O umbigo, nossa arena olímpica | Adriana Baggio | Digestivo Cultural

busca | avançada
74581 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Artistas plásticos se reinventam e apostam no ambiente virtual
>>> Websérie As 7 Irmãs Axanti
>>> Sesc 24 de Maio apresenta novos episódios do projeto Música Fora da Curva
>>> Quarador de imagens partilha experiências em música, teatro e cinema
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Curtíssimas: mostra virtual estreia sexta, 16.
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Nos penhascos de mármore, de Ernst Jünger
>>> A Pérola de Galileu
>>> Notas confessionais de um angustiado (Final)
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - I
>>> Di-Glauber
>>> Corpos
>>> The safest room in the house
>>> Como escrever bem — parte 2
>>> Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum
>>> Washington Olivetto no Day1
Mais Recentes
>>> Bunny Business (mamas Day At Work) de Lori Richmond (autor) pela Scholastic Press (2020)
>>> A casa torta de Agatha Christie pela L&Pm (2011)
>>> Nova Arquitetura de Interiores: Architectural Houses de Antonio Corcuera Aranguiz pela Monsa (2005)
>>> Ele Escolheu os Cravos - Evangelico de Max Lucado pela Cpad (2000)
>>> Pequenas Casas na Cidade (semi Novo) de Monsa pela Monsa (2005)
>>> Todo o mundo tem dúvida, inclusive você de Edison De Oliveira pela L&Pm (2011)
>>> Langenscheidt Sprechtraining Deutsch Für Den Beruf - German Business.. de Langenscheidt pela Langenscheidt (2018)
>>> Kaplan Toefl Ibt Premier 2016-2017 With 4 Practice Tests: Book + Cd de Kaplan pela Kaplan (2016)
>>> Feliz por nada de Martha Medeiros pela L&Pm (2011)
>>> Dimensional Bead Embroidery: a Reference Guide to Techniques de Jamie Cloud Eakin (autor) pela Lark (2018)
>>> Elon Musk -Como o ceo bilionario da spacex - Biografia de Ashlee Vange pela Intrinseca (2015)
>>> Cartas na mesa de Agatha Christie pela L&Pm (2011)
>>> Lets Roll! Sticker Activity Book (captain Underpants Tv) de Howie Dewin (autor) pela Scholastic (2020)
>>> Lets Roll! Sticker Activity Book (captain Underpants Tv) de Howie Dewin (autor) pela Scholastic (2020)
>>> Newt Scamander: um Scrapbook do Filme (completo C Mapas, Cartas Etc) de Regiane Winarski (tradução) pela Galera (2016)
>>> I Love My Tutu Too! (a Never Bored Book!) de Ross Burach pela Scholastic Press (2020)
>>> Os 13 problemas de Agatha Christie pela L&Pm (2011)
>>> Escrever Melhor - Guia para passar os textos a limpo - Linguistica de Dad Squarisi e Arlete Salvador pela Contexto (2009)
>>> A Consciência de Zeno (coleção Clássicos para Todos) Texto Integral de Italo Svevo pela Saraiva de Bolso (2011)
>>> Amor, Sexo e Tragédia Como Gregos e Romanos Influenciam Nossas Vidas A de Simon Goldhill pela Zahar (2007)
>>> A massagista japonesa de Moacyr Scliar pela L&Pm (2011)
>>> The Outlaw Ocean: Journeys Across the Last Untamed Frontier de Ian Urbina (autor) pela Knopf (2019)
>>> O morro dos ventos uivantes de Emily Bronte pela L&Pm (2011)
>>> Agents of Empire: Knights, Corsairs, Jesuits, and Spies in The........ de Noel Malcolm pela Penguin History (2016)
>>> Event Leviathan - (capa Dura Edição de Luxo) de Brian Michael Bendis (autor), Alex Maleev (ilust) pela Dc Comics (2020)
COLUNAS >>> Especial Olimpíadas e China

Sexta-feira, 5/9/2008
O umbigo, nossa arena olímpica
Adriana Baggio

+ de 4400 Acessos
+ 1 Comentário(s)

No dia em que escrevo, a atleta brasileira Ketleyn Quadros inaugurou dois rankings: seu bronze no judô é a nossa primeira medalha nos jogos de Beijing. É também a primeira mulher do Brasil a subir ao pódio olímpico em um esporte individual. Não tenho na manga as estatísticas que a televisão despeja. Mas se o ineditismo de bons resultados em competições individuais merece tal destaque, deve ser porque estão mais acostumados a nos verem bem em esportes coletivos.

E por que isso acontece? Se o senso comum for suficiente para tentar encontrar uma explicação, diria que tem a ver com o temperamento do brasileiro. Somos espontâneos, simpáticos, gregários. Gostamos de estar uns com os outros. Nos acostumamos a viver e conviver em grandes grupos. Nos sentimos bem em ter uma liderança que nos guie, alguém que diga o que devemos fazer. Além disso, em uma equipe se dividem as glórias, mas também as responsabilidades. E o brasileiro, historicamente, tem certa dificuldade em assumir a relação entre seus atos e as conseqüências.

Provavelmente o aspecto econômico seja até mais importante nessa dificuldade que temos em preparar atletas de ponta nos esportes individuais. No treinamento de equipes, ganha-se em volume. A equipe técnica de um time de vôlei de alto nível deve ser maior que a de um nadador, mas não na proporção da quantidade de atletas que estão sendo acompanhados. E mesmo que os custos de uniforme e viagens sejam maiores para as equipes, o patrocínio acompanha.

A estrutura necessária para se praticar esportes individuais também entra no aspecto do custo. Quase toda escola tem uma quadra de esportes, mesmo que seja um pedaço de terra batida. Mas quantas têm uma piscina, ou aulas de esgrima? Praticamente toda criança tem oportunidade de conhecer, tomar gosto e praticar um esporte coletivo: futebol, vôlei, até basquete. Mas para os individuais, o acesso afunila. Diria que a única exceção é a corrida, porque não precisa de muita estrutura ou equipamento. (Não, esquece. Para se tornar um fundista ou velocista de ponta, é preciso mais do que disposição para sair correndo por aí.)

E como uma coisa leva a outra, também temos pouco público e cobertura para os esportes individuais, enquanto os coletivos mobilizam torcedores, transmissões de TV, espaços publicitários, verbas de patrocínio. Em resumo, dinheiro. Assim fecha-se um círculo e voltamos às Olimpíadas. No fim das contas, apesar de toda importância e simbolismo dos jogos, quase tudo tem a ver com a prata.

Nada contra as modalidades coletivas. Acredito que os esportes, de forma geral, podem contribuir para a resolução de muitos problemas sociais. E como falta verba para os outros, que sejam os coletivos mesmo. Um treino de vôlei ou basquete tira os meninos da rua, dá preparo físico, ensina disciplina, motiva e libera aquelas substâncias que deixam a gente feliz. E no caso do futebol, muitas vezes é o único caminho que pode levar crianças carentes a uma relevante conquista profissional, já que todas as outras alternativas não estão habilitadas para elas.

A importância do esporte para o desenvolvimento pessoal e social não é nenhum segredo. Nós sabemos disso e, do nosso jeitinho, vamos tentando fazer o que é certo. Nada, porém, que se compare ao que fazem os chineses. No caso deles, o esporte é uma ferramenta política, ideológica. Formar grandes atletas, que levem o país ao primeiro lugar em uma Olimpíada, tem objetivos que vão muito além da preocupação com o desenvolvimento das crianças, boas notas na escola, diminuição de índices de delinqüência juvenil. A China trabalha para ser bem aceita globalmente, sem ter que mexer muito em pontos polêmicos como o Tibet, direitos humanos, liberdade individual e problemas como os de Xinjiang, a província de maioria muçulmana no oeste do país.

Enquanto dificultavam o acesso às informações sobre o atentado em Kashgar, na dita província, os chineses eram profícuos nas imagens de criancinhas treinando arduamente, fazendo flexões e abdominais até quase chorar de cansaço. E o Brasil, ou pelo menos as nossas emissoras de TV, tem uma forma irritantemente peculiar de tratar as informações que mostram uma grande diferença em relação aos hábitos ou à realidade do país. O tom é um misto de admiração e condescendência. "Puxa, olhe como essas crianças são esforçadas e disciplinadas. Ah, mas que pecado, né? Fazer esses pobrezinhos se esforçarem tanto, mesmo sem gostar de tal esporte. Ufa, que bom que a gente tá no Brasil e nossas crianças são mais livres e mais alegres".

Que tal entender por que um país deseja tanto formar grandes atletas? Por que os pais obrigam as crianças a participar desse tipo de programa? Por que a China faz questão de divulgar essas imagens para o mundo?

No mesmo dia, ou com poucos dias de diferença, a TV brasileira fez beicinho porque uma dupla de atletas chineses de vôlei de praia se irrita e pára de treinar quando percebe que está sendo filmada. O repórter faz sua interpretação despeitada: um país que está aberto para as Olimpíadas não deveria fechar a cara quando chega a imprensa estrangeira. Esse é o problema dos brasileiros: avaliar as situações sempre a partir dos nossos costumes, sem considerar o ponto de vista do outro.

Imagino que para uma emissora como a Globo é difícil não ter permissão para filmar o que quer que seja. Assim como qualquer outro grande player da mídia, ela está acostumada a ser cortejada para mostrar pessoas, marcas, situações. Afinal, seu negócio é o da exposição paga, o que inclui publicidade, propaganda, jornalismo. Porém, enquanto no Brasil o esporte é basicamente sustentado por patrocinadores e interesses comerciais, em que a exposição é fundamental para os lucros e a sobrevivência dos envolvidos, na China é diferente.

Por trás de imagens chapa-branca de criancinhas treinando e da recusa em expor as atletas de vôlei de praia existe o mesmo princípio: o esporte, no país, está a serviço do estado, e não do mercado. A decisão do que, de quem e de quando mostrar é política. Aqui, durante os treinos, os atletas usam uniformes com as logomarcas de seus patrocinadores. Divulgar um treino na TV é algo que tem mais a ver com acordos de marketing do que com a pauta jornalística. As atletas chinesas não tinham logos no uniforme.

Esse tipo de abordagem caipira não foi inaugurada nas Olimpíadas. Acontece sempre. A TV está filmando alguém dançando em outro país? Provavelmente vão dizer que não é a mesma ginga que o brasileiro tem quando samba. Um grupo está batendo uma bola em qualquer canto do mundo? Ah, não é a mesma ginga que o brasileiro tem com a bola. E daí? Samba e futebol não são as coisas mais importantes do planeta e muito menos pré-requisitos para julgar se uma cultura é ou não interessante.

Um país tão oposto ao nosso, como a China, gera muita estranheza ― e também a oportunidade ímpar para uma excelente cobertura jornalística. Mas não. Enquanto idosos chineses dançam e fazem exercícios em uma praça de Pequim, o melhor que o repórter consegue fazer são piadinhas. Gracinhas que, evidentemente, não procuram entender as diferenças, e sim transformá-las em atrações para fazer rir ou causar espanto ― como os circos com os anões, as mulheres barbadas etc.

Ok, mas o que isso tem a ver com nossa pouca representatividade nos esportes individuais? Pouco, a não ser o fato de que, quando somos piores em alguma coisa, devemos tentar aprender com os melhores. Não estou falando dos atletas ― ou melhor, estou sim, pelo menos um pouco. É vívida a dificuldade de concentração que temos em provas como a ginástica, por exemplo. Nossa emoção aflora, não somos acostumados a nos conter. Já que a competição exige, vale tentar adquirir um pouco da seriedade e da frieza ― criticada por nossos obtusos repórteres, claro, sempre atrás da fanfarronice ― ostentada por atletas de outros países.

Essa resistência ao aprimoramento pelo aprendizado tem a ver com a postura do brasileiro de forma geral e da mídia em particular. É como se as câmeras de TV estivessem acopladas ao umbigo brasileiro, mostrando tudo a partir de um ponto de vista estreito, egocêntrico, que limita a aceitação e a compreensão das diferenças. E assim continuamos nos aferrando ao samba e ao futebol, deixando de lado grandes oportunidades de desenvolvimento cultural, esportivo, social. Nada contra essas duas modalidades. Mas sou brasileira e tenho certeza que meu país não se resume a isso.


Adriana Baggio
Curitiba, 5/9/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O Livro Impresso e O Livro Virtual de Ricardo de Mattos
02. EUA, Ano Zero de Daniela Sandler


Mais Adriana Baggio
Mais Acessadas de Adriana Baggio
01. Apresentação - 31/5/1974
02. Maria Antonieta, a última rainha da França - 16/9/2004
03. Dicas para você aparecer no Google - 9/3/2006
04. Ser bom é ótimo, mas ser mau é muito melhor* - 24/4/2003
05. E você, já disse 'não' hoje? - 19/10/2011


Mais Especial Olimpíadas e China
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
8/9/2008
00h13min
Gostei muito da sua matéria. Moro fora do Brasil há 5 anos e essa mania de querer depreciar tudo o que não é "do Brasil" é bem típica do brasileiro médio. Essa maneira de mostrar as coisas com a "câmera ligada ao umbigo" como você define é realmente ridicula. A emoção que se atribui a quase tudo nessas transmissões - quem nao se lembra das "reportagens-poesia" de Pedro Bial, Tino Marcos etc. - é uma atitude piegas. Infelizmente, poucos no Brasil tem uma postura crítica como a sua para perceber isso.
[Leia outros Comentários de Marcio Souza]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Irmã do Vizir
Hermínio C. Miranda
Correio Fraterno
(2012)



Ação Afirmativa ao Redor do Mundo: Um estudo empírico sobre cotas e grupos preferenciais
Thomas Sowell
É Realizações
(2016)



La mortintoj kaj la mortantoj
D-ro Nassif Issac
Spirita Eldona Societo F. V. Lorenz
(1979)



Guia prático do português correto – ortografia - vol. 1
Cláudio Moreno
L&Pm
(2003)



Discutindo o Ensino de Ciências da Natureza a partir da Formação de Professores, Inclusão e História da Ciência
Ivoni Freitas Reis, Karine Gabrielle Fernandes e Ingrid Nunes Derossi
Brazil Publishing
(2020)



Nossos Clássicos 57 António de Alcântara Machado Trechos Escolhidos
Nossos Clássicos
Agir
(1970)



Ni Guerra Ni Paz: Comparaciones Internacionales de Niños y Jovene
Luke Dowdney
7 Letras
(2005)



A Lei de Sullivan
Nancy Taylor Rosenberg
Record
(2007)



Histórias Que Ouvi Histórias Que Vivi
Rosana de Mont Alverne Neto e Pedro Jorge Fonseca
Tjmg
(2005)



O Vendedor Pit Bull
Luis Paulo Luppa
Landscape
(2005)





busca | avançada
74581 visitas/dia
2,6 milhões/mês