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COLUNAS

Quarta-feira, 7/4/2010
O comerciante abissínio
Guilherme Pontes Coelho

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Rui Pires © (http://rui-pires.artistwebsites.com)

Ele era um comerciante habilidoso. Sabia, como por um dom clarividente, as ervas para todas as necessidades, os tecidos para todas as indumentárias e acessórios, os animais para todos os trabalhos. Este saber nada tinha de mágico, na verdade. Era a manifestação de uma aguda sensibilidade, tanto de espírito quanto de sentidos.

Um andarilho. Harar, Aden, Tadjoura, Zeila... O deserto. O vazio. As cidades. Os mercados. Visitou cada um deles. Mercados apinhados, com cores e rostos distintos, à algaravia de vários idiomas. Entre essa gente, nosso comerciante andarilho, oferecendo cretone adamascado, merinó azul, flanela vermelha, pérolas Decan & Co.; botões ornamentados, fitas douradas, brillés. Panelas, tesouras, couro de bode. Ouro, almíscar. Seda, crepe, lona, algodão.

Item por item, ele conhecia um por um. Assim como as pessoas. A quem vender, a quem não vender. Por quanto vender: o preço justo para quem compra e lucrativo para ele. E o que e com que fim vender: o cretone adamascado, matéria-prima das maréchates, as mantas que vestem os abissínios; Bloknote, uma marca de blocos de papel, ideal para o alfabeto amárico ― debdabies amara ― por suas linhas estreitas; seda azul da Índia, adequada para confecção dos djanos, outro modelo de manta abassi. Assim por diante. Com precisão cristalina, ele comercializa bens: "Tecido de algodão, de trama cerrada, quente, espesso, com a resistência dos panos leves para vela, cortados no comprimento com faixas vermelhas e azuis de cinco centímetros de largura, separadas entre si por vinte centímetros".

Riqueza, longe disso. Mas, sim, próspero, à sua maneira. Nunca lhe faltou trabalho. Havia tanto o que comerciar, por sinal, que ele se aventurou a vender armas, seduzido pela chance de ganhos astronômicos. Mas a transação deu errado. Esta incursão pelo tráfico de armas, temperada com subornos absurdos e caprichos da realeza etíope, deixou um gosto amargo em sua boca. Voltou então a trabalhar entre aromas, fragrâncias, texturas, metais. Sua vocação.

"Próspero, à sua maneira". Nos onze anos em que viveu como comerciante, de 1880 a 1891, ocupou casas simples, indistintas das habitações nativas. "Vivia como um beneditino", disse um contemporâneo. Mal havia móveis onde morou, o que levava amigos a se perguntarem onde infernos ele dormia ― porque, além da ausência de camas, quando em casa, era sempre visto escrevendo, noite adentro, numa mesa improvisada. Escrevia muito, mas nada literário. Cartas, pessoais e comerciais. Primorosas pela concisão e pela sagacidade.

Os únicos luxos visíveis nas casas em que viveu eram os que ele proporcionava aos seus hóspedes, geralmente amigos precisando de um teto temporário, e à sua "família". Não família de sangue, mas de fato, composta por duas pessoas. Uma, o jovem criado abissínio, natural de Harar, adquirido em plena adolescência e que viveria uma década ao lado do seu amo, sempre diligente e prestativo (esta dedicação renderia uma profunda estima de seu mestre, a ponto de ele, o "fiel servidor", ser o único lembrado nos últimos dias de vida do seu senhor, tanto por necessitar de sua assistência quanto por destinar a ele uma certa herança). A outra, uma bela abissínia cor de café, natural de Choa, que desempenha as funções de empregada doméstica. Era tímida e doce e só saía de casa na companhia do comerciante andarilho. Gostavam de passear pelo mercado popular. Ele a ensinava francês com paciência e ternura. Planejava ter filhos com ela, contrariando seu espírito livre de andarilho por meio da perpetuação.

Sua família logo voltaria a ser apenas ele e seu servidor. A abissínia voltou para sua cidade, por vontade dele. A História não soube registrar nem seu nome, nem se fora contratada ou mesmo comprada. Esse relacionamento, nas palavras dele, foi uma "farsa".

(Estes envolvimentos domésticos alimentaram boatos de que ele também traficava escravos. Ah, foram só boatos mesmo, incentivados por preconceitos acadêmicos.)

Ele era assim. Facilmente seduzido por uma ilusão. Convicto e irascível em se desiludir.

Irascibilidade era uma de suas características. Sobretudo em questões de trabalho. Se algo desse errado na aquisição ou na oferta de suas mercadorias ele explodia contra quem quer que fosse. Estas mudanças radicais de humor eram toleradas por amigos e parceiros de negócios: é de se esperar isso de um homem sincero e mercador honesto.

Outra característica por todos notada, e por ele mesmo sempre alardeada, era sua constante expressão de tédio. Queixava-se sempre de estar entediado ― e seus amigos percebiam. Talvez por isso ― talvez! ― ele gostasse tanto de esforços físicos extenuantes. Era um caminhante incansável. Em suas caravanas, mal utilizava cavalos. Simplesmente caminhava quilômetros desérticos, impressionando pelo ritmo e pela resistência, vestido como um muçulmano. Tantas jornadas extremas lhe causariam uma sinovite incurável e mortífera.

Apesar do eterno tédio estampado no rosto, era um ótimo contador de histórias. Seus amigos gargalhavam ao ouvi-lo e ao ler suas cartas. O trabalhador obstinado, constantemente aborrecido e que nunca esboçava um sorriso era fonte de risos, quem diria.

Era um homem generoso. Não negava ajuda a ninguém e seguia o código universal da generosidade autêntica: agia em silêncio e jamais se vangloriava.

Magro, alto, loiro. Poliglota. Conhecedor do Corão. Olhos azuis penetrantes e inesquecíveis. O comerciante abissínio, Arthur Rimbaud.

Para ir além
Rimbaud na África (Nova Fronteira, 2007, 496 págs.), de Charles Nicholl.


Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 7/4/2010


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