Histórias de quando eu tinha tempo livre de sobra | Rafael Lima | Digestivo Cultural

busca | avançada
48473 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Namíbia, Não! curtíssima temporada no Sesc Bom Retiro
>>> Ceumar no Sesc Bom Retiro
>>> Mestrinho no Sesc Bom Retiro
>>> Edições Sesc promove bate-papo com Willi Bolle sobre o livro Boca do Amazonas no Sesc Pinheiros
>>> SÁBADO É DIA DE AULÃO GRATUITO DE GINÁSTICA DA SMART FIT NO GRAND PLAZA
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Modernismo e além
>>> Pelé (1940-2022)
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Compreender para entender
>>> Para meditar
>>> O que há de errado
>>> A moça do cachorro da casa ao lado
>>> A relação entre Barbie e Stanley Kubrick
>>> Um canhão? Ou é meu coração? Casablanca 80 anos
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Fantasmas do antigo Recife
>>> Luther King sobre os fracos
>>> O centenário do Castor
>>> O comercial do Obama
>>> Por que Dilma tem de sair agora
>>> Mininas no Canto Madalena
>>> Quase cinquenta
>>> Bate-papo com Odir Cunha
>>> Entrevista com Sérgio Rodrigues
>>> Leblon
Mais Recentes
>>> Eu Fico Loko -As Desventuras de Um Adolescente Nada Convencional de Christian Figueiredo de Caldas pela Novas Páginas (2015)
>>> Teoria Geral do Direito e Marxismo de Evguiéni B. Pachukanis pela Boitempo (2017)
>>> O Caso dos Dez Negrinhos de Agatha Christie pela Abril Cultural (1981)
>>> A Revolução Russa de 1917 de Marc Ferro pela Perspectiva (1974)
>>> A Questão Urbana de Manuel Castells pela Paz e Terra (1983)
>>> Esquerdismo Doença Infantil do Comunismo de V. I. Lenin pela Expressão Popular (2014)
>>> Crônicas de Nuestra América de Augusto Boal pela Codecri (1977)
>>> A Desumanização da Arte de José Ortega y Gasset pela Cortez (1991)
>>> Homens Em Tempos Sombrios de Hannah Arendt pela Companhia De Bolso (2013)
>>> A Música do Tempo Infinito de Tales A. M .Ab'Sáber pela Cosac & Naify (2012)
>>> Poesia e Filosofia de Antonio Cicero pela Civilização Brasileira (2012)
>>> A Estrada da Noite de Joe Hill pela Sextante (2007)
>>> O ornamento da massa de Siegfried Kracauer pela Cosac & Naify (2009)
>>> O Horror Econômico de Viviane Forrester pela Unesp (1997)
>>> Merleau-ponty e a Educação de Marina Marcondes Machado pela Autentica (2010)
>>> Revoluções de Michael Lowy pela Boitempo (2009)
>>> O Anticristo de Friedrich Nietzsche pela Lpm pocket (2008)
>>> E no Final a Morte de Agatha Christie pela Lpm pocket (2010)
>>> Estetica da Emergencia de Reinaldo Laddaga; Magda Lopes pela Martins Fontes (2012)
>>> Pós-produção: Como a Arte Reprograma o Mundo Contemporâneo de Nicolas Bourriaud pela Martins Fontes (2009)
>>> A saga da família Klabin-Lafer de Ronaldo Costa Couto pela Klabin (2020)
>>> Tudo Pelo Amor Dele de Sandie Jones pela Única (2019)
>>> Um Encontro de Sombras de V E Schwab pela Record (2017)
>>> O Vilarejo de Raphael Montes pela Suma das Letras (2015)
>>> Dança da Escuridão de Marcus Barcelos pela Faro (2016)
COLUNAS

Terça-feira, 3/7/2001
Histórias de quando eu tinha tempo livre de sobra
Rafael Lima
+ de 6000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Em sociedade não há mal educados, há excêntricos

Em 1994 o Castelinho, uma construção histórica na Praia do Flamengo, mostrou que os difíceis anos de sobrevivência da década de 80, quando esteve ameaçado até de ser demolido, não foram à toa, ao sediar uma convenção que trouxe pela segunda vez ao Rio o Bill Sienkievicz. Quando o pessoal da Panacea (uma revista de "cultura jovem" que não existe mais) me ligou pedindo uma entrevista, eu fiz as contas e vi que era terça-feira, eu tinha duas provas até sexta, o Bill chegava na quinta e ia embora domingo de tarde. Apesar dele falar muito bem, eu não estava seguro do meu inglês, nem tinha gravador. Quer dizer: topei sem hesitar. As coisas se movem de maneira meio estranha para mim quando se trata de histórias em quadrinhos. Descolei um gravador emprestado, comprei uma fita, colei no gringo e marcamos uma entrevista no fim da tarde de sexta-feira, no bar anexo ao Castelinho. Estava até parecendo fácil. Como sói acontecer nessas situações, o Ota, editor da Record, tinha o seqüestrado (volta e meia o Ota seqüestra um quadrinhista estrangeiro que esteja por essas bandas) para um tradicional passeio ao Pão-de-Açúcar, que teria sido o máximo -- não fosse aquele o dia mais nublado do ano... Como se isso fosse pouco, ainda me aparece, simplesmente do nada, uma repórter-nunca-vi-antes, correspondente de um diário de Campinas (Campinas! Não podia ser mais longe, pra dar mais chance do avião cair no caminho!) com seu gravadorzinho e estoque de perguntas imbecis... (o editor da Panacea tinha me passado por telefone umas perguntas beeeem cabeça na véspera). Para completar a cena, uma mesa com oito pessoas conversando em clima de happy hour total ao fundo proporcionavam uma versão turbinada do que o vulgo chama por aí de ruído fundo para o tom pausado e educado da voz de Sienkievicz, fatalmente o que menos se ouvia na fita cassete... Eu devo ter inventado metade do que ele disse. A outra metade eu tive que deduzir. Mas mesmo assim foi um fim de semana excepcional: apesar da celebridade, Bill se mostrou extremamente paciente e atencioso, e nem desconfiou que suas roupas, especialmente as botinhas com bico metálico no pior estilo jeca-texano-que-acha-que-é-hype, tinham sido responsáveis por criar, nos termos de Carlos Maçaranduba, "dúvidas acerca de sua masculinidade" entre alguns fãs maledicentes. Pude vê-lo declarar paixão por canetas esferográficas, falar sobre sua adaptação para os quadrinhos de Moby Dick, ensinar o povo a pronunciar seu sobrenome, conhecer em primeiríssima mão a xerox da biografia de Jimi Hendrix em quadrinhos que ele acabara de concluir, mas acho que o grande momento foi a resposta que deu à inocente pergunta de um fã sobre sua idade:

- Tenho idade suficiente para beber bebidas alcoólicas, dirigir e fazer sexo seguro consensual.

Ave, César!

Uma das presenças mais aguardadas na segunda Bienal de Quadrinhos era a de Gaetano "Tanino" Liberatore, o brilhante desenhista de Ranxerox, provavelmente o quadrinho mais violento da década de 80 - e olha que a disputa pelo título era briga de cachorro grande. Italiano e profundo conhecedor de anatomia humana, como Milo Manara (que, assim como os sutiãs, é mais chegado à anatomia feminina), a exposição dos seus originais criou uma espécie de concurso informal entre os desenhistas profissionais e wannabe para tentar descobrir as técnicas utilizadas para capturar todo aquele realismo. Dizia-se que até batom e maquiagem ele colocava no papel para conseguir certos efeitos. Em uma palestra, Lourenço Mutarelli, ganhador do prêmio de melhor história da primeira Bienal, perguntou:

- Quando você termina de desenhar uma página, também dá um murro em cima do papel e grita, 'Parla, parla!'?

Mas isso foi depois que todo mundo sacou que ele era sangue bom. Antes, apesar do belo bronzeado e do ar de folgada simpatia transmitido por um sorriso largo, ainda tínhamos um pé atrás, afinal, tratava-se do autor de uma história em que um ciborgue espanca metade de um bar com um telefone público recém-arrancado da parede... Enquanto procurávamos a melhor hora de pegar seu autógrafo, vi-o entrar num botequim em frente ao Centro Cultural dos Correios, sede do evento. Ferrou, pensei com as minhas revistas, desenhando os quadrinhos que desenha, no mínimo ele vai sair lá de dentro com uma caipirinha, se não vier coisa pior, e aí melou o autógrafo. Para nossa surpresa e felicidade, saiu com um guaraná, chupando de canudinho! Poucas vezes lembro de ter mudado tão rápido minha idéia sobre alguém, e como Liberatore já se adaptara completamente ao gentio local, pouco depois estava de papo na nossa rodinha, na escadaria em frente aos Correios... Voltamos correndo para mostrar o troféu reluzente a um amigo, dono de uma loja de quadrinhos aberta naquele ano, e que tinha um stand na Bienal: "Liberatore, cara, Liberatore!". Pô, legal, hein, dizia ele, enquanto fazia que sim com a cabeça, o beiço esticado para frente. Foi a gente desviar para a esquerda, saindo do seu alcance, que ele perguntou à quem estava mais à mão:

- Quem é esse Liberatore?

A melhor resposta tinha sido dada pelo próprio, naquela mesma palestra:

- Io sono una personna piu dolce.

O velhinho é demais

Os produtores do documentário em 3 partes sobre Will Eisner seria exibido pela Tv Senac acharam por bem trazê-lo para a pré-estréia, haja vista a imensa amizade que se estabelecera entre eles e o cartunista norte-americano, e o gosto que Eisner não era de hoje nutria pelo Brasil (era a quarta ou quinta vez que ele nos visitava). Nada disso seria de se admirar se Eisner fosse um músico novato estreando em Free Jazz, ou um videomaker dinamarquês só conhecido por quem lê suplemento cultural de jornal paulistano com lupa, e não o maior verbete de qualquer enciclopédia de histórias em quadrinhos publicada nos EUA - e em mais algumas da Europa. Costuma-se compará-lo a Orson Welles, pela revolução da narrativa que ambos realizaram em seus respectivos campos de trabalho, Welles com Citizen Kane; Will Eisner com The Spirit, mas eu diria que Eisner vai mais longe: ele seria o Chaplin dos quadrinhos, alguém que atuou nos primórdios, tanto ajudando a definir o próprio caráter - e a cara - do meio quanto subvertendo-o ao mesmo tempo, descobrindo todas as possibilidades que ele oferecia. Eisner criou The Spirit mais como um comentário do que propriamente um modelo de super-herói em 1940 e produziu histórias semanais de 7 páginas até 1952, contando com a ajuda de um estúdio no período em que esteve na guerra. Largou os quadrinhos para só voltar em 77, quando ajudou a formatar o mercado para um novo gênero, o graphic novel. Desde então, criou umas 20 graphic novels, algumas com mais de 100 páginas, entre elas seu livro de memórias. Aos 83 anos, lépido, bem humorado, ainda produzindo uma página completa por dia (roteiro, desenho, arte-final e letras!), é um prazer para Eisner dar autógrafos à uma das poucas filas em que estive onde dizer que havia gente de todas as idades não era mera figura de linguagem. Disse-lhe que faziam 8 anos que eu havia pego seu primeiro autógrafo.

- Oito anos!... você não parece oito anos mais velho!

Não deixei por menos:

- A gente deveria marcar de se encontrar a cada 8 anos para eu pegar o seu autógrafo...


Rafael Lima
Rio de Janeiro, 3/7/2001

Mais Rafael Lima
Mais Acessadas de Rafael Lima em 2001
01. Charge, Cartum e Caricatura - 23/10/2001
02. O Tigrão vai te ensinar - 12/3/2001
03. A diferença entre baixa cultura e alta cultura - 24/7/2001
04. Sobre o ato de fumar - 7/5/2001
05. Um álbum que eu queria ter feito - 6/11/2001


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/3/2002
16h10min
parabens por sua home page tchau
[Leia outros Comentários de rafael f. de almeida]
5/1/2004
17h57min
Procurando um Rafael Lima...Cantor e compositor Paraense...amigo, sumido para a Suiça ou nesse mundo de meu Deus...acabei achando um outro Rafael Lima....Parabéns para este...muito interessante o "site"...não conhecia...mas, realmente gostei muito. Irei consulta-lo...sempre. Quem sabe um dia tangencie com o outro Rafael...um homem das áquas do Amazonas...inteligente e de muita musicalidade,,,um "gênio" perdido neste mundo pasteurizado e coisificado...o que é uma pena! Bem , de qualquer forma...tanto faz dar na cabeça...como na cabeça dá!...rss Quem sabe alguém saiba do paradeiro do meu amigo...
[Leia outros Comentários de Bosco Costa]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Mens Sana: a Angústia do Homem Em Busca da Felicidade / Vol 3
Albino Aresi / Capa Dura
Mens Sana
(1984)



Livro - O Encouraçado Potemkin
Folha de São Paulo
Moderna
(2011)



Novelas - Concursos Literários do Piauí
Sergio Batista e Outros
Publique
(2005)



O Pirata eletrônico e o Samurai
Jeff Goodell
Campus
(1996)



A Lenda do Muri- Keko
Marcos Bagno
Sm
(2005)



Senhora Rezadeira
Denise Rochael
Cortez
(2004)



A Camada de Ozonio
M. Bright
Melhoramentos
(2000)



Descubra Seu Corpo
Nigel Nélson
Impala
(1996)



O Patinho Feio
Vários Autores
Ftd
(1996)



O Fio do Destino (1991)
Zibia Gasparetto
Vida e Consciencia
(1991)





busca | avançada
48473 visitas/dia
1,4 milhão/mês