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Quarta-feira, 19/12/2001
Uma coluna sem coração
Daniela Sandler

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+ 1 Comentário(s)

Yara Mitsuishi

Toda vez que chego em São Paulo é assim. Toda vez, digo, desde que me mudei para os Estados Unidos. Chego, desembarco, moída pela viagem e pela exaustão de fim-de-semestre. Sabe, quando a gente está cansado, sente-se também meio miserável, suscetível a apreensões: a mala que não chega, a conta do free-shop, o moço da alfândega. Mas tudo isso passa logo, quase sempre sem problemas - ilusões de problemas, isso sim.

Mas aí saio do aeroporto. Cansaço também me deixa à mercê de depressões. Um pouco como aquela sensação de desembarcar num país estranho, com a tontura do fuso horário, ambientes desconhecidos, outra língua - enfim, a falta de hábito, de familiaridade e do sentimento de acolhimento. Tudo é inóspito.

Menti ao começar a coluna. Nem sempre foi assim. Aliás, nunca foi assim. Das outras vezes, ao mergulhar em São Paulo dentro do táxi, e ao me deparar cedo com as vistas da nossa miséria, sem-teto, crianças, barracos, precariedade física, eu me sentia ao mesmo tempo comovida e interpelada. Triste, triste, porque depois de um tempo fora a gente esquece um pouco, a vista se desacostuma, assim como quem pára de fazer ginástica e perde os calos das mãos.

Pois sim. Triste, mas interpelada: chamada ao meu dever, em meus sentimentos solidários, cívicos, nem sei que nome dar; esses pensamentos, “agora que tenho o privilégio de estudar fora e morar num país desenvolvido, devo voltar e lutar para desenvolver o meu país”. A minha cidade. Esses sem-teto, essas crianças; essas pessoas espremidas num ônibus lento e tosco; os que vendem coisas nos faróis, os que assaltam, os que são assaltados: meus concidadãos. Tudo junto, ao mesmo tempo, sinto todas essas dores da nossa civilização e sinto-me envolvida, sinto-me obrigada, ainda que no fim saiba que não farei nada. Sinto. Não, sentia.

Desta vez, uma coisa mudou. Eu falava da depressão. Pois sim, das outras vezes, entre tristeza e consciência doída, eu me sentia feliz. Empolgada por voltar, saudosa, com desejo de contar sobre as coisas boas de lá e de rever as coisas boas daqui. Em casa. Minha cidade, ainda que meio suja, e, claro, plena de encantos que eu, que sou nostálgica e já fui arquiteta, escavo com paciência no meio da poluição. O centro visto de relance antes de o carro afundar sob o vale do Anhangabaú. Um prédio anônimo de esquina, de janelas ornadas, na ponta de uma ladeira que sobe se enfiando nas sombras. Os edifícios abandonados, fantasmagóricos, do começo da 23. As pessoas, o taxista, falando português - eu, também, falando português! (como soa estranho depois de um tempo! Estou puxando os erres...) Era assim, viu, eu estava em casa, acolhida até mesmo pelas ruas encardidas e histórias de crimes, pelo trânsito estagnado e as águas do Tietê.

O que foi, desta vez? Será por ter passado um mês a mais que o normal lá fora, neste semestre? Ou será que já passei tempo suficiente, no total, para perder o pé? Será efeito desta época esquisita, de guerras mesquinhas e catástrofes deprimentes (não grandiosas)? Só sei que nada me pareceu familiar, nem mesmo as ruas do bairro em que moro há quinze anos. Cansada, não mais em casa, senti-me deprimida. O dia cinza. Aqueles meninos sob os viadutos parecem mais numerosos e destituídos que antes. Entristeço-me ainda, entristeço-me mais que antes: mas não me sinto mais interpelada. Entendo a reação estrangeira: tristeza, mas à distância. Sinto dor, compaixão, sim, sinto muito - mas, sinto muito, não posso fazer nada. Não que fizesse antes, mas agora me desobrigo, desligada. Não me sinto mais em casa, também estou cansada, e assim que eu puder esquecerei e tentarei me fazer confortável. Sob os altos viadutos da 23, jogando sombra sobre os carros, eu penso: se eu puder, não volto. Se puder, não volto mais.

Não que nunca tenha pensado ou dito isso antes. Não que eu sempre sinta ou sempre vá sentir assim. Nem mesmo posso me dar ao luxo de dizer que posso, se quiser, não voltar. Vai saber. Mas hoje, desta vez, desta volta, foi a primeira vez em que pensei em voltar assim que cheguei.

Antes de sair do país, tinha medo de me desarraigar. Conheço gente que não corre o risco. A maioria de meus amigos brasileiros nos Estados Unidos não vê a hora de retornar. Eu não, eu sabia que não seria assim - e não só porque não me incomodo com o inverno longo, os dias curtos, e a aparente (aparente) frieza dos norte-americanos.

Um antigo amigo, ele também um desarraigado (muito antes que eu), falando uma vez deste sentimento, citou um escritor que havia morado em vários países diferentes. Instalado em Paris (acho), o tal escritor dizia que não se sentia cidadão desta ou daquela nação, mas sim um cidadão da rua tal, número tal, apartamento xis. Desconheço o contexto da frase, mas o sentido em que meu amigo a usou foi o de liberdade extrema, por um lado, e de comprometimento intenso, por outro. Livre de laços nacionais, formais, sociais, o escritor estava também livre para adotar o momento e o lugar do momento, sem reservas. O que não há de significar sem bagagens.

Quando cheguei aqui nessa última vez, na quinta-feira passada, São Paulo estava embebida numa umidade grudenta e opaca. Era meio-dia e a cidade estava parada, desde o aeroporto até a minha casa. No caminho, o taxista me contou que os assaltos estão piores que nunca, e que teve tiroteio na frente do shopping em plena luz do dia na semana passada, e que estão roubando até gente em fusquinha, e que o tráfego está mesmo um horror, e o escambau (sim, gente, isso mesmo, o escambau). No rádio do carro, umas músicas que não reconheci, uma mistura de sertanejo com axé music com agepê, e versões brasileiras das piores canções pop norte-americanas. Teria de ser generosa demais para amar tudo isso? Ou não?

Esta é minha coluna desalmada, minha confissão sem-coração, eu que celebrei Mario e suas bodas com a Paulicéia, que nunca me via morando em nenhum outro lugar. Este não é meu adeus, mas minha saudação: sim, pois acabo de chegar. Ah, digo que não sinto, e escrevo este texto só para lamentar, nostalgicamente, o sentimento perdido. Ainda está aqui; será preciso não ter coração para amar São Paulo?; a cidade continua imersa em chuvas esparsas, céu nublado, com períodos de melhoria. Como disse o outro Andrade, o Oswald,

chove chuva choverando
que a cidade do meu bem
está-se toda se lavando

E agora você já sabe que sim, que não menti: que toda vez é assim.


Daniela Sandler
São Paulo, 19/12/2001


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01. Os desajustados de Elisa Andrade Buzzo
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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/12/2001
14h23min
Puxa, você consegue falar coisas horríveis de um jeito tão maravilhoso! Mas, deixa eu refrescar sua memória: as músicas que você não reconheceu, os meninos que se reproduzem feito camundongos sob os viadutos, os assaltos e até mesmo o escambau, são conseqüência de décadas de dominação, antes militar, agora cultural, desse mesmo país de primeiro mundo no qual você agora vive. Não fazemos nada, a classe média nunca faz. Você, eu, os leitores, muitos outros...mas todos, um pouco mais ou um pouco menos, ajudamos a gravar essas pseudo-músicas, jogamos mais e mais crianças nas ruas, colocamos armas nas mãos desses jovens sem futuro e contribuímos significativamente para a formação do escambau, tal como ele é. É horrível, mas é a verdade. Parabéns pela coragem. Sonia Pereira
[Leia outros Comentários de Sonia Pereira]
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