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COLUNAS

Quarta-feira, 29/7/2009
Dalton Trevisan revisitado
Luiz Rebinski Junior
+ de 7600 Acessos

Há exatos 50 anos, Dalton Trevisan estreava na literatura. Em 1959, o contista debutou com Novelas nada exemplares, livro que lhe rendeu exposição nacional. Apesar de se tratar de uma estreia, a coletânea não era assinada por um estreante. Antes de publicar o livro, Dalton já era um escritor experiente. Pelo menos há uma década e meia o contista já experimentava sua literatura nas páginas da célebre revista Joaquim, fundada e editada por ele entre 1946 e 1948. Além disso, Dalton Trevisan havia escrito dois livros ― Sonata ao luar (1945) e Sete anos de pastor (1946) ― que, anos depois, renegaria.

Conhecido pelo estilo minimalista e criador de um universo próprio, Dalton dá, com sua primeira coletânea de contos, o pontapé inicial ao projeto literário que faria dele o grande contista nacional. Conferir como o escritor forjou sua temática e estilo único é certamente um bom pretexto para ler as reedições que a editora Record coloca na praça de Novelas nada exemplares (Record, 2009, 223 págs.) e de seu sucessor, Cemitério de elefantes (Record, 2009, 126 págs.). Os dois primeiros trabalhos de Dalton Trevisan iniciam a série de reedições que a editora carioca pretende fazer dos livros do vampiro de Curitiba. O novo livro do contista também deve ganhar as prateleiras este ano.

Para muitos um dos melhores livros de Dalton Trevisan, Novelas nada exemplares traz a gama de temas que o autor trabalharia, de modo exaustivo, nos seus livros subsequentes, tal como a traição, o alcoolismo, a farra e a pederastia. Elementos que compõem o singular "inferno conjugal daltônico". Ainda menos elíptica do que viria a ser, sua prosa já tem, na estreia, a marca do provincianismo que tanto caracteriza seus personagens. O livro dá conta do conflito entre a cidade grande e a província, entre o novo e o velho. Um tema certamente muito pertinente na Curitiba dos anos 1950 que se transformava, quando as carroças deixavam de reinar para dar lugar a carros e largas avenidas.

Contos como "Pensão Nápoles", em que um homem sonha se livrar da modorrenta Curitiba e viver dias felizes na bela Itália (Nápoles), e "À margem do rio", sobre um episódio violento originado por motivo banal, dão conta da mediocridade da vida provinciana que levam os personagens. Gente solitária que se apega a coisas comezinhas, de pouca importância, para se esquecer da banalidade do cotidiano. E nesse ambiente onde pouco ou nada acontece, o casamento é uma das poucas saídas para o drama da vida vulgar. Saída que se revela pouco eficiente, pois o matrimônio na literatura de Dalton é pura "solidão a dois". As desavenças conjugais, que seriam esmiuçadas com fervor em livros como Desastres do amor (1968) e A guerra conjugal (1969), já aparecem com força em Novelas nada exemplares.

São elas, as repetitivas histórias de traição, amor e ódio que dão corpo à "ilíada doméstica" de Dalton Trevisan, como o próprio autor já se referiu ao conjunto de pequenos dramas familiares vividos por seus Joões e Marias. A repetição de histórias, nomes e tragédias não é falta de criatividade ou algum tipo de bloqueio criativo do autor, mas uma opção consciente de retratar o mundo por meio de dramas universais que, seja na Curitiba de Trevisan ou na Rússia de Tchekhov (para citar outro mestre da crônica cotidiana), sempre são os mesmos. Assim como o destino de seus personagens: todos estão fadados a seguir a mesma trilha tortuosa, rotineira e sem um pingo de felicidade dos pais. Um caminho que inclui muita dor e pouco prazer. Se todos os homens procuram na bebida um paliativo para a vida provinciana, as mulheres não têm outra escolha a não ser resignar-se diante do destino que já lhe veio traçado. "Ao apagar as luzes, a mãe deixava acesa a do corredor. O destino da mulher é esperar pelo marido e, depois, pelos filhos'', lamenta-se uma mãe solitária em "O noivo", corroborando a tese de que, na obra de Dalton Trevisan, "toda Maria é uma coitada".

O grande romance
Se em Novelas nada exemplares há ainda mocinhas esperando por seu dote, em Cemitério de elefantes os personagens já estão inseridos na incipiente metrópole, o que não quer dizer que sejam totalmente urbanos. "Uma vela para Dario" talvez seja o conto-símbolo do livro. Aparentemente sofrendo um ataque do coração, Dario cai na rua, agoniza e morre sem que ninguém o ajude. Pior que isso, o personagem é roubado pelos transeuntes que se aproximam apenas por maldade. É a galeria de tipos de Dalton descobrindo e aprendendo a conviver com os novos tempos. O avanço da cidade grande se contrapõe à origem de seus habitantes e aos valores fora de foco de uma sociedade que ainda vive como se estivesse no campo. Esse sentimento de deslocamento, de marginalidade e de uma falsa inserção se faz notar no conto que dá título ao livro, no qual os bêbados, sagrados como os elefantes, representam a parcela não inserida da sociedade.

Montar e remontar novas histórias, sempre com a mesma matéria-prima, foi o objetivo literário perseguido por Dalton desde sempre. Seus livros não são mais do que pequenos experimentos, onde o autor brinca com os gêneros literários, ora flertando com a crônica ora com os haicais e, não raras vezes, misturando tudo e dando à sua literatura um caráter único. Os dois primeiros livros de Dalton são especialmente representativos das escolhas, tanto estéticas quanto temáticas, feitas pelo autor ainda no início da carreira. Fiel ao mundo que criou, Dalton Trevisan subverteu o fluxo natural de uma carreira literária, onde o conto é apenas um trampolim para o romance. A fidelidade ao gênero que escolheu, no entanto, não o impediu que escrevesse um grande romance, ainda inacabado e formado por centenas de contos, no qual Novelas nada exemplares e Cemitério de elefantes são os primeiros capítulos.

Para ir além









Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 29/7/2009

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