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Segunda-feira, 9/4/2001
Quente e aromática tradição
Arcano9

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Pontualmente às três e meia, numa tarde cinzenta como de costume, atravessei a porta giratória e tomei o saguão de entrada de chão de granito, recepção toda de madeira escura. Porteiros de cartola entrando e saindo, homens com cachimbos lendo jornal nas poltronas à direita. Frisos de mármore em alto-relevo logo acima das portas me fizeram lembrar do Partenon do Museu britânico. Segui em frente até o salão. Atendido por um cordial maître de fraque e gravata, caminhei até minha mesa, ao lado de um abajur verde e bem próximo do colega ao piano de cauda branco. Desabotoei o paletó. Hello sir, would you like to have some tea?, surpreendeu-me a loirinha com seu uniforme tailleur/saia até o joelho, tudo azul escuro. Respondi o óbvio e ela me perguntou se eu queria o tradicional. Dessa vez, respondi apenas com a cabeça. Ainda estava meio zonzo para puxar mais conversa. Zonzo com aquela luz aveludada, aquele cheiro de conforto. Contei: quatro candelabros imensos, um em cada um dos vértices daquele salão quadrado. No centro do salão, o pianista tocando uma peça erudita, provavelmente Chopin; ao redor do pequeno palco onde trabalha o artista, sofás salmão, mesinhas ovaladas de madeira e cadeiras muito macias, forradas com tecido. Contei as mesas vagas - quatro. Quatro de um salão com umas trinta mesas que, pensava eu, estaria vazio numa terça-feira. Não me perdi longamente nos meus pensamentos, pois a loirinha me acordou com a chaleira de porcelana branca com o símbolo em S do hotel. Milk in your tea, sir? Sim, sim, eu quero tudo. Tudo. Três pratos vieram em seguida, três pratos num único porta-pratos pequeno, de prata, deixado na mesa. O prato inferior com sanduíches pequenos, de salmão, atum, ricota. O do meio com docinhos franceses e o superior com scones (um pão doce típico inglês, com passas). O chá, claro, Earl Grey. Assim é o chá da tarde no hotel Savoy, da Strand.

Londres, buscando um chavão inevitável, é uma cidade de tradições. Mas não há, talvez, tradição mais profundamente enraizada no cotidiano dos ingleses do que o chá. Por que diabos os ingleses gostam tanto de chá? O outro dia, pegando um táxi, perguntei ao motorista e ele deu uma sonora risada. "Tem a ver com nossas ex-colônias, a Índia produz um chá muito bom", explicou ele, "mas hoje as pessoas estão se esquecendo de como se deve tomar chá. Você deve colocar primeiro um pouco de água fervente no copo, para a porcelana ficar na temperatura ideal. Depois põe o saquinho, ou de preferência diretamente a erva, e joga mais água. Aí, tem que deixar descansar por cinco, seis minutos, senão você vai estar tomando só água colorida. A cor vem rápido, mas o sabor demora um pouco", explicou ele.

Desde 1658 (quando o produto começou a ser vendido em Londres, a princípio como remédio), o chá passou por várias fases por aqui. De cara, a novidade conquistou o gosto popular, mas a igreja, argumentando que o produto vinha de países pagãos, disse que ele não deveria ser consumido. Médicos, erroneamente, acharam que a bebida fazia na verdade mal para a saúde e, para piorar, o lobby dos produtores de cerveja entrou em ação, temendo que o chá tomasse o lugar das ales como a bebida do inglês no café da manhã (isso mesmo... cerveja no café da manhã!). O resultado foi que, ainda no século XVII, o rei Charles II determinou que o produto fosse sobretaxado em 119%, o que tornou o consumo de chá impossível para a maior parte da população. Só na segunda metade do século XVIII, por volta de 1780, que a situação iria mudar. Nessa época, o hábito de tomar chá passou a ser visto como uma boa alternativa para combater o alcoolismo, problema sério no país, e a sobretaxa foi extinta. Surgiram os chamados tea gardens - amplos jardins onde muitas mulheres e alguns homens se reuniam para degustar suas infusões - e, por fim, nos tempos vitorianos, ganhou força a tal cerimônia do chá da tarde. Entre 1901 e 1914, a mania havia conquistado tamanha popularidade que alguns dos hotéis mais suntuosos da capital britânica serviam três refeições na hora do chá. E mais tarde viria o jantar e a ceia...

Perdido nos meus pensamentos sobre a história do chá em Londres, não deixei escapar a bela seqüência em meus ouvidos. Smoke Gets in your Eyes. Depois, The Way you Look Tonight. Por minha conta, vi meu velho amigo Astaire sentado ao piano, sorrindo e quase chorando, pedindo desculpas para minha doce Ginger, That laugh that wrinkles you nose, qual era mesmo o filme? Requinte. Colunas de granito sustentando o salão. O chá se desfaz no céu da boca. Muitas mulheres de mais de quarenta ao meu redor, a maioria das mesas tomadas por pares de amigas. Mas há também senhores com suas gravatas e mulheres mais jovens com seus namorados. E as inevitáveis velhinhas, esplendorosas, revisitando o brilho de suas vidas, com seus lindos chapéus coloridos, andando devagar mas dando pulos de excitação. Este é um mundo de sonho. Are you all right, Sir? Sim, tudo bem, tudo muito bem.

Ir a um chá da tarde em um algum dos principais hotéis de Londres é, enfim, uma experiência inesquecível, pela qual toda pessoa deveria passar uma vez na vida. Você não precisa ser um milionário para ir ao Savoy. Nem um well-to-do para freqüentar o Ritz. Basta reservar um dinheiro, vestir seu terno e gravata ou seu vestido mais bonito e preparar os olhos, a língua, os ouvidos. Alguns lugares seguem com mais rigor a restrição à roupa, outros menos. Mas você não vai fazer o papelão de ir a um desses lugares com tênis e bermuda, né? Eu me produzi e passei duas horas como um rei no Savoy. A revista Time Out, um dos principais guias culturais de Londres, diz o seguinte: se você quer o interior mais suntuoso, deve tomar seu chá da tarde no Waldorf Meridien; se quer o melhor pianista ou os melhores docinhos, vá ao The Dorchester; o melhor serviço, ao Claridge's, e se você quer o lugar mais popular, ao The Ritz. Na dúvida, faça como eu, vá ao Savoy e transpire requinte e sofisticação.

Vinte e duas libras mais pobre, atravessei de volta o portal para o resto do planeta. Havia chovido e eu nem percebi. A Strand estava lotada. Nossa. Como o mundo pode ser um lugar muito melhor...

Para ir além

Mesas para o chá da tarde podem (e devem) ser reservadas com antecedência. O preço depende do hotel, mas não fica mais de 30 libras por pessoa. O horário também depende do hotel, mas a maioria serve o chá entre as 15h e 18h.

* Waldorf Meridien - Aldwych WC2. Perto do metrô Temple.
* The Dorchester - 54 Park Lane W1. Perto do metrô Hyde Park Corner.
* Claridge's - Brook Street W1. Perto do metrô Bond Street.
* The Ritz - Piccadilli W1. Perto do metrô Green Park.
* Hotéis cinco estrelas de Londres


Arcano9
Londres, 9/4/2001


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