi a guitarra.

Depois veio o professor de violão. Mas como é que eu ia aprender a tocar "Atirei o pau no gato"? Queria tocar muito em dois meses. Ansiedade, calos, cortes, cordas. Foi-se o violão. Mais tarde veio a bateria. Queria tocar Rush em um mês. Pudera. Ninguém quer que um adolescente ganhe uma bateria. Fiquei assim, treinando no colchão da cama, sujeita a batucar nas panelas. Nem isso.

De repente, o clique. O melhor instrumento é aquele que já nasce comigo. Então veio o canto. Esse, sim, atravessou as vontades todas da família. Cantar é bonito, mais do que piano. Um por um, todos juntos, e teríamos formado uma banda, cada um com seus sonhos musicais de infância.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 16/8/2006


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Isto não é um trote de Marta Barcellos
02. O Jagunço degolado de Wellington Machado
03. Flexibilidade Histórica de Daniel Bushatsky
04. Bruce, Bane e Batman de Vicente Escudero
05. Esquecendo de mim de Marta Barcellos


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2006
01. Digite seu nome no Google - 8/3/2006
02. Eu não uso brincos - 27/9/2006
03. Não quero encontrar você no Orkut - 8/2/2006
04. Poesia para os ouvidos e futebol de perebas - 7/6/2006
05. Ex-míope ou ficção científica? - 20/12/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/8/2006
17h38min
ana elisa, muito legal! gostei mais da parte romanceada do que da verdadeira. estou curiosa para ver o que o antonio vai achar dessa mistura. eu gostei muito também de você ter colocado que eu sou magra e espero que seja parte do que é real e não do romanceado...
[Leia outros Comentários de Áurea]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




MARKETING HACKER: A REVOLUÇÃO DOS MERCADOS
HERNANI DIMANTAS
GARAMOND
(2003)
R$ 3,90



NO FIM, O INÍCIO
JURGEN MOLTMANN
LOYOLA
(2007)
R$ 23,00



THE WALKING DEAD - A ASCENÇÃO DO GOVERNADOR
ROBERT KIRKMAN & JAY BONANSINGA
GALERA
(2013)
R$ 15,00



FÍSICA EM SEIS LIÇÕES
RICHARD P. FEYNMAN
EDIOURO
(2001)
R$ 18,00



DAVID COPPERFIELD VOL. 2 - COLÉGIO OBJETIVO
CHARLES DICKENS
SOL
(1997)
R$ 6,00



A CONSTRUÇÃO DO PROJETO DE VIDA E A ESCOLHA PROFISSIONAL -2ª ED
LEO FRAIMAN
ESFERA
(2012)
R$ 23,00



CAMINHOS DA REALIZAÇÃO
HEAN YVES LELOUP
VOZES
(1996)
R$ 17,90



FATOS DO ESPÍRITO HUMANO
D.J. GONÇALVES DE MAGALHAES
VOZES
(2004)
R$ 28,00



AS FORMAS DO FALSO
WALNICE NOGUEIRA GALVÃO
PERSPECTIVA
(1972)
R$ 24,00



O ENREDO
SAMIRA NAHID DE MESQUITA
ÁTICA
(1986)
R$ 10,00
+ frete grátis





busca | avançada
38231 visitas/dia
947 mil/mês