Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual | Alberto Beuttenmüller

busca | avançada
104 mil/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Maíra Lour apresenta leitura dramática audiovisual “Insensatez'
>>> Exposição do MAB FAAP conta com novas obras
>>> Projeto Camerata Filarmônica Brasileira apresenta concerto comemorativo no dia 15 de maio em Indaiat
>>> Ação Urgente Contra a Fome - SescSP
>>> 3ª Mostra de Teatro de Heliópolis recebe inscrições até 31 de maio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
>>> PoloAC retoma temporada de Os Doidivanas
>>> Em um tempo, sem tempo
>>> Eu, tu e eles
>>> Mãos que colhem
>>> Cia. ODU conclui apresentações de Geração#
>>> Geração#: reapresentação será neste sábado, 24
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Irredentismo
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> O assassinato de Herzog na arte
>>> Hitler, de Ian Kershaw, pela Companhia das Letras
>>> Livrarias em tempos modernos
>>> O que é a memética?
>>> O dinossauro de Augusto Monterroso
>>> Sobre o Jabá
>>> Você viveria sua vida de novo?
>>> Suicídio, parte 2
Mais Recentes
>>> Robot Dreams de Isaac Asimov pela Ace Books (1996)
>>> O Dramaturgo como Pensador de Eric Bentley pela Civilização Brasileira (1991)
>>> O Conclave de Malachi Martin pela Novo Tempo (1978)
>>> A Nova Ciência da Política de Eric Voegelin pela Universidade de Brasília (1982)
>>> Gestión del Conocimiento de Agustí Canals pela Gestión (2003)
>>> Brasil:a Arte de Hoje de Jocob Klintoeitz pela Sao Paulo (1983)
>>> A Conquista do Rio Grande Volume 1 de Jose Netto pela Rio Cell (1989)
>>> Rui Barbosa:tentativa de Compreenção e de Síntese de Luiz Delgado pela Jose Olympio (1945)
>>> T. E. C. Tecnologia Estelar Complementável de Marcelo Santana pela Anthology (2010)
>>> O Pensamento de Platão de Antonio Freire pela Livraria Cruz - Braga (1967)
>>> O Circo de Lucca de Zugliani Jorge Otávio pela Devir (2007)
>>> Far Eastern Ceramics - Marks and Decoration de Maria Penkala pela Mouton (1963)
>>> Tesoros del Arte Japones:periodo Edo(1615-1868) de Museo Fuji - Tokio pela Fundacion Juan March (1995)
>>> Ferrari-the Sports and Gran Turismo Cars de Warren W Fitzgerald / Richard F Merrittn e Outros pela Norton Company (1979)
>>> Cómo Evaluar y Mejorar Sus Capacidades Personales de Gareth Lewis pela Gestión (2000)
>>> Noções Básicas de Importação de João dos Santos Bizelli e Ricardo Barbosa pela Aduaneiras (1993)
>>> Dinheiro Dinheiro Dinheiro... Como Ganhar Rapidamente de Mathias Gonzalez pela Ediouro (1987)
>>> Organizacion del Almacen de Michele Calimeri pela Hispano Europea (1961)
>>> Mestres do Marketing de Gene Walden pela Ediouro (1994)
>>> O Poder do Marketing Direto de Ray Jutkins pela Makron (1994)
>>> Dinheiro Dinheiro Dinheiro... Como Ganhar Rapidamente de Mathias Gonzalez pela Ediouro (1987)
>>> Dinheiro Dinheiro Dinheiro... Como Ganhar Rapidamente de Mathias Gonzalez pela Ediouro (1987)
>>> Como Negociar Aumento de Salário de George M. Hartman pela Ediouro (1995)
>>> Karoshi o Jogo da Qualidade - Completo de Paulo Sandroni e Luis Alberto Sandroni pela Best Seller (1995)
>>> O Monstro Embaixo da Cama de Stan Davis pela Futura (1996)
ENSAIOS

Segunda-feira, 16/6/2003
Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual
Alberto Beuttenmüller

+ de 25100 Acessos
+ 6 Comentário(s)

Não há dúvida: Pablo Picasso e Marcel Duchamp foram os dois artistas de maior influência no século 20. Picasso, pelo conjunto de obras; Duchamp, pela negação da própria noção moderna de obra de arte. Podemos dizer que Picasso produziu arte em padrões clássicos: pintura, escultura, gravura, cerâmica. Enquanto Duchamp, depois de ter abandonado sua notável pintura, iniciou a construção da antiarte. Ambos passaram por seguidas metamorfoses. Em Picasso, as metamorfoses surpreenderam durante meio-século; mas, a inatividade de Duchamp não foi menos surpreendente, nem menos fecunda. Picasso foi o retrato do século 20. Suas mutações freqüentes estiveram pari passu com as transformações da época moderna; desde o fim do Impressionismo até a II Guerra Mundial.

Octavio Paz, no prólogo de Marcel Duchamp o el Castillo de la Pureza, no Brasil editado sob título Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, editora Perspectiva, coleção Elos, em tradução de Sebastião Uchoa Leite, diz haver encarnações e profecias em Picasso, quando o compara com as necessidades urgentes do século 20. E Paz conclui sobre Picasso: “Encarnações: em suas telas e em seus objetos, o espírito moderno se torna visível e palpável; profecias: em suas mudanças, nosso tempo só se afirma para negar-se e só se nega para inventar-se e ir mais além de si. Não um precipitado de tempo puro, não as cristalizações de Klee, Kandinsky e Braque, mas o próprio tempo, sua urgência brutal, a iminência imediata do agora”.

Picasso busca a vertigem da aceleração; Duchamp opôs à vertigem da aceleração de criar, o retardamento. Na Caixa Verde, o francês anota: dizer “retarde” em lugar de pintura ou quadro. E acrescenta: “pintura sobre vidro se converte em ‘retarde’ em vidro, mas ‘retarde’ em vidro não quer dizer pintura sobre vidro”. Esta frase explica o método de Duchamp, se a pintura é a crítica do movimento, o movimento é a crítica da pintura.

Por que a escolha desses dois artistas neste ensaio? Porque são parâmetros, pólos opostos e limites de todos os artistas do século 20, além de precursores da criação artística do século 21 e a crise que recém se instalou nas artes visuais de linguagem contemporânea. Voltemos aos dois gênios.

Picasso é o artista do devir e o que está passando, a um só tempo, do hoje e do arcaico, o artista que mudou tudo para que tudo restasse no mesmo lugar. O artista veloz que se permite ser do século 20 e de todos os séculos, sem deixar de ser do agora. Picasso foi um movimento que se fez pintura, mais que todas as escolas do século 20; foi e é o pintor-tempo.

A pintura de Duchamp, ou sua “retarde”, é de análise, de decomposição, o reverso do artista veloz. Se as figurações de Picasso saltam veloz do espaço imóvel da tela; nas obras de Duchamp, o espaço caminha e se incorpora, e finda como máquina filosófica e hilária, e com ironia refuta todo e qualquer movimento com o retardamento. Como conclui Paz, a metalinguagem de Duchamp baseia-se na metaironia.

As telas de Picasso são imagens; enquanto as obras de Duchamp são uma reflexão irônica sobre a imagem. Picasso pintou dentro da tradição da pintura, como a arte sempre foi; Duchamp fez antiarte. Tentou criar uma arte, partindo do pressuposto de como seria a arte, caso não existisse do modo como a sabemos; como se tudo começasse a partir dele. Se Picasso for uma tese, Duchamp será sempre sua antítese.

Picasso foi artista de fecundidade rara e inesgotável, enquanto as raras telas de Duchamp não passam de meia centena, criadas em menos de dez anos, depois disso foi jogar xadrez e tornou-se mestre, um fato raro para quem começou a jogar tardiamente, como foi o seu caso.

O que Duchamp produziu, depois de 1913, ao deixar a pintura-pintura pela pintura-idéia, foi o início de um conceito novo de arte – a antiarte. A partir daí, Duchamp criou uma obra sem obras. Não há mais telas, mas objetos, como o Grande Vidro ou La Mariée mise a nu par ses celibateires, même – que é instalação, a primeira que se tem notícia, abandonada em 1923, sem terminar. Antes disso, Duchamp criou os ready-mades, objetos industriais dos quais se apossou e os indicou como obras de arte. Havia os ready-mades assistidos, nos quais interferia, como a roda de bicicleta, na qual pôs um banco como suporte; e havia os ready-mades plenos, aqueles que sua mão sequer tocou. Depois disso, alguns gestos esporádicos e um profundo silêncio.

Picasso e Duchamp foram mais destruidores do que construtores. Picasso destruiu a forma, usando da linguagem tradicional da arte, com técnicas diversas e diversificadas. Duchamp criou uma metalinguagem que, no fundo, quer mesmo é destruir a arte, em prol da antiarte, aproveitando-se de que as artes, inclusive as visuais, findam em zona invisível e obscura, daí sua subjetividade.

Se Picasso usou da paranóia para destruir a forma, Duchamp destruiu a definição de arte de maneira esquizofrênica, sem deixar margem a qualquer tipo de reconstrução. Nestes dois criadores do século 20 está o cerne da crise por que passa a arte hoje, seja a pintura, seja a instalação, sejam os novos meios de produzir arte.

Duas definições de arte foram destruídas; a de Hegel: arte é a manifestação do espírito que o próprio espírito vem a superar; e a de Heidegger: arte é a projeção da verdade do ser, como obra. Em nenhuma dessas duas definições cabe a arte dita contemporânea.

Nota do Editor
Texto inédito, especialmente redigido pelo autor, para o Digestivo Cultural. Alberto Beuttenmüller é poeta, jornalista e crítico de arte (membro da AICA).


Alberto Beuttenmüller
São Paulo, 16/6/2003

Mais Alberto Beuttenmüller
Mais Acessados de Alberto Beuttenmüller
01. Modernismo e Modernidade - 9/9/2002
02. Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual - 16/6/2003
03. Sérgio Buarque de Holanda: o homem cordial - 29/7/2002
04. Matisse e Picasso, lado a lado - 28/10/2002
05. A Bienal e a Linguagem Contemporânea - 10/6/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/7/2003
12h10min
Caro Alberto, li hoje seu texto muito precioso. só queria comentar algo que creio ser uma generalização. a frase final, de que as categorias hegelianas e as heidegerianas não cabem na arte contemporânea. se partimos de "do espiritual na arte" de kandinsky e chegarmos à arte abstrata, afinal o que temos? uma busca da síntese espiritual que a linha, o movimento e a cor podem proporcionar. isso é uma postura que remete ao pré-renascimento e a uma obra como "da arte e do belo", do pensador católico francês do sec. XIX Lamennais. claro que no caso de picasso e duchamp você está correto. apenas creio que nem toda arte contemporânea foi devedora destes dois. a arter abstrata, posterior ao que de mais relevante os dois fizeram, é o caso. e há outros casos. o que acha? abraço, jardel
[Leia outros Comentários de jardel]
23/7/2003
10h10min
Caro Jardel: não vamos confundir arte moderna com pós-moderna (a partir de 1960). Picasso, Kandinsky et caterva não mais influenciam a arte atual, a arte de Linguagem Contemporânea. Esta está toda baseada em Duchamp, o causador de idéias geniais, mas também o causador da crise que se instalou na arte atual. A maioria dos artistas em atividade não está preparada para a arte conceitual de Duchamp, mas procuram imitá-lo. Por isso, as instalações mal resolvidas, os vídeos de arte sem qualquer sentido, que vemos nas bienais. A Arte está deixando de comunicar-se com o fruidor, o qual passou a ser um neo-bobo, como diria o nosso FHC. Abraço. AB.
[Leia outros Comentários de AlbertoBeuttenmüller]
26/7/2003
00h35min
Nosso FHC não, teu! hehehe o pós moderno está muito mais ligado ao cyber... desde 70
[Leia outros Comentários de Ratoloco]
7/8/2003
09h51min
Prezado Alberto Beuttenmüller, Gostaria apenas de sanar uma dúvida. A primeira instalação nao foi Merzbau-Kurt Schwitters como afirma Ferreira Gullar em Argumentacoes contra a morte da arte? Abracos do Rodrigo Vivas e parabens pelo artigo
[Leia outros Comentários de Rodrigo Vivas ]
7/8/2003
11h19min
Não respondo a pessoas que se escondem por trás de nicknames. Meu caro Rodrigo: O Gullar está certo do ponto de vista oficial da História da Arte. Não havia instalação,quando Duchamp fazia o Grande Vidro.Se vc olhar com atenção para o Grande Vidro verá que foi o precursor das instalações de hoje. AB
[Leia outros Comentários de AlbertoBeuttenmüller]
29/7/2008
17h01min
Que beleza de texto: interessante e fundamentado. E seus comentários também. Parabéns a todos que entraram nessa discussão. Mas para mim cabe uma pergunta, por pura curiosidade: "Estamos prestes a uma girada de roda?" Digo: se os movimentos artísticos vêm e vão ao longo dos séculos, e atualmente sinto que todos concordam que a arte contemporânea está em crise, será que não estamos prestes a uma retomada do passado, com um novo olhar, assim como o Renascimento foi, de certa forma uma retomada da antiguidade clássica? Qual seria o próximo passo? Voltar a valorizar mais o figurativo? O que acham? Abraços a todos.
[Leia outros Comentários de Cristina Jacó]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Os Seres e as Cores Nas Terras do do Sem-fim
José Carlos Capinan e Outros
Petrobrás
(1993)



Urutu Cruzeiro
Luiz Galdino
Clube do Livro
(1982)



Matemática e Vida 2º Grau
Bongiovanni Vissot Laureano
Ática
(1992)



As Chamas do Inferno - Brigada dos Espectros
Alain Venisse
Arx Jovem
(2004)



O Sul da África Enfrenta o Racismo
O Correio da Unesco, Nº 1 - Ano 6
Fgv
(1978)



A Bruxinha Domitila e o Robô Morto-de-Fome
edson gabriel garcia
Vozes
(1983)



Twist
Tom Grass
Agir Now
(2015)



Jane Blonde: Sensational Spylet
Jill Marshall
Macmillan Childrens
(2006)



Comment Apprendre a Parler a Lenfant: Aperçu Dune Experience
Laurence Lentin (tome 2)
Esf Editeur
(1975)



Mani Ou um Monte Chamado Pascoal
Luiz Wanderley T.
Edicon
(2006)





busca | avançada
104 mil/dia
2,5 milhões/mês