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Quarta-feira, 17/4/2002
O Ator Compositor
Rennata Airoldi

+ de 3600 Acessos

Introdução:

Caros leitores, hoje trago para vocês uma entrevista com o ator Matteo Bonfitto que acaba de lançar seu livro "O Ator Compositor", que é resultado de sua pesquisa de mestrado sob orientação de Jacó Guinsburg.

-Gostaria de saber, para começar, um pouco sobre a sua formação.

MB:Bom, minha formação começou na EAD ( Escola de Arte Dramática), e no final do curso, diante das possibilidades ou da falta delas, eu decidi utilizar a minha cidadania italiana e por acaso encontrei a Universidade de Bologna na Itália. Lá existia um curso chamado DAMS,( departamento de arte, música e espetáculo), onde são integradas quatro áreas: arte, filosofia, teatro e cinema. O mais interessante deste curso era a relação prática e teoria. As matéria teóricas eram dadas por professores da universidade e as práticas por profissionais convidados. Foi aí que eu tive a possibilidade de conhecer o trabalho do Yoshi Oida, que é ator do Peter Brook, atores do Odin Theatre.

-Este livro, "O Ator Compositor", é resultado de uma pesquisa. O que te levou a buscar este caminho enquanto ator?

MB:Para mim uma das maiores dificuldades na formação do ator é a quantidade de referências de técnicas de atuação. Por exemplo, eu acho que até hoje é muito comum que um ator que esteja se formando faça uma espécie de shopping; ele faz um curso de Stanislavski, um curso de Brecht, um de comédia del'arte, um de clown. Isso foi um ponto de partida, porque fica uma experiência super fragmentada e que não há como sintetizar, construir um percurso artístico a partir disto. Tudo parece desconexo, sem relação. Com tudo isso comecei a pensar porque no caso do ator não existia esse termo que é usado em todas as outras áreas que é "Composição". Existe na dança, na escultura, na pintura, no cinema e não no trabalho do ator. Enfim, a partir destes dois problemas foi que eu comecei a pesquisar e cheguei numa espécie de eixo: que é a questão da Ação Física.

-Isso que eu queria saber. Durante o seu percurso teve alguma linha que te chamou mais atenção durante a sua formação que você pudesse dizer é por aqui que eu começo a trilhar o um caminho?

MB:Na verdade este eixo foi encontrado depois de todas as experiências que eu já tinha tido até agora. Não foi uma coisa elaborada antes da prática. Eu fui percebendo que este conceito de ação física, a partir das bases que o Stanislavski constrói, podia estar presente no trabalho de outros pensadores, de outros artistas. E comecei a perceber que a questão principal da ação física que é essa conexão que existe entre a expressão exterior e processos interiores, que isso estava presente de formas diferentes em Brecht, em Barba, em Grotowski.

-Seria um ponto universal entre as coisas?

MB:A aposta desta pesquisa é afirmar que a ação física está acima das diferenças entre as práticas teatrais.

Seria como o átomo para matéria?

MB:É seria o átomo do trabalho do ator. A célula expressiva, na medida em que você conecta uma expressão exterior a um processo interior a ação física já existe a partir daí. A formalização disso é que é diferente em cada artista. Assim a questão central do livro é pensar a composição do trabalho do ator a partir da ação física enquanto conceito que foi ampliado. Mas ao mesmo tempo, esta constatação fez com que outras questões surgissem, por exemplo, qual é a diferença entre movimento, ação e gesto, que são termos super inflacionados em todos os cursos e cada um fala de um jeito e sugere uma definição diferente. E mesmo assim, a partir das onze referências que eu escrevi, dentre elas o Kabuki e a Pina Baush, dança e teatros orientais, mesmo internamente no discurso destas pessoas poderia existir um denominador comum para o que eles chamavam ação, movimento e gesto. Outra questão complicada do livro foi a questão da improvisação. Porque há milhares de cursos de improvisação e tipos diferentes. Tentar reconhecer diferentes práticas de improvisação, na verdade desde o teatro mais careta e amador, existe um nível de improvisação ali, até o teatro mais experimental e de pesquisa.

Na verdade, o livro é resultado da pesquisa de mestrado sob orientação do Jacó Guinsburg.

MB:Eu nunca esperei publicar esse material. Aconteceu a partir da formalização do resultado. O Jacó achou que era importante e que ajudaria a refletir sobre o trabalho do ator. Porque o ator acaba sempre ficando de lado, se pesquisa sobre encenação e dramaturgia mas pouco se fala sobre o trabalho do ator. É sempre um mito ou uma cobaia. Na verdade, a questão do ator compositor não substitui a sensibilidade e a subjetividade, é impossível mas eu acho que busca lidar com aspectos que são concretos. É um material objetivo de reflexão sobre o trabalho do ator.

Mesmo porque entre a reflexão a prática há uma distância muito grande.

MB:É eu vejo o ator compositor enquanto alguém que se propõe a refletir a própria prática, sem intelectualizar "a priori" a própria prática. Uma outra questão que o livro se propõe a refletir é a questão da personagem. Se você observar a dramaturgia contemporânea, vai ver que não existe mais a proposta de uma fábula, personagens que têm uma unidade psicológica, não existe referência de tempo ou espaço. Na maioria das vezes são fluxos de discursos abertos. Como traduzir cenicamente isso e que tipo de ser ficcional é esse que não é um tipo e nem indivíduo. Então comecei a pensar que para construir este ser ficcional você precisa ser um ator compositor que compõe estes seres a partir de diferentes referências teatrais. Cada momento deste ser pode exigir uma referência diferente e a ação física é o eixo.

Como você vê a questão da pesquisa para o ator no Brasil?

MB:Cada vez mais as pessoas estão se dando conta que existe um campo de saber na arte. O trabalho do ator pode ser um objeto de conhecimento. Claro que a mídia ainda faz prevalecer o banal. Mas a realidade é aquilo que insiste, existem grupos de pesquisa que estão conseguindo conquistar um espaço como o LUME, o Teatro da Vertigem, o meu grupo, ARS Teatro com direção da Beth Lopes. Aos poucos vamos ganhando um certo espaço, num certo tipo de mídia e também verbas e patrocínios. Embora ainda seja pequeno perto de um grande espetáculo comercial. O problema é que não há um mercado no Brasil e poucas pessoas se propõe a pesquisar e entender o trabalho do ator. Existe por parte da maioria dos atores uma auto- piedade, uma postura de alguém que está esperando uma oportunidade. Aqui os atores têm uma dificuldade enorme de refletir sobre o próprio trabalho, escrever sobre ele. Há ainda um preconceito em relação a necessidade da pesquisa e da formalização dela. São poucos os atores que se propõe a ser de fato pesquisadores. Tudo isso envolve muito tempo. Temos que pensar também que existem aqueles que desenvolvem uma pesquisa e os que dizem desenvolver.

A pesquisa fica difícil num contexto em que não há uma infra-estrutura física e até financeira?

MB:Eu acho que o que mais propicia o desenvolvimento de uma pesquisa é a fundamentação dela. A infra estrutura é um problema mas quanto voc6e tem uma pesquisa fundamentada, há uma certa ressonância entre as pessoas do grupo quanto as pessoas que podem oferecer condições para o desenvolvimento desta pesquisa. O que acontece é que as pesquisas são pouco fundamentadas. Isso vem desde o problema da formação que enfrentamos aqui. Na Europa, a formação exige um embasamento cultural, um conhecimento de filosofia, antropologia.

Você acha que a pesquisa é acessível ao público?

MB:Eu acho complicado, chega em determinado público, tem a ver com a formação de quem você está dialogando. É complicado quando a referência ainda é a televisão e você se propor a tentar construir uma brecha com uma forma de arte que se expressa de uma maneira diferente e que sensibilize e que exige uma outra forma de participação, não só intelectual, mas sensível e perceptível. A maioria do público ainda é muito preguiçoso e com referências culturais muito pobres. Por exemplo, eu ganhei uma bolsa e fui para Nova York, com preconceito como todas as pessoas de esquerda, mas me surpreendeu como as pessoas precisam fruir e pensar teatro. E eu achei que ia encontrar só musicais e há todos os tipos de teatro e público para todos eles. Acho que não dá também para pensar o teatro comercialmente, não dá para pensar em se atingir um público alvo. Existem muitos tipos de teatro mas alguns deles te proporcionam mais do que um entretenimento. Te proporciona uma experiência transformadora, não só política mas também sensível e perceptível.

O Matteo ator está satisfeito com o Matteo autor?

MB:Acho estranho ver meu nome numa livraria, na capa de um livro, não me penso como autor mas o grande mérito deste trabalho é ser uma reflexão que pode contribuir para pensar que a atuação é um objeto de conhecimento. Além de ser um modelo de se pensar o ator como compositor.

Quais são os próximos planos?

MB:Estou desenvolvendo uma pesquisa sobre o trabalho do ator no Teatro do Peter Brook. Em setembro vou para a Inglaterra e também vou acompanhar o trabalho do grupo em Paris. O que é muito legal é que mesmo tendo publicado um livro, saber que não termina ali, não se esgota. A atuação é um campo tão vasto, infinito porque você lida com o homem e você pensar o homem é você pensar em psicologia, ciências cognitivas, antropologia, filosofia, é um campo inesgotável. O livro não é um ponto final, estático. É uma pesquisa complementar.

- O livro é dirigido há algum público específico?

MB:Atores, artistas e pesquisadores que lidam com a questão da composição. Diretores que pudessem sentir a necessidade de refletir o trabalho do ator. Pesquisadores de estática teatral e curiosos que admirem o trabalho do ator e não entendem os mecanismos. Claro que o livro não esgota isso mas esclarece alguns pontos, repensa muitas referências.

O Ator compositor é:

MB:O cara que está disposto a antes de tudo vivenciar uma experiência no teatro para depois refletir sobre ela, mas acho que é um cara que não pode abrir mão de uma questão fundamental: o ator, por catalisar experiências humanas, é um veículo que ajuda a gente a conhecer melhor o homem.

Fale um pouco sobre as peças do grupo ARS:

MB:A gente está com um repertório de três peças: "Em Lugar algum" que foi construído a partir do texto 'Tempo de despertar" de Oliver Sachs que apresentamos num festival em Edimburgo na Escócia, "Descartes" que foi um txto adaptado pelo Fernando Bonassi e "Silêncio" de Peter Handke que ficou em cartaz em 2000 2 2001, foi para o Chile e que iremos apresentar na França no próximo semestre.

Apêndice:

O Livro :"O Ator compositor" de Matteo Bonfitto foi publicado pela editora Perspecticva e já está a venda em todas as livrarias. Aos interessados, boa leitura!


Rennata Airoldi
São Paulo, 17/4/2002


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