Aranhas e missangas na Moçambique de Mia Couto | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
72073 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Poeta paulista lança “O que habita inabitáveis lugares” abordando as relações humanas durante a pand
>>> Biografias e Microrroteiros do Parque
>>> MONUMENTOS NA ARTE: O OBJETO ESCULTÓRICO E A CRISE ESTÉTICA DA REPRESENTAÇÃO
>>> Cia Triptal faz ensaios abertos para Pedreira das Almas, de Jorge Andrade
>>> Integridade Garantida, peça de Alberto Santoz sobre violência urbana, estreia no Cacilda Becker
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Quando o virtual cai na real
>>> Um Amor Anarquista
>>> ego shots fazem bem à saúde
>>> Curso de Criação Literária
>>> O Sol é Para Todos
>>> Entrevista com Miguel Sanches Neto
>>> De volta às férias I
>>> Píramo e Tisbe
>>> A Última Ceia de Leonardo da Vinci
>>> O Desprezo de Alberto Moravia e Jean-Luc Godard
Mais Recentes
>>> Almas de lama e de aço de Gustavo Barroso pela Abc (2012)
>>> Civilização E Barbárie N'Os Sertões: Entre Domingo Faustino Sarmiento E Euclides Da Cunha de Miriam V Gárate pela Fapesp (2001)
>>> Herois E Bandidos - Os Cangaceiros Do Nordeste de Gustavo Barroso pela Abc (2012)
>>> O Cabeleira de Franklin Távora pela Abc (2021)
>>> Recados da Vida de Francisco Cândido Xavier - Autores Diversos pela Geem (1983)
>>> O Silêncio das Montanhas de Khaled Hosseini pela Globo Livros (2013)
>>> Novas Mensagens de Francisco Cândido Xavier pela Feb (1987)
>>> Bellini e o Demônio de Tony Bellotto pela Companhia das Letras (1997)
>>> O Problema do Ser, do Destino e da Dor de Léon Denis pela Feb (1999)
>>> Energia Elétrica e Integração na América do Sul de Ligia Maria Martins Cabral pela Centro da Memória da Eletric (2004)
>>> Sylvio Pinto. 55 anos de pintura de José Maria Carneiro pela Rbm (1993)
>>> Jornal Nacional - Modo de Fazer de William Bonner pela Globo (2008)
>>> Design sem Fronteiras: a Relação Entre o Nomadismo e a Sustentabilidade de Lara Leite Barbosa pela Edusp (2012)
>>> Dicionário de sociologia: Guia prático da linguagem sociológica de Allan Johnson pela Jorge Zahar (1997)
>>> Quando fui outro de Fernando Pessoa pela Alfaguara (2006)
>>> Neve de Orhan Pamuk pela Companhia das Letras (2006)
>>> Português Alemão Português Vocabulário Básico de Curso de Idiomas Globo pela Globo (1991)
>>> Os espiões de Luis Fernando Verissimo pela Alfaguara (2009)
>>> Minidicionário Alemão Português Portugues Alemão de Erich Ronald Zwickau pela Edelbra
>>> Dicionário Inglês Português - Português Inglês de Liege Maria de Souza Marucci pela Bicho Esperto (2012)
>>> Morrer de Prazer de Ruy Castro pela Foz (2013)
>>> Ponto de Impacto de Dan Brown pela Sextante (2005)
>>> Par Ou Ímpar - Vivendo a Matemática de José Jakubovic pela Scipione (1992)
>>> The Brothers Karamazov de Fyodor Dostoyevsky pela University of Chicago (1989)
>>> Capítulos de História Colonial 1500-1800 de J. Capistrano de Abreu pela Publifolha (2000)
COLUNAS

Quinta-feira, 6/8/2009
Aranhas e missangas na Moçambique de Mia Couto
Marcelo Spalding

+ de 10000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Mia Couto não é o melhor escritor africano de língua portuguesa, nem o mais político, nem o mais original, mas talvez seja o mais clássico, o mais requintado, o mais festejado deles. Autor de obra sólida, personalidade literária, postura europeia e temática contemporânea, é nome pronto para ganhar o Prêmio Camões, destinado a escritores de língua portuguesa (e não me surpreenderia se chegasse ao Nobel).

Muito já foi dito e escrito sobre Mia Couto no Brasil, e mesmo aqui no Digestivo. O melhor é a entrevista concedida a Elisa Andrade Buzzo, mas tem também uma singela resenha que escrevi sobre seu romance O outro pé da sereia, publicado em 2006. Entretanto, como a produção de Mia é vasta, e como por vezes demora um pouco para desembarcar no Brasil, muito se tem ainda para ler de e se escrever sobre Mia Couto.

O fio das missangas (Companhia das Letras, 2009, 146 págs.) é um desses livros que demoraram para atravessar o oceano e ser editado por uma editora brasileira. Publicado pela Editora Caminho em 2003, traz 29 contos curtos entrelaçados tal qual miçangas (não por acaso o título). Mas dessa obra não se pode dizer o que sempre se diz de obras de escritores africanos, que busca ou marca identidades, que denuncia desigualdades e opressões, que transmite pelas palavras a cultura tão diferente do povo africano. Não, dessa vez a Moçambique de Mia Couto é representada por histórias contemporâneas, familiares, conflitos que bem poderiam se passar em cidades do Brasil, de Portugal ou da França.

Sem abrir mão da linguagem que o consagrou (chamada pelos editores de "poética", mas que bem poderia ser definida como "deslizante" ou "deliciosa") e de algumas referências a termos moçambicanos, Mia produz contos quase crônicas, partindo de singelos episódios diários, familiares, para temas e conflitos universais como o afeto, o desgosto, a compaixão, a cumplicidade.

Em "O cesto", uma mulher aguarda com certa ansiedade e pressa a morte do marido, que agoniza no hospital, até que ele morre e a viúva nos revela, em sua narrativa, que "ao contrário de um alívio, me acontece o desabar do relâmpago sem chão onde tombar. Em lugar do queixo altivo, do passo estudado, eu me desalinho em pranto. Regresso a casa, passo desgrenhado, em solitário cortejo pela rua fúnebre. (...) Amanhã, tenho que me lembrar para não preparar o cesto da visita".

Noutro conto, "Na tal noite", um narrador em terceira pessoa conta a visita anual de Sidónio Vidas, um episódico esposo, que na noite de Natal chega cada vez mais rico e com cada vez menos presentes para os dois filhos. Conversam, ele vai embora cedo e logo chega o vizinho, senhor Alves, ao que a mãe lembra os filhos, como o fizera na chegada de Sidónio: "já sabem: ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!".

A cumplicidade está presente também em "Mana Celulina, a esferográvida", conto que sugere um incesto, narrado pelo homem que assiste sua irmã, a "completamente grávida" Celulina, chorar enquanto o pai ameaça determinado rapaz, acusando-o da desonra. No final, "ninguém notou o piscar de olhos que ela me dirigiu, em cúmplice ternura".

Nesse rol de temas familiares tem espaço para o futebol, em "A carta de Ronaldinho" e "O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial"; para a depressão, em "O rio das Quatro Luzes"; para a questão racial, em "O novo padre"; e até para a poesia, em "O menino que escrevia versos".

Mas dois contos merecem especial atenção, um pela atualidade do tema proposto e outro pela originalidade da forma com que propõe um tema antigo.

"O dono do cão do homem" inicia assim: "conto-vos como fui traído não pela minha amada, mas pelo meu cão". A história começa com a narrativa de um singelo passeio: "Aos fins da tarde, eu o levava a passear. Isto é: ele me arrastava na trela. Bonifácio é que escolhia os atalhos, as paragens, a velocidade. E houve vezes que, para não dar inconveniências, eu me rebaixei a ponto de lhe recolher o fedorente cocó". Mas a pergunta seguinte desencadeia a inversão de papéis ― e valores ― proposta pelo conto: "Prestei tal deferência a meus próprios filhos?". Mais do que isso, o narrador dirá: "Quando me notavam era por acidente ou por acréscimo. Eu, humildemente eu, na outra extremidade da trela. Eu, o atrelado, de simples raça humana, sem prova de pureza. O meu cão, senhor e dono, estava acima dos verbos animais".

O final do conto não vem ao caso, é uma espécie de inversão física dos papéis entre o cão e o homem, mas a própria abordagem de tema tão cotidiano e tão pertinente já vale a referência. E não temos aqui clichês pró ou contra os cães, o narrador reconhece a conquista de espaço dos animais, os admira, mas talvez com lucidez exagerada percebe nessa conquista uma perda de espaço dos humanos. E quem já não se sentiu assim passeando com um belo exemplar canino por um parque?

Já "A infinita fiadeira" retoma o feitio de fábula para contar a história de uma aranha que se recusava a ser como as outras: "Não faço teia por instinto", dizia, "faço por arte". Os pais, naturalmente, ficaram muito desiludidos e foram falar com o Deus dos bichos para que tomasse uma solução, e "num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa". O fecho da fábula merece ser transcrito na íntegra:

"Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?

― Faço arte.
― Arte?

E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos ― chamados de obras de arte ― tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece."

E assim saúdo que Mia Couto seja uma espécie de ranha, não mais luso-africana, moçambicana ou da língua portuguesa, mas uma aranha de voz universal. Até porque temos cada vez menos cérebros talentosos teimando em criar esses pouco rentáveis produtos.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 6/8/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Cuba e O Direito de Amar (3) de Marilia Mota Silva
02. Paisagem interna agreste de Elisa Andrade Buzzo
03. Brasil, o buraco é mais embaixo de Luís Fernando Amâncio
04. O Olhar das Bruxas: Quatro Versões de 'Macbeth' de Duanne Ribeiro
05. Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte II) de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2009
01. Quanto custa rechear seu Currículo Lattes - 5/3/2009
02. O melhor da década na literatura brasileira: prosa - 31/12/2009
03. Literatura para quê? - 17/12/2009
04. Literatura e interatividade: os ciberpoemas - 10/9/2009
05. Era uma vez o conto de fadas - 2/4/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/8/2009
21h31min
Mia Couto, assim como Manuel Rui, são excelentes escritores que o Brasil precisa começar a ler. Ainda mais agora que todos falam na questão da africanidade, na diáspora africana que brilha no mundo todo, desde a Inglaterra, os Estados Unidos, o Brasil e outros países, e entender sempre que no Atlântico não circulou apenas corpos humanos, mas sim pensamentos, filosofias, cérebros, magias, e ternuras sem fim.
[Leia outros Comentários de manoel messias perei]
9/8/2009
10h09min
Dizem que teimosia é uma característica inconveniente. Será que chegará o tempo em que todos os cérebros talentosos pensarão: teimar, pra quê? Afinal, não se faz arte sem propósitos, sem consciência dos seus possíveis efeitos, ou não deveria ser feita assim, sem intenções, principalmente por cérebros talentosos. E fazer arte não é rentável, porém, a arte é rentável, sim, para alguns, que às vezes nada contribuíram pra sua produção... Mas a arte também é um poderoso instrumento de luta, de libertação, ainda mais para aqueles que não conseguem se imaginar empunhando armas pra defender seus espaços, o direito a uma identidade própria, pra si mesmo, para os seus conterrâneos, para a sua nação. A arte é uma forma especial de conquistar novos territórios, os africanos descobriram isso e estão assim ampliando seu lugar no mundo. Não sem merecimento, estão mostrando que têm valor, como quaisquer outros homens, e que merecem igual respeito, igual tratamento, em todos os campos de conquista da humanidade.
[Leia outros Comentários de Cristina Sampaio]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Aprendiz do Futuro Cidadania Hoje e Amanha
Gilberto Dimenstein
Ática
(1997)



Sonata ao Luar
Álvaro Cardoso Gomes
Quinteto
(1995)



Liberte-se das Velhas Ideias
Patrick Lencioni
Elsevier
(2010)



O Vento e a tempestade - Volume I
Francisco Dirceu Barros
Consullex
(2021)
+ frete grátis



A Questão Nacional em Porto Rico: o Partido Nacionalista 1922-1954
Kátia Gerab Baggio
Anna Blume
(1998)



Não Existe Vitória sem Sacrifício
Diego Hypolito
Benvirá
(2019)



Português e Literatura
Aires da Mata Machado Filho
Santa Maria S/a
(1955)



Francisco de Asís (em Espanhol) - 3 Ex.
João Nunes Maia / pelo Espírito Miramez
Fonte Viva
(1998)



Tenho Diabetes Tipo 1, E Agora
Mark Barone
All Print
(2010)



Conexões: de George Washington a Compadre Washington
George Washington a Compadre / Superinteressante
Abril
(2016)





busca | avançada
72073 visitas/dia
1,8 milhão/mês