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COLUNAS

Terça-feira, 30/10/2007
A morte do homem comum
Jonas Lopes

+ de 3900 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Em um famoso e pungente poema, intitulado simplesmente “Morte”, o poeta irlandês William Butler Yeats nos ofereceu uma visão interessante e inusitada sobre a “indesejada das gentes” e sua relação com o ser humano. Segundo Yeats, nós, animais moribundos, esperamos pelo fim o tempo inteiro. O homem, diz ele, conhece a morte até os ossos. Afinal, foi ele quem a criou. Philip Roth com certeza leu esse poema com apuro especial, tanto que um dos versos dá nome a um livro recente seu (The dying animal). E sua novela Homem Comum (Companhia das Letras, 2007, 136 págs.), que acaba de sair no Brasil (lá fora já há outra obra sendo lançada, Exit Ghost, despedida do principal alter ego do escritor, Nathan Zuckerman), aprofunda uma visão de morte que aproxima Roth de Yeats. Trata-se de um trabalho doloroso, quase confessional, que, como sempre na carreira de um dos maiores autores vivos, suscitará diversas discussões sobre o que é ficção e o que é real na história.

Em entrevistas recentes, Roth tem falado bastante sobre o seu medo de morte. “É impensável. Inacreditável. Impossível”, afirmou em uma delas. “Foi apenas quando um bom amigo meu morreu que senti a morte como algo totalmente devastador. Ele era meu contemporâneo. Isso não consta do acordo que assinei – não vi isso na página do contrato”. Esse pavor do fim que, dia-a-dia, mostra um pouco mais o seu rosto – na deterioração física, sexual e espiritual, na solidão que se acentua, na esplendorosa juventude que se observa passar, radiante, diante dos olhos na rua –, permeia Homem Comum, da mesma forma que vinha dominando os trabalhos anteriores de Roth, em especial O Teatro de Sabbath, A marca humana e O animal agonizante. O título original, Everyman, refere-se a uma peça medieval inglesa, cristã e alegórica, em que os vivos são convocados para a morte em um cemitério. Fãs de literatura não vão demorar a fazer uma relação com a imortal novela de Liev Tolstói, A morte de Ivan Ilitch, cuja grandeza advém de território semelhante.

Homem Comum, por sinal, começa da mesma forma que Ivan Ilitch: com um enterro, partindo daí para a recapitulação de toda a trajetória do nosso herói falecido. No livro de Roth o protagonista não possui um nome, o que desde o título, sintomático, faz pensar que poderia se tratar de qualquer um de nós. E poderia mesmo. Trata-se de um personagem típico do bardo de Newark. Autocentrado, egoísta, repleto de desejo erótico (atuando como exorcismo do tédio cotidiano) e um tanto inconseqüente, ele abandona a primeira esposa e dois filhos para se casar com a amante. Vários anos depois, e uma filha que o adora no currículo, também deixa a segunda esposa por uma aventura com uma modelo dinamarquesa de metade da sua idade. Divorcia-se dela também. Passa a sua velhice sozinho, dividindo-se entre um asilo de idoso, a companhia da filha, o desprezo dos filhos e uma casa na praia, onde pinta e dá vazão a seu amor pelo mar. Mas ao contrário de outros personagens de Roth, há na vida dessa figura alguns elementos de tranqüilidade que não apareciam nos outros. Sua relação com os pais e o irmão é fácil. Sua carreira na publicidade não teve percalços. Apesar de suas escapadelas conjugais, ele é relativamente comportado se comparado a um Alexander Portnoy, um Nathan Zuckerman (chamado de obsceno pela própria família) ou um Mickey Sabbath. Considera-se “convencional e desprovido de espírito de aventura”.

O grande fantasma do personagem é a morte, que ele vislumbra de tempos em tempos desde a infância. A verdade é que a sua saúde não é mais problemática do que o normal. Até a meia idade sofre algumas internações bem esparsas. E ao chegar à velhice, aí sim, começa a ter problemas com mais freqüência – o que não é algo tão fora do comum. Incomum é a sua relação com a morte. Ele e a vê até no céu e no mar, em passeios pela praia em plena juventude: “A abundância de estrelas lhe dizia de modo inequívoco que ele estava fadado a morrer”. Ele não encontra, como alguns, consolo na fé e na religião. Pelo contrário, “a única coisa que havia era o corpo, nascido para viver e morrer conforme o que fora estabelecido pelos corpos que viveram e morreram antes”. Vivia apenas para desejar que o inevitável fim viesse “um minuto antes que o estritamente necessário”.

É aqui que Homem Comum se aproxima do poema de Yeats. Para Roth, a morte é muito mais do que uma questão de decadência física. É um estado de espírito, quase metafísico, que independe de idade, condição de saúde, como se transcendesse esses e outros fatores. Através do temor que sente pela única certeza que possuímos desde que nasce, o homem cria a morte. Não o fato de o corpo fenecer e virar pó, mas a realidade de que não mais existiremos onde antes ocupávamos espaço. “Para quem provou a vida, a morte não parece nem sequer natural”, reflete o personagem. Mais do que morrerem, as pessoas a seu redor estão acabando, e essa é a idéia que o aterroriza mais. Ele vê e inveja o irmão cheio de vigor e saúde, praticando esportes e viajando de férias como se ainda tivesse vinte anos. O que não consegue perceber é que o que mantém o irmão rejuvenescido é seu espírito jovem, pois, em um momento de fraqueza, como qualquer velho, o irmão pode ceder e decair. Em uma das cenas mais emblemáticas da novela, o homem comum pede a um coveiro que explique o seu trabalho com minúcia. O cuidado com que o trabalhador executa seu serviço o comove, por acreditar que do outro lado ele pode, enfim, ser objeto de carinho de alguém. Como se não acabasse de todo. “Fugir da morte se tornara a ocupação principal de sua vida, e toda a sua história se resumia ao processo de decadência do corpo”. Não vemos, entretanto, uma redenção como a que Tolstoi oferece a Ivan Ilitch. A morte era exatamente o que o que ele sempre temeu: inexorável, sem atenuantes ou heroísmos tolos.

Homem Comum é mais um exemplo do rumo absurdo que a carreira de Philip Roth tomou desde o início da década de 90. De 1991 para cá, ele não lançou nada menos que sensacional – entre algumas obras-primas (Patrimônio, Operação Shylock, O Teatro de Sabbath, Pastoral Americana, A marca humana) e livros no mínimo essenciais (Casei com um comunista, O animal agonizante, Complô contra a América). Não à toa, foi um período em que o autor passou por diversos problemas pessoais: a traumática separação da atriz Claire Bloom, a grave depressão que gerou O Teatro de Sabbath, as terríveis dores nas costas, o já comentado medo de morrer. Assim como os grandes artistas, de Beethoven a Rembrandt, o quanto mais se afronta com o homem que foi e com o homem que não mais será em pouco tempo, mais aterradora se torna a sua arte. Que Roth continue assombrado pelos fantasmas e demônios da velhice e da sua mortalidade. Pelo nosso bem.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente no Último Segundo.

Para ir além






Jonas Lopes
São Paulo, 30/10/2007

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
31/10/2007
20h51min
Jonas, o texto da Nadine Gordimer sobre o Everyman cita o mesmo poema de Yeats que o seu. Rolou uma influência?
[Leia outros Comentários de José]
2/11/2007
01h37min
Olá, José. "Morte" é um dos meus poemas favoritos. Eu havia lido o texto da Gordimer apenas na tradução da EntreLivros, que cortou o trechinho em que ela cita o Yeats. Mas mesmo assim, nós dois abordamos coisas bem diferentes nos textos. Ela fala sobre sobre a relação entre sexo e velhice, e eu sobre como o homem cria a idéia da morte e se afoga nela. E o Yeats ocupa uma posição até ínfima na crítica da Nadine, enquanto na minha a tese do texto está centrada nele. O texto dela, aliás, está muito bom. Abraços!
[Leia outros Comentários de Jonas]
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