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Terça-feira, 22/3/2005
Daniel Frazão e a cidade sitiada
Fabio Silvestre Cardoso

+ de 4000 Acessos

Recentemente, mais precisamente nos últimos três anos, têm sido muito comentados os romances de uma, digamos, nova geração de escritores. Trata-se de um fenômeno bem peculiar, uma vez que os autores que ora estréiam são jovens. Tornou-se um sucesso de vendas, por exemplo, Hell, de Lolita Pille, que descrevia a fogueira das vaidades da juventude francesa (o início é daqueles que causam polêmica: "Eu sou uma putinha"...). Também na Europa, Melissa Paranallo chocou ao lançar 100 Escovadas antes de ir para cama, em que narra suas aventuras sexuais. Por aqui, onde as modas costumam chegar atrasadas, o escritor fluminense Daniel Frazão assina Cerco (Ed. Rocco, 305 págs.). A essa altura, o leitor deve estar se perguntando: qual é a semelhança entre essa três obras, além do fato de terem sido escritas por jovens? Ora, leitor, a semelhança não é outra senão a obviedade e o lugar comum dessas três narrativas. Daniel Frazão é inteligente o bastante para não replicar os relatos sexuais à maneira de Melissa Paranallo, assim como não cria um universo alheio à realidade, como Lolita Pille. Contudo, aborda com superficialidade o objeto principal de sua narrativa: o jovem.

O livro conta a história de um domingo Sangrento em São Felipe, cidade que, de tão tranqüila, mais parece um cartão-postal. Apesar de ter uma vista paradisíaca, seus habitantes vivem, conforme escreve o autor, uma felicidade plástica, sem sal, sem vibração. E é aqui que os jovens, todos eles, se integram e decidem, juntos, armar uma tocaia para a cidade e seus moradores. Não se trata apenas de pregar uma peça. A tocaia em questão era nada menos do que uma matança generalizada promovida por todos os jovens da até então pacata São Felipe. Na ocasião, sobram apenas alguns sobreviventes que vão tentar, de toda maneira, se manter vivos. Frazão narra com precisão todos os acontecimentos. Sua escrita é fluente e ele mantém o timing certo para cada cena, detalhando cada passagem com as minúcias necessárias, tal como uma reconstituição dessas tragédias adolescentes que assolaram o final da década de 90, sobretudo em algumas escolas dos Estados Unidos.

Ocorre que, se a "reconstituição" é bem feita, falta justamente o conflito, o motivo, a razão que provocou esse assassinato. Daniel Frazão se esquiva nesse ponto. Não há qualquer palavra que explique, que sequer ensaie uma interpretação de tudo o que aconteceu. O autor prefere narrar, descrever e, por vezes, até ironizar, porém não faz esforço algum para dizer aos leitores o porquê de tudo isso. Decerto que a idéia é não tomar partido, como está escrito na apresentação. No entanto, essa proposta se mostra equivocada à medida que a história se desenvolve. A matança da cidade, tal como está, acaba por se banalizar e perde até mesmo o efeito do choque.

Por outro lado, nota-se, também, a forma que Frazão escolhe para abordar as personagens. Aqui, há uma tentativa de expor e analisar a alma de alguns moradores da cidade, quais são suas motivações, bem como seus medos/traumas. Infelizmente, isso não é possível graças aos clichês eleitos pelo autor. É como se Daniel Frazão tenha feito a escolha das características aleatoriamente, num grande saldão de personagens e preparado, assim, uma salada. Desse modo, há o casal de velhos que mantém carinho um pelo outro; o yuppie que só pensa em si mesmo; o intelectual pedante e pouco pragmático; o padre que eleva a fé às últimas conseqüências, além, claro, do jornalista que só pensa na história que irá escrever depois, mais até do que na própria sobrevivência. O trecho a seguir é exemplar: "O jovem jornalista subia cansado pela trilha, por onde antes passara o mutirão de jovens (...) Estava indo para as montanhas, seguindo o rastro de jovens assassinos por uma pequena trilha no meio da floresta, em direção ao topo. Arriscando a própria pele, em nome de um furo de reportagem".

O trecho acima citado nos leva a outro ponto curioso da obra de Daniel Frazão. Os diálogos. Em Cerco, os lugares-comuns são tão corriqueiros que os personagens, outrora realísticos em demasia por sua obviedade, tornam-se quase figuras artificiais. Tão artificiais quanto o cenário insosso de São Felipe. Exemplo disso é a seqüência de uma perseguição. Neste trecho, o autor traça um paralelo com um desenho animado. Então, quando o assassino consegue alcançar seu objetivo, ele solta a pérola: "Você está peldido, coelhinho".

Em que pesem os clichês e os diálogos, existe um outro elemento que precisa ser analisado de perto. Isso porque, apesar de não explicar a razão da chacina, está claro que o cerne do romance é a inquietação dos jovens em relação ao que os cerca. Nesse sentido, há uma observação interessante feita pelo autor a propósito do comportamento dos adolescentes. "Fora uma criança mimada, daquelas que basta um minuto de choradeira para os pais-corujas saírem correndo para satisfazer todos os seus desejos. Quando passava de mãos dadas com sua mãe na frente de alguma loja de doces, chorava, gritava, batia o pé, e pronto, conseguia o que queria.(...) Seus caprichos foram ficando cada vez mais complicados de se realizar". Frazão não chega a afirmar, mas sugere, nessa passagem, que é esse mimo que fez com que o jovem em questão se tornasse assassino. Ora, vamos aqui da literatura para os livros de auto-ajuda, daqueles que ensinam como criar seus filhos, ou algo semelhante. Novamente, trata-se de uma idéia pronta, como se o autor indicasse uma solução para essa eventual inquietude juvenil: pulso firme na educação. Nada mais conservador do que um discurso pseudo-libertário.

Ao fim e ao cabo, Daniel Frazão não arremata o romance. Dá a impressão de que perdeu o fôlego nas longas descrições e narrações dos nove capítulos anteriores. Em determinado momento, os acontecimentos tomam um novo rumo de uma maneira tão abrupta quanto seu início. De uma maneira geral, o romance carece de uma certa tensão que possa fazer frente ao ritmo frenético de o autor contar a história. Aliás, se cabe aqui uma comparação: a obra sofre de algo parecido com a imaturidade, faltando-lhe, portanto, consistência e sobriedade, posto que abundam o estilo verborrágico e a performance.

Para ir além






Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 22/3/2005


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