Murilo Rubião e o chocolate | Wellington Machado | Digestivo Cultural

busca | avançada
33609 visitas/dia
896 mil/mês
Mais Recentes
>>> Flávia Galli ministra a palestra "O Novo mundo descobre a Ásia" na Casa-Museu Ema Klabin
>>> Dia 27 de maio em Campinas: nova edição do "Casa Flamenca" do Café Tablao
>>> Conferência de Celso Amorim celebra 30 anos da Editora Unesp e do Cedem
>>> "E o vento vai levando tudo embora", de Regiana Antonini, no Fashion Mall
>>> Dia 25 de maio a Orquestra Brasileira de Sapateado se apresenta no Fashion Mall
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Super-heróis ou vilões?
>>> Seis meses em 1945
>>> Senhor Amadeu
>>> Correio
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> On the Road, 60 anos
>>> Viena expõe obra radical de Egon Schiele
>>> Dilapidare
>>> A imaginação do escritor
>>> Inquietações de Ana Lira
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
>>> Ebook gratuito
>>> Poesia para jovens
Últimos Posts
>>> Encantarias da palavra, de Paes Loureiro
>>> Animus mundi
>>> A partilha
>>> Dobraduras e origames
>>> Andamento
>>> Branco (série: Sonetos)
>>> Coroa, só de flores
>>> Ringue vago
>>> Presidenta e presidento
>>> O antagonismo de um povo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Os desafios de publicar o primeiro livro
>>> Um ano na Provence
>>> Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia
>>> Avatar 3D e as tecnologias visuais do novo milênio
>>> O mundo explicado por T.S. Spivet
>>> Minha casa, sua casa
>>> Por que o Lula Inflado incomoda tanto
>>> Os premiados da Mostra
>>> Cenas de um casamento
>>> Rafael Spregelburd e o novo teatro argentino
Mais Recentes
>>> O Texto na TV Manual de Telejornalismo
>>> A Biografia de Roger Federer
>>> Não Há Silêncio Que Nunca Termine
>>> EDGE - Coleção de quadrinhos
>>> O Cortiço
>>> Contos
>>> Indomada - The House of Night - Livro 4
>>> Olhinhos de Gato
>>> Janela Mágica
>>> Escolhida The House of The Night - 3
>>> Triste Fim de Policarpo Quaresma
>>> Vôo Noturno
>>> Traída - The House of Night 2
>>> Um Sentido para a Vida
>>> Manual do Ator
>>> Meu Corpo, Minha Prisão - Autobiografia de um Transexual
>>> Teu Amor Voltará
>>> Moisés - Príncipe do Egito
>>> O Caderno Secreto de Leonardo - O Deserto Iniciático - Tomo II
>>> O Caderno Secreto de Leonardo - A Catedral da Memória - Tomo I
>>> Conversações com Iberê camargo
>>> Ciberespaço: um Hipertexto Com Pierre Lévy
>>> A Linguagem Esquecida - Uma Introdução ao Entendimentos dos Sonhos
>>> O Testemunho do Senhor e a Necessidade do Mundo
>>> Imagens e Símbolos - Ensaio sobre o Simbolismo Mágico-Religioso
>>> O Sagrado e o Profano- a essência das religiões
>>> Antologia volumes 1 e 2
>>> Hora de Mudar - Richard Bandler- best seller
>>> Mensageiros do Amanhecer - Ensinamentos das Plêiades
>>> Terra Chaves Pleiadianas para a Biblioteca Viva
>>> Onde Existe Luz
>>> Nova gramática comparativa do grego e latin (Text: English, Greek, Latin)
>>> Fordlândia Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva
>>> Amestrando Orgasmos Bípedes, Quadrúpedes E Outras Fixações Animais
>>> Como Ser Irresistível Para O Sexo Oposto
>>> A Última Grande Lição
>>> A Coragem Da Inocência
>>> O Lado Bom Da Vida
>>> Criando Meninas
>>> Jornalismo Internacional
>>> Contos
>>> O Pequeno Filósofo
>>> A Vitória Da Páscoa
>>> A Magia Dos Grandes Negociadores
>>> Fora De Mim
>>> Marley & Eu
>>> A Individuação nos Contos de Fadas
>>> Evangelhos Apócrifos
>>> Taras Bulba
>>> O Bosque das Ilusões Perdidas
COLUNAS

Segunda-feira, 30/11/2009
Murilo Rubião e o chocolate
Wellington Machado

+ de 3600 Acessos
+ 1 Comentário(s)

"― Me dá um cigarro?
A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.
O importuno pedinte insistia:
― Moço, oh! moço! Moço, me dá um cigarro?
Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
― Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
― Está bem moço. Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento..."


Este pequeno trecho, que vale por uns cem livros de Dan Brown, é o começo do conto "Teleco, o coelhinho", do escritor Murilo Rubião ― um dos precursores do realismo fantástico no Brasil e um dos responsáveis pelo lançamento de uma geração de escritores, quando dirigiu o Suplemento Literário, em Belo Horizonte.

Por sugestão de um amigo, vou relatar um encontro que tive com o Rubião, em meados dos anos 70, quando eu era ainda criança. O meu avô Daniel, apesar de não ser uma celebridade, era uma pessoa de certa forma bem relacionada em vários setores da sociedade belo-horizontina. Funcionário público "faz tudo" (estamos nos anos 60 e 70), tinha livre trânsito entre políticos, médicos, advogados, escritores, atores, e na imprensa em geral. Descendente de portugueses (tinha até sotaque d'além-mar), era amante da política. Autodidata, trocava ideias e aconselhava um caminhão de gente que vinha a nossa casa (morávamos praticamente juntos, em casas contíguas).

Sempre tive uma certa afinidade (ou cumplicidade) com meu avô ― sou o primeiro neto. Não sei explicar exatamente o porquê. Talvez pela infinidade de coisas interessantes que ele me mostrava, ou pela sua verve, ou pela sua indignação com o que achava incorreto. O fato é que eu, vez ou outra, estava a seu lado, a tiracolo. Eu sempre fazendo aquelas perguntas complicadas de criança, e ele sempre me respondendo pacientemente.

Calhou de irmos visitar o Murilo Rubião, de quem meu avô Daniel era amigo ― acho que trabalharam juntos na Imprensa Oficial. Eu nem sabia de quem se tratava, muito menos de sua importância. Tive um grande choque, com momentos de temor, quando entramos no apartamento e eu me deparei com aquele senhor de cara fechada, óculos de grossa armação e corpo rotundo. Um apartamento escuro e silencioso, com livros, móveis antigos e algumas plantas. Via-se que morava ali um senhor solitário, centrado, sério e exigente.

Sempre morei em casa, mas naquele momento tive vontade de morar em apartamento. Mas que fosse igual ao do Rubião, uma "caixa em penumbra", onde o isolamento fosse uma proteção do mundo externo. O apartamento do Murilo era misterioso. Passava-me uma sensação de "exigência de privacidade" ― da qual o escritor nunca abrira mão, pelo que sei.

Um pouco de descontração, pelo menos para mim, foi quando o Murilo nos convidou para ir até a cozinha. Ele abriu um armário, acima da pia, e retirou uma enorme caixa preta, abarrotada de chocolates Diamante Negro. Abriu a caixa e disse para eu me servir. Diante da seriedade daquele "monstro" à minha frente, peguei um chocolate, timidamente. Na verdade eu queria a caixa inteira; não aquela ― pois eu temia o Rubião ―, queria uma caixa de chocolates igual àquela, preta, cheia de Diamantes Negros. Ele disse para eu tirar mais um, mas, pela boa educação, recusei. Ele, então, percebendo a minha timidez e o brilho nos meus olhos, tirou mais um Diamante e colocou-o na minha mão. Tenho nítido em minha memória o olhar paciente daquele senhor; aqueles olhos pequenos, reduzidos pelas lentes dos óculos.

Não comi os chocolates na hora; guardei-os no bolso. Voltamos à sala-escritório e a conversa entre ele e meu avô durou pelo menos umas duas horas. Fiquei sentado, ignorado em uma cadeira antiga, em silêncio, durante todo o período. Não havia um brinquedo para me distrair naquele apartamento lúgubre. Eu olhava os móveis, a máquina de escrever, os papéis, alguns quadros. Como eu era pequeno, minhas pernas balançavam soltas por baixo da cadeira. Uma criança bem comportada, com sapato social, meias, camisa de botão, ouvindo sem entender um diálogo que nunca terminava, já meio afoita para sair dali e saborear os chocolates.

Hoje eu não conseguiria identificar a rua ou bairro onde ficava o apartamento do Murilo Rubião. O escritor morreu em 1991. Não sei se os dois eram grandes amigos, mas percebi uma ponta de tristeza em meu avô Daniel, muito bem disfarçada ― ele tinha a arte de absorver tristezas, só para proteger os seus ―, quando o escritor se foi. Meu avô morreu em 1995 ― em minha memória, restaram os lugares e amigos que visitamos. Foi quando me dei conta da importância do Rubião e passei a ler seus contos com admiração. Fiquei sabendo que ele foi um escritor perfeccionista ao extremo ― chegava a escrever apenas uma frase por dia, bem lapidada. Vai daí a sua reduzida obra (cerca de 50 contos; parece-me que apenas 33 foram organizados em livros).

Não vi o Murilo sorrir naquele encontro com meu avô. Talvez ele tivesse o mau humor irônico e surreal do coelho Teleco. Mas toda vez que vejo um Diamante Negro, lembro do Murilo Rubião.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 30/11/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O Trovador, romance de Rodrigo Garcia Lopes de Jardel Dias Cavalcanti
02. Hosana na Sarjeta, de Marcelo Mirisola de Jardel Dias Cavalcanti
03. Texto Otimista de Fim de Ano de Duanne Ribeiro
04. Mídia Ninja coloca o eixo em xeque de Humberto Pereira da Silva
05. Lições que aprendi com o Millôr de Diogo Salles


Mais Wellington Machado
Mais Acessadas de Wellington Machado
01. A ilusão da alma, de Eduardo Giannetti - 31/8/2010
02. O poeta, a pedra e o caminho - 5/8/2015
03. Enquanto agonizo, de William Faulkner - 18/1/2010
04. Meu cinema em 2010 ― 1/2 - 28/12/2010
05. Marcador de página inteligente - 3/9/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
29/11/2009
15h10min
Bravo! Memorialista e fluente. Gosto muito de textos assim.
[Leia outros Comentários de Ricardo]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




VIAGEM DE INVERNO E OUTROS POEMAS
HELDER MACEDO
RECORD
(2000)
R$ 15,00



DIÁRIO DE UM BANANA: A VERDADE NUA E CRUA - VOLUME 5
JEFF KINNEY
V&R
(2011)
R$ 12,00



MONTESQUIEU - OS PENSADORES
COLEÇÃO OS PENSADORES
ABRIL CULTURAL
(1979)
R$ 15,00



O DIÁLOGO COMO MÉTODO: CINCO REFLEXÕES SOBRE HERMILO BORBA FILHO
LÚCIA MACHADO (ORG.)
PREFEITURA DO RECIFE/SECRETARIA DE CULTURA
(2006)
R$ 35,00



AS VALKIRIAS
PAULO COELHO
ROCCO
(1993)
R$ 5,00



SIN CITY - O ASSASSINO AMARELO
FRANK MILLER
DEVIR
(2005)
R$ 35,00



A MÃE
MÁXIMO GORKI
EUROPA AMÉRICA
(1978)
R$ 8,90



DESENVOLVIMENTO MEDIÚNICO
EDGARD ARMOND
ALIANÇA
(2013)
R$ 10,00



FAÇA O SEU CORAÇÃO VIBRAR
OSHO
SEXTANTE
(2005)
R$ 6,00



DICIONÁRIO DA SORTE: O VERDADEIRO LIVRO DOS SONHOS
AHMED AL-KHATIB
RIGEL
(2013)
R$ 35,00





busca | avançada
33609 visitas/dia
896 mil/mês