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Terça-feira, 3/9/2002
A Música de Moisés Santana e João Suplicy
Waldemar Pavan

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+ 1 Comentário(s)

Descolar discos seria um verbete apropriado - apesar da inexistência do tal verbete - à tribo da qual faço parte. Várias pessoas que, como eu, são chapadas por música e não medem esforços financeiros e físicos quando o assunto é descolar um bom trabalho musical gravado em cd.

Esforço financeiro é compreensível, mas físico? Pois é, o físico vem por conta de ralar o casco em andanças desvairadas por lojas e mais lojas à captura de bons discos, novos ou antigos. E neste quesito há de se ressaltar também o esforço dos dedos pinçadores. Os meus, em algumas ocasiões, assemelham-se visualmente a palitos de fósforos já queimados devido ao acúmulo de poeira proveniente da viração de caixas e mais caixas de cd's em lojas que nem sempre se preocupam muito com a manutenção da limpeza.

Tá bom, e o critério que me faz pinçar e selecionar uma obra da gôndola? Eu confesso, vão dos mais subjetivos, singelos, práticos ou aparentemente esdrúxulos aos mais objetivos e eu poderia lavrar páginas e mais páginas sobre o assunto. Porém, não será hoje que cravarei as tais páginas, mas aqui fica meu depoimento: nem sempre a informação sobre uma obra, autor ou intérprete é garantia de boa aquisição, a intuição, que, por vezes, é bondosa orientadora, por outras é crudelíssima, serve somente ao propósito de abarrotar sebos ávidos em mal remunerar os descarregos oriundos do impulso intuitivo. Escrevi todo este preâmbulo para relatar-lhe que boa sorte tive recentemente:

MOISÉS SANTANA - GRAVADORA LUA DISCOS

Eu pinço Moisés Santana da gôndola, na contracapa topo com Bala Com Bala (João Bosco-Aldir Blanc), Triste Bahia (Caetano Veloso-Gregório de Mattos), Marginalia II (Gilberto Gil-Toquato Neto) e Alegria (Assis Valente-Durval Maia), todas minhas apreciadíssimas conhecidas, estava esquentando minha decisão em arrastar o disco - até então eu nunca ouvira falar sobre Moisés Santana - quando olhei à direita da contracapa e li a inscrição Lua Discos, gravadora que no ano passado proporcionou-me 4 inestimáveis jóias de raro valor da cedeteca brasileira: Na Galeria por Moacyr Luz, o tributo de Jards Macalé a Moreira da Silva, Samba Guardado de Guilherme de Brito parceiro constante de outro fantástico sambista - Nelson Cavaquinho e, concluindo a felizarda lista, Casquinha da Portela o primeiro registro solo em cd gravado pelo compositor portelense Casquinha, pasmem, quando estava preste a completar 80 anos! Foram estas as informações que eu dispunha e que fecharam minha decisão em arrastar o disco de Moisés Santana para casa, já que das 13 músicas e duas vinhetas constantes na contracapa apenas as acima relacionadas eu conhecia. Todas as outras eram inéditas e de autoria do intérprete/compositor Moisés Santana.

Bastante curioso, vou de cara nas conhecidas Bala Com Bala, a primeira que ouço, já é um excelente indicativo que arrastei um disco da pesada. Cá entre nós, gravar uma música que outrora fora gravada por Elis Regina é prova de fogo, mas não dá para comparar. Percebo no ato que MS fez uma leitura totalmente diferente de Elis. Acaba a música e fico com uma vontade doida de ouvi-la novamente, mas tenho outras releituras a conferir e dou um skip no my player para Triste Bahia. Meeeu, daí o disco começa a me pegar de vez, a releitura meio trip hop para a canção é simplesmente maravilhosa, eterniza por completo a obra poética de Gregório de Mattos, ninguém gravará Triste Bahia com a força e talento de intérprete de Moisés Santana - com o auxílio impecável da participação vocal de Rebeca Matta. Termina a interpretação e a vontade é ferrada em ouvi-la novamente. Só que desta vez mesclada à ansiedade em ouvir as que ainda não ouvira, opto por continuar ouvindo as releituras, e a próxima é Marginália II, a quem MS empresta uma interpretação que é a medida exata da adequação da obra nascida setentista às angústias que assolam a humanidade brasileira do milênio II.

A próxima da lista de conhecidas é o samba Alegria:

Da tristeza não quero saber
A tristeza me faz padecer
Vou deixar a cruel nostalgia
Vou fazer batucada de noite, de dia
Alegria


Transe total, a esta Alegria não resisto, ouço três vezes seguidas, o vocal background dos come-come acompanha a primeira parte da música. Come-come por que o vocal presta-se a estalar a língua no céu da boca como parte integrante da instrumentação na primeira parte da música. Haja coração quando a sessão rítmica entra arrebentando a boca do balão na segunda parte da música. Haja também sais e adrenalina para suportar a grandiosidade do baque. Tive um forte e agradável susto, impacto daqueles que você sente até um oco na proximidade do estomago, a versão é isso mesmo, orgânica e visceral.

Agora é a hora da verdade, depois de ouvidas todas as músicas que conhecia. Chega a hora de ouvir as autorias, que meda, seria Moisés Santana um craque em releituras que usara as mesmas como isca-para-trouxas para promover a vendagem?

Coragem, fui ouvir o que o moço tem a dizer e mais uma excelente surpresa: Moisés Santana tem muito a dizer, suas letras são poesias delicadamente afiadas que falam da alegria, tristezas, amor, sonoridade, eletrônica, mulheres e homens do nosso tempo, sem nunca sequer resvalar o aspecto piegas tão comum a esses temas. O aspecto musical de suas composições é outro item que recebe nota dez. Moisés sublinha musicalmente suas poesias com samba, rock, blues e bossa nova, mas não pense você que encontrará um blues do Mississipi, uma bossa nova joãogilbertaneana ou um samba que te remeta diretamente a outro samba de Paulinho da Viola. MS lida com todas estas influências e vertentes, sendo que muitas vezes remetem-no as referências citadas não como formas definitiva de canção e sim como "recuerdos" de muita audição - apesar de eu não dispor desta informação, fica a impressão que MS é um cara que leu os melhores autores e ouviu atentamente os melhores músicos, os melhores compositores e os melhores intérpretes de todos os tempos, e que na hora de compor e registrar suas obras embalou-se por toda a influência literário-musical registrada em seu ser acrescido de sua visão. Grande conhecimento e aproveitamento de gêneros por uma ótica de criação musical muito particularizada no mundo do disco, inédita aos meus ouvidos até então, mesmo em se tratando de gêneros conhecidos como são o blues, o samba,a bossa nova ou o rock.

No quesito instrumentação, MS mistura na medida correta os componentes e você pode ouvir um cavaquinho ou um pandeiro fornecendo contraponto à guitarra ou à programação eletrônica. Os fundamentalistas de gêneros hão de tremer com estas fusões inusitadas, mas asseguro a todos, fundamentalistas, novidadeiros e pessoas em geral: ficou demais, MS soube empregar todos os recursos de forma a tornar sua obra um conjunto agradabilíssimo de canções encadeadas, fossem estas inéditas ou já gravadas. Músicos competentes e participações estreladas, dentre elas, as vozes sedutoras de Jussara Silveira e Rebeca Matta.

Por tudo isso e mais um pouco é que afirmo sem medo de errar: Moisés Santana foi a melhor revelação musical que ouvi neste princípio de segundo milênio, referência poético-musical indispensável para o passado, presente e futuro, e se você se interessou e quer saber um pouco mais sobre o jovem talento,não espere para ouvi-lo nas fm's da vida. MS não é artista de dial porque não é artista de refrão fácil. Registro então a minha sugestão para que visite o site de Moisés Santana e ouça os trechos das canções aqui referenciados.

Moisés Santana Foi Show

Dificilmente assisto a shows. Como não dá tempo de garimpar-e-ouvir-o-cd-ler-o-livro-ver-o-show-assistir-o-dvd, só vou a shows em ocasiões especialíssimas e por tudo o que escrevi sobre Moisés Santana julguei que seria legal assistir a um dos seus shows programados para os dias 14, 21 e 28 de Agosto no pequeno e aconchegante teatro do Hotel Crowne Plaza em São Paulo. Escolhendo a última data (28) para fazê-lo, não vou relatar todos os aspectos do show, só vou te contar que MS mantém em show o mesmo talento que esbanja no cd, quero, com isso dizer, que não tem truque de gravação, o cara é bom em disco e ao vivo. Quero aproveitar para valorizar a eficiente direção musical do espetáculo à Gigi Monteiro, que para além de ter dirigido cuidadosamente o espetáculo ainda participou deste e do disco de MS com todo seu talento multi-instrumentista.

JOÃO SUPLICY - CAFÉZINHO - GRAVADORA CIRCUITO MUSICAL

O subtítulo deste papo poderia ser "sem medo de ser feliz, do Crowne Plaza ao Bar do Cidão". Dia 28, quarta feira passada, a temperatura aqui em São Paulo estava agradabilíssima, e depois de assistir ao show de Moisés Santana resolvi esticar até o Café Du Reve, nome de batismo do Boteco do Cidão que de chic e pomposo só tem o nome.

O Café Du Reve (ou Bar do Cidão) é um boteco bastante conhecido nos meios musicais de São Paulo, principalmente pelos amigos do samba e do choro. É para lá que também rumam alguns sambistas e músicos cariocas e também de outros estados em passagem pela cidade para oferecer canjas ou simplesmente apreciar o som que rola por ali, e é lá que se reúne a nata dos instrumentistas e vocalistas destes gêneros na cidade de São Paulo.

O Bar do Cidão (ou Café Du Reve) é um ambiente com toda a precariedade de um boteco, e está localizado quase em frente à delegacia de Pinheiros, na Rua Deputado Lacerda Franco entre Cardeal Arcoverde e Inácio Pereira da Rocha. Pois é ali acontecem os sons e as presenças de músicos fixos, inesperados canjeiros, freqüentadores assíduos, eventuais e/ou inusitados.

Cardápio limitado, bebidas caras, por vezes mais até do que por bares e restaurantes diferenciados, porém legítimas e não oferecem risco de ressaca no dia seguinte. Freqüência bacana, amistosa, quase familiar - o humor do Cidão também é variável. Com os novos freqüentadores Cidão tende a se mostrar tão amistoso quanto são amistosos aqueles que foram obrigados a chupar um cesto de limões verdes - por todos estes defeitos e qualidades é que o Bar do Cidão tem se firmado no cenário musical paulistano, inclusive superando alguns obstáculos burocráticos como seu recente fechamento pela atual administração da prefeita Marta Suplicy (PT-SP).

Foi neste ambiente que topei cara-a-cara com João Suplicy, filho da prefeita Marta, do senador Eduardo (PT-SP) e irmão do roqueiro Supla, vendendo seu novo cd aos freqüentadores. Contei para você o breve histórico familiar de João Suplicy porque faz parte, se não contasse provavelmente pagaria um mico pela omissão, já que a única influência familiar musical declarada no site de João foi a de seu irmão mais velho, Supla, que lhe entupiu de Beatles. Apesar de nutrir grande simpatia por todos aqueles que vendem seus discos de mão em mão, na relação direta artista-consumidor, não comprei o disco sem antes lhe perguntar qual era o conteúdo. E ele informou-me que se tratava de samba e samba-rock. Arrastei o artefato sonoro, gosto a beça de samba e também de samba-rock, mas confesso que não botava muita fé.

Minha previsão subdimensiou o acontecimento. O disco Cafezinho de João Suplicy é um dos melhores trabalhos de samba-rock que adquiri.

Neste ponto abro parênteses para uma explicação: samba rock é um gênero musical inspirado pelas músicas de Jorge Ben na década de 70, que servia para animar bailes e reuniões dançantes da época, e dançar, no caso do samba-rock, significa dançar muuuiiito bem e agarradinho à parceira.

O gênero que na altura de seu lançamento contava com ilustres desconhecidos do cenário musical como Franco, Boca Nervosa, Adil Monteiro, Chocolate da Bahia, Noriel Vilela (16 Toneladas), Abilio Manoel (Pena Verde) e Elizabeth Vianna (Meu Guarda Chuva), também contou com participação de muitos ícones da música brasileira, entre eles Erasmo Carlos (Coqueiro Verde), Dóris Monteiro ( É Isso Aí), Leni Andrade ( Não Adianta ), Trio Mocotó (Maior É Deus, Não Adianta), Mutantes (Minha Menina), Gal Costa (Que Pena), Toquinho (Que Maravilha ), passando inclusive pela interpretação da Divina Elizeth Cardoso que embarcou no movimento com uma música que fazia apologia à bebida ( Eu Bebo Sim ). Outros pertenceram ativamente do movimento, Orlandivo ("Bolinha de Sabão)", Erlon Chaves e a Banda Veneno (Eu Quero Mocotó, Carly e Carole) e apenas ficaram por ali, registrados no tempo - a lista de adesões ao movimento musical samba-rock é realmente imensa - servindo de pretexto para intensa cobiça de colecionadores internacionais de discos que pagam preços astronômicos por estes exemplares - nunca relançados no Brasil - curiosamente alguns dos mais importantes títulos foram relançados "clandestinamente" em pequenos selos internacionais.

Dos anos 70 para cá, os mantenedores do samba-rock foram Jorge Benjor e o incansável Bebeto. Na década de 90, o cantor/compositor/guitarrista/paulistano Mattoli fez um excelente disco autoral-independente sobre o gênero samba-rock, Balanço Bom É Coisa Rara, que, apesar conter de todas as melhores qualidades do samba-rock, não aconteceu comercialmente.

O recente despertar para o gênero não aconteceu com um disco especifico sobre o estilo musical em questão, mas com uma música nele contida, Meu Guarda Chuva, uma música dos anos 70, originalmente gravada por Elizabeth Vianna e que ressurgiu recriada em 1999 no disco de estréia do grupo Funk Como Le Gusta - Roda de Funk, que era interpretada pela também ex-novata Paula Lima.

A partir deste acontecimento começaram a pipocar diversas compilações, em cd's, de músicas originais da época, todas piratas e comercializas por camelôs, extraídas de compactos simples - disco de vinil com duas faces, contendo uma música em cada face - todas frutos do descaso das multinacionais do disco.

A situação começou a mudar um tiquinho no ano passado quando um delicioso disco de releituras -também capitaneado por Mattoli - foi lançado no ano passado (Gravadora Regata)- reunindo as melhores canções do gênero. O cd chama-se Swing e Samba-Rock e foi constituído por uma formação/reunião que se denominou Clube do Swing e que reuniu, além de excelentes músicos, os convidados Erasmo Carlos, Simoninha, Bocato, Seu Jorge, Ivo Meirelles, Max de Castro, Luis Vagner e Bebeto. Vale lembrar que a principal característica do gênero samba-rock é a alegria incondicional e o total descompromisso com aprofundamentos político-filosóficos em suas letras. É o que muitos enjoados caracterizariam com sendo música para entretenimento. Eu particularmente aprecio um bocado a temática quase juvenil inserida no contexto samba-rock e nada tenho contra música para entretenimento, feita para pistas de exímios dançarinos ou para momentos de descontração, até porque ninguém é de ferro.

Cafezinho de João Suplicy não escapa a nenhuma das definições conceituais do samba-rock. É um disco que pega leve, de letras bacaninhas, sem refrões grudentos e que vai agradar, com certeza, a todos os apreciadores de samba-rock. Recheado de metais, entre os quais o trombone é o destaque, o disco conta ainda com a participação de músicos da pesada e foi produzido pelo admirável Guga Stroeter. Trata-se portanto de um trabalho detalhadamente cuidado. João Suplicy canta legal e escreveu todas as músicas e letras, algumas sozinho outras assinadas em conjunto pelo único e constante parceiro, João Pellegrino. Gostei de todas as músicas do disco, mas a que mais me chamou a atenção foi um samba nos moldes tradicionais de se fazer samba, Papelão, um bem humorado - porém assertivo - puxão de orelhas na burocracia cartorial que ainda contou com o auxilio luxuoso de execução de uns dos maiores violonistas 7 cordas deste país, Luis Filipe de Lima. Só mais uma coisinha: o cd de João Suplicy ainda não foi para as lojas mas já pode ser adquirido diretamente no site ou pelo telefone (11)3064.0751.


Waldemar Pavan
São Paulo, 3/9/2002


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/9/2002
18h04min
Waldemar, se eu algum dia perder o preconceito contra baterias eletrônicas, teclados pré-programados e coisas quetais, será por obra e mérito seu, ao ter permitido que eu ouvisse esse instigante trabalho do Moisés Santana. Parece incrível de ninguém (ao que me consta) tivesse ousado regravar a música que Caetano Veloso fez para os versos de Gregório de Mattos (“Triste Bahia”), ou ainda a interpretação aparentemente definitiva que Elis Regina tinha dado a “Bala com bala”, de João Bosco e Aldir Blanc. O Moisés é novo e tem peito de fazer isso e ainda compor letras como “Compromisso”, que se viessem de Chico Buarque seriam facilmente rotuladas como ranzinzice esquerdista. Parabéns pela sensibilidade em nos trazer essa crítica. Ainda estranho as eletroniquices, mas vejo que por trás delas, sem dúvida, também bate um coração.
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