Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial | Alberto Beuttenmüller

busca | avançada
79919 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Renato Morcatti transita entre o público e o íntimo na nova exposição “Ilê da Mona”
>>> Site WebTV publica conto de Maurício Limeira
>>> Nó na Garganta narra histórias das rodas de choro brasileiras
>>> TODAS AS CRIANÇAS NA RODA: CONVERSAS SOBRE O BRINCAR
>>> Receitas com carne suína para o Dia dos Pais
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Deep Purple em Nova York (1973)
>>> Blue Origin's First Human Flight
>>> As últimas do impeachment
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
Últimos Posts
>>> O cheiro da terra
>>> Vivendo o meu viver
>>> Secundário, derradeiro
>>> Caminhemos
>>> GIRASSÓIS
>>> Biombos
>>> Renda Extra - Invenção de Vigaristas ou Resultado
>>> Triste, cruel e real
>>> Urgências
>>> Ao meu neto 1 ano: Samuel "Seu Nome é Deus"
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Eles – os artistas medíocres
>>> Sultão & Bonifácio, parte IV
>>> Em 2016, pare de dizer que você tem problemas
>>> O Direito mediocrizado
>>> Carma & darma
>>> Carlos H Lopes de chapéu novo
>>> Três paredes e meia
>>> All That Jazz
>>> A proposta libertária
>>> It’s only rock’n’roll but I like it
Mais Recentes
>>> O Exu do Fogo de Marcílio Borges pela Madras (2013)
>>> Panorama da Literatura de Flávio Aguiar pela Nova Cultural (1988)
>>> Drácula: O vampiro da noite de Bram Stoker pela Martin Claret (2008)
>>> Arquiteto a Máscara e a Face de Paulo Bicca pela Projeto (1984)
>>> Jonas Assombro de Carlos Nejar pela Novo Século (2008)
>>> A Construção da Cidade Brasileira de Manuel C. Teixeira (Coord.) pela Livros Horizonte (2004)
>>> Ayurveda: A Ciência da Longa Vida de Dr. Edson Antônio D'angelo & Janner Rangel Côrtes pela Madras (2015)
>>> Macunaíma (o heróis sem nenhur caráter) de Mário de Andrade pela Círculo do Livro
>>> Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand pela Nova Cultural (1993)
>>> Relações Sociais E Serviço Social No Brasil: Esboço de Uma Interpretação Histórico-metodológica - 41ª Edição (7ª Reimpressão) de Marilda Villela Iamamoto & Raul de Carvalho pela Cortez (2018)
>>> Lima Barreto: o rebelde imprescindível de Luiz Ricardo Leitão pela Expressão Popular (2006)
>>> A Batalha das Rainhas de Jean Plaidy pela Record (1978)
>>> Um Certo Capitão Rodrigo de Erico Verissimo pela Círculo do Livro
>>> O Livro de San Michele de Axel Munthe pela Círculo do Livro
>>> O Espião Que Morreu de Tédio de George Mikes pela Círculo do Livro
>>> O Santo Inquérito - Coleção Prestígio de Dias Gomes pela Ediouro (2004)
>>> Confissões Eróticas de Iris e Steven Finz pela Record (2001)
>>> Diários do Vampiro Vol 1 Origens Ddiários de Stepan de L. J. Smith - Kevin Williamson - Julie Plec pela Galera Record (2011)
>>> Peão da Rainha de Victor Canning pela Record (1969)
>>> Paris - uma Agenda de Bons Endereços de Elisabeth Vanzolini pela Ediouro (1998)
>>> Obras Incompletas - Coleção Os Pensadores - 2 Volumes de Friedrich Nietzsche pela Nova Cultural (1991)
>>> Ensaios Escolhidos - Coleção Os Pensadores de Bertrand Russell pela Nova Cultural (1992)
>>> Diálogos - Coleção Os Pensadores de Platão pela Nova Cultural (1991)
>>> Ensaio Acerca do Entendimento Humano de John Locke pela Nova Cultural (1991)
>>> Do Contrato Social e outros textos - Coleção Os Pensadores de Rousseau pela Nova Cultural (1991)
ENSAIOS

Segunda-feira, 29/7/2002
Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial
Alberto Beuttenmüller

+ de 25000 Acessos
+ 6 Comentário(s)

Sérgio Buarque de Holanda faria 100 anos em 11 de julho de 2002. Lembro-me de nossos papos na rua Buri, 35. Não posso esquecer as profundas especulações de Sérgio. A casa vai tornar-se um centro de MPB. Será bom? Será ruim? O tempo dirá. Recordar é andar sobre ruínas. É o que sinto neste momento de saudade de Sérgio. Invadem-me versos de Fernando Pessoa de "Aniversário":

(...) "O que sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio
" (...)

Andei lendo aqui e ali as homenagens ao Sérgio Buarque e nenhuma delas me acalentou. Demonstrações de vaidade, cada qual a querer mostrar mais sapiência que a outra. Sérgio Buarque era pesquisador sagaz, lúcido e humilde, daí sua grandeza. De tudo que li, o que mais me agradou foi uma descoberta de texto inédito de Sérgio, hoje no acervo da Praça Henfil, 50, Cidade Universitária Zeferino Vaz, Unicamp, Biblioteca Central.

A família de Sérgio doou à Unicamp todos os documentos pessoais do historiador, depois que a universidade campineira comprou, em 1983, sua biblioteca de 8.513 volumes, 227 títulos de periódicos e 600 obras raras dos séculos 16 ao 20. Esse inédito tesouro, levado em meio a toda essa documentação, é uma dissertação de mestrado: Elementos Formadores da Sociedade Portuguesa na Época dos Descobrimentos, defendida em 30/07/1958 na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo.

Recordar é ruminar entre ruínas. O que me lembro de Sérgio era do homem cordial, que me recebia à porta de sua casa da rua Buri e me levava ao seu esconderijo intelectual, sala cheia de livros, mesa de carvalho, estantes ao redor, e, esconsa atrás da poltrona, a cachaça mineira ou o whisky. A poltrona vestia-o, como um casaco nos dias frios; cabelos em desalinho, pelo constante passar e repassar da mão à cabeça, como se o gesto fosse melhorar ainda mais sua memória já prodigiosa. Falávamos de tudo um pouco.

De repente, dizia os versos de Hölderlin, com seu sotaque prussiano, que aprendera na Alemanha em 1929-30. Nesta época entrevistou Thomas Mann e viu a ascensão do III Reich:

Im dunkeln Efeu sass ich, an der Pforte
(Na hera escura estava eu sentado, às portas)

Des Waldes, eben, da der goldene Mittag
(da floresta, mesmo quando o meio-dia de ouro,)

E ficávamos a discutir qual era o nome do poema, embora esse fosse fácil, era o "Der Rhein" ("O Reno").

A literatura era sua paixão; a história, profissão. Às vezes, a nossa prosa se interrompia pela chegada de dona Maria Amélia, que trazia guloseimas com café. Os copos eram esconsos, notadamente o dele, já que não podia fumar nem beber, mas deles abusava. Ele ria de toda aquela dissimulação. Era dona Maria Amélia abandonar a sala, e a garrafa retornava à mesa e seu Gauloise, dos mais fortes fumos, sem filtro, voltava a espiralar fumaça pela sala.

Nessa revisitação ao universo de Sérgio, lembro-me dos papos sobre sua obra mais famosa: Raízes do Brasil (1936), que teve prefácio de Gilberto freire, na primeira edição, logo substituído por outro de Antonio Cândido. O motivo dessa desavença entre Sérgio e Gilberto é uma incógnita. Sérgio não gostava de Gilberto, nome que entrara para o índex do historiador e que passou a ser proibido em qualquer conversa com Sérgio. Ainda me lembro de ter manuseado a primeira edição de Raízes e de expor as questões que os estudiosos viviam a discutir sobre o "homem cordial". Sérgio ficava possesso. Era fácil perceber. Se comparada a Casa Grande & Senzala, a obra de Sérgio fora menos reconhecida, menos reeditada e menos lida. E quiseram fazer piada com a tese do brasileiro como "homem cordial", entendida a "cordialidade" como concórdia, bondade, subserviência, quando o que Sérgio queria dizer era passional, aversão a toda convenção ou formalismo social, e tanto podia ser positiva ou agressiva. O trecho de Raízes é claro: "A inimizade bem pode ser tão cordial quanto à amizade, visto que uma e outra nascem do coração, procedem da esfera do íntimo, do familiar, do privado".

O importante é que a obra de Sérgio Buarque vem crescendo com o passar dos anos e cada vez mais lida, discutida e reeditada. Essas lembranças me vêm à mente porque naquele tempo eu trabalhava no Jornal do Brasil e fazia entrevistas com intelectuais para o "Caderno B". Como tinha liberdade de pautar tais entrevistas, colocava sempre uma com o Sérgio só para matar as saudades. Ele começava a falar como se o tempo não se houvera interrompido, desde o nosso último encontro. E se lembrava do último assunto tratado. Ele anotava tudo e citava de memória os pontos principais.

Não é fácil andar sobre as ruínas que a memória marca para sempre. Duro é cumprir essa arqueologia da saudade. Sérgio Buarque de Holanda crescerá com o tempo. E as ruínas da memória serão cada vez mais escavadas, pedra por pedra, nessa nossa história do Brasil.

Nota do Editor
Texto inédito, especialmente redigido pelo autor, para o Digestivo Cultural. Alberto Beuttenmüller é poeta, jornalista e crítico de arte (membro da AICA).


Alberto Beuttenmüller
São Paulo, 29/7/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Arquiteto de massas sonoras de Luís Antônio Giron


Mais Alberto Beuttenmüller
Mais Acessados de Alberto Beuttenmüller
01. Modernismo e Modernidade - 9/9/2002
02. Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual - 16/6/2003
03. Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial - 29/7/2002
04. Matisse e Picasso, lado a lado - 28/10/2002
05. A Bienal e a Linguagem Contemporânea - 10/6/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
29/7/2002
11h56min
Caro Alberto, Um texto curto e saboroso, trazendo a nós o grande Sérgio Buarque de Holanda, veio como a inspiração necessária a mais um começo de semana. Obrigada! Vanessa
[Leia outros Comentários de Vanessa Rosa]
29/7/2002
14h04min
Querida Vanessa Rosa:Obrigado pela adjetivação de saboroso ao meu texto. Não foi fácil fazê-lo. Não queria torna-lo nostálgico nem piegas.Queria falar do amigo, do homem e do intelectual sem exagero. Sérgio era uma brisa de sabedoria, que me acalentava, a cada visita. Era um tempo em que havia tempo para aprender. De nada, Vanessa,eu que agradeço. Alberto Beuttenmüller.
[Leia outros Comentários de Alberto Beuttenmülle]
29/7/2002
16h57min
Meu caro Alberto, lendo seu artigo relembrei-me das histórias deliciosas que você costuma contar em seus cursos, sobre peculiaridades de Volpi, Otake e tantos outros artistas que lhe recebiam/recebem de portas e braços abertos. Você é um colecionador de ilustres anfitriões. Abraço, Denis
[Leia outros Comentários de Denis Zanini]
29/7/2002
17h45min
Obrigado,Denis,aproveito para fazer um comercial: estou iniciando o curso A Arte Contemporânea e o Enigma Marcel Duchamp, no Ponto de Integração da Arte, rua Cotoxó,110(paralela à av Sumaré).Telefone:3873-0099. Forte abraço. Alberto Beuttenmüller.
[Leia outros Comentários de Alberto Beuttenmülle]
1/8/2002
17h08min
O texto de Alberto Beuttenmülle nos enche de orgulho por se tratar de um depoimento profundo e consistente sobre Sérgio Buarque. Parabéns pelo ensaio. Ensaios na Internet, bela sacada, bela janela!
[Leia outros Comentários de Luís Antônio Giron]
1/8/2002
17h41min
A sacada e a janela pertencem ao nosso editor - Julio Daio Borges; fico também orgulhoso que as pessoas tenham entendido que o Sérgio Buarque era um grande praça, além de intelectual que orgulhou a sua geração. Nós, meu caro Giron, temos de continuar essa tradição de bem servir à comunidade do pensamento e da reflexão. Obrigado, agora que está orgulhoso é o Sérgio, onde estiver, e o Chico, por ter tido o pai que teve. Alberto Beuttenmüller.
[Leia outros Comentários de AlbertoBeuttenmüller]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Amor em S. Petersburgo
Heinz G. Konsalik
Klick
(1998)



Balanço da Bossa e Outras Bossas - 5ª Edição - 4ª Reimpressão
Augusto de Campos
Perspectiva
(2015)



Pollyanna
Eleanor H. Porter
Companhia Nacional



Clareando
Maria Rosa Teixeira
Ie
(2003)



Cinqüenta Tons de Liberdade
E. L. James
Intrínseca
(2012)



Caricatura dos Tempos
Belmonte
Melhoramentos/circulo do Livro
(1982)



Psicologia Econômica - Estudo do Comportamento Econômico
Vera Rita de Mello Ferreira
Campus
(2008)



A Filosofia da Arte Moderna
Herbert Read
Ulisseia



Prevenção a Uso de Drogas - uma Visão Espírita
Paulo Pio
Letras e Textos
(2012)



Mónica y Su Pandilla 5 La Sirena
Mauricio de Sousa
Panini Comics
(2010)





busca | avançada
79919 visitas/dia
2,6 milhões/mês