Joana a Contragosto, Mirisola em queda livre | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
62542 visitas/dia
1,7 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Poeta Ivete Nenflidio lança obra 'Ataque - cale-se agora e para sempre'
>>> Alunos de Ribeirão Preto constroem maquete com trajetória das águas da cidade até o mar
>>> Coletivo oferece eventos de danças angolanas em outubro e novembro
>>> Releitura de Ian Soffredini, O Pequeno Príncipe faz sessões em Santos
>>> 4º Edição Point BlackCultural
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
>>> Casos de vestidos
>>> Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
Colunistas
Últimos Posts
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
Últimos Posts
>>> Baby, a chuva deve cair. Blade Runner, 40 anos
>>> Conforme o combinado
>>> Primavera, teremos flores
>>> Além dos olhos
>>> Marocas e Hermengardas
>>> Que porcaria
>>> Singela flor
>>> O cerne sob a casca
>>> Assim é a vida
>>> Criança, minha melhor idade
Blogueiros
Mais Recentes
>>> 19 de Outubro #digestivo10anos
>>> Etapas da criação de uma pintura digital * VÍDEO *
>>> Separar-se, a separação e os conselhos
>>> Genealogia da Moral, de Nietzsche
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Como escrever bem — parte 1
>>> Lendo no Kindle
>>> 89 FM, o fim da rádio rock
>>> O do contra
>>> Tecnologia de Minority Report
Mais Recentes
>>> Iniciação à história da filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein de Danilo Marcondes pela Zahar (2015)
>>> X-Men Extra 2ª Série - nº 9 - supersoldados de Editor: Rogério Saladino Declan Shalvey pela Panini (2014)
>>> O Primo Basílio de Eça de Queirós pela Klick (1997)
>>> The World of the First Australians de R. M ; C. H Berndt pela Lansdowne press (1977)
>>> O Guardião da Sétima Passagem: A Porteira Luminosa de Rubens Saraceni pela Madras (2018)
>>> Eleanor & Park de Rainbow Rowell pela Novo Seculo (2019)
>>> Pedagogia Crítica Uma metodologia na construção do conhecimento de Maria rosa cavalheiro marafon pela Vozes (2001)
>>> Edgar Cayce On Atlantis de Edgay Evans Cayce pela Greenhouse Publications (1989)
>>> Actas e Actos do Governo Provisório de Dunshee de Abranches pela Memória Federal (1998)
>>> Currículo: Teoria e História de Ivor F. GOodson pela Vozes (1995)
>>> O amor nos tempos do cólera de Gabriel García Márquez pela Record (2009)
>>> A Arte do Johrei - Ensinamentos Meishu Sama de Johrei no waza pela Luxriens (2000)
>>> O segredo de Jasper Jones de Craig Silvey pela Intrínseca (2012)
>>> A Família Moskat de Isaac Bashevis Singer pela Francisco Alves (1982)
>>> Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo de Leandro Narloch pela Leya (2013)
>>> Sir Lancelote, Onde Esta Voce? de Kate Mcmullan pela Rocco (2006)
>>> O começo de tudo de Robyn Schneider pela Novo Conceito (2014)
>>> Livro Infantil? Projeto Gráfico Metodologia e Subjetividade de Guto Lins pela Rosari (2002)
>>> Ame e Dê Vexame de Roberto Freire pela Master Pop (2013)
>>> We - a Chave da Psicologia do Amor Romântico de Robert A. Johnson pela Mercuryo (1987)
>>> A Economia das Crises de Nouriel Roubini e Stephen Mihm pela Intrínseca (2010)
>>> A Mala de Hana de Karen Levine pela Melhoramentos (2007)
>>> Contos Folclóricos Brasileiros de Marco Haurélio; Mauricio Negro pela Paulus (2010)
>>> Geometria Analítica de Reis pela LTC (1996)
>>> Dropz de Rita Lee pela Globo (2017)
COLUNAS

Terça-feira, 16/12/2014
Joana a Contragosto, Mirisola em queda livre
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4000 Acessos

A solidão aumenta com a chegada do amor, porque o amor desperta imperativamente a necessidade do outro. Como dizia Proust, em O amor de Swan, é a ausência do amado e não sua presença que amplia a paixão. Esse parece ser o mote do livro Joana a contragosto, do escritor Marcelo Mirisola, publicado pela Editora Record em 2005.

Tomado por uma devastadora paixão que era uma promessa de felicidade, o narrador mergulha num solilóquio sem fim por ter sido abandonado, por não encontrar a correspondência para o sentimento que o domina inteiramente.

Na citação que abre o livro já temos o termo gravado a ferro e fogo: "Eis ai: somos escravos do desejo da fêmea, ou então não somos nada." Os sortilégios de Vênus apenas indicaram o paraíso, que decaído não lhe deu outra condição que o de narrar a travessia do purgatório (beirando já a porta do inferno) do amor não correspondido.

Dante teve sua Beatriz, Petrarca sua Laura, Gonzaga sua Marília de Dirceu, e os êxtases e as dores do amor se estendem pela literatura e pela ópera por todos os séculos. Mirisola deve ter tido sua Joana, mesmo que a contragosto? A questão autobiográfica permeia o debate sobre a literatura de Mirisola, assunto sobre o qual voltaremos parágrafos abaixo.

Goethe livrou-se do suicídio escrevendo seu Os sofrimentos do jovem Werther, onde levou o jovem apaixonado a se matar no seu lugar, usando a arma que Carlota, seu amor impossível, havia limpado momentos antes.

Todos tomados pelo encantamento, termo que devemos entender. Segundo o Manual Léxico de Prévost, encanto seria: "Essa palavra significa, no sentido próprio, um encantamento ou efeito de um poder que ultrapassa o da natureza. Aplicamos esse vocábulo a tudo o que é capaz de atar fortemente o coração e o espírito." Encanto, então, seria "a influência imediata de um sexo sobre o outro, seja exclusivamente pelo instinto da natureza que os leva um ao outro, seja pelos encantos da beleza, do espírito e de outras qualidades que agem ao mesmo tempo sobre os sentidos e sobre a imaginação."

Na ópera, a exclamação lírica de Manon e Lescaut explica de per si o encantamento: Encantatriz/ que triunfa por seu encanto/ Manon, és tu que possuis/ meu coração!" (Enchanteresse/ au charme vainqueur! Manon, vous êtes la maîtresse/ de mon coeur!). Também o personagem de Joana a contragosto se deixa levar por um destino cujo controle lhe escapa. O controle da posse, não o poder de narrar o desvario de sua paixão frustrada e seu consequente tormento. E aqui já podemos falar da questão autobiográfica da obra de Mirisola, discutida em alguns momentos dentro de Joana a contragosto.

A máxima de Mallarmé que diz que "no fundo o mundo é feito para acabar num belo livro", se aproxima da produção literária de Marcelo Mirisola. Essa passagem do romance dá uma pista inicial: "Mea culpa. Seguindo o raciocínio: sempre tripudiei, usei e joguei fora os bifes e as almas que me eram oferecidos às baciadas. Achava, sinceramente, que a vida não valia a pena ser vivida... daí que, para mim, foi muito fácil matar os lugares-comuns e também foi muito fácil escrever cinco livros geniais. Agora está explicado: fiz o que havia de mais óbvio, redundante e mesquinho. Troquei a vida pela arte."

Como se o autor tivesse uma autoconsciência de que a vida não servisse para merda nenhuma a não ser para se transformar em literatura. O silêncio absoluto e pesado do quarto de Proust, onde o escritor se isolava da vida escrevendo sua obra para redescobrir a vida perdida em sua insignificância e resignificada através da literatura, pesa sobre os ombros de Mirisola.

E Joana, ou seria mais correto dizer a frustração amorosa, é quem dita as palavras que o verbo dolorido do narrador vai compondo a cada página. No entanto, não se trata de simples transposição do vivido para as páginas literárias, como se viver no abismo fosse o suficiente para se criar gênios literários. Mirisola sabe disso, e discute a questão. "Não merecíamos a falta. Eu sei o quão dolorido é ter que sacrificar a vida para escrever um livro. Quando digo isso, não estou fazendo proselitismo. E sei também a margem de mutreta que esta sentença encerra; literatura não é feita apenas de esperma, sangue e alma, não adianta nada disso se um escritor que sangra, esporra, vive e morre em função dessa inhaca não se empenhar igualmente em foder o cérebro, a razão e o escambau para satisfazer a própria dor ..."

Mas aviso aos navegantes: não adianta vasculhar a vida de Mirisola para encontrar o sentido de sua literatura, sua autobiografia é a biografia de sua literatura, do trabalho que envolve a sua criação.

A confusão entre vida e arte, no entanto, não deixa de ser uma constante. É preciso encontrar as palavras certas, cavar a linguagem até sua justa existência poética para que o leitor mergulhe naquilo que foi tormento para o escritor. E Mirisola faz isso muito bem: "Joana é meu choro contido, um vexame engolido de dentro para dentro, a perda que não me larga porque tenho a mim mesmo, a página impossível de virar porque a próxima sou eu mesmo que vou escrever..."

Mirisola não escreve autobiografia, escreve literatura. Literatura é mais do que simplesmente escrever sobre fatos. "Escrita não quer dizer simplesmente uma forma de manifestação da palavra. Quer dizer uma ideia da própria palavra e de sua potência intrínseca", na definição de Jacques Rancière. Para que o banal (da vida?) entregue seu segredo, ele deve primeiro ser mitologizado, continua Rancière. Metaforicamente, podemos dizer que literatura seria o brilho espiritual que anima a insignificância da natureza morta. Na vida, as coisas, os objetos, os sentimentos, são mudos. A escrita literária se estabelece como voz das coisas, decifração e reescrita do significado das coisas. Para o escritor "minerologista", tudo é rastro, vestígio ou fóssil. Tudo se torna falante.

Em Joana a contragosto, o que se escava é o momento em que a vida se torna tão significativa que rivalizaria com a literatura. Calaria a literatura. E o sentimento de frustração desse momento, que é também vital (tanto quanto a literatura), deveria ter sido apenas vivido como vida e não se transformado em criação. Eis a crise que se instala no narrador:

"A carne não devia encontrar a alma, a beleza não devia ser tão triste quanto a solidão e a despedida - ainda que por quarenta anos esse tenha sido meu único desejo, a única história, que eu não devia ter contado."

A literatura de Mirisola também dá voz ao despudor da palavra. Aquelas palavras que esconderíamos de nós mesmos são resgatadas em sua mais agressiva existência. Palavras tortas para sentimentos tortos, palavras torpes para situações torpes. Literatura em queda livre, deixa a literatura que está ao redor parecendo algo bacharelesco ou como se fosse um diário de capa cor de rosa escrito por alguma menina virgem.

Na provinciana guerra literária que se trava no Brasil, o que podemos dizer a respeito da obra de Marcelo Mirisola é que quem não a leu, já perdeu.

Para ir além:



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 16/12/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara de Elisa Andrade Buzzo
02. Na translucidez à nossa frente de Elisa Andrade Buzzo
03. Alameda de água e lava de Elisa Andrade Buzzo
04. Confissões pandêmicas de Julio Daio Borges
05. Coisa Mais Linda de Marilia Mota Silva


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2014
01. O assassinato de Herzog na arte - 30/9/2014
02. Simone de Beauvoir: da velhice e da morte - 29/7/2014
03. As deliciosas mulheres de Gustave Courbet - 3/6/2014
04. A Puta, um romance bom prá cacete - 2/12/2014
05. Narciso revisitado na obra de Fabricius Nery - 11/3/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Língua sem Vergonha
Josué Machado
Civilização Brasileira
(2011)



Os Inovadores - Como um Grupo de Hackers, Gênios e Geeks
Walter Isaacson
Intrinseca
(2020)



Ética, Estratégia e Comunicação
Luciano Zajdsznajder
FGV
(1999)



Bom-dia, Preguiça!
Corinne Maier
Campus
(2005)



Flying Home - Penguin Readers
Stephen Rabley
Pearson Longman
(2008)



Rá, Rá, Ri, Ró... Ria! Novas Piadas para Crianças
Paulo Tadeu
Matrix
(2009)



O Médico Jesus - 1ª Edição - Confira !!!
José Carlos de Lucca
Ebm
(2009)



doutor Goebbels
Roger Manvell e Heinrich
madras
(2012)



A Window on the Universe - Confira!
Jennifer Bassett
Oxford University Press
(1999)



365 Mensagens de Sabedoria e Compaixão
Dalai Lama
Sextante
(2007)





busca | avançada
62542 visitas/dia
1,7 milhão/mês