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Sexta-feira, 10/7/2020
Filmes de guerra, de outro jeito
Ana Elisa Ribeiro

+ de 2300 Acessos

Havia apenas alguns dias que eu assistira ao remake de The Beguiled (em português, O estranho que nós amamos), lançado em 2017 e dirigido por Sofia Coppola. Ainda não tinha dado para digerir aquela história de suspense - adaptada de um livro de Thomas P. Cullinan, que se passava no século XIX, em tempos de guerra civil, nos Estados Unidos. Que medo, que mistério, que ansiedade. Um grupo de mulheres e meninas isoladas num internato, no meio do nada, e um soldado inimigo trazido por uma delas para dentro de casa para ser cuidado. Bom, o tal cuidado a gente vê no que dá...

Bárbaro. Eu estava achando incômodo e bárbaro, no bom sentido. Conforme li, depois, em vários sites gringos de cinema, a versão de Coppola mudava a perspectiva, dava tudo a ver sob o ponto de vista das moças; mostrava melhor aquelas mulheres em diferentes fases da vida, trancadas numa edificação imensa e escura, tentando cuidar de um homem desconhecido e, ao mesmo tempo, sentindo curiosidade e desejo por ele.

Ainda não tinha dado para repensar. E foi aí que pintou na área Agnus dei, dirigido por Anne Fontaine, coprodução de 2015 entre Franca, Polônia e Bélgica. Ao que parece, originalmente tem o título de Les innocentes, mas de inocente pouca coisa tem. Não fosse o modo absolutamente delicado e cuidadoso como foi filmado e narrado, seria um dos filmes mais "pesados" que alguém poderia ver. Bom, deve arrepiar muita gente "sensível". Eu amei.

Freiras grávidas. Preciso dizer mais? Sim, claro que sim. E isso não se deve a nenhuma lascívia delas, sistemáticas e obedientes como o quê. Deve-se, sim, a soldados russos, no fim da Segunda Guerra Mundial, que, como tantos outros soldados, em toda guerra, usam o estupro como forma de dominação e exibição de força. Toda guerra esconde histórias horrendas e infelizmente o que aprendemos na escola é maquiado demais. Mas o estupro está sob toda narrativa de dominação, seja ela menos ou mais visível e explosiva que uma guerra.

Em poucos minutos de película, fui lançada no espaço de um convento polonês isolado, num clima muito frio, diante de freiras atônitas que pareciam precisar de ajuda. Uma delas sai da edificação e, sem autorização, vai a pé até a cidade procurar médicos na Cruz Vermelha. Embora seja inicialmente ignorada, logo é vista por uma médica francesa, que a expulsa dali. No entanto, a médica resolve atender a freirinha quando a vê rezando, no frio, pela janela.

Começam então as visitas furtivas ao convento, onde Mathilde Beaulieu descobre não uma, mas dezenas de freiras grávidas, todas vítimas de estupro por soldados russos. Fiquei entre o horror, a pena, o nojo e o desânimo com a humanidade. Quem vai contar histórias de guerra como esta? Bem, elas acontecem e ficam sob o tapete, escamoteadas por narrativas de honra e glória. O fato de o filme mostrar um convento é extremo, deixa um gosto amargo na boca, afinal... sequer se trata de um grupinho de periguetes, para deliciar a língua dos preconceituosos e misóginos de plantão. Não, são freiras beneditinas trancadas num convento isolado. Pois então.

Mathilde cuida dessas mulheres violadas, faz partos, vários, ganha a confiança e a desconfiança das religiosas e de sua seríssima madre superiora, etc. Não vou dar spoilers demais. Mas além das freiras prenhes, ainda tive de lidar com o destino das crianças que nasciam... Enfim, são mostradas ainda questões da vida particular da própria médica, sua relação com um colega judeu; a relação entre as freiras; entre as freiras que se tornam mães e suas crianças e muito mais.

Como não fosse suficiente narrar uma situação como essa, descobre-se, lá pelas tantas, que os bebês nascidos às escondidas, dentro do convento, são entregues à morte. Pronto... desolação total. E aí... aí é que o filme me pegou de vez. Como é importante a insubordinação! Nessas organizações muito rígidas, cheias de regras duras, pessoas endurecidas e cegamente obedientes, diante de uma situação atroz, desumana e nova, como é importante haver alguém que ainda seja capaz de sentir, pensar e agir. Penso nisso sempre, em muitas situações, em circunstâncias de emburrecimento coletivo, etc. E penso em como um ou dois insubordinados ou insubordinadas, se não forem mais atrozes do que a organização, são fundamentais para a mudança bem-vinda, para a abertura das mentes, para a salvação de outros/as, para a correção de rumos.

Em Agnus dei, não apenas uma ou duas freiras se insubordinam, sem violência, mas com diligência. A médica da Cruz Vermelha também toma esse necessário rumo, diante do que encontra dentro daquele convento cheio de vítimas da guerra. Vítimas silenciosas, constrangidas, envergonhadas, dupla ou triplamente punidas, várias inocentes, lançadas da virgindade ao estupro, em uma lição. As freiras estavam grávidas; e sequer a madre superiora escapara: estava com sífilis em estágio avançado, mas não se deixou tocar e curar, nem pela médica. Ficou doente, pôs a culpa em Deus.

Tanto as freiras quanto a médica insubordinada, desobediente, foram punidas por seus/suas superiores. Mathilda leva um esbregue de seu comandante na Cruz Vermelha, mas mantém o segredo das religiosas intacto. Mantém também, apesar das dificuldades e restrições maiores, o compromisso de atendê-las na calada da noite. Consome-se, não dorme, não compartilha aquela dura situação com ninguém, até certo ponto... A freira mais atrevida também leva suas broncas, mas fica firme na consciência de que precisa ajudar a salvar mães e bebês, assim como a dignidade naquele convento.

Aqui e ali, outras ocorrências surgem, mais motivos para reflexão e perplexidade, mas o filme termina de modo que se encontre solução para tudo. No entanto, tais soluções são decorrentes, claramente, da humanidade e da insubordinação de algumas pessoas; estas capazes de pensar em meio ao caos e de decidir quando regras e regulamentos não estão acima de tudo. Que alívio! Que bom que existam essas pessoas de consciência clara e independente.

Não faço uma apologia à desobediência agressiva, gratuita; nem à insolência e à arrogância, que são outras coisas; nem à polemização cansativa e à toa. Não. Não digo que cada um pense por si e tome atitudes contra seus superiores. De forma alguma. O que digo é que a insubordinação (e pensar a subordinação é outro aspecto) é, muitas vezes, necessária, quando se percebe que as coisas vão mal, mesmo que pareçam organizadas e "como sempre foram". Alguns segredos são prejudiciais, algumas regras causam o mal e a morte de inocentes. Esses/as insubordinados/as, sim, são heróis. Os soldados estupradores, embora ganhem medalhas e faixas diante dos presidentes e dos reis, não. Não são. Não por acaso, tratei aqui de dois filmes de duas diretoras.

LeP



Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 10/7/2020


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