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Terça-feira, 10/7/2001
Para quem acha que conhece de tudo na vida
Rafael Lima
+ de 7900 Acessos

Photo by Gabe Kirchheimer

Diz a lenda que Larry Harvey estava amarrando um bode daqueles no feriado do labour day de 86. Tinha levado um pé-na-bunda e estava curtindo a fossa em Baker Beach, no Golden Gate Park, em San Francisco, quando um amigo lhe sugeriu que ele construísse um boneco de madeira e tocasse fogo nele. Uma maneira simbólica de exorcizar tudo que o incomodava. "Aquilo me soou razoável à época". Harvey pôs mãos à obra, juntou galhos e gravetos e queimou o bruto. No momento em que o boneco começou a pegar fogo, atraiu a atenção das pessoas ao redor. Um homem começou a improvisar em seu violão; dois casais se aproximaram. Larry percebeu que algo especial tinha acontecido ali. De alguma forma, as pessoas se sentiam conectadas àquele evento...

Quatro anos depois a polícia proibia Larry Harvey de incendiar a estátua humana na Baker Beach, agora já bem mais alta e com sua indefectível cabeça hexagonal, sob alegação de perigo. Larry percebeu que não havia mais condições de continuar daquele jeito, não nas cercanias da cidade. Era preciso de algum lugar suficientemente vasto e longe de qualquer formação urbana, onde aqueles artistas, estetas, músicos, vagabundos, conquistadores do oeste e gente esquisita em geral pudesse ficar à vontade. Alguém do Bureau of Land Management ofereceu o deserto de Black Rock, na fronteira de Nevada, com uma condição: ele deveria ser devolvido no mesmo estado em que fora encontrado. E daí que era um leito de rio pré-histórico seco? E daí que era um dos lugares mais inóspitos da região, nunca antes colonizado? E daí que seria tão trabalhoso levar as coisas para lá quanto recolher?

É lógico que no primeiro ano subsequente a população caiu, mas, dois anos depois, boca-a-boca em ação, já crescera de novo, de algumas centenas em um fim de semana para milhares, por uma semana inteira, brincando de criar sua utopia particular, uma comunidade, praticamente do zero, na efêmera Black Rock City, ao fim da qual incendeia-se um totem humano num ritual catártico cheio de significados: Burning Man. Bizarro? Absurdo? Primitivo? Muitos são os adjetivos, mas a escolher um para caracterizar o que se passa lá, sem dúvida este será radical. Sobrevivência radical. Auto-expressão radical. Experimentação radical. Ainda confuso? Partamos de "4 mandamentos" básicos para se viver corretamente o Burning Man:

1) No Spectators: todos os moradores são participantes ativos na nova comunidade; não há espectadores porque todos estão profundamente envolvidos no que acontece ali, interagindo e reagindo com o que há ao redor. A interação pessoal e a auto-expressão são estimuladas ao último nível.

2) Leave No Trace: a pré-condição estabelecida para o uso do deserto foi que nenhum rastro deveria ser deixado sobre ele ao fim do evento. Então tudo que foi levado para lá deve ser limpo, "a nível de grão", ao fim da viagem. Levou para lá, leve de lá.

3) Absolutely No Vending: é terminantemente proibida a transação comercial monetária dentro de Black Rock City, sob pena de expulsão. Trocas e escambo são permitidas, mas os organizadores preferem o termo gift economy, porque acreditam que as transações comerciais degeneram as relações humanas.

4) Piss Clear: a maneira mais fácil e segura de saber se você está devidamente hidratado. Beba um galão (quase 4 litros) por dia, compense a perda de eletrólitos com algum repositor e piss clear. Um slogan tão forte que foi escolhido como nome pelo "único jornal alternativo de Black Rock City".

Complicado? Não: complexo. Existe uma organização mínima por parte de um comitê encabeçado por Larry Harvey, que cuida de desenhar a cidade, providenciar a limpeza dos banheiros públicos - os porta-pooties, sanitários químicos móveis como os de qualquer show de rock - distribuir os espaços públicos e mais duas coisinhas. Apesar dessa aparente centralização, a organização do Burning Man é semi-anárquica. Não existe um serviço público de coleta nem reciclagem de lixo; cada um é responsável pelo lixo que gera - e assim funciona com a maioria das questões públicas. As interações entre vizinhos são constantes (como em qualquer acampamento), havendo reuniões para a realização de tarefas comunitárias, tal como a construção dos theme camps, o principal núcleo habitacional do pedaço. Theme camps seriam "acampamentos temáticos", decoradas e organizadas com um motivo, que além de proverem abrigo e alimentação para seus moradores, também oferecem uma atração para visitantes, que pode ser desde instalações artísticas interativas até um chill out lounge, passando por um restaurantes comunitários. Theme camps são organizados com vários meses de antecedência e estão entre as mais populares formas de se ir ao Burning Man, mas nada te impede de entupir o carro de suprimentos na CostCo (a Casa & Vídeo de lá) e na Rei (tudo para acampamentos), convencer dois amigos a fazerem o mesmo e se mandar na cara e na coragem. Mas se você não mora na Califórnia, provavelmente a melhor idéia seja pegar um dos ônibus da Green Tortoise, que te fornece todo o essencial para se sobreviver no deserto.

Para quem ainda não se tocou, estamos falando, simples e inocentemente, de uma cidade montada em cima de um deserto. Onde greeters - voluntários do comitê de boas vindas, espetacularmente fantasiados para te avisar o óbvio na entrada, que é obrigatório beber para não ficar desidratado, e que as leis de Nevada são aplicadas lá (leia-se: é proibido o uso de drogas) - e Rangers - espécie de curadores do evento e mediadores de conflitos comunitários - só te deixarão entrar se você trouxer pelo menos aquele mencionado galão por dia por pessoa, além da comida necessária (sente-se pouca fome, e qualquer barra de granola com passas faz andar a tarde inteira), e uma estrutura que te dê sombra, protegendo do sol inclemente. Ainda é necessário levar sacos de dormir (esfria absurdamente de noite), e filtro solar, bebidas isotônicas, roupas leves para o dia, roupas pesadas para a noite, hidratante labial, entre outros numa lista que de mais de 20 itens se você for precavido ou apavorado o suficiente. Diz-se que "a redundância é a chave para a sobrevivência", mas também é comum ouvir que na sua bagagem você deve trazer 3 coisas que não se vende na CostCo: "bom senso, cabeça aberta e uma atitude positiva".

Vista de cima, Black Rock City, a terceira maior cidade de Nevada, assemelha-se a um anfiteatro grego. As ruas principais são arcos concêntricos, nomeadas de acordo com o tema do ano - por exemplo, em 2000, o tema era o Corpo, e tínhamos Head Way, Brain Avenue, Throat Street e por aí a fora - tendo por centro The Man, o totem incendiário. As ruas secundárias, radiais, são sempre identificadas segundo as horas do relógio. Isso adiciona criatividade e confusão à simples tarefa de se localizar: nunca se sabe de primeira se a outra pessoa está se referindo ao local ou à hora do encontro... Desembarcar em Black Rock City depois de uma viagem de 6 horas partindo de San Francisco é, literalmente, adentrar uma civilização em construção - ou em destruição. A paisagem desolada e nua, a urbanismo mambembe com aquele eterno ar "em construção" dos theme camps, a enorme variedade de tipos fantasiados (auto-expressão radical, ora pois!) andando tranqüilamente pelas ruas, aquele que poderia ser o senhor seu avô, andando completamente nu de um lado para o outro... Aliás, um dos principais contingentes locais é exatamente esse dos pelados, gente que dá a impressão de ter ido lá apenas para passar 7 diascompletamente nu. E olha: não são poucos. Contando o nudismo eventual, uns 75% está neste contingente.

Tem também a tribo dos ecológicos; tem a turma mais política, que vai protestar contra o consumo desenfreado (chega-se a adulterar as marcas dos caminhões e trailers alugados com fita adesiva para não haver propaganda gratuita); tem os que vão lá só para tomar Ecstasy, fumar maconha e se divertir, e tem os que fazem disso um ato libertário; tem uma turma que passa 6 meses confeccionando uma fantasia para se realizar andando 4 dias com ela de um lado para o outro; e, claro, tem os cruzamentos entre essas tribos. Andando-se pela esplanade (área principal da cidade onde ficam The Man e as esculturas monumentais) pode-se facilmente ver um hippie nu estacionando sua bicicleta para passar flyers sobre como levar uma vida menos poluente a um autêntico sátiro, de cajado e cornos. Tudo na maior paz, no harass. Sem invasão de privacidade, e com muita gentileza. Ninguém vai sair te colocando a mão no ombro, apertando a tua mão, sem seu consentimento.

Esse tipo de respeito à toda prova é uma das marcas que une os cidadãos do Burning Man, cujo símbolo maior é a fila do banheiro. Num sociedade não discricionária, que se pretende a um tratamento igualitário, não há porta-pooties separados por gênero. Uma fila qualquer de um conjunto de sanitários tem drag queens na frente de um velhinho nu, na frente de duas adolescentes de topless, na frente de um um espadachim francês, na frente de um anjo gay, na frente de... bem, não importa; o fato é que a fila é tão organizada quanto a de um guichê do metrô (às vezes, é mais), ninguém fura e ainda tem um par de gays lá na frente distribuindo proteções higiênicas para privadas e indicando os banheiros mais transitáveis. Talvez por isso essas filas são conhecidas por lá como civilization...

Outro ponto que une os cidadãos de Black Rock é a poeira. Quem já fez obra em casa sabe do pozinho fino que aquela massa branca utilizada para acabamento solta quando lixada depois de seca. Bom, a poeira que se desprende do chão de álcalis é pior: se acumula em roupas, barbas (mulheres: dêem adeus aos seus cabelos!), sobe em mesas, entra nos cantinhos mais inacessíveis. Dois meses depois ainda é possível encontrar vestígios dela em uma dobra da sua mochila. Se o sujeito é razoável, em um dia pára de gastar baby wipes (lenços umedecidos descartáveis, a maior invenção do mundo num local sem umidade) tentando se limpar e acostuma com ela. Por cima do figurino-padrão Operação Tempestade no Deserto (chapéu de abas largas, óculos escuros, máscara de enfermeiro cobrindo o nariz e a boca, roupas pesadas por cima de roupas leves, cantil d'água para cá, odre cheio de Gatorade para lá), existe a poeira, a unificar as indumentárias, sejam fantasias de Papai Noel, sejam figurinos sadomasoquistas. Nem quem anda nu, coberto de tinta vermelha e purpurina ("vestir-se é opcional no Burning Man"), escapa dela.

Mas, afinal, o que tem para fazer no i>Burning Man? Andando pela playa, apelido carinhoso para aquela paisagem desolada, pode-se entrar no Egg Chair Camp para tirar uma foto na Cadeira-Ovo; pode-se passar um tempo pulando nas camas elásticas da esplanade; pode-se interagir e apreciar as descomunais obras de arte, por exemplo o escorrega do Annus of Thruth; pode-se bater uma bolinha no Totó humano (Human Fooz-ball); pode-se quebrar um pau com espadas de plástico no domo geodésico do Thunder Dome, se sentindo o próprio Mad Max - a paisagem contribui; pode-se discutir arquitetura com um hippie chamado Stress (!); pode-se pegar uma carona em um triciclo motorizado para fazer parte da grande foto dos nus (piercings e tatuagens são liberadas); pode-se jogar xadrez no Alien Chess Camp; pode-se participar do concurso de pipas; pode-se assistir ao show de horrores de Gigsville; pode-se adentrar uma batucada no Primal Thunder Camp; pode-se arrumar uma bicicleta no Recycling Camp, que faz quadros de bicicletas de latinhas recicladas, para percorrer melhor os espaços: bicicleta é o melhor meio de locomoção, desde que as distâncias sao razoavelmente vastas para se percorrer tudo à pé e os carros não são permitidos. Na verdade, os únicos veículos motorizados permitidos no perímetro urbano são os art cars.

Art cars englobam desde uma poltrona motorizada, uma moto completamente decorada e envenenada, até um kart no qual foi adaptada uma estrutura em forma de cabeça gigante que gira e mexe os olhos, incluindo um completo dragão mecânico (qual uma alegoria de escola de samba, só que automatizada, com pescoço articulado e cuspindo fogo pelas ventas) e um imenso galeão espanhol falsificado, todo montado em cima de um caminhão tipo trio-elétrico e ocupado por uma penca de piratas gaiatos que espirra água em todo mundo, ao som de música eletrônica... Na falta de transporte e criatividade, o melhor a fazer é se dirigir ao Center Camp, uma imensa lona de circo plantada pela organização no meio de Black Rock City onde qualquer um que saiba arranhar uma cítara tem vez num palco onde rock, folk, pop e músicas cantadas são proibidas (música indiana é o grande hit), ou relaxar em uma das inúmeras poltronas daquela imensa sala de estar enquanto alguém faz caricaturas suas, ou mesmo se ligar em uma das inacreditáveis jam sessions que rolam ao lado de uma roda de capoeira, misturando sons tão improváveis como os de violão, berimbau e didjeridoo. Enfim, um excelente lugar para dar um tempo (e fugir das tempestades de areia) rodeado por um elenco de figurantes de filme do Almodóvar: mexicanos de sombrero, malabaristas, lésbicas punks...

Existe um tipo de humor rapidamente catalogável como típico do Burning Man, só compreensível por quem passa mais de 4 dias num deserto norte-americano onde as condições atmosféricas podem mudar a cada minuto. Veja-se o caso dos domos geodésicos: estruturas semi-esféricas de tubos cruzados, leves e resistentes, sobre os quais joga-se uma lona de pára-quedas por cima, a grande moda arquitetônica da área. Havia tantos em 2000 que dizia-se que tinha mais pára-quedas lá do que na guerra do Vietnã... Girando a Roda dos Boatos, sorteava-se o boato daquele ano, que poderia ser "sua mãe está aqui esse ano, e com um namorado mais novo que você" ou "os banheiros estarão entupidos até quinta feira". Cunhou-se inclusive um termo para o feio hábito de urinar no chão do deserto à noite: urinografia, cujo uso era explicado no léxico do Piss Clear: "da próxima vez que deixar uma mensagem de amor, use papel e lápis ao invés de urinografia".

Esse clima de alto-astral encontra seu auge à noite, quando, surpreendentemente, as pessoas se decoram ainda mais - mesmo que esse algo mais signifique um caprichado topless - para ir a uma das milhares de festas que se distribuem por todo o deserto. As áreas periféricas da cidade são reservadas para as zonas de maior barulho, em raves que se estendem por toda a madrugada até o nascer do sol mais inacreditável que a paisagem pré-histórica e, justiça seja feita, uma pílula de E podem proporcionar. Mas há festas com todo tipo de som barulhento que se imagine, e se você enjoar da dobradinha música eletrônica- percursão ao vivo da na sua esquina, é só rodar um pouco seguindo o som e você estará em outra discoteca. Sem entrada, sem consumação mínima, e sem hora para acabar.

Claro, o auge dessa farra é a noite da queima, quando todas as 20.000 pessoas (números de 2001) se reúne para ver The Man erguer os braços e ser incinerado, sinalizando com sua destruição o expurgo das "coisas negativas". Visualmente, não é um grande espetáculo, mas a cizânia que se segue amplia o impacto sensorial. Artistas são encorajados a queimar suas criações, de esculturas a marionetes, numa evocação ao desapego e à própria reinvenção. Nos primeiros anos de deserto, era costume mandar para a fogueira também os móveis velhos (e tudo que fosse fazer volume na bagagem) levados para lá. E há a ópera de Pepe Ozan, um espetáculo envolvendo atores, dança, esculturas monumentais e música, com concepção (?) de fazer o Zé Celso corar de pudor.

É muito difícil tentar explicar o que é o Burning Man, e mais ainda tentar resumir o que se aprende num evento desses de uma maneira menos vaga do que "podemos viver com mais liberdade do que temos". Um projeto de comunidade experimental que dura uma semana. A maior catarse coletiva do mundo. Um enorme psicodrama onde cada um interpreta o personagem que quiser. Uma tentativa de se criar o carnaval, partindo do zero. Um experimento onde se pretende sintetizar a espontaneidade em laboratório. Soa absurdo? Eu também achei quando li a reportagem da Lenara Verle. Se você não acredita que coisa assim possa acontecer, visite a página dos organizadores e veja por si mesmo. Agora, se texto e fotos para você são pouco, vá lá conferir pessoalmente. Que nem eu fiz.

Photo by Bryan Frazier


Rafael Lima
Rio de Janeiro, 10/7/2001

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