Alexandre, o Delicioso | Adriana Carvalho | Digestivo Cultural

busca | avançada
78548 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Clube do Conto outubro - Sesc Carmo - literatura infantojuvenil
>>> Projeto seleciona as melhores imagens de natureza produzida por fotógrafos de Norte a Sul do país
>>> Infantil com a Companhia de Danças de Diadema tem sessão presencial em Ilhabela e Caraguatatuba
>>> Teatro do Incêndio realiza roda de conversa na Rua 13 de Maio sobre carnaval e identidade do Bixiga
>>> Mauro Mendes Dias lança Entre Baratas e Rinocerontes no encerramento da Semana da Estupidez
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O legado de Graciliano Ramos
>>> Extraordinary Times
>>> Ensaio sobre a surdez
>>> The Search, John Battelle e a história do Google
>>> As ligações perigosas
>>> De pé no chão (1978): sambando com Beth Carvalho
>>> Consulta
>>> Dia do Sabino
>>> De Siegfried a São Jorge
>>> So much that was good but is gone
Mais Recentes
>>> LEVIATÃ, ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil de Thomas Hobbes (1588-1679) pela Martin Claret (2014)
>>> O Inverno Chegou de Cynthia Freeman pela Nova Cultural (1987)
>>> Parábolas de Jesus: texto e contexto de Haroldo Dutra Dias pela Federação Espírita do Paraná (2011)
>>> Nunca Houve um Castelo de Martha Batalha pela Companhia das Letras (2018)
>>> O segredo de fátima de Irmã lúcia pela Loyola (1991)
>>> Iniciação À Arte De Curar Pelo Magnetismo Humano de Paul-Clément Jagot pela Pensamento
>>> Venda mais - DEUS na empresa. A espiritualidade ajuda a vender? Ano 9 - Nº108 de Vários pela Quantum (2003)
>>> Meu Recife de Outrora: Crônicas do Recife Antigo de Fernando Pio pela Departamento de Cultura (1969)
>>> Aparência Rio de Janeiro - 60 Notícia Histórica Descritiva da Cidade de Gastão Cruls pela José Olympio (1949)
>>> Experiências Psíquicas Além da Cortina de Ferro de Sheila Ostrander e Outro pela Cultrix (1970)
>>> Aprender a pensar de Edward de Bono pela Plaza e Janés (1987)
>>> Nem cosme nem damião de Joaquim vaz de carvalho pela Giz (1993)
>>> A Tormenta de Espadas. As Crônicas de Gelo e Fogo - Volume 3 de George R R Martin pela Leya (2012)
>>> A Guerra dos Tronos. As Crônicas de Gelo e Fogo - Volume 1 de George R R Martin pela Leya (2012)
>>> A Dança Dos Dragões - Coleção As Crônicas De Gelo E Fogo. Volume 5 de George R R Martin pela Leya (2012)
>>> A Furia dos Reis: As Cronicas de Gelo e Fogo, Vol. 2 de George R R Martin pela Leya (2011)
>>> O Festim Dos Corvos - Coleção As Crônicas de Gelo e Fogo de George R R Martin pela Leya (2012)
>>> A Menina Submersa: Memórias: Um caso de amor para toda vida de Caitlin R. Kiernan pela Darkside (2015)
>>> D.Gray-Man, Volume 15 de Katsura Hoshino pela Panini Comics (2009)
>>> D.Gray-Man, Volume 14 de Katsura Hoshino pela Panini Comics (2009)
>>> D.Gray-Man, Volume 13 de Katsura Hoshino pela Panini Comics (2009)
>>> D Gray Man Vol. 12 de Katsura Hoshino pela Panini Comics (2010)
>>> D. Gray-man Volume 11 de Katsura Hoshino pela Panini Comics (2010)
>>> Manuel Bandeira- Análise e Interpretação Literária de Emanuel de Moraes pela José Olympio (1962)
>>> O Fantasma de Jo Nesbo pela Record (2017)
COLUNAS

Quinta-feira, 17/5/2007
Alexandre, o Delicioso
Adriana Carvalho

+ de 4700 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Estou apaixonada pelo Alexandre. Dumas. Meu marido sabe. Mas não liga. Também é fascinado por ele. Leu os clássicos romances de capa e espada pelos quais Dumas se tornou famoso. Quanto a mim, descobri Alexandre pela obra com a qual ele achava que se consagraria na posteridade: o Grande dicionário de culinária (Jorge Zahar, 2006, 340 págs.). Na gastronomia, para alguns, o livro é considerado um ícone, colocado ao lado de A fisiologia do gosto de Brillat-Savarin. Outros dizem que não passa de uma compilação de obras e receitas da época, resultado das horas de ócio de Dumas. Na literatura, não conseguiu superar a fama dos Três Mosqueteiros ou do Conde de Monte Cristo.

Discussões à parte, o que eu posso dizer é que uma pessoa precisa ser mesmo muito mal humorada para não se deliciar com a leitura da obra, recém-traduzida e lançada no Brasil, ainda que com mais de cem anos de atraso em relação à sua primeira edição, e imperdoavelmente não editada na íntegra para tornar o livro comercialmente viável (há que se frizar que não fomos originais nesse quesito: na França também há versões da obra que subvertem seu formato original).

A editora Jorge Zahar decidiu separar a obra em dois livros: um com verbetes que compõem propriamente o dicionário e outro, que ganhou o nome de Memórias gastronômicas de todos os tempos (seguido de Pequena história da culinária) (Jorge Zahar, 2005, 148 págs.). Novamente, apesar da indignação com o fato de pegar a obra original de um medalhão da literatura universal e dar a ela nova ordem, títulos e intertítulos que sabe-se lá se não causaram alguma azia ao autor em seu descanso eterno, ainda assim as Memórias gastronômicas... foram, para mim, uma leiga em Dumas, um delicioso aperitivo, degustado com voracidade.

Esse pequeno volume é um relato dos hábitos à mesa (os bons e os maus) dos séculos XVIII e XIX, incluindo os de famosos como: Napoleão Bonaparte, que segundo Dumas só não era um gourmand porque temia ficar gordo; seu antecessor Luis XVI, que vivia para comer (sem modos) e não perdeu a fome nem sob a iminência da morte na guilhotina (ao contrário, devorou sem cerimônia um frango inteiro, com as mãos); e de Luis XVIII, sucessor de Bonaparte, para quem um cardápio magro (sem carne vermelha, para os dias de abstinência do calendário católico) significava uma ceia que só de entrada servia 32 receitas diferentes! Luis XVIII, aliás, tinha todo um séquito para atender seus caprichos gastronômicos (como a figura de um degustador oficial de pêssegos) e só não demitiu o mordomo-chefe de Napoleão, depois de sua queda, porque soube que ele havia sido o criador da maravilhosa mistura de morangos, creme e champagne.

É muita pretensão minha querer analisar o texto de Alexandre, o Delicioso, mas eu tenho que me conter para não cutucar a velhinha sentada do meu lado no metrô e dizer: "A senhora sabia que o Alexandre Dumas é incrivelmente espirituoso, divertido e engraçado?". Chega a transbordar o hedonismo do autor. Como quando ele lamenta o fato de algumas aldeias da Bretanha por onde passou não possuírem nenhum "vinho potável" para servir aos visitantes. Em Pequena história da culinária, que se segue às Memórias gastronômicas... o bom é se deixar levar pelo texto, sem se importar se todos os fatos descritos são rigorosamente históricos ou não, principalmente considerando que o relato começa na maçã de Eva. A graça da prosa é mais importante do que sua veracidade.

Tanto em Memórias... quanto no Grande dicionário... é incrível notar a quantidade de comida e a variedade de bichos que o velho mundo e países de outros continentes pesquisados por Dumas (incluindo os sul-americanos, como o Brasil) costumavam devorar.

"Cardápios magros" como o de Luis XVIII impressionavam até mesmo Dumas, mas as longas ceias, que em algumas residências começava às cinco da tarde e se estendiam por muitas horas, eram comuns. O próprio Alexandre lamentava o fato de que à beira do século XX esse costume estivesse se extinguindo. Começava-se com as entradas, depois partindo para os primeiros, segundos e assim-por-diante-pratos e, para dar uma pausa no meio de tamanha orgia alimentar, serviam-se os entremets, que vinham a ser... mais comida! Depois arrematava-se a refeição com algumas dezenas de sobremesas, frutas e muito vinho. Obviamente isso se dava nas casas da nobreza, antes e depois da queda da Bastilha. Não pense que porque a Maria Antonieta mandou os pobres comerem brioches e perdeu a cabeça alguém (com dinheiro) deixou de comer.

Com relação aos bichos, basta folhear aleatoriamente os 615 verbetes e 400 receitas da edição brasileira do Grande dicionário... para encontrar relacionados como ingredientes culinários: elefante, tatu-bola, burro, grou (um pássaro - aliás, qualquer coisa com penas não escapava da panela naquela época), pantera e cachorro. Dá a impressão de que os comensais da época sairiam salivando se visitassem um zoológico. Porém, mais do que inusitado, o que torna mais divertido o Grande dicionário... é que ele não é um dicionário de verdade. Alguns verbetes são descrições do item em questão, outros são lembranças, passagens curiosas, anedotas envolvendo o ingrediente. Alguns são mais curtos, outros mais extensos. Apesar de Dumas dizer no verbete água que durante 50 anos de sua vida só bebeu esse líquido, o verbete vinho é o que ocupa mais espaço (21 páginas) na edição nacional.

P.S.: Quem quiser ler o e-book do Grande dicionário..., em francês, pode acessar este link, da Pitbook.com. Quem fizer questão da edição original, de 1873, também em francês, e tiver uns muitos euros para gastar, clica aqui.

Para ir além











Adriana Carvalho
São Paulo, 17/5/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O papel aceita tudo de Jardel Dias Cavalcanti
02. Lola de Elisa Andrade Buzzo
03. A Imagem do Som de Fabio Gomes
04. Ninfomaníaca: um ensaio sob forma de cinema de Wellington Machado
05. Um 'Réquiem' para a Memória de Felipe Leal


Mais Adriana Carvalho
Mais Acessadas de Adriana Carvalho em 2007
01. Meta-universo - 16/8/2007
02. Minhas caixas de bombons - 14/6/2007
03. Esses romanos são loucos! - 22/3/2007
04. Práticas inconfessáveis de jornalismo - 12/7/2007
05. Meus discos, meus livros, e nada mais - 11/10/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/5/2007
12h20min
Quer dizer que Alexandre Dumas era chegado nos prazeres de uma boa mesa... é uma boa saída para as angústias da criação literária, sem dúvida. Que os jovens escritores, em vias de publicar, aprendam a extrair de seus saquinhos de cheetos alguma inspiração extra. Mas o que está realmente delicioso aqui é o texto da Adriana, uma fina iguaria. Abraços!
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Extraterritorial - A literatura e a revolução da linguagem
George Steiner
Companhia das letras
(1989)



Dieta Antiinflamatória
Dr. Alexandre Luiz Gomes de Azevedo
Qualynute
(2008)



O Peregrino Maldito
Neimar de Barros
O Recado
(1979)



Oscar Niemeyer: Traço, Palavra, Forma
Oscar Niemeyer e Outros
Santa Clara
(2004)



Rousseau os Pensadores
Jean-jacques Rousseau
Abril Cultural
(1978)



Melancia
Marian Keyes
Bertrand
(2007)



Lendas de Sangue. o Vampiro na História e no Mito
Flavia Idriceanu
Madras
(2011)



A Revolução dos Bichos - 2016
George Orwell
Companhia das Letras
(2016)



Revista Studia Kantiana volume 9
Christian Hamm ed.
Universidade Federal de Santa Maria
(2009)



Os Tijolos Nas Paredes das Casas
Kate Tempest
Casa da Palavra
(2016)





busca | avançada
78548 visitas/dia
1,8 milhão/mês