Jornal e salsicha | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
49568 visitas/dia
1,2 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 20/6/2001
Jornal e salsicha
Daniela Sandler

+ de 4600 Acessos

Não sei se vocês já ouviram aquela comparação do jornal e da salsicha - provavelmente não, acho que é "piada interna" de jornalista. Diz que jornal é como salsicha: se você soubesse como um e outra são feitos, nunca mais os consumiria. Eu trabalhei na redação de um grande jornal por quase um ano e, enquanto estava lá, fui impregnada por esse "auto-sarcasmo", ou cinismo, como queiram chamar. Vi como muitos textos são feitos às pressas; como não há tempo ou condições para se dedicar às reportagens; como o parco salário, a sobrecarga de trabalho e a pressão exagerada esgotam os neurônios e a criatividade; e como há gente despreparada falando de coisas importantes.

Não que todo mundo seja assim (se eu me achasse incompetente, não teria estado lá nem aqui). Mas, no mínimo, a gente começa a duvidar da própria relevância social. Eu escrevia sobre ciência. No fim, eu me perguntava se eu fazia diferença. Será que alguém me lia? E se lesse, será que, no dia seguinte, esqueceria?

Não surpreende que o cinismo seja tão comum entre jornalistas. A obrigação de escrever sempre sobre o novo (ou sobre o que parece novo) faz com que as notícias se sucedam sem que nenhuma pareça ter importância intrínseca, tendo valor apenas em sua novidade momentânea. No fim, vira tudo um "e daí?"...

Mas nesse feriado que passou eu tive uma iluminação. Ou melhor, uma "lembração". Lembrei por que resolvi ser jornalista em primeiro lugar: achava que poderia ajudar a melhorar a sociedade e a pôr luz nas coisas "erradas". Lembrei-me disso não como jornalista, nem mesmo como leitora, mas, por assim dizer, quando me vi do outro lado do balcão.

O motivo pode parecer prosaico. No domingo de feriado, a Nordeste, companhia aérea pela qual eu voaria de Salvador a São Paulo, confirmou o vôo de 140 passageiros para um avião em que só cabiam 117. Pelo número, já não é nem caso de overbooking, mas de irregularidade e mau-caratismo (ou de incompetência absoluta). Total desrespeito aos passageiros, uma sucessão de erros, nenhum preparo para lidar com a situação, omissão deliberada de informações... e trinta pessoas aglomeradas por quase três horas no saguão de espera do Aeroporto Dois de Julho (é o aeroporto internacional de Salvador, mas eu me recuso a usar o novo nome - não quero fazer propaganda política).

Imaginem trinta pessoas cansadas, estressadas, recebendo informações vagas e confusas, que pagaram pela passagem, confirmaram o vôo e chegaram com duas horas de antecedência, e que não sabem mais quando vão embarcar para casa. Duas funcionárias atarantadas atrás do balcão de passagem, entre as súplicas dos passageiros e as instruções dos superiores, parecem aquele joão-bobo que a gente joga de um lado para o outro. O supervisor, evasivo e melífluo, mente aos passageiros e escorrega como sabão. O avião lotado (com passageiro até na cabine do piloto) parte, claro, sem a maioria dessas pessoas, que ainda têm de esperar duas horas para ser levadas ao hotel em que passariam a noite. A segunda-feira estaria perdida: os dois primeiros vôos já estavam lotados; no terceiro, às 11 da manhã, só havia seis lugares.

O saguão se esvazia, as outras companhias já embarcaram seus passageiros, ninguém parece ligar muito para a turma que sobrou. Processo, alguns dizem, não vai adiantar nada: as companhias são muito poderosas, a gente não tem força nenhuma. Reembolso, compensação? Acho que essas palavras não existem no Brasil (nos Estados Unidos, quando há overbooking, as companhias oferecem, além de hotel e traslado, compensações que vão de passagens aéreas gratuitas a US$ 200 em dinheiro). A indignação é acompanhada da sensação de impotência. O péssimo serviço da Nordeste não seria compensado; os prejuízos causados pelo atraso, estresse e espera não seriam ressarcidos. Uma menina fala com seu advogado pelo celular e tenta entrar no último vôo da noite, também lotado. Típico: soluções particulares, individuais, jeitinho brasileiro.

Por sobre os ombros da menina, eu vejo um homem tirando fotografias, com uma máquina mais equipada que a média das câmaras turísticas. Não, não há de ser recordação de férias ("amigos que fiz enquanto esperava no aeroporto"). Olho de novo. Sim, não há dúvida: um repórter fotográfico! Instintivamente procuro seu par: alguém com um bloquinho nas mãos. Está lá, mais adiante: um rapaz rodeado por alguns passageiros, anotando. Um repórter!

Muitas pessoas se aproximavam do moço para dar sua versão da história e registrar suas reclamações. O repórter ia reconstruindo os acontecimentos a partir dos relatos, chegando aos nomes que deveria procurar - por exemplo, o supervisor. Os pontos a esclarecer iam sendo definidos tanto pelas perguntas do repórter quanto pelas questões que as pessoas entrevistadas colocavam. Chegando perto do repórter, cada um de nós enunciava nossas críticas ("Overbooking de trinta pessoas não é overbooking, é outra coisa", "Deixaram a gente esperando duas horas sem informar nada"): aquele homem parecia a voz mais poderosa para fazer chegar as nossas preocupações aos ouvidos de quem poderia respondê-las.

A situação seria finalmente explicada: em lugar das contradições e desculpas, o repórter ia achar "a" verdade. A injustiça ficaria visível para além do saguão de check-in, e talvez alguém fizesse alguma coisa. O draminha daquelas trinta pessoas ganharia dimensão social (de fato, exemplo que é de uma situação cada vez mais comum nos aeroportos brasileiros).

Eu sei, por experiência própria, que repórter não é bombeiro da sociedade. Mas o jornalismo é capaz de gritar "fogo!" muito mais alto do que eu, sozinha (e, se eu começar a gritar muito alto, provavelmente vou aparecer no jornal). Todos nós temos muitos exemplos de mudanças políticas, sociais e econômicas (e conjugais...) impulsionadas por reportagens, colunas e editoriais, para o bem e para o mal. Um dos retratos desse lado heróico está no filme Todos os Homens do Presidente, cujo tema é o escândalo de Watergate.

Longe, porém, de eventos bombásticos, o que eu senti naquele aeroporto me fez pensar, por exemplo, nas lutas urbanas cotidianas, em moradores de um bairro sem esgoto, sem ponto de ônibus, sem hospital, em que de repente chega um repórter para registrar o córrego sujo passando no meio das casas. Pensei na invisibilidade social, na ausência de mecanismos para reivindicar direitos, e na sensação de alívio, reconhecimento e esperança que a visita simples de um jornalista pode e deve dar.

No fim, o draminha do aeroporto não saiu no jornal. A notícia não era tão grande ou nova assim, talvez; talvez outras considerações editoriais (falta de espaço, um anúncio ocupando a página inteira) tenham contribuído. E mesmo se tivesse saído, talvez nada acontecesse. Não é uma reportagem que vai tornar decentes as companhias aéreas ou as políticas habitacionais. Mas, se jornalista não é bombeiro, há vantagens nisso: não tem de carregar o caminhão e as mangueiras para onde quer que vá. Pode se esgueirar, se mover mais rápido, se disfarçar.

Voltei de viagem e abri uma revista semanal. Torci o nariz - não vou mentir a mim mesma e dizer que salsicha é caviar. É salsicha, e não muito apetitosa. Mas também não vou esquecer que pode ser diferente. Que talvez tenha sido assim que tudo começou. Que foi, com certeza, esse o motivo pelo qual eu comecei.

Ficha técnica

Todos os Homens do Presidente (All the President's Men, EUA, 1976). Direção: Alan J. Pakula. Com: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards.

Para uma lista comentada de outros filmes sobre jornalismo, veja Inovações no Jornalismo, site mantido pela PUC de Campinas.


Daniela Sandler
São Paulo, 20/6/2001


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Breve resenha sobre um livro hediondo de Cassionei Niches Petry
02. Lições literárias de Gian Danton


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2001
01. O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece - 8/8/2001
02. Quiche e Thanksgiving - 21/11/2001
03. A língua da comida - 29/5/2001
04. Mas isso é arte??? - 29/8/2001
05. Notícias do fim-do-mundo - 24/10/2001


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O TRONCO DO IPÊ
JOSÉ DE ALENCAR
SARAIVA
R$ 4,00



CLASH ROYALE
GUILHERME ATHAIDE
PANDA BOOKS
(2016)
R$ 15,00



EDUCAÇÃO E TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA
GUIOMAR N. MELLO
CORTEZ
R$ 5,00



O CAVALO VERDE - CAUSOS GAÚCHOS E RELATOS INTERIORANOS
LUIZ CORONEL
MECENAS
(2002)
R$ 24,00



O PENSAMENTO ANTIGO (2 VOLUMES) RODOLFO MANDOLFO (FILOSOFIA)
RODOLFO MANDOLFO
MESTRE JOU
(1964)
R$ 30,00



SELEÇÃO E COLOCAÇÃO DE PESSOAL
MARVIN D. DUNNETTE
ATLAS
(1973)
R$ 10,00



CARLOS VERGARA: PINTURAS
PAULO SERGIO DUARTE
AUTOMÁTICA
(2011)
R$ 60,00



THAT WAS THAT! CONSONANT DIGRAPHS TH
SUZANNE BARCHERS
LEAP FROG
(2010)
R$ 20,28



ANTOLOGIA POÉTICA
MAIACOVSKI
MAX LIMONAD
(1984)
R$ 35,00



ESTA MENINA ESTÁ FICANDO IGREJA
PE. ZEZINHO
PAULINAS
(1984)
R$ 4,84





busca | avançada
49568 visitas/dia
1,2 milhão/mês