O que querem os homens? Do Sertão a Hollywood | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
84710 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Relacionamentos amorosos com homens em cárcere é tema do espetáculo teatral ‘Cartas da Prisão’, monó
>>> Curso da Unil examina aspectos da produção editorial
>>> “MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO - ON LINE” TERÁ TEMPORADA ONLINE DE 10 A 25 DE ABRIL
>>> Sesc 24 de Maio apresenta Música Fora da Curva: bate-papos sobre música experimental
>>> Música instrumental e natureza selvagem conectadas em single de estreia de Doug Felício
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
>>> Coral de Piracicaba apresenta produção virtual
>>> Autocombustão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual
>>> Usina
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Web 2.0 reloaded
>>> Lendas e mitos da internet no Brasil
>>> A loucura das causas
>>> Queen na pandemia
>>> Nerd oriented news
>>> 13 de Agosto #digestivo10anos
>>> O cão da meia-noite
Mais Recentes
>>> Vidas que nos Completam de Américo Simões pela Barbara (2011)
>>> Uma O Tau. Um Sinal Espiritualidade de Mariano Bigi pela Vozes (2004)
>>> Diálogo Com A Cidade de Cardeal Dom Cláudio Hummes pela Paulus (2005)
>>> Patologia das Fundações de Jarbas Milititsky, Nilo Cesar Consoli, Fernando Schnaid pela Oficina de Textos (2005)
>>> Escrita chinesa de Viviane Alleton pela L&Pm (2010)
>>> Caderno de revisão Química Conecte de M. Esther Nejm et al pela Saraiva (2014)
>>> A Igreja. 51 Catequeses do Papa Sobre a Igreja de Felipe Aquino pela Cleofas (2004)
>>> O Sono dos Hibiscos de Lygia Barbiere Amaral pela Lachatre (2005)
>>> Paris: uma história de Yvan Combeau pela L&Pm (2010)
>>> Vem!... de Cenyra Pinto pela Lachatre (1993)
>>> Plano diretor do Mercado de Capitais - Parceria Público-Privada de Sucesso de Ney Carvalho pela Publit Soluções Editoriais (2014)
>>> Cartas extraviadas e outros poemas de Martha Medeiros pela L&Pm (2009)
>>> Maigret E A Morte Do Jogador de Georges Simenon pela L&Pm (2009)
>>> Milagres a luz do espirito Aloha de Carmem Balhestero pela Madras (2014)
>>> Madeira de ponta a ponta - O caminho desde a floresta até o consumo de Sérgio Adeodato, Malu Villela, Luciana Stocco Betiol, Mario Monzoni pela FGV Rae (2011)
>>> Matemática Caderno de Competências de Conecte pela Saraiva (2014)
>>> Orgulho e preconceito de Jane Austen pela L&Pm (2010)
>>> Filho Herói de Elisa Medhus pela Paulus (2005)
>>> Maigret E O Sumiço Do Sr. Charles de Georges Simenon pela L&Pm (2009)
>>> Tragédias gregas de Pascal Thiercy pela L&Pm (2009)
>>> Controle de Custos de Implantação de Projetos Industriais de Sérgio Conforto & Mônica Spranger pela Taba Cultural (2016)
>>> Livro do Catequista: Fé, Vida de Vários Autores pela Paulus (1994)
>>> King Kong - O gorila mais conhecido em todo o mundo de Edgar Wallace pela Record (1977)
>>> Viagem por Mundos Sutis de Trigueirinho pela Pensamento (2011)
>>> Coisas da vida de Martha Medeiros pela L&Pm (2009)
COLUNAS

Quarta-feira, 5/9/2012
O que querem os homens? Do Sertão a Hollywood
Marilia Mota Silva

+ de 3900 Acessos

Há alguns anos, quando vim morar nos EUA para ficar perto de minhas filhas e do neto recém-nascido, fiz um blogue para registrar as impressões da nova vida e tornar mais fácil a transição.

Foi um bom exercício, mas melhor ainda foi um efeito colateral que não havia previsto: conheci pessoas do país inteiro. Depois de um tempo, deixei o blogue, mas os amigos ficaram.

Um deles é um professor, estudioso apaixonado do sertão nordestino, seu povo e história. Uma vez, destoando dos temas usuais em seu blogue, havia um post carregado de amargura, em que lamentava estar entrando na velhice e ser sozinho. Culpava as mulheres: "só querem dinheiro, é impossível entendê-las," as queixas de sempre. Nem parecia o mesmo homem, pesquisador de mente clara e texto cativante. Escrevi-lhe sobre o post e fiz-lhe perguntas específicas na tentativa de entender oque ele havia escrito.

Talvez pelo hábito de pensar ele, de fato, refletiu sobre o assunto e respondeu com uma franqueza admirável.

Só assim, dito com todas as letras e nenhuma auto-censura, é que pude ver o imbroglio em que estão metidos corações e mentes de nossos companheiros de jornada. Ele escreveu:

"Vou expor aqui, muito brevemente, o que penso a respeito de suas interrogações. A primeira, "a masculinidade não pode prescindir do exercício do poder?" No meu entender a resposta está na pergunta. Clarice Lispector disse em uma de suas entrevistas que ninguém pode abrir mão do que lhe é essencial e arremata: "olhe no olho de um touro capado". Pois bem, todo homem que abre mão do exercício do poder é triste, sem força e inseguro. Esse papo de homem compreensivo é furado. Quando a gente está a sós, nos momentos de maior descontração, a verdade do macho aparece transparente, sem distinção de grau de instrução, classe social ou o que seja.

Quando você encontrar comum homem "civilizado", pode desconfiar: ou é um candidato a gigolô, ou é um sujeito que não gosta de você, pretendendo apenas lhe faturar, ou é um fraco.

Você sabe que no íntimo, você como todas a mulheres pretendem alguém que ofereça algum tipo de segurança, de orientação, que defina nos momentos difíceis. É a natureza. Mulher quer ser comandada e homem quer comandar. O problema é que o pensamento iluminista, que dá todo o peso à razão, não deixa a gente ver as coisas direito. Isso não quer dizer que o homem tenha que usar a força física para o domínio, mas precisa de pulso, e vocês querem pulso. Nas conversas íntimas com mulheres de todos os tipos, mesmo que a princípio neguem, após algum debate, acabam revelando uma certa recusa ao homem fraco, e raramente perdoam um corno.

Com relação à dependência e inferioridade, existe um problema sério, muito sério posto pela modernidade, quando a mulher se ombreou e está ultrapassando o homem em termos de posição no mercado de trabalho. Trabalho com jovens e tenho muito contato com pessoas adultas. Os intelectuais, como estão distantes da situação concreta, não percebem, mas está havendo um problema muito sério na relação entre gêneros. As mulheres estão estudando mais, se dedicando mais e os homens estão se encolhendo, habitando o mundo da vagabundagem. Quero dizer que já estão se dando por vencidos. Sabem que, pelas exigências do consumismo, não conseguem mais ser provedores, nem as mulheres precisam, que elas muitas vezes ganham mais que eles. Isso é uma verdadeira desgraça para um homem, ele tenha consciência disso ou não.

Por que os homens estão se encolhendo? Vou dizer o que penso, brevemente. Ser homem é muito difícil. As exigências são absurdas. Entre essas exigências está a do provimento.

Como o mercado está complicado e as exigências de consumo são absurdas, o sujeito vai se abatendo psicologicamente. A mulher pode aceitar qualquer salário, que ela, embora em muitos casos esteja sendo a provedora, não tem tal obrigação, podendo assim aceitar rendimento qualquer.

Quando é ela que provê, começa a impor e o homem ou se encolhe na vergonha, ou perde o caráter, ou vira puro macho, aquele que entra apenas com a defesa e a ferramenta sexual, mas não têm nenhum respeito dos filhos, dos vizinhos, da sociedade. Sua auto-estima entra abaixo da lata do lixo e se quiser elevá-la terá que fazer isso na porrada.

Homem quer feminilidade. A questão da independência assusta muito, principalmente se for independência emocional. Nenhum homem normal, dos que conheço, aceita mulher emocionalmente independente, aquela que decide e faz o que acha melhor para si. Nessa condição ele se acha inútil. Digo: se a mulher for inteligente e emocionalmente independente, ela poderá fazer o jogo. O jogo que o homem gosta, que é o de ser consultado, nem que só aparentemente ele dê a última palavra. Ele pode até reconhecer e gostar de saber que a mulher da relação tem muita capacidade em alguma coisa, ou na maioria das coisas, mas precisa que ela revele dependência. A dependência é um simbolismo necessário para o homem. Veja que é marca distintiva do homem a insegurança.

Uma mulher que não se mostre submissa deixa o sujeito aflito e incapacitado para defender o território.

Olha, Marília, sei que não esclareci direito, mas você há de convir que o assunto é complexo. Uma certeza eu tenho: as mulheres nunca compreenderão os homens e nós nunca compreenderemos vocês. Isso é um erro, do meu ponto de vista. Alíás, em termos intelectuais poderemos até nos compreender, mas jamais aceitar as práticas de um e de outro.Há aí uma incompatibilidade insuperável, que eu acho que é o que faz o mistério que separa e que aproxima. Acho que no momento em que vivemos está instalada uma guerra de graves consequências entre os gêneros. Acho que o caminho do encontro é aceitar as diferenças e não decretar o fim delas. Isso é um erro, do meu ponto de vista. Agora eu, como homem, gostaria de ouvir sua posição sobre a mesma questão que você colocou.
"

Apesar do espanto, fiquei agradecida. Sozinha nunca chegaria a suspeitar que a cabeça de um homem estudioso e mais velho abrigasse crenças como essas, e que as confessasse com perfeita candura, tão convencido está de sua legitimidade.

Resumindo: o que os homens querem? Que a mulher seja obediente, submissa, dependente. Se não for, que finja senão o homem fica frustrado e para se recuperar "terá que fazer isso na porrada". Simples como um ultimatum. Submeta-se ou aguente as consequências.

Pode-se pensar que pesa na opinião do professor sua origem no sertão nordestino: O homem na posição de mando é a matriz dos coronéis; a mulher submissa seria um atavismo religioso mais arraigado naquelas regiões. Mas não é verdade. Sabemos que a opressão das mulheres é doença que atinge a toda a humanidade. Mutilação genital, imposição de vestimentas que anulam sua presença são exemplos dramáticos, mas o saco de maldades tem muito mais que isso, tem armas como virus, difíceis de detectar e extremamente destrutivos.

Estão na midia, nas universidades, em países menos ou mais desenvolvidos. A luta pelo atraso, pelo sofrimento, pelo poder continua. Com sucesso. As estatísticas de crimes contra a mulher, mesmo em um país como o Brasil, em que o povo é admirado por sua alegria e pacifismo, demonstram isso.

Na sua percepção do feminino, há um ponto em que o professor acerta. De fato, as mulheres não gostam de homem fraco, inseguro, que exige joguinhos pueris de submissão, senão ele emburra, faz birra, fica violento. Desse homem a mulher foge. São esses que ficam sozinhos.

Há um fosso entre a maneira como homens e mulheres se interpretam. Há um fosso entre as expectativas que temos um do outro.

Em uma sociedade menos perversa e primitiva, a mulher seria tratada com respeito, sem ter que batalhar tanto por isso. É verdade que temos menos força física; é verdade que nos transformamos em cocoon durante meses, gerando a vida. É verdade que a sobrevivência da espécie pesa sobre nós dramaticamente. A frase famosa de Simone de Beauvoir, "Biologia não é destino" é meia verdade, se tanto. A potência de dar a vida nos define. Uma gravidez torna madura mesmo uma menina de doze anos. Essa é a realidade da mulher.

E faria, faz toda a diferença quando ela pode contar com um companheiro. Adulto. E que seja protetor, sim! Todo apoio é bem-vindo, é preciso, especialmente quando temos filhos. Que sejam protetores como somos com eles, cada um de seu jeito, nas áreas em que é mais forte. Proteção, conforto, ajuda, todos precisamos, em algum momento.

Essa mania de poder, que perda de tempo! Entretidos em suas atividades, jogando bola ou na estiva, operando grandes máquinas ou pintando porcelana chinesa - os homens têm uma energia que nos ilumina, nos faz felizes. Como sol e poesia! Os "coronéis" matam isso!

Cabe uma ressalva aqui. É certo que existem muitas "gatinhas" que atendem a demanda de homens como o professor. Querem "o herói que as proteja e sustente" mas, a certa altura, obtida a situação ou os bens que desejavam, voltam à carreira solo. Aí o homem se desorienta, acusa a mulher de mercenária, sente-se traído,reclama de "cornice", o que é outro conceito bobo. Não devia se lamentar. São as regras do jogo. Seria ilusão esperar afeto e lealdade nesse tipo de acordo: "finge que sou seu rei, que você me adora, que não vive sem mim". Os homens, principalmente os mais velhos, deviam saber disso. Até porque eles, mesmo com toda a fantasia de onipotência, não aguentariam conviver com uma pessoa submissa e dependente de verdade. Ninguém aguenta.

Esse aliás é o tema de um filme ótimo que saiu agora. O título é Ruby Sparks mas poderia ser "O que os homens querem?" O filme foi (muito bem) escrito pela jovem que também faz o papel principal, Zoe Kazan, de 28 anos. Do sertão a Hollywood, o assunto está em pauta: afinal, o que eles querem de nós?

Costumamos assistir perplexos às guerras, ao caos, à brutalidade humana, como se fôssemos estranhos a isso. Não devíamos porque a insanidade está em nós, no cerne de nossa visão do mundo e compromete a relação (que deveria ser) a mais preciosa e primordial que existe, entre homem e mulher, onde começa a vida.


Marilia Mota Silva
Washington, 5/9/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Notas confessionais de um angustiado (VII) de Cassionei Niches Petry
02. De pé no chão (1978): sambando com Beth Carvalho de Renato Alessandro dos Santos
03. Rubem Fonseca (1925-2020) de Julio Daio Borges
04. O Quixote de Will Eisner de Celso A. Uequed Pitol
05. Notas confessionais de um angustiado (II) de Cassionei Niches Petry


Mais Marilia Mota Silva
Mais Acessadas de Marilia Mota Silva em 2012
01. Nem Aos Domingos - 2/5/2012
02. Só dói quando eu rio. - 23/5/2012
03. Carregando o Elefante - 3/10/2012
04. O que querem os homens? Do Sertão a Hollywood - 5/9/2012
05. Quem tem medo da Rio+20? - 13/6/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O filantropo
Rodrigo Naves
Companhia das Letras
(1998)



Os Sacramentos Trocados em Miúdo
José Ribólla
Santuário
(1990)



Iracema - Cinco Minutos
José De Alencar
Martin Claret
(2011)



Sob a Invocação de São Jerônimo - Ensaios sobre a arte e técnicas de tradução
Valery Larbaud
Mandarim
(2001)



O Dom
Nikita Lalwani
Nova Fronteira
(2008)



Geologia Geral
Viktor Leinz / Sérgio Estanislau do Amaral
Editora Nacional
(1972)



Introdução ao Cálculo para Administração, Economia e Contabilidade
Hazzan /samuel / Morettin/pedro Alberto
Saraiva
(2017)



A Origem das Espécies
Charles Darwin
Folha de São Paulo
(2010)



Grande Enciclopedia Geografica Mundial Vol. 1
Dulcidio Dibo
Libra
(1968)



Aspectos de la fatiga de vuelo
Perez Griffo
Sepla
(1977)





busca | avançada
84710 visitas/dia
2,6 milhões/mês