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COLUNAS

Quinta-feira, 12/7/2007
Práticas inconfessáveis de jornalismo
Adriana Carvalho

+ de 3100 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Na maioria das vezes (*), quando os colegas jornalistas escrevem um livro, falam sobre histórias fascinantes e edificantes (nada contra, é muito bom ler grandes reportagens), outras vezes discorrem sobre seus atos de bravura, grandes personagens entrevistados, bombas que explodiram perto de seus narizes. A grande reportagem, porém, é a mistura fina no prato do jornalista, não se come todo dia, não se vive todo dia. O cotidiano da profissão, para a maioria dos mortais, é feijão com arroz, buraco de rua, mais uma reunião do Comitê de Política Monetária, o dólar que subiu, o paulistano pegando trânsito na volta do feriadão. Sobre esse cotidiano e as técnicas de fazer um bom feijão com arroz e como não se queimar com as panelas, pouco ou nada se fala. São práticas que não se aprendem na faculdade, não se lêem nos livros e, a bem da verdade, muitas vezes não podem nem ser ditas nem em voz alta. Não estou falando em nada imoral, nem ilegal, nem engordativo. Refiro-me aos pequenos artifícios que encontramos para nos adaptar à realidade das redações e que têm menos a ver com como extrair informações ou redigir bem e mais com como lidar com seus superiores. E essa é sim uma técnica jornalística, porque para lidar com alguns editores (*), para atender seus chefes, às vezes você acaba queimando o filme com as fontes. Veja abaixo algumas situações ilustrativas.

Idéias de pauta deveriam nascer na rua, no plano da realidade, e serem capturadas pela redação que então faria uma matéria sobre elas. Esse é o mundo ideal. Mas o que acontece de fato é que muitas vezes as pautas nascem na cabeça do seu chefe, editor, diretor; ou então ele recebe a sugestão brilhante de algum amigo desocupado numa festa vip qualquer, depois de algumas doses de whisky e, para agradar o fulano, coloca seus serviçais da informação para trabalhar no assunto. Dessa forma, a tarefa do repórter passa a ser a de tentar encaixar a tal idéia brilhante na realidade, conferindo-lhe carne e osso, ou seja, encontrando quem dê entrevista para validar a teoria.

Acontece, como vocês podem imaginar e é natural que aconteça com pautas que nascem dessa forma, que em 101% dos casos a teoria é furada e você não acha uma única criatura para falar sobre o assunto (não da maneira como seu chefe quer ouvir). Muitas vezes eu cheguei a cogitar pagar “10 real” para o tio do cachorro-quente falar o que eu precisava ouvir para colocar no texto. Só para ter uma fonte com nome e sobrenome, terminar essa meleca logo e ir para casa descansar. Mas nunca fiz, juro de pé junto.

O que eu já fiz, mesmo colocando em risco o meu pescoço, mas pensando em preservar minha pequena porém preciosa coleção de fontes, foi agir com muita sinceridade junto a elas quando esses alguns editores me faziam passar vergonha, perguntando bobagens para confirmar suas teses. Das primeiras vezes eu perguntava a bobagem falando em meu nome mesmo, mas comecei a perceber que os entrevistados passavam a me achar estúpida e a me evitar depois. Segue uma conversa demonstrativa dessa situação:

– Oi, Seu Fulano, aqui é a Fulana, do veículo X. Desculpe ligar para o senhor essa hora (observação: a hora escolhida para fazer perguntas estúpidas para as fontes sempre é uma hora estúpida também), mas o meu chefe me pediu para fazer uma pergunta ao senhor para uma reportagem que estamos fazendo. Eu fico até meio sem jeito, mas ele pediu pra ligar. A pergunta é: penico de barro enferruja? (exemplo hipotético, mas as perguntas são de nível semelhante). É, eu sei que a pergunta é meio óbvia, mas ele quer que um especialista diga isso... Não enferruja, né? Tá bom... Desculpe mais uma vez, mas eu preciso perguntar também: Não enferruja por quê? É que para ele não basta saber que o penico não enferruja, ele quer uma explicação minuciosa. Sei... claro... entendo perfeitamente sua chateação por ter que falar de penicos às 3h45 da madrugada. Peço em nome da nossa amizade fonte-jornalista. Ok, estou anotando. Muito obrigada, seu Fulano, devo minha vida ao senhor ou pelo menos minhas últimas horas de sono nesta madrugada. Agora vou poder ir pra casa.

Ledo engano. Aí você leva a resposta para aquela pessoa atrás da mesa grande de editor que ele tanto gosta e colocou até um abajurzinho em cima para enfeitar... E o que ele responde?

– Ele disse que não enferruja? Ele não entende muito desse ramo. Acho melhor ouvirmos outra pessoa.

Outra situação corriqueira é quando a criatura atrás da grande mesa fica cobrando a cada segundo se você já conseguiu determinada entrevista. Cobrar a entrevista das fontes, da assessoria de imprensa, é necessário, lógico. Mas ficar ligando como um alucinado a cada dois minutos não resulta em nada, a não ser em ódio mortal contra sua pessoa. Certa vez, para acalmar um editor com essas características, eu, “tantas vezes vil”, confesso que peguei o telefone na frente dele, disquei qualquer número (tipo 102) e fingi que conversava com a fonte de novo e ouvia a mesma resposta que já havia de fato ouvido segundos antes:

– Alô, Fulana. Já tem resposta do meu pedido de entrevista?
– Telefônica informa, 20 horas e 37 minutos.
– Ah, sei, como você falou, só quando a dona Sicrana sair do trabalho de parto, né? Tá bom, estou aguardando.
– Aproveite a promoção Detecta da Telefônica...
– Obrigada. Até mais.

Superiores hierárquicos assim são também seres que gostam muito de dizer suas "verdades" no papel... mas tendo outra pessoa para assinar e agüentar a bronca depois. No caso, seus serviçais da informação novamente. Acontece quando ele pega o texto do repórter para mexer e aproveita para acrescentar “um parágrafo ou outro” (pelo amor de Deus, eu já passei da idade de ter a ilusão que não se pode mexer no meu texto, mas o problema é o que se escreve no texto). Sinceramente, com o meu nome não, violão! Como pedir para o chefe tirar o seu nome da matéria pode significar pedir para ele te tirar do expediente também, então o jeito é recorrer aos seus amigos diagramadores nessas ocasiões:

– Ô Fulano, não tem jeito de você me conseguir mais umas linhazinhas nesse texto? É que do jeito que está vou ter que cortar tanta informação importante e imprescindível para o progresso da nação...
– Você sabe muito bem que não dá. Só se eu tirar seu nome, assim aumenta o espaço.
– Tirar meu nome, é (fazendo cara de tristeza inconsolável)? Puxa, eu queria tanto ter no meu currículo uma matéria assinada como essa, chamando os participantes do Fórum Social Mundial de cachaceiros e arruaceiros, mas... a informação é mais importante. Pode tirar então.

(*) Antes que me acusem de generalizações neste texto, quero frisar que: “Na maioria das vezes” significa “na maioria das vezes” e não “sempre”; “alguns editores” significa “alguns editores” e não “todos os editores do mundo de todos os tempos”. E mais: os editores que me inspiraram esse texto são águas muito passadas, felizmente, e já tive outros, muito bons, graças ao misericordioso Deus.


Adriana Carvalho
São Paulo, 12/7/2007

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* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/7/2007
06h24min
Existem práticas (corriqueiras) muito piores...
[Leia outros Comentários de Rene]
4/7/2007
08h53min
Uma crônica bem humorada das agruras do cotidiano jornalístico, Adriana. É bom que desmistifica a profissão. Todos passam por isso, seja em relação a fontes e editores, motoristas e fotógrafos, etc. Acaba que as histórias dentro da própria redação às vezes nos ficam mais gravadas que as próprias histórias impressas nas reportagens. Mas, enfim, no papel, no ar, no vídeo, o mundo é belo, positivo, afirmativo, não quer ter nada de muito "jeca". Se o feijão com arroz (e os jabás) viessem acompanhados com uma pitadinha desses bastidores pro leitor, quem sabe seria mais divertido e engraçado ler/ouvir/ver jornal... Bela crônica mais uma vez. Abraço
[Leia outros Comentários de Rogério Kreidlow]
5/7/2007
09h01min
No sec. XIX, Alfred de Vigny escreveu "Grandeza e servidão da vida militar". Hoje, se jornalista, ele endossaria seu texto. De uma forma ou de outra, todas as profissões não passam, com as suas variantes específicas, pelas linhas que você traçou com tanto humor?
[Leia outros Comentários de eugenia zerbini]
5/7/2007
18h41min
Excelente texto. Adriana captou a essência da profissão/vocação do jornalista. O seu texto enxuto e objetivo mostra bem dilemas e situações que não são raros na redação.
[Leia outros Comentários de José Antonio]
12/7/2007
00h43min
O bom humor é sempre um sinal de que as dificuldades podem ser contornadas. Essa crônica é uma pequena (mas eficiente) aula sobre o lado mais aborrecido da praxis jornalística, levada com o humor tranquilo de quem, parece, sabe das coisas. Muito boa essa crônica, Drica.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
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