O menino mais bonito do mundo | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
31576 visitas/dia
586 mil/mês
Mais Recentes
>>> Cia de Danças de Diadema apresenta-se na CAIXA Cultural Rio de Janeiro
>>> Confraria do Vinil chega ao Cachaça Social Club na Lapa
>>> Windsor Marapendi apresenta Companhia Estadual de Jazz
>>> CarnaRock KISS FOR KIDS
>>> Para compreender a filosofia de Schopenhauer
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Imprimam - e repensem - suas fotografias
>>> Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt
>>> Longa vida à fotografia
>>> Oswald de Andrade e o
>>> Nuvem Negra*
>>> Em defesa da arte urbana nos muros
>>> Vocês, que não os verei mais
>>> Em nome dos filhos
>>> O Que Podemos Desejar; ou: 'Hope'
>>> Píramo e Tisbe
Colunistas
Últimos Posts
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
>>> Ebook gratuito
>>> Poesia para jovens
>>> Nirvana pra todos os gostos
>>> Diego Reeberg, do Catarse
>>> Ed Catmull por Jason Calacanis
>>> Lançamento e workshop em BH
Últimos Posts
>>> Fotógrafa da Amazônia é destaque na Europa
>>> Matiz carmim (série: Sonetos)
>>> Gente que corre
>>> Inventário de provas
>>> Escrever, escrever, escrever...
>>> Políticos e suas politicas
>>> Marceneiro
>>> Hércules e seu doutorado sanduíche com Aristóteles
>>> Caminhos
>>> Eroti(cidade)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Há vida inteligente fora da internet?
>>> As melhores capas de 2008
>>> Por uma lógica no estudo da ortografia
>>> Píramo e Tisbe
>>> A letargia crítica na feira do vale-tudo da arte
>>> A vida se elabora no Ano Novo
>>> Pais e filhos, maridos e esposas II
>>> Surviving IPO Fever
>>> Publicar em papel? Pra quê?
>>> Como uma criança
Mais Recentes
>>> A droga da obediência
>>> A droga do amor
>>> Anjo da morte
>>> Anjo da morte
>>> Robin Hood
>>> A marca de uma lágrima
>>> Rick e a girafa
>>> Julinho, o sapo
>>> Como se fosse dinheiro
>>> O homem que sabia javanês
>>> O reizinho mandão
>>> O catador de papel II
>>> O código polinômio
>>> História de sinais
>>> Judy Moody Salva o Mundo!
>>> História econômica Agricultura, indústria e populações
>>> A Questão Pneumatológica em Yves Marie-Joseph Congar- O Espírito e o Verbo- As duas Mãos do Pai
>>> A testemunha ocular do crime
>>> Morte na Mesopotâmia
>>> O mistério do trem azul
>>> Spharion
>>> Os crimes A B C
>>> Uma Exposição das Sete Eras da Igreja
>>> Vovó tem Alzha... o quê?
>>> Física - Volume Único - Curso Completo
>>> A menina que roubava livros
>>> Sonhos de Volúpia
>>> Ciprestre Triste
>>> CLT - Consolidação das Leis do Trabalho
>>> Autobiografia de um Iogue
>>> Lazarillo de Tormes + Cd - Nível 3 - Colección Leer En Español
>>> O manual da fotografia digital
>>> Gabriela, cravo e canela
>>> O Morro dos Ventos Uivantes
>>> Calendário do Poder
>>> Uma Longa Jornada
>>> O Futuro da Democracia - 7ª Edição Revista e Ampliada
>>> O espírito de empresa
>>> Sucesso sem Stress
>>> O Agente Infiitrado
>>> A arte da seduçaõ
>>> Reengenharia da informaçaõ
>>> Bases Fisiológicas da Educaçao Física e dos Desportos
>>> Reprodução Humana
>>> Enciclopédia do Patrimonio da Humidade
>>> O caminho para a paz interior
>>> Famílias feitas para vencer
>>> Um võo lendário na rota da Aéropostale
>>> Nações do Mundo
>>> Nações do Mundo
COLUNAS

Sexta-feira, 29/1/2010
O menino mais bonito do mundo
Ana Elisa Ribeiro

+ de 50500 Acessos
+ 10 Comentário(s)

Nunca conheci menina tão feia. Tinha uns cabelos escorridos, na altura quase da cinturinha de pilão, caindo pelas espáduas avermelhadas como a da índia de Alencar. Fazia as unhas delicadamente e piscava enormes olhos verdes em todas as direções. Era alta, o que me deixava invejosa. Se tinha algo que me dava vontade era de ser grande, não só para aparecer mais do que todos, mas primeiro para ter lugar no fim da fila da escola, posição sempre mais interessante. No recreio, ser baixo significava estar sempre adiante, com todos os demais nos meus calcanhares. Não tinha graça, exceto para aqueles que chamávamos de "os fominhas".

A menina era feia como uma criatura mitológica. Monstrenga. Alta, morena, roliça, intoleravelmente atraente. Alimentava mais da metade dos sonhos de todos os meninos da escola. Era esbelta como uma porta. Intangível como uma ideia. Bem-vestida, bem-cuidada, mas distante. Não conseguia trocar duas palavras educadas sequer com a professora, aquela autoridade. Imaginávamos que, quando a menina feia crescesse, seria uma dona Magda como aquela: alta, escorregadia e fria. Os cabelos longos se tornariam coques apertados em cima da cabeça e se poderia ver com mais calma a verruga na nuca.

Os meninos da minha turma desejavam a menina feia. Eles queriam brincar com ela, tocar-lhe os dedos e as partes abauladas da bunda, queriam pensar coisas pornográficas e fazer gracinhas eróticas para ver se ela deixaria. A menina avançava com eles e recuava quando a brincadeira parecia incontornável. Ela falava muito de cremes de cabelo e de perfumes, também sabia algo sobre esmaltes e gostava de variar os batons. Ela se produzia, mesmo quando era obrigatório o uso de uniforme. Ela não parecia igual a ninguém. Ela se parecia com todas as protagonistas das novelas. Nem mesmo os uniformes a tornavam mais uma entre tantas outras.

Um dia, vimos a mãe da menina feia vir buscá-la na escola. Abriu-se a porta do carrão e saiu de lá uma imensa peruona. Muito loura e de bastas sobrancelhas negras, de imensos olhos acentuadamente azuis, unhas coloridas e beiços sádicos. Era uma jamanta. Não podia ser apenas uma mulher. Era, ao mesmo tempo, a mãe e a filha, talvez ainda o arremedo da avó espanholona. Travestida de um roupeiro inteiro, quase não se via rosto embaixo de tanta iluminação. Era obrigatório visá-la. Quase uma aparição amedrontadora. Com aquelas unhas, não era possível segurar um bebê. Com aquele cheiro forte, não se podia evitar a alergia. Com aqueles saltos altíssimos, não se podia andar. Era uma marcha que começava no chão e impactava até os cachos formatadinhos do cabelo amarelo. A menina feia nunca deve ter tido tempo de ser menininha. Não ouvi a voz da geringonça humana. A menina feia tinha muito caminho pela frente. Tal mãe, quase a filha. Um quase embaraçoso.

Mas não era assim o menino. Nunca eu vira gente tão bonita. Parecia um conceito. Liso, esguio, fechado. Inequivocamente, dizia um bom dia e um boa tarde, toda vez que chegava na sala. Mesmo quando ninguém respondia, ele cumprimentava o ar. Não era por ninguém. Era por ele. Alimentava pombos doentes, tinha pena de passarinhos e sabia tocar violão. Não sei ao certo a cor dos cabelos, o tamanho dos pés, a textura das mãos ou a cor dos olhos. Não dava tempo de saber. A laçada dele era antes. O fino do olhar de educado e lisonjeiro. Não sei direito se tinha espinhas e um pé tortinho. Não consegui notar embaixo daquele ar de queda livre que ele tinha. Era o menino mais bonito do mundo. Desses que deixam suspiros no ar, mas só para quem sabe sentir. Entrava na sala e lançava um brevíssimo olhar pelo arredor. Quando eu conseguia pegar a visada dele, mirava meus mais intensos sonhos. Era uma espécie de bênção, debaixo de uns cabelos pretíssimos e penteados para o lado esquerdo.

Minha angústia era aceitar os diversos em seus ritmos sincopados. A menina feia, com seus jasmins; o menino lindo, com sua hipnose. A peruona espanhola com sua britadeira de partir o dia a dia. As pessoas que valem a pena são assim: têm traços transparentes. Não se medem pelas cores nem pelos apetrechos. Elas nos inquietam sem usar os peitos ou as nádegas. Elas não somem da memória. O menino mais bonito que eu já conheci tinha um olhar tão doce que eu não lhe sabia a cor dos olhos. E ele me fez agrados tão bonitos que não guardei-lhe as medidas. Até hoje, e sempre, o que me faz lembrar dele é um beijo de olhos fechados, no meio da tempestade de vento, e um armário cheio de chocolates.

A propósito, há textos nestas colunas que são tolíssimos, mas servem, ao menos, para inspirar a gente.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 29/1/2010


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2010
01. O menino mais bonito do mundo - 29/1/2010
02. Por que a Geração Y vai mal no ENEM? - 30/7/2010
03. Palavrão também é gente - 26/2/2010
04. Caçar em campo alheio ou como escrever crônicas - 11/6/2010
05. Meu querido Magiclick - 12/2/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
29/1/2010
14h32min
Não entendi o propósito do texto. Há alguma mensagem implícita que me passou despercebida?
[Leia outros Comentários de Miguel Lannes Fernan]
8/2/2010
00h26min
Será que todas as coisas têm de ter um propósito? Não poderiam apenas... ser?
[Leia outros Comentários de Arthur]
8/2/2010
15h45min
Há propósito para a vida? A arte tem algum propósito? Aliás, há utilidade na arte? No entanto, o que pensar daquele que vive sem ela?
[Leia outros Comentários de Paulo Mauad]
8/2/2010
18h44min
Que texto lindo, Ana! Sei que pode parecer um comentário bobo, mas meus olhos ficaram bastante cheios d'água com o último parágrafo.
[Leia outros Comentários de Juliana Galvão]
9/2/2010
17h01min
Maravilhoso! Como não entender um texto assim?
[Leia outros Comentários de Fabiana Rocha]
12/2/2010
16h21min
O que é feio? O que é belo? A arte é um pecado, porque destrói conceitos simplistas de beleza e feiúra. Ou deveria destruir, retratando características humanas sem preconceitos. Mas como nos desfazermos das noções que dizem o que é ou não atraente? Mesmo que no íntimo duvidemos dos conceitos impostos, pois na realidade tratar bem gera desconfiança, inteligência provoca temor (a teoria dos psicopatas sendo pessoas com uma inteligência aguda, uma bondade acima de suspeitas), ainda cultivamos o belo como sendo a aparente disponibilidade para a servidão aos outros, e o feio como sendo tudo que pode provocar distanciamento dos que são supostamente "nossos próximos", "nossos semelhantes" em humanidade. O "feio" e o "belo" no texto acabam se destacando, os extremos deixando marcas impressas na memória, de modo agradável ou não. Mas a "feiúra" desperta inveja; a "beleza" parece desconhecida, apesar de querida, enaltecida, suas características são vagas. Devemos ou não destruir estereótipos?
[Leia outros Comentários de Cristina Sampaio]
12/2/2010
17h06min
Acho que o texto (talvez mesmo sem sabê-lo) traduziu um pouco das diferenças do desejo masculino e do desejo feminino (pelo menos na "nossa" época, em que não estávamos "treinadas" a olhar para o corpo dos garotos). Para os meninos da sala de aula retratada, a "menina feia" era notada por seu corpo, suas formas. Para a menina-autora, o menino era notado mesmo antes que houvesse tempo de olhar para seus pés, para a textura das mãos. Era pelo "ar" que ele transmitia que ele exercia atração. Para mim, o texto disse muitíssimo. Parabéns, Ana Elisa, mais uma vez! Isso se chama sensibilidade, esse captar de essências sem mesmo se dar conta.
[Leia outros Comentários de Roberta Resende]
16/2/2010
12h44min
É normal o ser humano procurar explicação e razão para tudo. É quase instintivo. O texto nasce de uma forma da mente do autor, muitas vezes já se desenvolve quando escrito e vai tomando outras características ao ser lido. Cabe ao leitor dar sua interpretação. Gostei dos personagens e já imaginei cinematograficamente algumas cenas com tais personas. Vou guardar o texto para um futuro não tão distante.
[Leia outros Comentários de Brunão]
21/2/2010
18h34min
Uau! Que belo texto! Este é daqueles que nos deixa hipnotizados durante a leitura, e desconsolados, ao seu final! Só isso já é conteúdo para um livro todo! Parabéns, Ana!
[Leia outros Comentários de Enih Gil'ead]
3/1/2011
21h05min
Nossa, adorei o texto! É do tipo que nos faz mergulhar, e talvez até traçar paralelos. Quando dei por mim, já fazia parte dele!
[Leia outros Comentários de Larissa]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




HISTÓRIA DA CULTURA TEATRAL
MAX GEISENHEYNER
HERDER
(1961)
R$ 32,00



O RETRATO DE DORIAN GRAY
OSCAR WILDE
ABRIL COLEÇÕES
(2010)
R$ 20,00



PRÉ-ESCOLA É NÃO É ESCOLA
MARIA LUCIA A. MACHADO
PAZ E TERRA
(1991)
R$ 10,00



NIETZSCHE- O FILÓSOFO DO NIILISMO E DO ETERNO RETORNO
SNTÔNIO C. BRAGA
ESCALA
(2011)
R$ 15,50



ECCE HOMO
FRIEDRICH NIETZSCHE
SARAIVA DE BOLSO
(2010)
R$ 10,00



MAPA DA VIDA
EDSON DE PAULA E MAURÍCIO SITA
SER MAIS
R$ 29,45
+ frete grátis



ANTOLOGIA DA CARIDADE UMA REFLEXAO TEOLOGICO PASTORAL
MARCIO ANATOLE DE SOUSA ROMEIRO
LOYOLA
(2002)
R$ 7,00



HQ A TURMA DO PERERÊ + ALMANAQUE 1
ZIRALDO
ABRIL JOVEM
(1991)
R$ 7,00



FESTA DE CRIANCA
LUIS FERNANDO VERISSIMO
ATICA
(2011)
R$ 8,00



ESAÚ E JACÓ / MEMORIAL DE AIRES
MACHADO DE ASSIS
NOVA CULTURAL
(2003)
R$ 15,00





busca | avançada
31576 visitas/dia
586 mil/mês