Recortes da paisagem: a fotografia de Rei Santos | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
58445 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Céu se apresenta no Sesc Guarulhos
>>> Projetos culturais e acessibilidade em arte-educação em cursos gratuitos
>>> Indígenas é tema de exposição de Dani Sandrini no SESI Itapetininga
>>> SESI A.E. Carvalho recebe As Conchambranças de Quaderna, de Suassuna, em sessões gratuitas
>>> Sesc Belenzinho recebe cantora brasiliense Janine Mathias
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Mamãe falhei
>>> Sobre a literatura de Evando Nascimento
>>> Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
>>> G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
>>> O último estudante-soldado na rota Lisboa-Cabul
Colunistas
Últimos Posts
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
>>> Trader, investidor ou buy and hold?
>>> Slayer no Monsters of Rock (1998)
>>> Por que investir no Twitter (TWTR34)
>>> Como declarar ações no IR
Últimos Posts
>>> Asas de Ícaro
>>> Auto estima
>>> Jazz: 10 músicas para começar
>>> THE END
>>> Somos todos venturosos
>>> Por que eu?
>>> Dizer, não é ser
>>> A Caixa de Brinquedos
>>> Nosferatu 100 anos e o infamiliar em nós*
>>> Sexta-feira santa de Jesus Cristo.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Um conto-resenha anacrônico
>>> A concisão dos meus poemas
>>> 13 de Novembro #digestivo10anos
>>> O altar das montanhas de Minas
>>> Dez obras da literatura latino-americana
>>> Prelúdio, de Júlio Medaglia
>>> Soul Bossa Nova
>>> Bill & Melinda Gates #Code2016
>>> A proposta libertária
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
Mais Recentes
>>> Coleção Harvard de Administração 19 de Vários pela Nova Cultural (1986)
>>> Globo de Bolso - aos Meus Amigos de Maria Adelaide Amaral pela Globo Antigo (2009)
>>> 1001 Maneiras de Premiar seus Colaboradores de Bob Nelson pela Sextante (2007)
>>> Brazil in United Nations 1946-2011 de Luyis Felipe de Seixas Corrêa ( Org.) pela Fundação Alexandre de Gusmão (2013)
>>> O Segredo de Chimneys de Agatha Christie pela Círculo do Livro
>>> Verdades Devem Ser Ditas ? ! de Marcio Marino pela All Print (2009)
>>> Fabricação Classe Universal de Richard J. Schonberger pela Futura (1997)
>>> O Livro dos Viloes de Carina Rissi; Diana Peterfreund; Ryta Vinagre pela Galera Record (2014)
>>> Sincronismo Organizacional: Como Alinhar a Estrategia os Processos e As Pessoas de Paulo Rocha pela Saraiva (2006)
>>> Lira Largada ao Vento de Marina Stella Quirino Marchini pela Roswitha Kempf (1985)
>>> O Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTbT): perspectivas para sua entrada em vigor e para a atuação diplomática brasileira de Maria Feliciana Nunes Ortigão de Sampaio pela Fundação Alexandre de Gusmão (2012)
>>> 3ds Max 8. Guia Autorizado Autodesk de Vários Autores pela Elsevier (2006)
>>> Sinal Verde de Francisco Cândido Xavier pela Cec (2003)
>>> A Única Coisa Que Importa de Karl Albrecht pela Thomson Pioneira (1997)
>>> Buriti Ciencias Historia e Geografia 2º Ano Fundamental Professor de Vários Autores pela Moderna (2017)
>>> O Que Acontece Com o Trabalho? de Ladislau Dowbor pela Senac São Paulo (2002)
>>> Gregor e a Profecia de Sangue Vol 3 de Suzanne Collins pela Galera Record (2011)
>>> O Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec pela Lake (2005)
>>> Coleção Harvard de Administração - 2 de Vários Autores pela Nova Cultural (1987)
>>> Minha Guerra Particular de Masuda Sultan pela Nova Fronteira (2006)
>>> Programa do Livro-Texto 63 Contabilidade de Alessanda Cristina Fahl e outros pela Anhanguera Educacional, Pearson (2008)
>>> Os sertões e os desertos: o combate à desertificação e a política externa brasileira de André Heráclio do Rêgo pela Fundação Alexandre de Gusmão (2012)
>>> Mastering Data Mining de Michael J. A. Berry pela Wiley (1999)
>>> Girls Who Gossip - as Patricinhas Contra-atacam de Theresa Alan pela Bertrand Brasil (2008)
>>> 02 Neurônio Almanaque para Garotas Calientes de Jô Hallack; Nina Lemos; Raq Affonso pela Conrad Livros (1999)
COLUNAS

Terça-feira, 16/12/2008
Recortes da paisagem: a fotografia de Rei Santos
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3900 Acessos

"Talvez ele ame o edifício apenas à distância e nunca de perto; talvez ele ame apenas criá-lo, e não viver nele." (Dostoiévski)

A arte moderna esfacelou a realidade quebrando o espelho que buscava refleti-la para mostrar que, se existe a possibilidade de alguma forma de composição, que esta seja montada com os cacos que sobraram do espelho destruído. Exemplos desse tipo de arte se encontram nas obras de Picasso (Guernica), Stravinsky (A sagração da primavera), James Joyce (Finnegans Wake), Man Ray (foto-montagens), Gertrude Stein (romances cubistas), Eisenstein (O encouraçado Potenkin), para ficar apenas com alguns nobres exemplos.

A famosa frase de Marx "Tudo o que é sólido desmancha no ar" se tornou pedra de toque para se entender a modernidade. A idéia da totalidade tornou-se conceitualmente inviável e com ela também qualquer tentativa de construção metafísica a partir da investigação do "real".

O que há de mais radial do que pôr em xeque aquilo que funda a própria existência da linguagem da arte, isto é, o mecanismo analógico de vinculação entre imagem e realidade?

Entre artista e realidade circunstancial interpõe-se a partir das experiências modernistas a própria estrutura da linguagem, sendo esta a única forma de realidade que importa ao criador.

A obra de Rei Santos, uma coleção de fotos que ele chama de Recortes da paisagem, talvez nos faça pensar no tipo de imagem que um artista pode ainda fazer da cidade a partir de uma experiência artística moderna.

A palavra "Recortes" funciona como "cortar", no sentido mesmo de separar uma parte do todo através de incisões; no caso da fotografia, de enquadramento de partes. E é partindo dessa noção que o artista constrói um espaço em que a linguagem não oferece transparência imediata: o significado das fotos talvez resida justamente no obscurecimento das relações entre imagem e referentes circunstanciais.

Rei tem um olhar particularmente fértil quando se trata de cortar pedaços da cidade e encontrar nestes cortes um grau máximo de relações possíveis. Relações formais, diga-se de passagem. São linhas que se encontram com volumes, são cores que se interligam a desenhos espaço-geométricos e são luzes que dialogam com todas as possibilidades formais de objetos ou estruturas arquitetônicas.

A importância atribuída às relações concretas mensuráveis que existem entre os objetos aparentemente distanciados e estranhos uns aos outros, o saber que as linhas não definem apenas o limite das superfícies contínuas, mas que a interseção dos planos se prolonga e projeta no vazio, dando-lhe forma, constitui, decerto, o princípio dessa fotografia.

O motivo inicial das fotografias de Rei Santos é a cidade. Mas apenas inicialmente. A transfiguração fotográfica, definida pelas escolhas dos cortes, anula qualquer idéia de retrato da cidade. Não há dúvida nesse sentido: se existe uma arquitetura nestas fotos é a arquitetura das formas relacionadas entre si, numa busca de um equilíbrio bem diferente e indiferente ao desequilíbrio da própria cidade.

A ausência conquistada da cidade pela linguagem é sua presença exilada na forma da geometria. A cidade se perdeu (desapareceu da obra), mas foi conquistada pela cidadania da arte, tornando-se, através dos recortes, forma pura.

Segundo Paulo César Boni, "se engana quem pensa que ele é apenas mais um 'fotógrafo de prédios'. Rei é um misto de ciência e poesia. Para seu lado ciência, busca embasamento teórico em estudiosos de cidades, como Gordon Cullen, Italo Calvino, Kevin Lynch e Nelson Brissac Peixoto, e em fotógrafos da paisagem urbana, como Cristiano Mascaro, Eugène Atget, José Yalenti e Paulo Pires. Para o lado poesia, faz flâneurs pela cidade, olhando para o alto, para os lados, para frente e para trás, num exercício constante de novos olhares. A sisudez da pesquisa e a leveza do flâneur contribuíram, respectivamente, para a seriedade e a criatividade de seu trabalho: 'Confesso que, quando comecei a desviar o meu olhar fora do eixo visual comum (horizontal/vertical), deparei-me com um mundo riquíssimo de formas e perspectivas incontempláveis ao modo cartesiano de ver'.".

Ficamos imaginando como o fotógrafo andarilho percorre a cidade em busca de uma coisa quase que invisível aos olhos dos passantes distraídos. Só ele, o artista, como um flâneur, livre do tempo do trabalho, no ócio criativo de sua contemplação, passeia os olhos sobre os detalhes mínimos que configuram geometrias insuspeitadas, percebidas através das relações entre ferro, cimento, cor, linhas e luz.

Só seu olhar corre vertiginoso como a própria geometria que observa. E o registro desta espacialidade virtual é, enfim, revelada para o espectador pelas lentes de sua seletiva câmera. Da tranqüilidade de uma linha reta que se firma sobre um muro ao desvario de sinais de trânsito que dialogam com um céu profundo cortado por fios elétricos, da abertura de janelas até as cores de paredes que modulam composições geométricas de rara beleza, de jogos de cores captados em paredes que mais parecem telas de Mondrian, de sínteses minimalistas e traços singelos de estruturas de ferro... de tais elementos se compõem as fotos que são possibilidades de encontros entre espectador e imagens registradas/recolhidas pela sensibilidade de Rei Santos.

Na contracorrente de uma arte desnorteada, assimétrica, angustiada, como a dos primeiros modernistas, Rei Santos elabora uma utopia da forma equilibrada, harmônica, único lugar onde a cidade pode ser ainda percebida como possibilidade de segurança.

A cidade moderna é um grande labirinto e "o que denominamos caminho dentro dessa cidade não passa de vacilação" (Kafka). Contra essa cidade, Rei Santos estabelece outra, virtualmente organizada, segundo regras de relações possíveis entre formas e objetos, cidade ancorada na linguagem da arte, lugar máximo da experiência universal.

Para ir além
Rei Santos mantém uma exposição virtual de Recortes da paisagem no seu Orkut. Vale a pena conferir.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 16/12/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Quase cinquenta de Marta Barcellos
02. O Guia Prático do Português Correto da L&PM de Marcelo Spalding


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2008
01. Quem destruiu Anita Malfatti? - 16/9/2008
02. Escrevo deus com letra minúscula - 5/3/2008
03. Arthur Bispo do Rosário, Rei dos Reis - 11/11/2008
04. Evidências do Nada: a poesia de Paulo Ferraz - 1/1/2008
05. Jogos olímpicos na China - 2/9/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Uma Sombra Em Ação - Col. Girassol
Flavia Muniz
Moderna
(1994)



Geografia Ilustrada França Volume 5
Roberto Civita
Abril Cultural
(1971)



Uma Verdade Inconveniente
Albert Gore
Manole
(2006)



Organization Theory: a Strategic Approach
B. J. Hodge
Prentice Hall
(2002)



Fundamentos da Doutrina Espírita
Jose Benevides Cavalcante
Eme
(2011)



A Semente da Vitória
Nini Cobra
Senac
(2002)



Mickey Nº 808
Walt Disney
Abril
(2010)



Cultive o Bom Humor 18 Indicações Práticas
Luiz Miguel Duarte
Paulus
(2001)



O Guarani
José de Alencar
Martin Claret
(1999)



40 Escritos
Arnaldo Antunes
Iluminuras
(2015)





busca | avançada
58445 visitas/dia
1,8 milhão/mês