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COLUNAS

Quarta-feira, 2/12/2009
Reinaldo Moraes fala de sua Pornopopéia
Luiz Rebinski Junior
+ de 12600 Acessos

Depois de mais de duas décadas sem lançar um romance (o último foi Abacaxi, em 1985), Reinaldo Moraes reaparece na cena literária com um livro ainda mais radical em relação à linguagem solta, fluida, calcada no hedonismo sem fim de seus personagens, que o consagrou no início dos anos 1980, quando lançou Tanto faz (1983) e virou um escritor cultuado.

Pornopopéia (Objetiva, 2009, 480 págs.), seu mais recente trabalho, é um romance de dimensões épicas que conta como um cineasta marginal, que escreve roteiros institucionais para sobreviver, é envolvido em uma espiral de acontecimentos que inclui muito sexo, drogas e o assassinato de um traficante de botequim. Sem um pingo de escrúpulo, moral ou bom senso, Zeca vive apenas o hoje e segue com fiel devoção o mantra "tudo-ao-mesmo-tempo-agora". Zeca é a síntese de vários tipos que estão por aí: o egoísta, o mentiroso, o oportunista, o racista, o cafajeste, o preguiçoso etc. O que realmente assusta, é que ele parece encarnar todos os tipos ao mesmo tempo.

Ainda assim, o vilão sem caráter de Moraes é um boa praça. Contradição que se dissipa "nos traços picarescos" do personagem. O romance, nas suas mais de quatrocentas páginas, é extremamente engraçado. Zeca, um junkie bastante sofisticado culturalmente, é capaz de acometer, nas situações mais difíceis, pérolas como este singelo haicai: "ai de mim/ coração abduzido/ por uma teen". Além do mais, a amoralidade de Zeca é diluída, aos poucos, por um inesperado sentimento de amizade e lealdade. "Claro que é um problema quando um personagem amoral como o Zeca estabelece essa relação catártica com o leitor. Mas é um problema que me pareceu interessante ao escrever", diz Moraes.

Renegando o rótulo de beatnik que lhe persegue há algumas décadas ("sou tão 'bitinique' quanto qualquer bebum da esquina"), Moraes, com a ironia que lhe é característica, fala, a seguir, sobre seu novo livro e sua carreira literária. Confira.

1. Do lançamento de Abacaxi até o Ponopopéia, foram mais de duas décadas sem um romance (excluindo a novela Órbita dos Caracóis, de 2003). Por que esse hiato tão grande? Quanto tempo você levou para escrever o romance, que é um livro extenso e intenso?

Demorei quatro anos de escrita e reescrita. Durante esse hiato fiquei escrevendo pra fora ― roteiros de TV, cinema e institucionais, traduções, matérias pra revistas e mil outras coisas ― e enchendo a cara com os amigos. Devo ter lido alguma coisa também, mas isso não vem ao caso.

2. Os grandes romances saíram de moda, quase ninguém os escreve mais (talvez o Pynchon seja um dos únicos). Por que resolveu escrever uma grande narrativa? Foi uma decisão prévia ou você foi levado pelo andamento do livro?

Misturei uma ideia pra romance, que já tinha me consumido umas 200 páginas, com um conto protagonizado por um dos personagens do romance mal-começado, e deixei a coisa rolar. Vieram outros personagens, uma trama foi se desenhando, e eu fui atrás. Chegou perto das 900 páginas. Aí vieram as revisões e cortes, que deram umas 580 páginas de Word, fonte 12, espaço um e meio. O livro então ficou com 480 páginas. É pra quem gosta de ler romanção. Não sei se isso saiu de moda. Vejo belos catataus à venda nas livrarias, especialmente em língua inglesa, em paperbacks baratos. Se for coisa boa, mesmo que de acordo com um trash-kitsch, nego lê. Se for coisa chata, ninguém aguenta chegar na página três.

3. O Zeca é um cineasta com apenas um filme, que apronta as maiores barbaridades, mas que tem uma cultura bastante avantajada. O personagem não é muito sofisticado para um cara que faz tanta besteira?

Você acha que quem não faz "besteira" fica mais propenso à sofisticação cultural? Fico pensando nesses hierarcas nazistas que adoravam Wagner e Goethe, e nos secretários de estado dos Estados Unidos recendendo a Harvard que invadiram países e massacraram milhões enquanto folheavam seu Maquiavelzinho; e no cultíssimo Ezra Pound, que apoiava o nazifascismo antissemita do alto de mil anos de altíssima cultura clássica. Eles não fizeram besteira? Ou a sofisticação deles é que era meio de araque? Vai saber, né?

4. O contraste entre a baixa e a alta cultura, além do hedonismo exacerbado, é a síntese do personagem?

Síntese, não. Só um traço forte do caráter do meu character com repercussões marcantes da levada estilística do livro. Ou no jeitão da escrita, pra simplificar.

5. Em poucas palavras, o Zeca é um herói sem caráter?

É um pícaro nato. Lazarillo de Thormes, Brás Cubas e Macunaíma, que têm traços picarescos evidentes, parecem todos espelhar um mundo regido por valores bambos, mumificados, hipócritas ou simplesmente ridículos, incapazes de serem assimilados a sério por uma mente carnavalesca e irrequieta como a deles ― e a do Zeca, con permiso. Sempre tive esse desejo de criar um personagem sem o menor superego, pra ver no que ia dar. Tentei fazer isso no Pornopopéia. Foi divertido e meio assustador, em doses mais ou menos iguais.

6. O Zeca é um personagem politicamente incorreto, que passa a perna até em uma prostituta da rua Augusta. Mas, ainda assim, você conseguiu humanizá-lo, sendo difícil para o leitor sentir raiva dele. Acha que o leitor se vê um pouco na pele do personagem?

Adorei ouvir isso. Repete. Imagino que sim. Ou melhor: não vejo por que não. A menos que já tenham revogado em definitivo a catarsis frente às obras de representação e não me avisaram. Claro que é um problema quando um personagem amoral como o Zeca estabelece essa relação catártica com o leitor, purgando ou pelo menos dialogando com seus sentimentos mais sombrios e conflitantes. Mas é um problema que me pareceu interessante ao escrever.

7. O seu personagem é um verdadeiro beatnik, tem uma vida regada a drogas e sexo sem nenhum critério. Qual a chance do leitor confundir o Zeca com o Reinaldo, que também carrega a fama de beatnik?

Rapaz, falei nisso há pouco em outra entrevista, registrando que no Brasil é só você escrever em primeira pessoa com uma levada meio pop que já te chamam de beatnik, etiqueta que o próprio Jack Kerouac abominava, ao contrário de beat, que ele adotava na boa desde cedo (fim dos anos 1940). Sou tão "bitinique" quanto qualquer bebum da esquina. E acho que meu personagem tem uma perversidade lúdica ― se me permite uma certa empáfia ― que escapa inteiramente ao perfil do sofredor desbundado e poético do budocatólico Kerouac, por exemplo. Mas, se você providenciar uma boina, um bongô e uma linda apanhadora de algodão mexicana vivendo clandestinamente na Califórnia pra se sentar no meu colo ― ou no bongô, como ela preferir ―, eu até posso posar de bitinique pra uma foto.

8. Há um tempo surgiu uma geração de escritores que se dizem influenciados pelos beatniks, por Bukowski e pelos autores da "Cantadas Literárias". O que acha dessa turma (estou falando de Marcelo Mirisola, Clarah Averbuck etc.)?

Mirisola e a Clara são meus chapas. Adoro a literatura deles. Sou fã de todos os livros do Marcelo, da sintaxe, do desejo retorcido que ele inventou, das traminhas sórdidas, de tudo. Ele é o máximo. E acabei de ler Vida de gato da Clara, achando que podia ser o John Fante, o grande herói literário dela, se o Fante fosse mulher, jovem, bonita, tatuada, e morasse na esquina da praça Roosevelt, esbanjando talento, não o dele, mas o talento dela mesma, da grande Averbuck-Rogers, espaçonauta de longo curso.

9. Você disse que se ressente de não ter tido uma carreira mais sólida na literatura. Acha que escreveu pouco, ou menos do que deveria? Por quê?

Talvez eu tenha dito isso, não lembro. Talvez eu tenha dito outra coisa, ou querido dizer outra coisa, também não lembro. Talvez, de fato, eu pudesse ter tido uma carreira literária mais sólida, se tivesse feito mais isso e bem menos aquilo, e vice-versa, e coisa e tal. Talvez não. Jamais saberemos. Fico aqui conformado com essa minha consistência de chantilly de merengue de padaria com a qual já me acostumei e que levarei para o crematório, de preferência depois de devida e atestadamente morto.

10. O que vem por aí depois do Pornopopéia?

Um romance de amor passado em parte no México. Falta só escrever, mais nada.

Para ir além






Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 2/12/2009

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