O caso da cenoura | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 16/8/2012
O caso da cenoura
Elisa Andrade Buzzo

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foto: Sissy Eiko

É um mistério como ela surgiu, tanto quanto como ela sumiu. Na verdade, o que eu mais queria era que ela desaparecesse o quanto antes. Não posso reclamar, pois com nenhum esforço posso dizer que meu desejo mais que se realizou. Desde que a percebi não havia tranquilidade em casa. Havia algo, ela, que me perturbava, como se pudesse ser uma moradora a mais, anexa, subalterna mas exigente, e que passasse frio nas noites de inverno. Ela, ainda que estática e solitária, me incomodava. As visitas que eu trazia em casa se apercebiam certeiramente dela. Não sei porque, havia algo magnético, quem sabe ostensivo e direto, pois os olhares baixavam à sua cata, direcionavam-se certeiros e incisivos em sua presença rasteira. E que material esdrúxulo era aquele, que tipo de casa então seria a minha em que um tubérculo repousa displicente no alpendre?

O fato é que na marquise que margeia o pequeno balcão em que consiste minha sacada, rodeada pelo lado esquerdo por uma frondosa árvore, cujas folhas caem longamente em ambas, uma manhã reparei na existência de uma cenoura. Não era uma rodela, nem uns fiapos ralados de salada, antes uma cenoura de verdade (mas sem as folhas), avolumada, talvez pronta para ser consumida. Parecia-me que já tinham lhe passado a faca, tendo, portanto, sido limpa. Ela apenas, provavelmente, aguardava seu consumo quando tombou em minha casa.

Pensei em, com o golpe de um cabo de vassoura, me livrar dela, fazendo com que delicadamente rolasse do primeiro andar para o chão. Não seria uma grande queda e facilmente eu a acharia pousada na calçada e, munida de um saco plástico, finalmente a retiraria das minhas vistas. É claro que a operação seria meio que às escondidas, de madrugada, quando não houvesse transeunte, nem observadores, porque ela poderia cair na cabeça de alguém e porque todos que passem olham para a minha varanda, e isso não é mania de perseguição.

A questão então era: como esta cenoura foi parar na marquise? De onde teria ela caído, ou teria alguém a jogado propositalmente? Um bicho a havia escondido ali para depois, na solidão da madrugada, se abraçar a ela com delícia? Ou, ainda, teria em qual situação ela escapado? Estava claro que ela só poderia ter caído de um dos dois andares de cima do prédio. Apesar de sua súbita onipresença e, de fato, sua presença me aborrecia, nada fiz − talvez por preguiça, por temer me estender na sacada com a vassoura e não ter ajuda noite adentro para resgatá-la −, e assim mantendo a cenoura tal como estava em seu canto, imóvel, iniciei uma enquete.

Primeiro disseram que alguém poderia estar com a cenoura no próprio balcão, haveria legumes a serem cortados, quando de repente a cenoura caiu e pronto. Com isso devemos admitir que deve se tratar de uma mulher, uma senhora, pois não imagino um homem entrando no quarto de dormir munido de tábua de cortar, faca e cenouras, para então acessar a varanda, de lá observar o movimento da rua enquanto corta seus legumes para o almoço, depois entrar de novo pelo quarto e se dirigir à cozinha. Outra hipótese, ainda da cenoura vindo do alto: alguém, recostado na varanda, a comia, quando de repente a cenoura (crua e ainda praticamente inteira) escorrega das mãos para tombar diretamente na marquise logo abaixo do primeiro andar do prédio, ou seja, num território sobre minha jurisdição e, pra piorar, controle da limpeza.

Um parênteses: o que mais me impressiona nestas duas hipóteses, sugeridas por parentes e amigos, é que meu suposto vizinho não me avisou do que acontecera. Ou seja, não fiquei tão chocada com a originalidade de ambas as soluções pitorescas, antes com a falta de solidariedade entre vizinhos, o acabrunhamento que se instala entre seres vivendo tão próximos. Ou será que ele(s) não se apercebeu(ram) o destino da cenoura tombada? Poderia(m) ter tocado a campainha e dito "desculpe, estava picando uns legumes e deixei cair uma cenoura próximo à sua sacada". Teria sido suficiente o pedido de desculpas ou será que foi melhor deixar tudo como estava? - um silêncio coroando uma relação inexistente.

Há pouco pensamos na possibilidade de alguém, passando pela rua, ter simplesmente lançado a cenoura, que, por azar, foi cair bem no meu andar. O que não seria de todo difícil pois com pouca força seria possível acessá-lo. Mas o que então motivaria tal empresa? O prazer de jogar uma cenoura-bomba numa inofensiva morada? Quem sabe a rua, um lugar de pouco, embora de fácil acesso, tenha uma presença mais estranha neste mês de festas juninas, estando logo ao lado da igreja. Hipóteses, apenas hipóteses num mar de dúvidas.

Por último, resta a cenoura ter partido de dentro de meu apartamento. Então, teria eu, fora de mim, num momento qualquer lançado aquela cenoura avante? Mas como, se eu não havia nunca comprado uma cenoura, ao menos meu coração assim dizia. E mesmo ainda havia a hipótese de alguém, dentro da minha própria casa, por algum motivo ter jogado aquela cenoura no alpendre, quem sabe por brincadeira, ou para escondê-la.

Este seria talvez o intento de algum bicho arisco e escalador, que tivesse se agarrado ao caule da árvore ao lado, equilibrado-se nos galhos mais finos da ponta e pulado na marquise, sempre com a cenoura nas patas, ou à boca, para então dispô-la. Ou então o animal fora surpreendido no momento em que transitava por lá e, no susto, deixara a cenoura de lado. Um dia iria buscá-la?

Resumindo, qualquer uma das hipóteses acima me parecem um tanto fantasiosas, pela disponibilidade da ação das pessoas ou animais supostamente envolvidos, da minha ou da de terceiros próximos a mim. De modo que, já acostumado com a presença do vegetal, nesta tarde ensolarada de inverno abro todas as janelas da casa, abro também as cortinas, as portas de vidro e as venezianas da varanda. Resolvo ver o estado em que se encontra a cenoura. Há três semanas ela lá se encontrava já com uma camada negra de bolor, depois de tanto tempo exposta e dos dias chuvosos que se antecederam a este tempo bom.

Qual não é minha supresa quando um novo mistério se avizinha. A cenoura desaparecera. O ralo não poderia tê-la engolido, a chuva não a teria levado. É possível que ela tenha se desintegrado? Mas uma cenoura gorda e grande! Restara apenas um rastro meio cinza marcado na amplitude do espaço que ocupara no concreto rugoso. Não tenho coragem de olhar novamente para colher mais informações.

Logo pensei, ao adentrar e recostar a porta de vidro: um rato. Sim, um rato, por diversas noites, havia roído silenciosamente, estalando a língua, a cenoura, até que ela acabasse. E esperava por mais, ansiava por mais cenoura fresca. Ou mofada, como era o caso daquela já no adiantado do correr dos dias. Corro ao telefone com esta iminente e simpática ameaça. Minha tia é peremptória: Rato não gosta de cenoura. Como não? Não gosta. Tem certeza, ele não roeria uma cenoura? Acho que não, procura na internet.

Deixei de lado. Outra ligação: Foram passarinhos e as pombas que foram bicando a cenoura. Minha incredulidade aumenta. Como uns bicos pequeninos teriam tão rapidamente dado cabo à grande cenoura sem deixar rastros, sem que eu nunca os visse lá pousados? De noite. Mas este não é o horário dos pássaros dormirem? Minha mãe, ainda sonâmbula, pela manhã, tende a concordar com a conjectura do rato comilão: Isso é. Todo lugar tem um ratinho pequenininho. Inclusive outro dia, lá perto, veio um no meu pé, diante daquele terreno que começaram a jogar potinhos de sorvete depois que demoliram as casas.

Por fim, numa última ligação relato o sumiço da cenoura, refazemos mentalmente todas as possibilidades por nós e por outrem pensadas - qual das alternativas apontadas pode explicar seu advento e desaparecimento? Ao que me dizem do outro lado do fone, para minha aflição e ternura imensas: Pode não ser nenhuma delas, né?


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 16/8/2012


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