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Terça-feira, 16/12/2014
Joana a Contragosto, Mirisola em queda livre
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2900 Acessos

A solidão aumenta com a chegada do amor, porque o amor desperta imperativamente a necessidade do outro. Como dizia Proust, em O amor de Swan, é a ausência do amado e não sua presença que amplia a paixão. Esse parece ser o mote do livro Joana a contragosto, do escritor Marcelo Mirisola, publicado pela Editora Record em 2005.

Tomado por uma devastadora paixão que era uma promessa de felicidade, o narrador mergulha num solilóquio sem fim por ter sido abandonado, por não encontrar a correspondência para o sentimento que o domina inteiramente.

Na citação que abre o livro já temos o termo gravado a ferro e fogo: "Eis ai: somos escravos do desejo da fêmea, ou então não somos nada." Os sortilégios de Vênus apenas indicaram o paraíso, que decaído não lhe deu outra condição que o de narrar a travessia do purgatório (beirando já a porta do inferno) do amor não correspondido.

Dante teve sua Beatriz, Petrarca sua Laura, Gonzaga sua Marília de Dirceu, e os êxtases e as dores do amor se estendem pela literatura e pela ópera por todos os séculos. Mirisola deve ter tido sua Joana, mesmo que a contragosto? A questão autobiográfica permeia o debate sobre a literatura de Mirisola, assunto sobre o qual voltaremos parágrafos abaixo.

Goethe livrou-se do suicídio escrevendo seu Os sofrimentos do jovem Werther, onde levou o jovem apaixonado a se matar no seu lugar, usando a arma que Carlota, seu amor impossível, havia limpado momentos antes.

Todos tomados pelo encantamento, termo que devemos entender. Segundo o Manual Léxico de Prévost, encanto seria: "Essa palavra significa, no sentido próprio, um encantamento ou efeito de um poder que ultrapassa o da natureza. Aplicamos esse vocábulo a tudo o que é capaz de atar fortemente o coração e o espírito." Encanto, então, seria "a influência imediata de um sexo sobre o outro, seja exclusivamente pelo instinto da natureza que os leva um ao outro, seja pelos encantos da beleza, do espírito e de outras qualidades que agem ao mesmo tempo sobre os sentidos e sobre a imaginação."

Na ópera, a exclamação lírica de Manon e Lescaut explica de per si o encantamento: Encantatriz/ que triunfa por seu encanto/ Manon, és tu que possuis/ meu coração!" (Enchanteresse/ au charme vainqueur! Manon, vous êtes la maîtresse/ de mon coeur!). Também o personagem de Joana a contragosto se deixa levar por um destino cujo controle lhe escapa. O controle da posse, não o poder de narrar o desvario de sua paixão frustrada e seu consequente tormento. E aqui já podemos falar da questão autobiográfica da obra de Mirisola, discutida em alguns momentos dentro de Joana a contragosto.

A máxima de Mallarmé que diz que "no fundo o mundo é feito para acabar num belo livro", se aproxima da produção literária de Marcelo Mirisola. Essa passagem do romance dá uma pista inicial: "Mea culpa. Seguindo o raciocínio: sempre tripudiei, usei e joguei fora os bifes e as almas que me eram oferecidos às baciadas. Achava, sinceramente, que a vida não valia a pena ser vivida... daí que, para mim, foi muito fácil matar os lugares-comuns e também foi muito fácil escrever cinco livros geniais. Agora está explicado: fiz o que havia de mais óbvio, redundante e mesquinho. Troquei a vida pela arte."

Como se o autor tivesse uma autoconsciência de que a vida não servisse para merda nenhuma a não ser para se transformar em literatura. O silêncio absoluto e pesado do quarto de Proust, onde o escritor se isolava da vida escrevendo sua obra para redescobrir a vida perdida em sua insignificância e resignificada através da literatura, pesa sobre os ombros de Mirisola.

E Joana, ou seria mais correto dizer a frustração amorosa, é quem dita as palavras que o verbo dolorido do narrador vai compondo a cada página. No entanto, não se trata de simples transposição do vivido para as páginas literárias, como se viver no abismo fosse o suficiente para se criar gênios literários. Mirisola sabe disso, e discute a questão. "Não merecíamos a falta. Eu sei o quão dolorido é ter que sacrificar a vida para escrever um livro. Quando digo isso, não estou fazendo proselitismo. E sei também a margem de mutreta que esta sentença encerra; literatura não é feita apenas de esperma, sangue e alma, não adianta nada disso se um escritor que sangra, esporra, vive e morre em função dessa inhaca não se empenhar igualmente em foder o cérebro, a razão e o escambau para satisfazer a própria dor ..."

Mas aviso aos navegantes: não adianta vasculhar a vida de Mirisola para encontrar o sentido de sua literatura, sua autobiografia é a biografia de sua literatura, do trabalho que envolve a sua criação.

A confusão entre vida e arte, no entanto, não deixa de ser uma constante. É preciso encontrar as palavras certas, cavar a linguagem até sua justa existência poética para que o leitor mergulhe naquilo que foi tormento para o escritor. E Mirisola faz isso muito bem: "Joana é meu choro contido, um vexame engolido de dentro para dentro, a perda que não me larga porque tenho a mim mesmo, a página impossível de virar porque a próxima sou eu mesmo que vou escrever..."

Mirisola não escreve autobiografia, escreve literatura. Literatura é mais do que simplesmente escrever sobre fatos. "Escrita não quer dizer simplesmente uma forma de manifestação da palavra. Quer dizer uma ideia da própria palavra e de sua potência intrínseca", na definição de Jacques Rancière. Para que o banal (da vida?) entregue seu segredo, ele deve primeiro ser mitologizado, continua Rancière. Metaforicamente, podemos dizer que literatura seria o brilho espiritual que anima a insignificância da natureza morta. Na vida, as coisas, os objetos, os sentimentos, são mudos. A escrita literária se estabelece como voz das coisas, decifração e reescrita do significado das coisas. Para o escritor "minerologista", tudo é rastro, vestígio ou fóssil. Tudo se torna falante.

Em Joana a contragosto, o que se escava é o momento em que a vida se torna tão significativa que rivalizaria com a literatura. Calaria a literatura. E o sentimento de frustração desse momento, que é também vital (tanto quanto a literatura), deveria ter sido apenas vivido como vida e não se transformado em criação. Eis a crise que se instala no narrador:

"A carne não devia encontrar a alma, a beleza não devia ser tão triste quanto a solidão e a despedida - ainda que por quarenta anos esse tenha sido meu único desejo, a única história, que eu não devia ter contado."

A literatura de Mirisola também dá voz ao despudor da palavra. Aquelas palavras que esconderíamos de nós mesmos são resgatadas em sua mais agressiva existência. Palavras tortas para sentimentos tortos, palavras torpes para situações torpes. Literatura em queda livre, deixa a literatura que está ao redor parecendo algo bacharelesco ou como se fosse um diário de capa cor de rosa escrito por alguma menina virgem.

Na provinciana guerra literária que se trava no Brasil, o que podemos dizer a respeito da obra de Marcelo Mirisola é que quem não a leu, já perdeu.

Para ir além:



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 16/12/2014


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