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COLUNAS

Quarta-feira, 6/4/2005
Mapa da sala de aula
Ana Elisa Ribeiro

+ de 18900 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Talvez o primeiro livro que eu tenha comprado por obrigação na vida, especialmente na vida escolar, tenha sido uma tabuada. Aquele caderninho mal-acabado, cheio de desenhos para lubrificarem a descida indigesta de tantos números, me deixou medrosa por muito tempo. E ainda posso ouvir a professora, com voz esganiçada, dando lá os comandos de decorar isto e aquilo.

Em casa, uma luta quase diária para me fazer sentar e ter a paciência de abrir a tabuada em cima da mesa, copiar os múltiplos deste e daquele número. E logo ali ao lado, a janela que dava para a rua, cheia de amigos brincando de esconde-esconde. Ou mesmo na mesa de trás, um volume ilustrado do Dom Quixote, que me seduzia muito mais.

Depois de decorar a tabuada, aprendi mais algumas operações e entrei na fase equacional. Era equação de primeiro grau, de segundo grau e eu parada no mesmo grau abaixo de zero sobre matemática. O terror gostoso das aulas em que o professor escrevia no quadro-negro muitos números e mandava fazer exercícios. As provas que me deixavam sem dormir.

Também entraram na moda as recuperações em matemática, as aulas particulares com o Júnior e com o Walter. O ódio irrestrito pelos professores daquela matéria devastadora, que me deixava amuada por vários dias, quando aquele boletim chegava todo vermelho, reclamando a assinatura dos meus pais.

As letras nunca me intimidaram. Eram minhas amigas, não me ofereciam risco, embora me parecessem desafiadoras. Mas de um desafio gostoso, cheio de descobertas. Coisa que os números nunca me sugeriram.

No ensino médio, um professor, desses que se confundem com o patrimônio histórico, me ensinou a lidar com teoremas. Eulâmpio era o nome daquele gênio e os métodos que ele usava eram os menos ortodoxos das cercanias escolares. Numa relação de amor e ódio, Eulâmpio me ajudou a raciocínar em números, coisa que eu jamais conseguira fazer por conta própria. Pagar a conta da cantina era o máximo que eu permitia de matemática na minha vidinha.

Saí do colégio louca pelo dia em que me livraria das obrigações da tabuada. Afiei meus conhecimentos pragmáticos de matemática e sobrevivi. Bebi, cheirei e respirei letras desde então e hoje, quando entro na sala de aula e deparo com o quadro escrito pelo professor de matemática que deu aula antes de mim, ainda sinto arrepios. Mas não um arrepio de medo, como os de antigamente. Um torpor de quem foi, viu, viveu e escolheu outra praia para surfar.

O ensino de matemática mudou radicalmente de uns anos para cá. Era isso o que eu sentia quando escutava as conversas dos meus colegas de escola, dos meus parceiros de equipe, dos editores de livros didáticos. Talvez hoje eu conseguisse resolver com tranqüilidade o que, nos anos 80, me parecia pecaminoso: aquelas equações em que se misturavam letras e números. E conhecendo certos professores de matemática contemporâneos, consigo achar que o barato mesmo é misturar as praias e formar pessoas mais completas do que eu, com professores mais conscientes do que os que eu tive.

Mapa da sala de aula

I
Primeiro um garoto do lado esquerdo fala alto. A professora fica impaciente, a turma faz barulho, aumenta o volume e a professora, com rigor, diz: Silêncio! Não gosto nem de gritar e nem de falar alto. E o garoto conclui, rearranjando os lápis na mesa: Então você é brava.

II
Um garoto negro e de sorriso ensolarado brinca com o ar no canto direito da sala da terceira série. A professora quer se apresentar e saber o nome de cada um, o que gosta de fazer, em que bairro mora. Quando chega a vez do menino, ele diz: Meu nome é João. João Capeta. Um sorriso imenso clareia tudo. E ele continua: Moro no Santa Cruz e o que mais gosto de fazer é bagunça, molecagem. Uma menina delicada exclama do lado oposto: É a única coisa que ele sabe fazer. E o garotinho negro, furioso, não tem dúvidas: Não é não. Eu também sei namorar.

III
Uns meninos trazem caderno para a sala. Outros não têm material ainda. A professora pede que os que têm emprestem folhas. Um Henrique moreno e doce distribui suas folhas e analisa: Se eu tenho muitas, tantas, para quê preciso de todas? Posso emprestar, não é?

IV
Um Pedro que, aos 6 anos, é especialista em dinossauros. E desenha vários deles no quadro com caneta azul. E esclarece o nome de cada um. E diz que quer dar um presente para a professora: Vários desenhos de dinossauro que fará no final de semana. A professora sorri e sabe: Final de semana de garoto é coisa cara.

V
A menina tem apenas 7 anos e já pensa em namorar. E vê a professora jovem, cabelos imensos, olhos ágeis. E pergunta: Professora, você é casada? Não. Tem filhos? Não. Tem namorado? Não. É solteira? Sou. E a menina estranha: Ué, de quatro coisas, você é só uma?

VI
Os alunos dizem os bairros onde moram e querem disputar quem sabe mais o próprio endereço. Rua Içá, esqueci o número, não sei o bairro, rua Borborema, sei lá. E a professora escuta. Até que um menino louro conta vantagem: Eu tenho dois endereços: rua Içá e rua Ester de Lima. Fico na casa da minha mãe ou na casa do meu pai. Posso escolher. Outros vinte meninos dizem: Ah, se é assim, eu também tenho dois endereços!

VII
A professora entra na sala da primeira série. Descobre que alguns alunos ainda não sabem ler, outros não conhecem as letras cursivas, uma menina linda e estrábica não enxerga, um garoto chora porque perdeu o vidro de cola. Querem saber que aula a professora dará e ela diz: Literatura. Um garoto agitado no canto esquerdo exclama, assustado: O que é isso? Literatura? Parece o nome do meu bisavô!

VIII
A garota sai do fundo da sala e vem até a mesa da professora. Estaciona ao lado da mestra e mira o diário de classe. A professora levanta os olhos e pergunta, com o olhar, o que a menina deseja ali. A guria pergunta, mui seriamente: A senhora não vai receitar livro este mês?

IX
Os alunos têm aula de literatura. Aprendem as formas poéticas tradicionais, entre elas o haiku. De repente, três garotos começam a ler um soneto performaticamente. A professora assiste a tudo deleitando-se. Ao término do poema, os alunos pedem um haiku, mas já adiantam que não poderão dividi-lo em três.

X
As meninas com cadernos da Barbie dizem que os meninos são muito infantis.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 6/4/2005


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/4/2005
03h00min
O ensino da matematica sempre foi banalizado. Livros ruins, pedagogia pessima e ideias de gerico para explicar coisas simples... Um pouco como portugues, que no que depende das escolas que estudei, e uma materia execravel. Na verdade, escrever, imaginar, desenhar, criar esta tudo tao ligado 'a matematica como 'a literatura. E era isso que deveriamos aprender na escola. Pouca materia, mas como criar com ela. Nao um bando de equacoes ou uma apresentacao ultrapassada de estilos de literatura de forma seca e sacal... Quem sabe, bons livros em ambas areas ajudam, ne'? PS: So' para ter uma ideia, me fizeram ler Bruna Lombardi e varios Paulo Coelho na escola. Coisa obrigatoria.
[Leia outros Comentários de Ram]
6/4/2005
18h12min
Ana, lendo a sua crônica - como sempre muito pertinente - me recordei de uma entrevista de um professor de matemática não me lembro em qual programa. Nesta, ele reclamava dos colegas de profissão dizendo que muitos deles fazem da matéria um enigma de difícil acesso aos alunos [pobres mortais]. Para ele o que se ensinava de Matemática nos bancos escolares brasileiros não passava de superficialidades. E as críticas desse professor eram duras no sentido de prever um esvaziamento de interessados nos cursos superiores na área dos números. Gostaria de saber a real razão para essa constatação. O que será que os professores de Matemática do Brasil querem esconder do mundo?
[Leia outros Comentários de Marco Garcia]
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