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COLUNAS

Terça-feira, 22/1/2019
T.É.D.I.O. (com um T bem grande pra você)
Renato Alessandro dos Santos

+ de 1300 Acessos

Júlio Dinis (1838-1871) viveu pouco, muito pouco, mas em seus 31 anos de vida pôde se tornar médico, além de deixar, no céu da literatura portuguesa, seu nome grifado, mesmo que de forma passageira, isto é, como se uma ave migratória fosse riscando o azul cerúleo, que só vai aceso por causa do sol, até pulverizar-se, sozinha, na imensidão celeste. Mas é inegável: está lá, na história literária lusitana, o nome dele, sem meio-termo, mesmo que necessário feito um monjolinho de uma aldeia do século 19. Sua incursão literária surge, hoje, atrelada especialmente a um romance que escreveu, como era esperado, às moças de sua época: As pupilas do senhor reitor, que publicou em 1866, usando o folhetim como plataforma.

Não foi um romance escrito ao sabor da correria: o autor deu-lhe forma ao menos três anos antes, em 1863. Tal informação não é de toda desnecessária, uma vez que atinge o “contrato” folhetinesco, que é justamente o de a obra vir a lume com a aquiescência popular. Vox Populi. Então, aqui, a voz do povo não foi ouvida pelo autor, que, com isso, pôde dar forma ao enredo tão ― será que vai chover? ― esquematicamente romântico, com todos aqueles arroubos de espartilhos arfantes, além de febres provocadas, suspeitosamente, por conta do amor de alguma donzela por seu Romeu. A pudicícia estava no ar, algo que nos anos dourados do romantismo atingiu o bom-senso de todos que se entregaram àquelas tramas polvilhadas de açúcar.

É o caso deste romance de Júlio Dinis, que não é nem de todo mal: há nele um senso de direção tão bem definido, a prova de que o amor instala-se vencedor no coração das pessoas, que os leitores, a princípio relutantes, deixam-se entregar por mais uma dessas histórias em que duas pessoas ficarão juntas, mas, antes, terão de comer o pão que o Pé de gancho sovou.

Lendo Dinis, o enredo chapa-branca beira uma aula de catecismo. Salva-se o narrador, que não é machadiano, embora, neste, ecos daquele possam existir. Uma pergunta, por conta desse bate-papo com os leitores: alguém já fez um estudo buscando nas confissões de Brás reverberações de Dinis? Tudo bem, são dois tipos de narradores. Nas Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador ocupa-se como personagem, enquanto em As pupilas do senhor reitor ele apenas vai observando as coisas, do teto, pendurado no lustre, sem poder fazer nada mais além de contar o que pretende, mas alguém deveria pesquisar se o narrador-intruso de Dinis exerceu alguma influência no Bruxo do Cosme Velho.

Exerceu?

Cabe uma pesquisa aí, e se uma alma curiosa assim o fez já, faça o leitor aqui como Brás Cubas e dê um piparote nesta observação desnecessária (se bem que, pensando bem, vamos ver se o Google está de bom humor).

(...)

Duas páginas de pesquisa depois, nada vem muito a calhar, mas há mesmo algo aí; isto é, o trabalho detetivesco que uma pesquisa acadêmica requer demanda tempo e um fio de intuição que justifique a peleja toda e, talvez, talvez, a resposta a essa pergunta, a ressonância de Dinis em Machado, esteja em Tristram Shandy, de Laurence Sterne, uma das ‘preferências da casa’ do Bruxo. Por quê? Como lembra Carmen da Conceição da Silva Matos Abreu, em tese defendida em 2010 na Universidade do Porto (valeu, Google!), quando Dinis começou a escrever sua obra, Almeida Garrett, com Viagens na minha terra, gozava de uma alta popularidade em Portugal, logo...

Logo: Abreu afirma que o romance de Almeidinha “já se orientava por um estilo algo semelhante ao do escritor irlandês”, e é isso. O resto é silêncio? Cabe pesquisar. Alunos de letras em busca de um tema para seu TCC podem achar alguma coisa aí. Sem dúvida.

Mas, no romance de Dinis, quem é o narratário com quem o narrador dialoga o tempo todo? Uma hora, somos todos; noutras, são leitoras apenas, e nada mais. Leitoras pudicas, lembre-se. Leitoras que foram moldadas a receber de Dinis uma lufada de bons costumes que, atualmente, soa desatualizada. Uma garota, hoje, não vai ler As pupilas do senhor reitor espontaneamente, como se, ao deparar-se com o livro na estante, exclamasse:

― Olha o que achei aqui! Meu Deus!

Nada disso. As garotas estão andando para As pupilas do senhor reitor. Os rapazes? Ora, deixe-os em paz com suas espinhas, comadre. Os leitores, de um modo geral? Interessados em verificar como uma narrativa pudica se desenrola diante de seus olhos, ou mesmo professores a pagar uma velha dívida com Dinis, ou ainda aqueles que, estudando a história da leitura, veem-se anexados às Pupilas, bem, todos terão lá sua empresa recompensada por Dinis, que, vestindo o figurino da época, vai tecendo um painel de um Portugal estagnado no tempo, à mercê de uma vida chocha à beira de córregos, com seus padres, com seus doutores de uma medicina folclórica, além de camponeses e de garotas e de rapazes de coração em labaredas; todos levando uma vida que não tem mais lugar de ser. Mesmo na roça.

Mas há esse narrador e, nele, sua insistência nos leva a saber de Margarida e de Daniel, de Clara e de Pedro, além das famílias Dorna, Esquina e outras. Ah, claro, do reitor, o velho padre a se intrometer na vida de todo mundo, alguém que mesmo repleto das mais belas intenções será sempre aquela vareta de marmelo a fustigar as pernas das almas mais arredias. Bêbados patibulares e arruaceiros notívagos que o digam... Sem contar a inconveniência: está sozinho no meio do nada e precisa trocar o pneu e não sabe como? Olhe de novo e veja quem está ao seu lado. Quem estava passando nessa hora, senão o senhor reitor? Tem medo do escuro e precisa de alguém que segure sua mão? Estenda a sua, leitora. Não se assuste. Achou outra mão? Não, não se assuste: quem estava passando nessa hora, senão o senhor reitor?

Lá está a presença do narrador nem sempre onisciente, nem sempre onipresente, mas observador, literalmente acima de tudo, como foi sugerido antes, aqui. Há coisas que ele nos conta e outras que, mantendo o suspense, contraditoriamente diz ser incapaz de saber, como algo que ocorre na página 136:

João da Esquina sentiu-se derrotado e já procurava uma saída airosa. ― Bem; eu retiro-me, que sou prudente. Levo a consciência de que fiz o meu dever. Mas o mundo saberá... O resto da oração pronunciou-o fora da porta. Esta circunstância impossibilita-me de informar o leitor sobre o que o mundo tem de vir a saber a este respeito do tendeiro.

Como o narrador pode omitir tal informação e, em outras, ser capaz de contar até mesmo o que vai na imaginação dos personagens? “Pedro toda noite lidou com o receio de que o incômodo de Clara fosse a gravidade; vieram-lhe à imaginação as mais negras apreensões a respeito do futuro do seu amor”, eis o que lemos na página 175. Percebeu? O narrador de Dinis não revela o que João da Esquina diz, porque não consegue ouvi-lo, mas sabe até mesmo o que pensa Pedro, lá no fundo daquela cachola de personagem plano apaixonado. Como assim?!

Que mais há de importante?

Há de importante que, nós, leitores atuais de Dinis, não podemos nos esquecer de que, lá, nos poucos anos que o autor viveu, era hora tão distinta de hoje que não parece muito justo analisar a coisa toda como vai aqui. O século 19 encontrou no romance um formato adequado para transformar em palavras aquela época, e, comandados pelos mais intrépidos autores, tal manuseio proporcionou um processo de transformação romanesca que culminou com a experimentação modernista do século seguinte e continuou, mundo afora, a partir daí também influenciando, e vice-versa, a recém-criada sétima arte, até chegar à implosão que a pós-pós-pós modernidade, hoje, com a internet e todas as regalias, nos deixa. A evolução do romance não se interrompe e, no futuro, outros decerto virão aqui bisbilhotar e trolar nossa vida e escrita; então, que há de ser feito? Um tango argentino? Não, nada em especial, além de nos debruçar sobre o que foi capaz de fazer o engenho de Dinis, e se disso não for possível retirar nada que valha a pena, bem, aí, o problema são os outros, não é?

Dinis não merece tamanha derrisão e, cá, a favor dele, soube ele dar a nós, leitores pósteros, um pouco da experiência do que era viver o século 19 português, numa aldeia, aos pés de um enxerido reitor de bom coração que tudo faz para ajudar, e de suas pupilas, Clara e Margarida, à espera de dar um rumo ao coração que, errante, sempre segue em busca de alguém para amar. É isto, então, o amor. O amor romântico dos livros de literatura. Todos os transes. Todos os contratempos. Todos os solavancos. Mas sem Instagram, Facebook ou LinkedIn. Em vez disso, um tédio de consultório médico a rondar o espírito. Ufa! Tudo vai passando tão... rápido, não é? Mas, comparada à rotina dos personagens de Dinis, ainda bem que vivemos com o tempo a escapulir incólume pelo visor da tela líquida, como agora.

Renato Alessandro dos Santos, 46, é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia (Engenho e arte), seu mais recente livro.



Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 22/1/2019


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