São Luiz do Paraitinga | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
101 mil/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Povo Fulni-ô Encontra Ponto BR
>>> QUEÑUAL
>>> Amilton Godoy Show 70 anos. Participação especial de Proveta
>>> Bacco’s promove evento ao ar livre na Lagoa dos Ingleses, em Alphaville
>>> Vera Athayde é convidada do projeto Terreiros Nômades em ação na EMEF Ana Maria Benetti sobre Cavalo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
Últimos Posts
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
Blogueiros
Mais Recentes
>>> The Matrix Reloaded
>>> Por que as curitibanas não usam saia?
>>> Jobim: maestro ou compositor?
>>> 7 de Outubro #digestivo10anos
>>> A insignificância perfeita de Leonardo Fróes
>>> Soco no saco
>>> De Siegfried a São Jorge
>>> O Paulinho da Viola de Meu Tempo é Hoje
>>> Pelas curvas brasileiras
>>> A pintura admirável de Glória Nogueira
Mais Recentes
>>> Ao Redor do Mundo de Fernando Dourado Filho pela Fernando Dourado Filho (2000)
>>> O Administrador do Rei - coleção aqui e agora de Aristides Fraga Lima pela Scipione (1991)
>>> Memória do Cinema de Henrique Alves Costa pela Afrontamento (2024)
>>> Os Filhos do Mundo - a face oculta da menoridade (1964-1979) de Gutemberg Alexandrino Rodrigues pela Ibccrim (2001)
>>> Arranca-me a Vida de Angeles Mastretta pela Siciliano (1992)
>>> Globalizacão, Fragmentacão E Reforma Urbana: O Futuro Das Cidades Brasileiras Na Crise de Luiz Cezar de Queiroz Ribeiro; Orlando Alves dos Santos Junior pela Civilização Brasileira (1997)
>>> Movimento dos Trabalhadores e a Nova Ordem Mundial de Clat pela Clat (1993)
>>> Falso Amanhecer: Os Equívocos Do Capitalismo Global de John Gray pela Record (1999)
>>> Os Colegas de Lygia Bojunga pela Casa Lygia Bojunga (1986)
>>> Amazonas um Rio Conta Historias de Sergio D. T. Macedo pela Record (1962)
>>> A História de Editora Sextante pela Sextante (2012)
>>> Villegagnon, Paixaƒo E Guerra Na Guanabara: Romance de Assis Brasil pela Rio Fundo (1991)
>>> A Política de Aristóteles pela Ediouro
>>> A Morte no Paraíso a tragédia de Stefan Zweig de Alberto Dines pela Nova Fronteira (1981)
>>> Rin Tin Tin a vida e a lenda de Susan Orlean pela Valentina (2013)
>>> Estudos Brasileiros de População de Castro Barretto pela Do Autor (1947)
>>> A Origem do Dinheiro de Josef Robert pela Global (1989)
>>> Arquitetos De Sonhos de Ademar Bogo pela Expressão Popular (2024)
>>> Desafio no Pacífico de Robert Leckie pela Globo (1970)
>>> O Menino do DedoVerde de Maurice Druon pela José Olympio (1983)
>>> A Ciencia Da Propaganda de Claude Hopkins pela Cultrix (2005)
>>> Da Matriz Ao Beco E Depois de Flavio Carneiro pela Rocco (1994)
>>> Testemunho de Darcy Ribeiro pela Edições Siciliano (1990)
>>> Tarzan e o Leão de Ouro de Edgar Rice Burroughs pela Record (1982)
>>> Viagem de Graciliano Ramos pela Record (1984)
COLUNAS

Segunda-feira, 11/1/2010
São Luiz do Paraitinga
Ricardo de Mattos
+ de 9200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

"É preciso sepultar os mortos e cuidar dos vivos" (Marquês de Pombal)

Quando criança, acompanhávamos nosso pai, engenheiro agrônomo do antigo Banespa, em suas andanças pelas cidades próximas a Taubaté. Responsável pelo setor de crédito rural, ele dava conta não apenas da sede regional, mas das agências vizinhas. Seu trabalho extrapolava o aspecto administrativo, sendo necessário visitar as propriedades rurais de quem solicitava empréstimo ou financiamento. Até os catorze anos, íamos junto, o que nos permitiu o contato com o povo caipira em seu ambiente legítimo. Dos municípios situados entre Taubaté e o Litoral Norte, conhecemos Natividade da Serra, Redenção da Serra, Lagoinha, Cunha e São Luiz do Paraitinga. Anos mais tarde, já exercendo a profissão, acompanhamos nesta última uma de nossas primeiras causas. Era de propósito que reservávamos a tarde para verificar o andamento processual. Mesmo dirigindo, preferíamos ir de ônibus e descíamos na rodoviária para atravessar a cidade a pé. No mês de setembro de 2009, fomos em duas noites da Semana da Canção, a da homenagem a Elpídio dos Santos e a da apresentação de Luiz Melodia. Vimos São Luiz tanto em seu cotidiano como "vestida para festa".

"Quem viu e quem vê", conforme diz a expressão popular. Após as notícias da televisão, apressamo-nos eu, mãe, tia e namorada a apresentarmo-nos como voluntários ao Centro Espírita André Luiz, um dos postos envolvidos no socorro aos desabrigados e suporte dos demais trabalhos. Sua cozinha, auxiliada pelo Exército, dá conta da comida fornecida à Defesa Civil, ao Corpo de Bombeiros e a quantos mais peçam. A operação é de guerra: uma vez entrando nas dependências do Centro, quem estiver realmente disposto a trabalhar é logo encaminhado para alguma atividade: descascar legumes, lavar panelas, picar ingredientes, descarregar caminhões, montar cestas básicas, carregar caminhões, varrer, lavar, lacrar marmitex e outras. No dia seis, concluída a primeira parte das tarefas, adentramos o centro urbano para ver o estrago da enchente. O rio transbordou de seu leito, molhando o solo e as construções, levando o lodo e desorganizando o interior dos imóveis. Quando a água desceu, arrastou tudo consigo. Quarteirões inteiros foram destruídos, sem contar das perdas mais chamativas, como a da Igreja Matriz (primeira imagem) e a Igreja das Mercês. O arrasto foi de tal força que vimos uma geladeira no alto de um poste, precariamente segura por galhos e folhas de palmeira. Os moradores atiravam seus objetos estragados nas vias públicas, o que em alguns casos equivalia à totalidade de suas posses. Um senhor despejou algo no monturo e comentou consigo: Onde eu tenho que ir agora, mesmo? Já nem sei mais... Passando pelas portas de dois restaurantes, vimos mesas penduradas nos ventiladores de parede. Alcançamos o hotel de propriedade de um amigo pessoal:

― Agora que não me hospedo neste pardieiro, dissemos subindo a escada e estendendo-lha mão.
― Si mudar de ideia, temos vagas de sobra, respondeu ele concluindo o cumprimento.

Quando uma cidade foi recentemente restaurada, ou seus moradores conservam-na sempre arrumada, limpa e pintada, conservando seus jardins e vias públicas, há quem costume compará-la a um presépio. São Luiz estava com esta feição. As imagens desta coluna, extraídas todas do sítio oficial da cidade, foram adrede selecionadas para expor a "pujança" arquitetônica que testemunhamos. Recupera-la-á, sem dúvida, mas haverá trabalho. O que mais choca é que ela descobriu sua vocação cultural e nela seguia firme, contagiando as cidades vizinhas e levando-as a reconhecer seu patrimônio humano. Em São Luiz formou-se um ciclo: o turismo impulsionou a manutenção das danças, das festas, do folclore de um modo geral. Contudo, o que atraiu a atenção dos turistas foi a preservação satisfatória destes elementos. Lembramos da valorização da pessoa e da promoção social decorrentes de tudo isso. Viva era sua Cultura, e ela incluímos entre os "vivos" da assertiva pombalina.

São Luiz é muito rica em festas, festivais e celebrações. Entre as festas, citamos a de São Sebastião, a de Nossa Senhora das Mercês, de São Benedito, de São Luiz Tolosa, de Santa Cecília, a do Saci e principalmente o Carnaval, que atrai quem prefere o festejo interiorano ao espetáculo das capitais. Os festivais anuais são o de marchinhas carnavalescas ― que estaria em curso ―, o de Música Junina, de Música Cristã, de Música de Raiz Sertaneja e a Semana da Canção, sobre a qual a colaboradora Débora Costa e Silva escreveu para o Digestivo. As celebrações mais importantes são as da Semana Santa, a do Divino Espírito Santo e o encontro das Folias de Reis. Toda dança típica que encontrou expressão na cidade mereceu ser estimulada. Portanto, lá pode-se conhecer a dança da Catira, a de Fitas, a da Baianinha, a do Balaio, a do Caranguejo, a do Sabão, a de São Gonçalo, a da Viuvinha, a Cavalhada, a Congada, as Folias do Divino e de Reis, o Moçambique, as Rodas de Violeiros, a Quadrilha e a Dança Caiapó ― cujo instrumento peculiar é a corneta de chifre. Confessamos ainda desconhecer boa parte destas manifestações. Os grupos de Moçambique permitiram-lhe outrora a classificação como "Capital da Zona Moçambiqueira Paulista". A atividade musical é sustentada por grupos diversos e justificada por São Luiz ser o berço do compositor Elpídio dos Santos (1909-1970).

Elpídio é o autor da música "Você vai gostar", valsa rancheira ― isto é, mais acelerada ― que ficou mais conhecida como "Casinha Branca". O sítio oficial do Instituto que leva seu nome possui gravações de diversas interpretações. O páreo é difícil e seria tarefa ingrata eleger uma. A música é constantemente atribuída a Renato Teixeira. Embora seja um de seus melhores intérpretes, não é possível imputar-lhe nem a coautoria. O compositor luizense ganhou notoriedade ao ser encarregado por Mazzaroppi da trilha musical de diversos de seus filmes. Posteriormente, várias duplas sertanejas e cantores gravaram suas canções, como Pena Branca e Xavantinho, Mato Grosso e Matias, Sérgio Reis, Almir Sater, Vanusa e Fafá de Belém.

Entre as colunas de nossos primeiros anos de Digestivo Cultural abordamos a lenda do lobisomem em texto próprio. Lembramos de São Luiz como uma das cidades onde a assombração deve ser incluída entre seus moradores destacados. Lá existe tal cuidado com os "causos" que foi fundada a Sociedade do Saci com a finalidade de resguardar esta figura do esquecimento e divulgar suas capetices. Há esta saudabilíssima atitude de recolher, registrar, conservar e garantir para a posteridade a Cultura em suas mais diversas manifestações. Ao pesar que tivemos de ver a casa de Elpídio interditada pela Defesa Civil seguiu-se o alívio de ver em pé e intacta a casa do sanitarista Oswaldo Cruz.

A primeira e mais urgente providência será a recolocação das pessoas em suas casas. Pelo que sondamos, muitos dirigir-se-ão ao terreno, refarão os limites e construirão uma base a partir da qual reiniciarão suas vidas. A tensão é grande, gerada pelo medo de chuvas que provoquem outro alagamento e novas perdas. Na primeira vez que visitamos a cidade, postamos no blog do Digestivo a respeito da hostilidade dos habitantes com quem podemos chamar "os turistas da catástrofe", aqueles que apareceram apenas para testemunhar a desgraça alheia, fotografar ou filmar e ir embora. Voltando no dia imediato, verificamos que a polícia militar determinou trechos de ruas por onde os transeuntes e os carros poderiam passar. Quem ultrapassasse o cordão era questionado e convidado a se retirar.

Observamos que, si o Poder Público faz sua parte, o voluntariado também representa poder equivalente. Percebemos, inclusive, que um operava contando com o outro na retaguarda, o que já aliviou a logística e a contratação de mão de obra. Em certos pontos, pôde-se trabalhar confiando na solidariedade. Ninguém deve ter-se preocupado, por exemplo, com a aquisição de roupas, alimentos e água potável, pois as doações lotaram o Centro, as Igrejas, e outros locais de distribuição. Estes postos passam a atuar onde o próprio Estado entrou em colapso, pois quem dependia da cesta básica fornecida, digamos, pela municipalidade, precisou socorrer-se em outro lugar, a exemplo do senhor que parou para descansar e trocou conosco "doi dedim de prosa". Parece exagero falar em colapso, mas pensamos no Fórum local, onde a água danificou a grande parte dos autos dos processos. Pensamos também no impacto ambiental decorrente do lixo que ou é transferido para terrenos marginais das estradas ou foi levado consigo pelo rio. Nova inundação será grave, pois as ruas estão lotadas de plástico e toda espécie de material descartado.

Ricardo de Mattos
Taubaté, 11/1/2010

Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2010
01. Introdução ao filosofar, de Gerd Bornheim - 30/8/2010
02. O cérebro espiritual, de Mario Beauregard - 27/12/2010
03. Confissões do homem invisível, de Alexandre Plosk - 15/11/2010
04. Meu Marido, de Livia Garcia-Roza - 7/6/2010
05. São Luiz do Paraitinga - 11/1/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/1/2010
00h19min
Belo texto! Eu sou uma das muitas formiguinhas que participaram todo dia desta última semana, no trabalho de lavar o lodo e resgatar o orgulho do povo de São Luis. Acredito na recuperação da cidade e acredito na solidariedade. Tenho viajado e me superado todo dia, na esperança de poder levar e conquistar junto a esperança pra esta cidade lenda...
[Leia outros Comentários de Armando Marcondes Go]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Alexandre e Outros Heróis
Graciliano Ramos
Record
(1978)



Livro Esoterismo Planets in Aspect Understanding Your Inner Dynamics
Robert Pelletier
Whitford Press
(1974)



Os Três Anos de Vigência do Novo Código de Processo Civíl
Mattos Filho
Do Autor
(2019)



The Burnt House
Faye Kellerman
Harper
(2007)



Mistério e magia do amor
Krishan Chopra
Larousse
(2008)



Comunicação/incomunicação no Brasil
José Marques de Melo
Loyola
(1976)



Livro História do Brasil Pesquisas e Depoimentos para a História Reconquista do Brasil Nova Série Volume 60
Tobias Monteiro
Itatiaia
(1982)



Tudo aquilo que nunca foi dito
Marc Levy
Suma
(2008)



Perfis Problemas na Literatura Brasileira
Eduardo Portella e Outros
Tempo Brasileiro
(1985)



Livro Infanto Juvenis
Júlio Verne
Ftd
(2007)





busca | avançada
101 mil/dia
2,4 milhões/mês