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Sexta-feira, 6/4/2018
Dos sentidos secretos de cada coisa
Ana Elisa Ribeiro

+ de 1200 Acessos

Nunca mais uma fotografia será apenas uma fotografia. Papel, tinta, borda, textura. Uma fotografia será um universo inteiro. Fechado nele mesmo, enquanto formos nós. Aberto ao infinito, se for qualquer leitor. Nunca mais uma fotografia tirada de uma sacada de um prédio de apartamentos para alugar será só ela. Uma fotografia da vista acima das casas, dos edifícios, da torre da igreja. Rio ao fundo, o rio da Prata. Ou qualquer rio que fosse, estivéssemos nós prestes a nos despedirmos. No céu, na terra, no inferno. Uma fotografia para ser lida vida afora.

Nunca mais uma rua será uma rua e apenas. Será a rua por onde passamos para entrar em livrarias, em lojas de discos, onde procurei pelos CDs de jazz que não estavam mais disponíveis, enquanto o vendedor tentava se comunicar comigo e dizer que ali de tudo havia, do melhor do mundo. Mas não. Eu nem o ouvia direito enquanto mirava aquela capa de um saxofonista em francês. Ou sei lá. Uma rua estreita à qual eu não saberia mais voltar.

Nunca mais uma avenida será uma simples avenida. Assim como me lembro da sensação de atravessar a Corrientes no frio de agosto, também gravei na pele a sensação térmica da 18 de Julio à noite, com vento no rosto, casaco de capuz, suas mãos segurando firmemente as minhas, as pessoas escondidas dentro dos bares e a lanchonete de empanadas logo adiante. "Para, sente o momento, grava isto". Nunca mais a 18 de Julio será apenas uma avenida no mapa de uma cidade, no mapa da América do Sul, no mapa-múndi. A 18 de Julio terá a forma de um dia que nunca mais volta.

Nunca mais uma bebida será uma bebida. Não gravei os nomes daqueles vinhos. Nem a forma das garrafas. Gravei que bebíamos sempre menos do que o previsto. Era muito beijo para intercalar. Não era possível. Duas taças, as rolhas guardadas com data, as uvas de que não me recordo... tempranillo? Tannat? Um amargo de despedida sempre ameaçando vir. E fingíamos que tudo era para sempre. E não é? Para sempre é o tempo da memória.

Não haverá mais simplesmente a blusa de malha preta. Na vitrine, no seu corpo ou no meu, uma blusa de malha preta com gola em V nos transportará para aquela noite, naquele dia, naquele lugar, quando eu disse que me esqueci do pijama. Preferi que você levasse a malha. Eu, não. Eu quero os cheiros que não são guardáveis, as imagens que se apagam, as lembranças que esmaecem, o amor que esmorece com o tempo. Será? Prefiro ver toda malha preta de gola em V e me lembrar de você e de como seu número caía mal em mim.

Nunca um All Star será apenas um tênis. Chute o chão liso e ouvirá um assobio. É nossa cena juvenil. Como eles caem bem nos seus pés. E nos meus. E parecíamos dois adolescentes combinando as roupas. Notaram, lembra? Mas mal sabiam que era sem querer, era assim que éramos. Nunca mais um tênis será apenas um calçado. Era com este, desta cor, deste jeito, que estávamos quando você parou de ouvir a palestra e filmou apenas o movimento dos meus pés, minutos e minutos.

Não haverá mais a mesma igrejinha, nem o mesmo viaduto, nem aquele restaurante onde nenhum de nós havia ido antes, nem nunca mais estaremos lá. Não haverá mais como estar no mundo sem uma lembrança atiçada por um vinho, um nome, uma rua, um edifício, um rio, um tênis, uma estampa, um livro, um disco, um prato, um casaco, aquela rambla fria de até nos irritar.

Uma fotografia. Nela estaremos, para o resto da vida, sentados meio de lado, água atrás, os prédios em curva, sorrindo, com os cabelos esvoaçantes, entrelaçados, fio a fio, como queríamos ser, inteiros. Sorrisos na boca e nos olhos.

Não depende, no entanto, da fotografia. A memória dará nossos significados às coisas, aos objetos, ao corredor da casa, onde você se perdia; à poltrona de leitura, onde você esteve a ler qualquer coisa, sem atenção; à cama vazia. Não depende de mais nada. A memória fará de toda linha um vestígio. Que seja a unha cortada na pia. Que seja a toalha azul, que demorou semanas a ser retirada do lugar. Que seja a ideia de ir, de voltar, de viajar, de viver. Como uma ideia pode incendiar tanto?

Não haverá mais beijo qualquer. Haverá lembrança. Calaremos nossas perguntas: por quê? Por que não? E se? Silenciaremos tudo. Afinal, a vida estava lá, sendo passada, sem legendas, em que idioma? Não haverá mais cena a dois, cena de cinema, cena solar. Estaremos os dois perdidos na lembrança quase irrefletida. Sem trilha sonora, sem The end, sem créditos finais. Não haverá prova. E que bom que tínhamos, a cada take, alguma noção de que a vida era ali, naquele momento, numa coleção de cenas raras, irrepetíveis. O que será dos que vivem sem essa consciência a cada segundo?

Nenhuma palavra em espanhol será apenas vocábulo. Qualquer uma será a manta incompleta que nos cobria enquanto andávamos três ou quatro quadras, em busca de um café sem açúcar e medias lunas doces. As camas de solteiro altas, juntadas sem critério, onde duas pessoas não podiam dormir sem certa noção de abismo. Buenas noches, amor, e durma bem.


LeP



Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 6/4/2018


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