Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial | Alberto Beuttenmüller

busca | avançada
64351 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Concerto cênico Realejo de vida e morte, de Jocy de Oliveira, estreia no teatro do Sesc Pompeia
>>> Seminário Trajetórias do Ambientalismo Brasileiro, parceria entre Sesc e Unifesp, no Sesc Belenzinho
>>> Laura Dalmás lança Show 'Minha Essência' no YouTube
>>> A Mãe Morta
>>> BATA ANTES DE ENTRAR
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
>>> Para não dizer que eu não disse
>>> Espírito criança
>>> Poeta é aquele que cala
>>> A dor
>>> Parei de fumar
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O batom
>>> Como num filme
>>> Only time will tell
>>> Política - da filosofia à neurociência.
>>> Ideologia: você quer uma pra viver? Eu, não
>>> The Flickrization of Yahoo!
>>> TechCrunch Disrupt
>>> O humor é como as marés, ora sobe ora desce
>>> Guimarães Rosa em Buenos Aires
>>> Festival de Curitiba 2010
Mais Recentes
>>> Livro de Bolso - Histórias Extraordinárias de Poe pela Abril Cultural (1978)
>>> Dos Ritmos aos Caos de Pierre Berge e Outros pela Unesp
>>> Livro - Sabedoria para Viver Bem- Meditações para Lidar Com a vida com alegria e otimismo de Louise L. Hay/ Ana Raquel Maia pela Sextante (2009)
>>> Assassinatos na Academia Brasileira de Letras de Jô Soares pela Companhia das Letras (2005)
>>> Livro de Bolso - O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde pela Abril Cultural (1980)
>>> Livro - Suíte Francesa de Irène Némirovsky pela Companhia das Letras (2006)
>>> Área de Corte de Jandira Zanchi pela Patuá (2016)
>>> Livro de Bolso - O Vermelho e o Negro de Stendhal pela Abril Cultural (2022)
>>> Catecismo da Igreja Católica de Típica Vaticana pela Loyola (2000)
>>> Robert Kennedy de James W. Hilty pela Temple University Pr (1997)
>>> Livro - Harry Potter e o Cálice de Fogo de J. K. Rowling; Lia Wyler pela Rocco (2001)
>>> Livro de Bolso - Mulheres Apaixonadas de D. H. Lawrence pela Abril Cultural (1979)
>>> Processo Sancionador e Mercado de Capitais de Daniel Kalansky; Eli Loria pela Quartier Latin (2016)
>>> Uma Arte de Amar Para os Nossos Tempos de Jean-Yves Leloup pela Vozes (2002)
>>> Manual Prático de Ginecologia e Obstetrícia de Gian Carlo Di Renzo pela Elsevier
>>> Livro - A Escriba - Inspirado Em Fatos Históricos de Antonio Garrido pela Suma de Letras (2009)
>>> Livro de Bolso - A Idade da Razão de Sarte pela Abril Cultural (1979)
>>> Um Sorriso Ou Dois de Frederico Elboni pela Benvira (2014)
>>> Livro de Bolso - O Sol Também Se Levanta de Ernest Hemingway pela Abril Cultural (1980)
>>> Livro - Fernando Pessoa, o Menino da Sua Mãe de Amélia Pinto Pais pela Companhia das Letras (2009)
>>> Beyond Students Book Premium Pack-a2 de Rebbeca Robb Benne; Rob Metcalf; Robert Campbell pela Macmillan Education (2015)
>>> Livro de Bolso - O Leopardo de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa pela Abril Cultural (1979)
>>> Livro o Ateneu de Raul Pompéia pela Atica (1996)
>>> Livro - Nós Estamos Grávidos de Maria Tereza Maldonado pela Integrare (2010)
>>> Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira pela Nova Fronteira (1993)
ENSAIOS

Segunda-feira, 29/7/2002
Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial
Alberto Beuttenmüller

+ de 25500 Acessos
+ 6 Comentário(s)

Sérgio Buarque de Holanda faria 100 anos em 11 de julho de 2002. Lembro-me de nossos papos na rua Buri, 35. Não posso esquecer as profundas especulações de Sérgio. A casa vai tornar-se um centro de MPB. Será bom? Será ruim? O tempo dirá. Recordar é andar sobre ruínas. É o que sinto neste momento de saudade de Sérgio. Invadem-me versos de Fernando Pessoa de "Aniversário":

(...) "O que sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio
" (...)

Andei lendo aqui e ali as homenagens ao Sérgio Buarque e nenhuma delas me acalentou. Demonstrações de vaidade, cada qual a querer mostrar mais sapiência que a outra. Sérgio Buarque era pesquisador sagaz, lúcido e humilde, daí sua grandeza. De tudo que li, o que mais me agradou foi uma descoberta de texto inédito de Sérgio, hoje no acervo da Praça Henfil, 50, Cidade Universitária Zeferino Vaz, Unicamp, Biblioteca Central.

A família de Sérgio doou à Unicamp todos os documentos pessoais do historiador, depois que a universidade campineira comprou, em 1983, sua biblioteca de 8.513 volumes, 227 títulos de periódicos e 600 obras raras dos séculos 16 ao 20. Esse inédito tesouro, levado em meio a toda essa documentação, é uma dissertação de mestrado: Elementos Formadores da Sociedade Portuguesa na Época dos Descobrimentos, defendida em 30/07/1958 na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo.

Recordar é ruminar entre ruínas. O que me lembro de Sérgio era do homem cordial, que me recebia à porta de sua casa da rua Buri e me levava ao seu esconderijo intelectual, sala cheia de livros, mesa de carvalho, estantes ao redor, e, esconsa atrás da poltrona, a cachaça mineira ou o whisky. A poltrona vestia-o, como um casaco nos dias frios; cabelos em desalinho, pelo constante passar e repassar da mão à cabeça, como se o gesto fosse melhorar ainda mais sua memória já prodigiosa. Falávamos de tudo um pouco.

De repente, dizia os versos de Hölderlin, com seu sotaque prussiano, que aprendera na Alemanha em 1929-30. Nesta época entrevistou Thomas Mann e viu a ascensão do III Reich:

Im dunkeln Efeu sass ich, an der Pforte
(Na hera escura estava eu sentado, às portas)

Des Waldes, eben, da der goldene Mittag
(da floresta, mesmo quando o meio-dia de ouro,)

E ficávamos a discutir qual era o nome do poema, embora esse fosse fácil, era o "Der Rhein" ("O Reno").

A literatura era sua paixão; a história, profissão. Às vezes, a nossa prosa se interrompia pela chegada de dona Maria Amélia, que trazia guloseimas com café. Os copos eram esconsos, notadamente o dele, já que não podia fumar nem beber, mas deles abusava. Ele ria de toda aquela dissimulação. Era dona Maria Amélia abandonar a sala, e a garrafa retornava à mesa e seu Gauloise, dos mais fortes fumos, sem filtro, voltava a espiralar fumaça pela sala.

Nessa revisitação ao universo de Sérgio, lembro-me dos papos sobre sua obra mais famosa: Raízes do Brasil (1936), que teve prefácio de Gilberto freire, na primeira edição, logo substituído por outro de Antonio Cândido. O motivo dessa desavença entre Sérgio e Gilberto é uma incógnita. Sérgio não gostava de Gilberto, nome que entrara para o índex do historiador e que passou a ser proibido em qualquer conversa com Sérgio. Ainda me lembro de ter manuseado a primeira edição de Raízes e de expor as questões que os estudiosos viviam a discutir sobre o "homem cordial". Sérgio ficava possesso. Era fácil perceber. Se comparada a Casa Grande & Senzala, a obra de Sérgio fora menos reconhecida, menos reeditada e menos lida. E quiseram fazer piada com a tese do brasileiro como "homem cordial", entendida a "cordialidade" como concórdia, bondade, subserviência, quando o que Sérgio queria dizer era passional, aversão a toda convenção ou formalismo social, e tanto podia ser positiva ou agressiva. O trecho de Raízes é claro: "A inimizade bem pode ser tão cordial quanto à amizade, visto que uma e outra nascem do coração, procedem da esfera do íntimo, do familiar, do privado".

O importante é que a obra de Sérgio Buarque vem crescendo com o passar dos anos e cada vez mais lida, discutida e reeditada. Essas lembranças me vêm à mente porque naquele tempo eu trabalhava no Jornal do Brasil e fazia entrevistas com intelectuais para o "Caderno B". Como tinha liberdade de pautar tais entrevistas, colocava sempre uma com o Sérgio só para matar as saudades. Ele começava a falar como se o tempo não se houvera interrompido, desde o nosso último encontro. E se lembrava do último assunto tratado. Ele anotava tudo e citava de memória os pontos principais.

Não é fácil andar sobre as ruínas que a memória marca para sempre. Duro é cumprir essa arqueologia da saudade. Sérgio Buarque de Holanda crescerá com o tempo. E as ruínas da memória serão cada vez mais escavadas, pedra por pedra, nessa nossa história do Brasil.

Nota do Editor
Texto inédito, especialmente redigido pelo autor, para o Digestivo Cultural. Alberto Beuttenmüller é poeta, jornalista e crítico de arte (membro da AICA).


Alberto Beuttenmüller
São Paulo, 29/7/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. O valor da arte contemporânea de Paula Mastroberti


Mais Alberto Beuttenmüller
Mais Acessados de Alberto Beuttenmüller
01. Modernismo e Modernidade - 9/9/2002
02. Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual - 16/6/2003
03. Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial - 29/7/2002
04. Matisse e Picasso, lado a lado - 28/10/2002
05. A Bienal e a Linguagem Contemporânea - 10/6/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
29/7/2002
11h56min
Caro Alberto, Um texto curto e saboroso, trazendo a nós o grande Sérgio Buarque de Holanda, veio como a inspiração necessária a mais um começo de semana. Obrigada! Vanessa
[Leia outros Comentários de Vanessa Rosa]
29/7/2002
14h04min
Querida Vanessa Rosa:Obrigado pela adjetivação de saboroso ao meu texto. Não foi fácil fazê-lo. Não queria torna-lo nostálgico nem piegas.Queria falar do amigo, do homem e do intelectual sem exagero. Sérgio era uma brisa de sabedoria, que me acalentava, a cada visita. Era um tempo em que havia tempo para aprender. De nada, Vanessa,eu que agradeço. Alberto Beuttenmüller.
[Leia outros Comentários de Alberto Beuttenmülle]
29/7/2002
16h57min
Meu caro Alberto, lendo seu artigo relembrei-me das histórias deliciosas que você costuma contar em seus cursos, sobre peculiaridades de Volpi, Otake e tantos outros artistas que lhe recebiam/recebem de portas e braços abertos. Você é um colecionador de ilustres anfitriões. Abraço, Denis
[Leia outros Comentários de Denis Zanini]
29/7/2002
17h45min
Obrigado,Denis,aproveito para fazer um comercial: estou iniciando o curso A Arte Contemporânea e o Enigma Marcel Duchamp, no Ponto de Integração da Arte, rua Cotoxó,110(paralela à av Sumaré).Telefone:3873-0099. Forte abraço. Alberto Beuttenmüller.
[Leia outros Comentários de Alberto Beuttenmülle]
1/8/2002
17h08min
O texto de Alberto Beuttenmülle nos enche de orgulho por se tratar de um depoimento profundo e consistente sobre Sérgio Buarque. Parabéns pelo ensaio. Ensaios na Internet, bela sacada, bela janela!
[Leia outros Comentários de Luís Antônio Giron]
1/8/2002
17h41min
A sacada e a janela pertencem ao nosso editor - Julio Daio Borges; fico também orgulhoso que as pessoas tenham entendido que o Sérgio Buarque era um grande praça, além de intelectual que orgulhou a sua geração. Nós, meu caro Giron, temos de continuar essa tradição de bem servir à comunidade do pensamento e da reflexão. Obrigado, agora que está orgulhoso é o Sérgio, onde estiver, e o Chico, por ter tido o pai que teve. Alberto Beuttenmüller.
[Leia outros Comentários de AlbertoBeuttenmüller]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Regime Jurídico do Condomínio Fechado
Severino Ignacio Aragao
Forense
(1997)



Português para o Ginásio - para a Primeira e Segunda Séries
José Cretella Júnior
Nacional
(1961)



Chico, Edu e a Oitava Série
Lino de Albergaria
Saraiva
(2002)



Enciclopédia ilustrada do Estudante Vol 1
Globo
Globo
(1992)



Com a Palavra
Vários Autores
Sesc Sp - Lazuli
(2004)



Brasília em 300 questões - Livro jogo
Equipe da editora
Dédalo
(2002)



Implantação da Qualidade e da Produtividade pelo Método...
Victor Mishawka
Mcgraw-hill
(1990)



Garibaldo Nº 21
Revista Garibaldo
Três



A Música Que Mudou Minha Vida (lacrado)
Robin Benway
Galera Record
(2009)



A Princesa de Babilônia
Voltaire
Escala





busca | avançada
64351 visitas/dia
1,8 milhão/mês