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COLUNAS

Terça-feira, 9/6/2009
Porque ela pode, de Bridie Clark
Rafael Rodrigues
+ de 600 Acessos

À primeira vista, Porque ela pode (Record, 2009, 336 págs.), estreia da escritora norte-americana Bridie Clark na ficção, é um desses romances "para mulheres". Ainda mais quando vemos, na capa de cor vermelho vivo, o título em letras garrafais douradas e, "sentada nele", uma... mulher! Além disso, no canto superior direito, uma notinha dizendo: "O diabo veste Prada do mundo editorial." (Library Journal).

É fato que, por ter como protagonista uma mulher, o livro certamente atrairá mais leitoras do que leitores. Mas basta adaptar as situações vividas por Claire Truman, protagonista do romance, para o contexto masculino e temos uma obra que pode agradar a "gregas e troianos". Isso se deve, em grande parte, à prosa elegante e pontual de Bridie Clark. Não a ponto de ser comparada a escritoras fora de série como Virginia Woolf ou Clarice Lispector, mas a ponto de podermos dizer que ela é muito talentosa.

Claire é editora-assistente da Peters & Pomfret, uma boa editora de Nova York. Apesar de gostar muito de seu trabalho, sua situação na empresa não é das melhores. Além do salário relativamente baixo, Claire não consegue adquirir, por questões burocráticas, muitos dos títulos que deseja publicar. Ela bem que tenta, mas quase nunca consegue o aval do seu editor-chefe em tempo hábil.

(Uma observação: o mercado editorial norte-americano é um pouco diferente do brasileiro ― e bem mais agressivo. Tanto lá quanto aqui os escritores ainda inéditos enfrentam dificuldade para serem publicados, mas nos EUA existe algo que quase não temos: agentes literários que buscam os melhores contratos para seus escritores. Um exemplo: o agente literário "A" apresenta um livro do autor "B" a uma editora "X", que oferece determinada quantia pela obra. Mas esse agente não aceita de imediato a proposta. Ele apresentará o título a outras editoras; aquela que pagar mais, publica a obra. Se o livro em questão for bom, haverá concorrência ferrenha entre as casas editoriais dispostas a publicá-lo. No Brasil, além de os escritores iniciantes não terem agentes ― muitas vezes nem os experientes os têm ―, eles são obrigados a aceitar a primeira proposta que aparece, vendendo sua alma à editora, se for o caso.)

Mesmo um tanto descontente e frustrada com o emprego, Claire continua trabalhando. Isso porque ela tem como chefe imediato Jackson Mayville, seu "padrinho" na P&P, o homem que consegue fazer com que ela tenha algum acesso a Gordon Hass ― o ocupadíssimo editor-chefe ― e que também conseguiu alguns aumentos salariais para ela, além da promoção para o cargo de editora-assistente. Quando Claire toma conhecimento de que ele vai se aposentar, entra em pânico: como ficaria sua situação sem Jackson por perto?

É justamente nesse momento que ela reencontra, depois de alguns relacionamentos mal-sucedidos, Randall Cox, por quem fora apaixonada nos tempos de faculdade e com quem rapidamente se envolve. Randall, um cara bonito, rico, simpático, gentil etc., por coincidência, conhece a editora-chefe Vivian Grant, do selo Grant Books, que faz parte de outra grande casa editorial, a Mather-Hollinger. Vivian é famosa pela quantidade de títulos que consegue colocar no topo da lista de mais vendidos do New York Times, mas também pela alta rotatividade de seus funcionários: raros são os casos de pessoas que conseguem suportar a alta carga de estresse gerada pelas exigências que ela faz no trabalho. Mesmo sendo alertada por colegas e amigos ― e principalmente por Jackson ― dos eventuais riscos que ela correria se resolvesse trabalhar para Vivian, Claire aceita a proposta que lhe fora feita: um salário três vezes maior e o cargo de editora.

Depois de alguns meses em que tudo ia muito bem, obrigado ― tanto no trabalho quanto no namoro com Randall ―, Claire finalmente conhece o lado aterrorizante de Vivian Grant. Poucos meses mais tarde, começa também a ter dúvidas a respeito de seu futuro com Randall (nesse meio tempo eles ficam noivos). Claire então se dá conta de que sua vida está sendo controlada por um piloto automático, como se ela já não decidisse mais nada, como se apenas deixasse as coisas andarem por si sós.

Porque ela pode nos dá uma ideia de como é o mercado editorial norte-americano (o romance é, inclusive, inspirado em fatos reais; a personagem Vivian Grant é uma espécie de caricatura da editora Judith Reagan, que já foi chefe de Bridie Clark; Reagan, além de ter se envolvido em várias polêmicas, foi demitida do grupo editorial HarperCollins sob acusação de antissemitismo), mas, no fundo, trata dos dilemas enfrentados por milhares de pessoas. "Devo continuar neste emprego razoável ou arriscar uma mudança de rumo?" "Quero mesmo passar o resto de minha vida com esta pessoa ou ainda não conheci minha cara-metade?" "Devo priorizar minha carreira profissional em detrimento da minha vida pessoal?" Cada um sabe de si, mas, em momentos de dúvida, a literatura certamente abre caminhos para as respostas.

Com uma prosa requintada mas ao mesmo tempo de fácil leitura, Bridie Clark realiza uma obra valorosa, mesclando entretenimento e boa literatura, mostrando que, para ser bom, um livro não precisa ser denso, sombrio, nebuloso, cheio de peripécias estilísticas. Pode ser divertido, mesmo ao apresentar problemas. E deve ter humor, mesmo em momentos tristes.

Talvez prevendo um certo preconceito em relação a seu romance, Clark dá aos capítulos do livro títulos de algumas obras monumentais da literatura, como Grandes esperanças e Um conto de duas cidades, de Charles Dickens; Este lado do paraíso, de F. Scott Fitzgerald; O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, entre outras, numa espécie de amostragem de sua bagagem literária. Algo que chega a ser desnecessário, levando-se em conta a qualidade de Porque ela pode.

Para ir além






Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 9/6/2009

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