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Quinta-feira, 31/5/2007
Blogs, livros e blooks
Vicente Escudero

+ de 5100 Acessos
+ 7 Comentário(s)

Quer um autógrafo?


"Posso ouvir disparos de armas de fogo vindos de fora da trincheira enquanto escrevo este post. No meio do caminho para o Internet Café que foi montado para nós neste Posto de Operação Avançada (POA) ouvi três explosões altas, em intervalos de cinco minutos, seguidas por breves disparos. Nós temos bunkers antimorteiros por todo o POA para nos abrigarmos durante um ataque. Dentro de um abrigo de cimento, observei três nuvens de poeira muito grandes, em forma de cogumelos, bem do lado de fora da trincheira onde as explosões aconteceram. Você poderia sentir o choque das explosões de onde eu estava. Ainda não sei o que aconteceu. A loucura começa..."

Post extraído do blog de Colby Buzzell (My war - killing time in Iraq), soldado americano vencedor do prêmio Lulu Blooker Prize de 2007.

* * *

Escritores iniciantes acreditam que seus trabalhos transcendem a realidade mundana e estão além da compreensão de críticos, editores e leitores. São os escritores iniciantes rejeitados.

Antes de escrever é preciso ler, e muito, sobre todas as áreas do conhecimento. Depois de escrever, é preciso reescrever. Reescrever é selecionar aquilo que está bem escrito e apagar a parte ruim, é, antes de tudo, exercer um juízo crítico sobre a própria criação, selecionando-a. Muitas vezes é preciso reescrever tudo. Apagar tudo leva à frustração, o reconhecimento do fracasso. Quem reescreve pode melhorar. Quem não reescreve, não.

Quer dizer, então, que todo escritor é frustrado?

Não. O escritor, aquele interessado em escrever, é um sujeito metódico, sempre disposto a aprender, se adaptar, compreender e debater com a crítica. A crítica pode ensinar, por mais absurda que pareça, para alguns neófitos, esta afirmação. Quem não aceita a crítica tem dificuldade para criar, já que não deve achar fácil reescrever e se frustrar, logo, escreve mal.

Lembro-me de um dia desses ter assistido a uma entrevista do Ferreira Gullar no programa Roda Viva da TV Cultura, não lembro exatamente qual era o tema da entrevista e nem sequer se assisti ao programa todo. Lembro apenas de uma resposta despretensiosa que o poeta fez para a pergunta de uma telespectadora. A conversa foi mais ou menos assim:

(Entrevistador) - A Aline, de São Paulo, pergunta o que você acha das dificuldades que o escritor iniciante encontra para publicar na atualidade.

(Ferreira Gullar) - ... se apenas uma pessoa leu aquilo que você escreveu, se você dividiu com alguém aquilo que você escreveu, tudo bem, é isso que importa...

Concordo com o poeta. Acredito que a literatura sobrevive deste relacionamento entre leitor e escritor, por isso publicar é preciso. A única maneira de alimentar esta relação é tornar a literatura acessível ao público - ou seja, pública - seja para manter vivo o escritor, seja para manter vivo o leitor. O inexplicável disso tudo é que, lida por um, lida por mil, a literatura, corajosamente, sobrevive. A China que o diga. Nesta equação maluca em que o número de leitores não altera o resultado, a qualidade do escritor sempre prevalece positivamente.

E as editoras, onde entram nesta história? Editoras, com bons editores, filtram as obras dos escritores para impedir que entre poeira no motor do leitor. Em outros termos, impedem que o leitor não se depare, de repente, com uma obra ruim e acabe jogando seu dinheiro no lixo, além de garantir alguns best-sellers para o caixa. Ora, os leitores também não escolhem os livros dos escritores que gostam? Escritores não deveriam, antes de tudo, ler muito? O que faz um escritor quando lê um livro ruim? Não critica o editor que permitiu a publicação? Todos exercem um juízo crítico de alguma forma. É neste labirinto que florescem as idéias. Fora dele, onde a crítica especializada não é aceita como método de seleção, existe apenas a estagnação.

Há algum tempo atrás não havia saída para os escritores iniciantes que desejavam publicar seus textos e acabavam rejeitados pelas editoras. O bordão era "livro ou gaveta". Hoje, a tal da internet veio para tirar o mofo da escrivaninha. A qualquer tempo você publica, em qualquer lugar você pode ser lido. E, por que não, criticado...

Borges versus Borges
A literatura em blog é arte? Talvez em um estágio ainda inicial, muito ególatra e onfalocêntrica, como disse o Sérgio Augusto aqui no Digestivo. O blog seria como uma pintura rupestre da combinação entre escrita e imagem, carregado de frivolidades, acessível instantaneamente em qualquer lugar, com a interação do leitor. E os livros? Será que a ambição de ser eternizado em um livro reconhecidamente bom não é um exagero do escritor? Será que a literatura não imortaliza os escritores que se preocupam mais com a criação em si do que com o formato (conto, romance, blog)? O blog é um gênero literário novo ou só um formato de transmissão diferente? Vale refletir sobre duas afirmações de Jorge Luis Borges:

"A arte opta sempre pelo individual, o concreto; a arte não é platônica."

"De todos os instrumentos do homem, o mais surpreendente é, sem dúvida nenhuma, o livro."

Blook?
O post citado lá em cima foi tirado de um blog, que foi tirado do ar pelo comandante do escritor, mas sobreviveu a uma guerra. My War, escrito pelo soldado estadunidense Colby Buzzell, direto do atoleiro americano no Iraque, venceu um concurso, no mínimo, inovador: Lulu Blooker Prize 2007 - destinado para os livros escritos a partir de blogs, os "blooks". A editora organizadora do tal concurso é especializada em "blooks". Até agora não existe nada parecido por aqui. Taí uma idéia que deveria ser "copirateada" abaixo do Equador. Alguma editora se habilita?

Blogs não precisam virar blooks, assim como escritores não precisam virar blogueiros. Os formatos só agregam. Logo haverá blogueiros recebendo tanto quanto escritores de livros. Palpite? Uns cinco anos. Digo isso porque uso um pocket pc. Ainda não me acostumei a escrever nele, mas uso a internet sem nenhuma dificuldade e, no dia em que desenvolverem uma tela maior e uma bateria que dure mais de cinco horas, meu bloco de anotações passará para a condição de backup. Aposto que esse pocket pc se tornará uma espécie de iPod com internet e a maior parte dos leitores vai abrir mão de livros e jornais impressos. Desde já, tenho certeza que continuarei com o livro e o pocket pc.

A verdade é que o formato blog veio para ficar, junto com alguns escritores que vieram para ficar nos blogs. O critério de escolha utilizado pelos leitores, seja no papel ou na internet, continua o mesmo: qualidade. A diferença é que a possibilidade de divulgação aumentou. Que venham os bárbaros!


Vicente Escudero
Campinas, 31/5/2007


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
31/5/2007
11h48min
Amigo Vicente Escudeiro, serve este comentário só para referir uma subtil diferença entre as expressões "apenas" e "pelo menos", pois parece-me que Ferreira Gullar, na sua resposta, pretendia acentuar a validade do que escrevia, independentemente das dificuldades inerentes a um neófito da palavra, pois dava como bem empregue o tempo e o esforço gasto na escrita porque "pelo menos uma pessoa" tinha lido a sua prosa. Creio que "se apenas uma pessoa" leu o que escreveu, ele deveria estar preocupado com a qualidade do seu trabalho, visto que sendo "só uma pessoa" receptora do trabalho literário por ele desenvolvido, ele não poderia considerar que estava "tudo bem...". Este comentário é feito por uma pessoa comum, não literato, e serve "apenas" para referir a diferença em causa, e não para criar polémica ao artigo desenvolvido; "pelo menos" assim o espero...
[Leia outros Comentários de Paralaxe]
31/5/2007
13h38min
Colega "Paralaxe". Sua observação é válida. Entretanto, o trecho do diálogo reproduzido é meramente exemplificativo e, como eu mesmo citei, na linha acima dele: "A conversa foi mais ou menos assim". Essa sua preocupação faria algum sentido se o trecho estivesse completo, terminando uma idéia. Aliás, você não só terminou a idéia como também atribuiu um sentido pessoal. Na entrevista, lembro-me de que Ferreira Gullar, ao dar essa resposta para a telespectadora (despretensiosa, ressalte-se), quis enfatizar a questão da irrelevância da publicação maciça do trabalho diante do processo de criação. Se eu tivesse usado "pelo menos", na minha opinião, estaria transmitindo um sentido no qual o leitor teve que procurar pelo trabalho, uma situação em que o leitor vai até o trabalho que já está publicado... (continua)
[Leia outros Comentários de Vicente Escudero]
31/5/2007
13h46min
Seria esta minha opinião baseada na morfologia? Segundo o Aurélio, existe o uso antiquado do termo “pelo” como aglutinação da preposição “per” com o pronome oblíquo “o” (exemplo: “Padre Antônio Vieira não pudera fazer grandes progressos, pelo não ajudar a memória, rude e pesada”). Talvez esta seja a origem das minhas impressões na interpretação: “pelo” contém essa origem, com carga de pronome oblíquo, transmitindo a idéia de uma situação ativa do suposto sujeito, neste caso o leitor, em busca de uma obra disponível. Já “apenas” não transmite a idéia de quem foi atrás do quê. Este advérbio de intensidade tem a carga exata para o contexto da idéia: “se apenas uma pessoa leu” demonstra a irrelevância da exposição maciça, e também que a validade não pressupõe a publicação. “Subtil” Paralaxe, estaria você “do lado de lá” do Atlântico? Abraço! Vicente Escudero
[Leia outros Comentários de Vicente Escudero]
31/5/2007
21h37min
Gostei da exposição clara do tema mas acredito que algumas posições, mesmo vindo de Borges, a esta altura escapam da perspectiva. Vejo a crítica como um apoio para o leitor em formação e a superestima corrente ao valor da critica traz um certo vício do mercado. Enquanto o leitor não atinge uma maturidade com os elementos que o enredam na literatura, ele deve sim, ouvir amigos, ler cadernos especializados e ter auxílio sabendo que livros custam dinheiro, ás vezes ganho sem mérito. Acredito até que esta história de ganhar dinheiro nada tenha a ver com escrever livros ou vender livros terá alguma coisa a ver com literatura? Apartado de toda esta questão ficou o leitor que este escritor é desde sempre, e o prazer que esta introspecção trouxe para a sua própria formação. Falamos de blogs e livros, acredito que não, o nome do jogo é mercado; e como escrever é um exercício individual em busca de afirmação, é muito comum alguns tropeços do ego, ainda que adiante se reestabeleça algum equilíbrio.
[Leia outros Comentários de Carlos E. F. Oliveir]
1/6/2007
11h02min
Vicente: eu escrevo diários desde adolescente e para mim o blog é mera continuidade dessa prática. Mas, para fugir do egocentrismo, resolvi misturar o formato diário com uma memorabilia dos textos que amigos me indicaram ou das pequenas editoras independentes (uma das quais, a Dez Escritos, até editou um livro meu). Confira. Existe um meio novo, que permite novas interações. Onde vai dar, ninguém sabe... Abraços do Lúcio Jr.
[Leia outros Comentários de Lúcio Jr]
1/6/2007
11h30min
Carlos, o desconhecido sempre está fora de perspectiva. Acredito que a crítica está aí para ajudar: transpor as idéias dela é sempre necessário, dar de ombros, não. Depois dos blogs, já é possível deixar o mercado de lado e escrever. Onde a literatura e os blogs vão chegar, isso eu não sei. Por isso acredito que é bom se perder nesse labirinto do Borges, onde sempre se encontra um lugar desconhecido para fincar uma bandeira e seguir adiante. Sobre os amigos, bem, eles devem ser ouvidos, senão não são amigos. Abraço!
[Leia outros Comentários de Vicente Escudero]
1/6/2007
11h34min
Lúcio Jr.: esse é o caminho. Há algo de errado com seu blog? Ele está vazio...
[Leia outros Comentários de Vicente Escudero]
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