O comerciante abissínio | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

busca | avançada
62861 visitas/dia
1,9 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Airto Moreira e Flora Purim se despedem dos palcos em duas apresentações no Sesc Belenzinho
>>> Jurema Pessanha apresenta sambas clássicos e contemporâneos no teatro do Sesc Belenzinho
>>> Como se prevenir dos golpes dos falsos agentes no mundo da música?
>>> Cia. Sansacroma estreia “Vala: Corpos Negros e Sobrevidas“ no Sesc Belenzinho
>>> ARNS | De ESPERANÇA em ESPERANÇA || MAS/SP
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> O melhor da Deutsche Grammophon em 2021
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
Últimos Posts
>>> Brega Night Dance Club e o afrofuturismo amazônico
>>> Fazer o que?
>>> Olhar para longe
>>> Talvez assim
>>> Subversão da alma
>>> Bons e Maus
>>> Sempre há uma próxima vez
>>> Iguais sempre
>>> Entre outros
>>> Corpo e alma
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Lei de Deus?
>>> Remorsos, devaneios, cor do tempo
>>> O enigma de Lindonéia
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Eleições na quinta série
>>> O que aconteceu com a Folha de S. Paulo?
>>> O regresso, a última viagem de Rimbaud
>>> Eleições 2014: intrigas, infâmias, alucinações
>>> Toda poesia de Paulo Leminski
>>> Les visiteurs
Mais Recentes
>>> O Mundo Negro. Relações Raciais E A Constituiçao de Amilcar Araujo Pereira pela Pallas (2022)
>>> O que faz Sammy Correr? de Budd Schulberg pela Record
>>> Ensino Renovado de Biografias - 3º Vol. L - P de Vários Autores pela Formar
>>> Ensino De História E Cultura Afro-Brasileira de Amilcar Araujo Pereira pela Pallas (2022)
>>> Caminhos de Odu de Agenor Miranda Rocha pela Pallas (2022)
>>> Opções de Liv Ullmann pela Circulo do Livro (1985)
>>> Igbadu: a Cabaça da Existência: Mitos Nagôs de Adilson de Oxalá pela Pallas (2000)
>>> Igbadu: a Cabaça da Existência: Mitos Nagôs de Adilson de Oxalá pela Pallas (2000)
>>> O livro de Judas de Assis Brasil pela Clube do Livro (1970)
>>> Casais Trocados de John Updike pela Circulo do Livro
>>> A Coluna Prestes - Análises e depoimentos de Nelson Werneck Sodré pela Circulo do Livro (1983)
>>> Breve Sexta - Feira de Isaac Bashevis Singer pela Clube do Livro
>>> Para Viver a Grande Mensagem de Richard Simonetti pela Feb (1987)
>>> HQ V de Vingança de Alan Moore e David Lloyd pela Panini Comics (2007)
>>> HQ Pecador Originais 001 - Os Segredos do Universo Marvel! de Marvel comics pela Panini Comics (2015)
>>> HQ Authority Vol. 1 de Warren Ellis; Hitch; Neary pela Panini Comics (2015)
>>> HQ Superman Condenado V.1 Apocalypse: O Retorno de DC Comics pela Panini Comics (2015)
>>> HQ Antes de Watchmen Nº 7 Dollar Bill & Moloch de J. Michael Straczynski pela Panini Comics (2013)
>>> HQ Antes de Watchmen Nº 6 Ozymandias de Len Wein - Jae Lee pela Panini Comics (2013)
>>> HQ Antes de Watchmen Nº 4 DR. Manhattan de J. Michael Straczynski pela Panini Comics (2013)
>>> HQ Antes de Watchmen Nº 1 Coruja de J. Michael Straczynski pela Panini Comics (2013)
>>> HQ - Crise Infinita Batalha pelo Multiverso vol.1 de Dan Abnett pela Panini Comics (2015)
>>> HQ - Crise Infinita Batalha pelo Multiverso vol.2 de Dan Abnett pela Panini Comics (2016)
>>> Hq - Batman Preto & Branco - Especial nº4 de DC Comics pela Panini Comics (2014)
>>> 100 Balas Vol.08 - Samurai de Brian Azzarello - Eduardo Risso pela Panini Comics (2012)
COLUNAS

Quarta-feira, 7/4/2010
O comerciante abissínio
Guilherme Pontes Coelho

+ de 6100 Acessos
+ 1 Comentário(s)


Rui Pires © (http://rui-pires.artistwebsites.com)

Ele era um comerciante habilidoso. Sabia, como por um dom clarividente, as ervas para todas as necessidades, os tecidos para todas as indumentárias e acessórios, os animais para todos os trabalhos. Este saber nada tinha de mágico, na verdade. Era a manifestação de uma aguda sensibilidade, tanto de espírito quanto de sentidos.

Um andarilho. Harar, Aden, Tadjoura, Zeila... O deserto. O vazio. As cidades. Os mercados. Visitou cada um deles. Mercados apinhados, com cores e rostos distintos, à algaravia de vários idiomas. Entre essa gente, nosso comerciante andarilho, oferecendo cretone adamascado, merinó azul, flanela vermelha, pérolas Decan & Co.; botões ornamentados, fitas douradas, brillés. Panelas, tesouras, couro de bode. Ouro, almíscar. Seda, crepe, lona, algodão.

Item por item, ele conhecia um por um. Assim como as pessoas. A quem vender, a quem não vender. Por quanto vender: o preço justo para quem compra e lucrativo para ele. E o que e com que fim vender: o cretone adamascado, matéria-prima das maréchates, as mantas que vestem os abissínios; Bloknote, uma marca de blocos de papel, ideal para o alfabeto amárico ― debdabies amara ― por suas linhas estreitas; seda azul da Índia, adequada para confecção dos djanos, outro modelo de manta abassi. Assim por diante. Com precisão cristalina, ele comercializa bens: "Tecido de algodão, de trama cerrada, quente, espesso, com a resistência dos panos leves para vela, cortados no comprimento com faixas vermelhas e azuis de cinco centímetros de largura, separadas entre si por vinte centímetros".

Riqueza, longe disso. Mas, sim, próspero, à sua maneira. Nunca lhe faltou trabalho. Havia tanto o que comerciar, por sinal, que ele se aventurou a vender armas, seduzido pela chance de ganhos astronômicos. Mas a transação deu errado. Esta incursão pelo tráfico de armas, temperada com subornos absurdos e caprichos da realeza etíope, deixou um gosto amargo em sua boca. Voltou então a trabalhar entre aromas, fragrâncias, texturas, metais. Sua vocação.

"Próspero, à sua maneira". Nos onze anos em que viveu como comerciante, de 1880 a 1891, ocupou casas simples, indistintas das habitações nativas. "Vivia como um beneditino", disse um contemporâneo. Mal havia móveis onde morou, o que levava amigos a se perguntarem onde infernos ele dormia ― porque, além da ausência de camas, quando em casa, era sempre visto escrevendo, noite adentro, numa mesa improvisada. Escrevia muito, mas nada literário. Cartas, pessoais e comerciais. Primorosas pela concisão e pela sagacidade.

Os únicos luxos visíveis nas casas em que viveu eram os que ele proporcionava aos seus hóspedes, geralmente amigos precisando de um teto temporário, e à sua "família". Não família de sangue, mas de fato, composta por duas pessoas. Uma, o jovem criado abissínio, natural de Harar, adquirido em plena adolescência e que viveria uma década ao lado do seu amo, sempre diligente e prestativo (esta dedicação renderia uma profunda estima de seu mestre, a ponto de ele, o "fiel servidor", ser o único lembrado nos últimos dias de vida do seu senhor, tanto por necessitar de sua assistência quanto por destinar a ele uma certa herança). A outra, uma bela abissínia cor de café, natural de Choa, que desempenha as funções de empregada doméstica. Era tímida e doce e só saía de casa na companhia do comerciante andarilho. Gostavam de passear pelo mercado popular. Ele a ensinava francês com paciência e ternura. Planejava ter filhos com ela, contrariando seu espírito livre de andarilho por meio da perpetuação.

Sua família logo voltaria a ser apenas ele e seu servidor. A abissínia voltou para sua cidade, por vontade dele. A História não soube registrar nem seu nome, nem se fora contratada ou mesmo comprada. Esse relacionamento, nas palavras dele, foi uma "farsa".

(Estes envolvimentos domésticos alimentaram boatos de que ele também traficava escravos. Ah, foram só boatos mesmo, incentivados por preconceitos acadêmicos.)

Ele era assim. Facilmente seduzido por uma ilusão. Convicto e irascível em se desiludir.

Irascibilidade era uma de suas características. Sobretudo em questões de trabalho. Se algo desse errado na aquisição ou na oferta de suas mercadorias ele explodia contra quem quer que fosse. Estas mudanças radicais de humor eram toleradas por amigos e parceiros de negócios: é de se esperar isso de um homem sincero e mercador honesto.

Outra característica por todos notada, e por ele mesmo sempre alardeada, era sua constante expressão de tédio. Queixava-se sempre de estar entediado ― e seus amigos percebiam. Talvez por isso ― talvez! ― ele gostasse tanto de esforços físicos extenuantes. Era um caminhante incansável. Em suas caravanas, mal utilizava cavalos. Simplesmente caminhava quilômetros desérticos, impressionando pelo ritmo e pela resistência, vestido como um muçulmano. Tantas jornadas extremas lhe causariam uma sinovite incurável e mortífera.

Apesar do eterno tédio estampado no rosto, era um ótimo contador de histórias. Seus amigos gargalhavam ao ouvi-lo e ao ler suas cartas. O trabalhador obstinado, constantemente aborrecido e que nunca esboçava um sorriso era fonte de risos, quem diria.

Era um homem generoso. Não negava ajuda a ninguém e seguia o código universal da generosidade autêntica: agia em silêncio e jamais se vangloriava.

Magro, alto, loiro. Poliglota. Conhecedor do Corão. Olhos azuis penetrantes e inesquecíveis. O comerciante abissínio, Arthur Rimbaud.

Para ir além
Rimbaud na África (Nova Fronteira, 2007, 496 págs.), de Charles Nicholl.


Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 7/4/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Treze Teses sobre Cinema de Humberto Pereira da Silva
02. Brasilês - um idioma de muitos sotaques de Félix Maier


Mais Guilherme Pontes Coelho
Mais Acessadas de Guilherme Pontes Coelho em 2010
01. Nas redes do sexo - 25/8/2010
02. A literatura de Giacomo Casanova - 19/5/2010
03. O preconceito estético - 29/12/2010
04. O retorno à cidade natal - 24/2/2010
05. O mundo pós-aniversário - 3/2/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/8/2010
14h52min
Lindo texto!
[Leia outros Comentários de jardel]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Manual do Chefe Você S/a
Ernesto Yoshida
Abril



Once Upon a Time - Despertar
Odette Beane
Planeta do Brasil
(2013)



Amor de a a Z
Rose Marie Muraro
Sextante
(2003)



Vinganca mortal
J. W. Rochester
Federação Espírita Brasileira
(1993)



Sommerzeit
Walt Disney Lustiges Taschenbuch
Ehapa



Piratas
Daniela Dogliani
Vr
(2012)



Você e a Mediunidade
M. B. Tamassia
O Clarim
(2001)



Deixe o Quarto Como Está
Amilcar Bettega Barbosa
Companhia das Letras
(2002)



Salvat Léxico - Diccionário de La Lengua
Vários Autores
Salvat
(2001)



A Soma de Todos os Medos
Tom Clancy
Record
(2022)





busca | avançada
62861 visitas/dia
1,9 milhão/mês