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Quinta-feira, 3/4/2008
Onde os fracos têm vez
Luiz Rebinski Junior

+ de 3000 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Ao refletir sobre o fazer literário em O escritor e seus fantasmas, o argentino Ernesto Sabato diz que "a literatura não é um passatempo nem uma evasão, mas uma maneira ― talvez a mais completa e profunda ― de examinar a condição humana". Seja em maior ou menor grau, todo escritor está sempre questionando os valores que aparentemente dão sentido à vida e tentando entender o absurdo da existência.

Na seleta lista de escritores que dedicaram a vida a entender a complexidade humana, com certeza Samuel Beckett (1906-1989) é um nome de destaque. Conhecido por sua obra teatral, principalmente pelo clássico Esperando Godot, Beckett acaba de ganhar uma nova e caprichada edição de seu romance Molloy (Editora Globo, 2008, 264 págs). O livro faz parte da chamada "trilogia do pós-guerra", que inclui ainda Malone Morre e O Inominável, e traz o mesmo pessimismo sombrio de seus escritos dramáticos.

Publicado em 1951 ― um ano antes de Esperando Godot, peça que ofuscaria sua produção romanesca ―, Molloy vai fundo na idéia de que a linguagem é incapaz de dar conta da realidade. Tal conceito permeará toda a obra de Beckett e se tornará uma espécie de marca de sua literatura, seja no romance ou no teatro. A essa anti-linguagem, cheia de cortes abruptos, parágrafos intermináveis e elipses, Beckett adiciona personagens desgraçados, sem destino e que vagam em torno de suas próprias elucubrações e sonhos.

A incerteza crônica que arrebata os personagens sustentará a negação de uma linguagem real e minimamente linear, o que fica logo evidente no primeiro parágrafo do livro, quando Molloy, o narrador-personagem, encontra-se na cama de sua mãe, mas não sabe exatamente como e quando chegou ali ― o mote inicial remete de imediato ao outro título da trilogia, Malone Morre, também publicado em 1951, em que o personagem principal, um velho decrépito da mesma linhagem de Molloy, agoniza em uma cama entre pensamentos oníricos e devaneios.

"Estou no quarto de minha mãe. Sou eu que moro lá agora. Não sei como cheguei lá. Numa ambulância talvez, num veículo qualquer certamente. Me ajudaram. Sozinho não teria chegado. Esse homem que vem toda semana, é talvez graças a ele que estou aqui. Ele diz que não."

Esse é o ponto de partida para que, em uma narrativa desconexa e cheia de idas e vindas, Molloy tente entender a sua própria condição. No romance não há definição de tempo/espaço: Molloy está enfermo no quarto de sua mãe, em seguida vaga com sua bicicleta, é preso, desacata uma assistente social que tenta lhe amparar e manca sem destino com suas inseparáveis muletas.

Os cortes narrativos são abruptos e inesperados, mas atuam, sempre, como parte da anti-linguagem empreendida por Beckett. As pequenas histórias que entrecortam a narrativa desaparecem com a mesma facilidade que começam a serem contadas. Dono de uma prosa incomum, cheia de ruídos, Beckett aparentemente é um escritor hermético e sombrio, o que em grande parte é verdadeiro. Mas é também um autor atraente, que convida o leitor a fazer parte dos delírios de seus personagens, mais ou menos como Cortázar faz em seus contos.

Ler Beckett é, antes de tudo, fazer escolhas: pode-se desistir da narrativa dura e tortuosa aos primeiros percalços ou abraçá-la, entrando de cabeça no espiral de acontecimentos que os monólogos "beckettianos" sugerem. A quem decidir encarar o texto há uma recompensa intelectual imensurável que, assim como na narrativa de Beckett, a linguagem pura e simples não dá conta de explicar.

Assim como em Esperando Godot, em que dois homens esperam (sem saber o porquê) pelo personagem do título da peça, em Molloy o caráter enigmático do texto também atrai. E a segunda parte do livro aguça ainda mais a dúvida do leitor. Narrado agora por um homem chamado Moran, que tem a incumbência de achar e vigiar Molloy, o livro adquire um tom bem mais ameno do ponto de vista da linearidade dos fatos. Mas é algo que não perdura. Logo a narrativa ganha contornos inusitados e o aparentemente sóbrio Moran perde-se na tentativa de encontrar (ainda que não saiba como) Molloy.

Em um dos trechos da segunda seção, ao descrever um visitante que chega a seu acampamento, Moran diz: "Vou ser obrigado a descrevê-lo sucintamente, embora isso seja contra os meus princípios". Aí não é Moran quem fala, mas sim um Beckett satírico que desdenha as formas de linguagem tradicionais.

As duas partes do livro, aparentemente sem muita conexão lógica, deram margem para que surgissem várias hipóteses sobre a relação entre Molloy e Moran. No entanto, no ótimo prefácio que acompanha a edição, a tradutora Ana Helena Souza, citando Wolfgang Iser, adverte que "querer que citações mais ou menos claras de Homero e Dante, Descartes e seu discípulo belga Geulincx, entre outros, possam indicar um caminho único ou privilegiado para a leitura do livro, é incorrer em erro equivalente ao de querer ver em Moran e Molloy o mesmo personagem".

Assim como Kafka, um judeu nascido na República Tcheca que escrevia em alemão, Beckett foi um homem sem lugar no mundo. Irlandês, escreveu seus primeiros trabalhos em inglês para depois adotar o francês como língua preferencial. Como a literatura de Franz Kafka, os escritos de Beckett estão impregnados por esse sentimento de estranheza. Escritor inserido no contexto do pós-guerra, Beckett fala sobre um mundo destroçado, em que não há mais ilusões e onde a arte talvez seja o único caminho a trilhar em meio ao caos e a escuridão. Daí Beckett ser uma fonte inesgotável de personagens solitários, imersos em crises que arrebatam a alma e o corpo. Beckett não é importante por ser um escritor que "escreve bem" ― pelo menos não no sentido mais raso que a expressão pode sugerir. O que atrai em Beckett é a incomunicabilidade de seus diálogos, a angústia de seus personagens e o niilismo crônico que, por mais contraditório que pareça, sugere um fio de esperança ao leitor. Molloy revela um pouco de tudo o que Beckett escreveu, um escritor polifônico que trafegou pelo romance, teatro, ensaio, poesia e até pela improvável televisão.

Para ir além






Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 3/4/2008


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/4/2008
12h14min
Magnífica a sua descrição. Parabéns! Quando observamos a frase dita por Ernesto Sabato ("a literatura não é um passatempo nem uma evasão, mas uma maneira - talvez a mais completa e profunda - de examinar a condição humana"), ele está totalmente certo; e cabe lembrar que a contribuição da mulher, e também das minorias, para a literatura já pode ser observada. Escrever sobre uma coisa é mais fácil do que aplicá-la, e a aplicação de um princípio literário é particularmente difícil quando o corpo da literatura está constante e rapidamente engrandecendo.
[Leia outros Comentários de Milton Laene Araujo]
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