Carga mais leve para Pedro e Bino | Adriana Baggio | Digestivo Cultural

busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Zeca Camargo participa de webserie sobre produção sustentável de alimentos
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
>>> Edital seleciona 30 participantes do país para produção de vídeos sobre a infância
>>> Joca Andreazza dirige leitura de Auto da Barca de Camiri na série 8X HILDA
>>> Concerto Sinos da Primavera
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
>>> Sementinas
>>> Lima nova da velha fome
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Pesquisa e blog discutem "Marca Amazônia"
>>> Vida e morte do Correio da Manhã
>>> O site de Dorival Caymmi
>>> Entrevista à revista Capitu
>>> Figuras de linguagem e a escrita criativa
>>> Arte e Poupança
>>> Entrevista com Paulo Polzonoff Jr.
>>> A Marcha da Família: hoje e em 1964
>>> A escola está acabando
Mais Recentes
>>> Civilização e Doença de Henry Sigetist pela Hucitec (2011)
>>> Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco pela Atica
>>> Grandes Histórias de Halloween de Walt Disney pela Abril (2014)
>>> Transmissão do Calor de Renato Salmoni pela Mestre Jou (1966)
>>> A Estetica da Morte de Salomão Jorgf pela Saraiva (1964)
>>> O Pato Donald Xxiv Nº 1. 150 de Abril pela Abril (1973)
>>> Glossário de Dificuldades de Zelio Jota pela Fundo de Cultura (1962)
>>> Valsa Negra de Patricia Melo pela Companhia das Letras (1998)
>>> Principios de Gerencia por objetivos de Paul Mali pela Pallas (1976)
>>> Amanhecer de Stephenie Meyer; Ryta Vinagre pela Intrinseca (2009)
>>> O papel do trabalho na transformação do macaco em homem de F. Engels pela Global (1986)
>>> O Socialismo Pré-marxista de Babeuf Blanqui Fourier Saint-Simon pela Global (1980)
>>> 6º Alvo de James Patterson e Maxine Paetro pela Arqueiro (2012)
>>> Uncharted o Quarto Labirinto de Christopher Golden pela Benvirá (2012)
>>> Alice no País dos Enigmas Vol 1- 60 Jogos e Desafios de R. W. Galland pela Coquetel
>>> 551 atividades: Diversão que não acaba de Waldomiro Neto pela Culturama (2016)
>>> Os Anjos Também Choram de Elzira Ribeiro de Almeida pela São Cristóvão (2005)
>>> Quarup de Antônio Callado pela Circulo do Livro
>>> As Vantagens de Ser Otimista de Allan Percy pela Sextante (2014)
>>> A Turma do Arrepio Nº 22 de Globo pela Globo (1991)
>>> Mundo do Terror Nº 12- Monstro Humano de Press Editorial pela Press Editorial (1987)
>>> Elogio da Mentria de Patricia Melo pela Companhia das Letras (1998)
>>> O Chefão - a Verdade Sobre a Máfia de Mário Puzo pela Expressão e Cultura (1970)
>>> Vigiar e Punir de Michel Foucault pela Vozes (1999)
>>> Uma Constelação de Fenômenos Vitais de Anthony Marra pela Intrinseca (2014)
COLUNAS

Quinta-feira, 8/5/2003
Carga mais leve para Pedro e Bino
Adriana Baggio

+ de 11100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Lembro de assistir Carga Pesada quando era criança. O seriado está no ar novamente depois de 22 anos. Ou seja, faz um tempão. Não recordo muita coisa, mas o que ficou foi marcante. Lembro claramente de uma cena onde bandidos esmagavam as mãos de um homem com um pedaço de pedra, talvez fosse um paralelepípedo.

Não sei se em geral o seriado era violento, mas acho que não era tão suave quanto o remake que a Globo passou a reapresentar desde terça-feira da semana passada. Apesar do clima pesado, eu gostava. Devo ter visto poucas cenas, pois se nem Roque Santeiro minha mãe me deixou ver, imagina Carga Pesada.

Quando a emissora anunciou a volta do seriado protagonizado por Antonio Fagundes e Stênio Garcia, fiquei esperando o mesmo clima do antigo Carga Pesada: aquela coisa dura da estrada, a pobreza dos lugares por onde Pedro e Bino passavam, os conflitos nos quais se envolviam. A estética zona sul da nova versão foi uma surpresa. Até o caminhão velho foi trocado por um novinho em folha!

A troca de caminhão fez parte da contextualização do novo momento da série. Pedro e Bino agora são dois senhores. Bino casou, deixou a estrada e montou um escritório. No entanto, ficou viúvo e descobre que tem um tumor. Aguarda o resultado do exame que vai dizer se é maligno ou não. Sem saber o quanto lhe resta de vida, Bino entra em contato com Pedro e volta para a estrada. Pedro, por sua vez, nunca deixou a profissão de carreteiro (não é caminhoneiro não, é carreteiro mesmo). Eles encontram-se em Bagé, de onde Pedro levará uma carga até Salvador. Bino embarca com o amigo em um caminhão velho, daqueles bicudos cor de laranja, do qual os dois são sócios. Em uma das paradas, o caminhão parece ter sido roubado, mas na verdade foi Bino que comprou um Volswagen novinho em folha, em substituição à velha máquina.

Enquanto Stênio Garcia encarna bem o papel, fica difícil transformar Antonio Fagundes no estereótipo que se tem desse tipo de profissional. O choque entre a pinta de galã de Fagundes e o estilo abobalhado do personagem causam uma dissonância cognitiva no espectador. O clima fica falso, e piora ainda quando se contrapõe o dia-a-dia de carreteiros de Pedro e Bino e a realidade do caminhoneiro brasileiro. Eles parecem mais estar fazendo turismo do que transportando uma carga. Jantam em restaurantes das cidades, e não nas paradas, param nas praias para tomar banho de mar, passeiam nas Cataratas do Iguaçu. Muito distante da realidade do caminhoneiro que dorme na cabine ou em hotéis de beira de estrada, almoça nos postos que dão a refeição como brinde pelo abastecimento, aproveita ao máximo o tempo na estrada para poder cumprir os horários de entrega, ou para poder pegar logo outro frete. Pedro e Bino não tomam "rebite" para dirigir de madrugada.

Antonio Fagundes é o mais deslocado na boléia, mas o personagem de Stênio Garcia também tem suas incoerências. Os diálogos de Bino parecem uma colcha de retalhos de clichês, provérbios e frases de pára-lama de caminhão. São textos como "Deus estava inspirado quando fez o Rio de Janeiro" (para cada cidade por onde passam Bino tem um comentário do mesmo estilo); "a estrada é um vício e eu sou um viciado", e por aí vai. Não consigo deixar de lembrar do Tio Ali, personagem do ator na novela O Clone, que como bom patriarca, vivia citando passagens e dando conselhos para os seus.

O clima está tão light que até os bandidos que eles encontram no primeiro episódio são personificados por uma moça de 16 anos e seu namoradinho. Nada de brutamontes quebrando ossos com pedaços de pedra. E no segundo nem bandido teve. Parece mais um episódio de novela: Pedro convida o filho de Bino (que é seu afilhado) para seguir com eles até Salvador. Os dois galãs - o macaco velho e o iniciante - revezam-se na conquista das moças que encontram pela estrada. Uma delas é Rosa, representada por Patrícia Pillar, que em uma cena de praia veste um maiô mais comprido que muita mini saia que se vê por aí. É, ser mulher de ministro tem o seu preço...

Mesmo em versão mais leve e mais fake, Carga Pesada não deixa de ser um bom seriado. Mas o que não dá pra perdoar são as cenas em que Pedro e Bino dirigem daquele jeito que a gente vê os caminhoneiros dirigindo nas estradas, e que causam tantos acidentes graves. Todas aconteceram no primeiro episódio. Não sei se houve algum tipo de protesto, ou se foi coincidência elas não aparecerem no segundo. Uma das cenas mostra os dois amigos comemorando o reencontro com brincadeiras, girando o volante de um lado para o outro, fazendo o caminhão andar sinuosamente em uma estrada de pista simples. Depois, quando Bino troca o caminhão velho pelo novo, Pedro fica tão feliz que passa a dar cavalos-de-pau com o cavalo do caminhão no pátio da parada. Para mostrar o perfeito funcionamento do freio, joga o caminhão contra a janela do restaurante e pára a poucos centímetros do vidro. A outra cena mostra os dois na estrada, à noite, apagando os faróis do monstro para poder enxergar os discos voadores que a mocinha-bandida tenta mostrar para eles. Já imaginou dar de cara com um caminhão de luz apagada vindo de frente em sua direção?

Mesmo que a nova proposta não seja tratar de conflitos mais densos, Carga Pesada poderia, ao menos, fazer merchandising não só dos caminhões Volkswagen e dos postos Ipiranga, mas tratar também de aspectos importantes sobre as estradas brasileiras. Apesar de ser um país onde a maioria das pessoas e das cargas viaja pelo asfalto (ou pelo barro...), o Brasil tem uma péssima malha rodoviária e uma infraestrutura de apoio pior ainda. São muitas rodovias sem sinalização nem acostamento, com mais buracos do que asfalto. No Nordeste, ônibus e caminhões viajam em comboios, em uma tentativa de se proteger e proteger as cargas e passageiros dos bandidos, que agem nos mesmo locais e horários, mas que mesmo assim não são pegos pela polícia. Só como exemplo, os trechos entre a divisa de Pernambuco e Alagoas e Maceió, e os 60 km após Feira de Santa, na Bahia, só são percorridos pelos ônibus em comboio de três ou mais carros.

Além dos perigos da pirataria de asfalto, há o risco da direção imprudente, do uso de álcool e drogas, do sono. O seriado deveria, ao invés de adotar essas atitudes para seus personagens, tentar influenciar um outro tipo de comportamento, deflagar uma campanha sobre direção defensiva, as condições das estradas, sei lá (de Bagé a Salvador, Pedro e Bino não passaram por nenhuma estrada com buracos...). Mesmo que não sirva pra nada, pelo menos a gente tem a valorização do que é certo, e não do que é errado.


Adriana Baggio
Curitiba, 8/5/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Os olhos de Ingrid Bergman de Renato Alessandro dos Santos
02. Notas confessionais de um angustiado (IV) de Cassionei Niches Petry
03. Histórias de superação que não fazem sucesso de Elisa Andrade Buzzo
04. Régis Bonvicino: voyeur-flânerie e estado crítico de Jardel Dias Cavalcanti
05. Do amanhecer ao adormecer: leitura, ato de amor de Marcela Ortolan


Mais Adriana Baggio
Mais Acessadas de Adriana Baggio em 2003
01. Ser bom é ótimo, mas ser mau é muito melhor* - 24/4/2003
02. Aventuras pelo discurso de Foucault - 30/1/2003
03. Carga mais leve para Pedro e Bino - 8/5/2003
04. Apesar da Barra, o Rio continua lindo - 9/1/2003
05. Encontro com o peixe-boi - 16/1/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/5/2003
08h53min
O seriado é mesmo uma ilusão, Pedro e Bino fazendo turismo, estradas boas, só diversão. Nem por isso deixa de ser um seriado bom! Quem quer violência, coisas ruins, que vão assistir o jornal Nacional ou assistir "mulheres apaixonadas", acho que as pessoas merecem uma série, um pouco "fantasiada" pra poder aliviar o que elas vêem diariamente, imaginem o trabalhador chegando em sua casa... qual é a primeira coisa que ele faz? ligar a tv!! e por que não deixar a vida mais colorida? Chega de violência, o que eu digo não é alienado, apesar da realidade que os meios de comunicação tentam nos impor, sempre estaremos com o pé no chão, pois vivemos o inferno todos os dias!
[Leia outros Comentários de Camila]
13/5/2003
17h09min
Concordo com você, Camila. O seriado não deixa de ser ruim por ser mais leve que a versão original. Também concordo que Mulheres Apaixonadas é estressante. Novelas servem para desanuviar, entreter, mesmo que sejam fúteis, e não para deixar o público ainda mais angustiado. Mas acho que a alegria vai acabar: pelo que eu vi, no episódio de hoje do Carga Pesada vai ter um acidente.
[Leia outros Comentários de Adriana]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Eragon
Christopher Paolini
Rocco
(2003)
R$ 12,00



A Pintura Flamenga e Holandesa da Fundação Medeiros Almeida
Realidade e Capricho Novembro 2008
Fundação Medeiros e Almeida
(2008)
R$ 19,28



A Pré História
Teófilo Torronteguy
Ftd
(1995)
R$ 5,00



Wish Vol I
Clamp
Jbc
(2009)
R$ 5,00



Nas Fronteiras Celestiais
Stanley Stewart
Publicações Europa América
(2000)
R$ 84,78



Eles eram muitos cavalos
Luiz Ruffato
Record
(2007)
R$ 21,90



Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Martin Claret
(2001)
R$ 24,30



O Campeão de Audiência
Walter Clark Com Gabriel Priolli
Best Seller
(1991)
R$ 19,90



Canadian Country Furniture 1675-1950
Michael S. Bird
Stoddart
(1994)
R$ 40,00



A história de Carmen Rodrigues
Ana Luiza Libânio
Literare Books International
(2012)
R$ 29,90





busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês