Alívios diamantinos | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
71522 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 9/8/2006
Alívios diamantinos
Ana Elisa Ribeiro

+ de 2900 Acessos
+ 7 Comentário(s)

Ouvi a manhã. Era tão diferente do batente da capital, que eu ouvi a manhã. Ela tinha, assim, um som de folhas misturado com certo cheiro de mato. Mas também não era bem isso, nem só isso. Tinha céu aberto, de um azul quase inexprimível. Além disso, as pedras imensas faziam as vezes de montanhas milenares e delas também exalava um cheiro de dureza histórica.

Ao ouvir a manhã, atentei logo para as cores. O céu aparecia bem acima do telhado. Pela fresta atrás das cortinas, visualizei o dia. Amplo como os dias na cidade não costumam ser. Os tempos e os intervalos todos tão diversos. Tão comparativamente outros. Outrossim. Anotei na agenda: não precisarei de você. Parti.

O café, com leite e frutas, era servido num salão de onde se divisava um imenso arredor de pedra. Uns o chamavam montanha, outros, Diamantina, outros ainda diziam Cruzeiro. Lá no alto, bem em cima, uma cruz revelava a altura.

Daqui se vê o segundo pico mais alto de Minas. A segunda cidade mais alta do Brasil. O primeiro vestígio desta vida de fugazes. O suco e o açúcar pareciam lentos. A porta aberta se transformava numa varanda aberta, como as que Oscar Niemeyer gostava de planejar. O limpo, a curva, o seco. E eu. Vendo as árvores retorcidas da paisagem amarelada. Em alguns lugares, o fogo havia lambido as mechas, restaram sombras pretas. Carlos Herculano Lopes, escritor das Gerais, me dizia, de dentro do ônibus: coitado do gado, por aqui o fogo acabou de passar. E os bois fingiam mascar chicletes.

De dez às doze eram horas amenas. De doze às quatorze, o atípico horário de almoço. De então para agora, o entardecer vagaroso dos altos de Minas. A escola, ao lado a botique, ao lado a lanchonete, ao lado a padaria, o Banco do Brasil, a curva, a descida, o mercado velho ao largo, o restaurante. Por acaso, almocei no Apocalipse. Queria ali um suflê de fim de mundo. Nem precisou. Atrás do prato com folhas e relvas, divisei, novamente, a varanda. Por trás dela, um horizonte de pedra, mas agora em pose diversa da sacada do hotel. Comi santificada. O tempo mugia. Era lento como um chuvisco. As duas horas de almoço, que na capital têm sentido de distância e de correria, pareciam uma tarde inteira.

A volta foi constante. Velocidade de caracol. Lojinhas, do outro lado o casaco, do outro, o cachecol. De dia, sol quente. De noite, intemperanças. Diamantina faz frio, mas só quando a noite se veste de padre. Até soneca pós-prandial teve gente que fez. Preferi passear pelos paralelepípedos históricos, catedral, Chica da Silva, apreensiva com os beirais, querendo comprar ímãs e pés de moleque. Inconstei por uns tempos. Bolo, chocolate de inverno, xícara quente, vapor, banho pelando. Diamantina favorece as horas. Escamoteei o retorno ao trabalho, mas nem precisava. Às quatorze em ponto eu estava lá, como se fosse precisa. Na capital, esses minutos são diamantes. Parecem dinheiro, quando vistos de perto. Em Diamantina, os minutos são eles mesmos, sem tirar nem pôr.

A tarde passou muda. Assim, como quem caminha ao lado. Nem pompa, nem relógios de parede. Fizemos poesia por horas a fio. Cada verso, uma tonteira boa. Às dezessete horas ainda era dia. Cheiro de chá. Nem o lanche parecia ter a pressa dos desafortunados. Diz Maria, poeta aposentada, que Diamantina é lenta. Não acho. Diamantina é o tempo. A capital é que avança sem terminar de acontecer as coisas. E a gente vai junto, envelhece antes do necessário.

Às dezoito é hora do pão de queijo, do queijo só. Talvez um banho, a tevê, os ares da noite querendo esfriar. O casaco rosa espera em cima da cama. O cobertor faz diferença. Banho daqueles que nublam o espelho. Toalha. No lugar das buzinas histéricas, dos cheiros de gás, toca um sino. O sino da igreja matriz. Toca várias vezes. Eu me surpreendo. Nem há carros na rua. Nem pessoas atravessam fora da faixa. Nem é hora de correr pelas avenidas. É hora de ouvir o sino, a Ave Maria e do pão quente.

Anoitece. E é hora de Jorge chegar com o coração cheio de flores. E me dá-las todas, dizer que nasceram sozinhas, que foram cultivadas durante a viagem, com o sol da estrada, e que não morrerão jamais. E eu acredito. Tomar caldo quente, fumegar nossos olhos, dormir como anjos diamantinos.

Série diamantina

I
Diamantina foi cravada
na pele
de uma montanha

II
Dia de calor
Noite de frio
Diamantina tem
temperamentos

III
Alinhavo árvores
nas montanhas
para alcançar
o céu de julho

IV
Lua e Sol, daqui,
não me parecem inimigos
Diamantina tece contrários

V
Imagens, retratos, palavras:
Álbum de alívios
diamantinos

VI
desci a rua
ladeira, altitude
até minha respiração
garimpou pedras preciosas

VII
almoce no Apocalipse
e experimente o suflê
de fim de mundo

Festival

ainda não ouvi pássaros
cantarem em coro
talvez estejam em oficinas


Ana Elisa Ribeiro
Diamantina, 9/8/2006


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Escrevendo com o inimigo de Ana Elisa Ribeiro
02. Sobre as ilusões perdidas de Fabio Silvestre Cardoso


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2006
01. Digite seu nome no Google - 8/3/2006
02. Eu não uso brincos - 27/9/2006
03. Não quero encontrar você no Orkut - 8/2/2006
04. Poesia para os ouvidos e futebol de perebas - 7/6/2006
05. Ex-míope ou ficção científica? - 20/12/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/8/2006
02h14min
"...Diamantina é o Beco do Mota/ Minas é o Beco do Mota/ Brasil é o Beco do Mota/ viva meu país..." Belo texto, Ana.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
9/8/2006
05h58min
Quando temos uma ligação com alguma cidade do interior, só guardamos as boas lembranças e sensações. É tudo o que tenho da cidadezinha de meus avós paternos. Quando vou pra lá, até engordar em engordo! Tudo é diferente. O gosto da comida, da água, o ar, tudo. Em Diamantina não deve ser diferente. E pelo texto da Ana, quem não conhece a cidade, fica doido pra conhecer.
[Leia outros Comentários de Rafael Rodrigues]
9/8/2006
12h10min
Muitos anos distante de minha cidade natal, sinto-me recompensado pelo seu texto. É como se estivesse novamente subindo curvado àquelas ladeiras, com os olhos no formato das pedras em que pisava. Diamantina é uma cidade cravada em minha memória.
[Leia outros Comentários de Rodrigo L Caldeira]
9/8/2006
22h06min
Ana Elisa, você arrasou! Amei! Tô com mais vontade ainda de ir a Diamantina...
[Leia outros Comentários de Áurea Thomazi]
12/8/2006
14h28min
Ana, seu texto sobre Diamantina é uma delícia. Acho que todo mundo deveria ir a Diamantina pelo menos uma vez na vida (como os mulçumanos vão a Meca...). Você tem razão: o tempo em Diamantina é real (dá tempo de apreciar os madornentos rebanhos de nuvens no céu, na hora de sol a pique, escutar o coro da passarada à tarde - se não estiverem em oficinas - e ouvir estrelas à noite). Um beijão da aluna, Beatriz
[Leia outros Comentários de Beatriz Sampaio]
13/8/2006
17h57min
Lindo texto. Poesia pura, nem foi preciso chegar aos versos. Acho que tô precisando de um tempo assim diamantino... Abraços
[Leia outros Comentários de Matheus]
14/8/2006
16h06min
Ana Elisa
rara poeta
entre flores
diamantes/diamantinos
diamantido
nesse tecer
alvos
nesse rever
algo
[Leia outros Comentários de André Balbino ]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




DINAMICA DE GRUPOS Y EDUCACION
CIRIGLIANO-VILLAVERDE (6ª EDICION)
EDITORIAL HUMANITAS
(1973)
R$ 12,82



A MORTE DA MÃE E OS CURUMINS-GNOMOS DO BRASIL
FRANCIS BELTRAMMI
AGEL
(2012)
R$ 9,90



1791 LULTIMO ANNO DI MOZART
H.. C. ROBBINS LANDON
GARZANTI
(1989)
R$ 30,00



VIAGENS À MINHA TERRA
ALMEIDA GARRET
MARTIN CLARET
(2003)
R$ 8,00



AS FORMAS DO SENTIDO
MONCLAR VALVERDE
DP&A
(2003)
R$ 20,00



A BATALHA DAS RAINHAS VOLUME 5 DA SAGA PLANTAGENETA
JEAN PLAIDY
BESTBOLSO
(2008)
R$ 10,98



A INSTRUÇÃO INDIVIDUALIZADA NA ESCOLA
NORMAN E. GRONLUND
PIONEIRA
(1979)
R$ 12,00



A CASA VELHA: UMA REALIDADE OU UMA FICÇÃO?
RUTH LOPES DA CRUZ MAGNANINI
LIVRE EXPRESSÃO
(2013)
R$ 19,28



OS TRAMPOLINEIROS
PABLO VIERCI
RECORD
(1979)
R$ 10,00



REVISTA DE ENGENHARIA ESTUDO E PESQUISA VOL 2
EMIL DE SOUZA SÁNCHEZ FILHO / MARIA TERESA GOMES
UFJF
(1998)
R$ 15,00





busca | avançada
71522 visitas/dia
1,4 milhão/mês