O balé dos coletivos | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Zeca Camargo participa de webserie sobre produção sustentável de alimentos
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
>>> Edital seleciona 30 participantes do país para produção de vídeos sobre a infância
>>> Joca Andreazza dirige leitura de Auto da Barca de Camiri na série 8X HILDA
>>> Concerto Sinos da Primavera
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
>>> Sementinas
>>> Lima nova da velha fome
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A escola está acabando
>>> Co-opting creative revolution
>>> Gigantes de Tecnologia na Bolsa dos EUA
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Quem é o abutre
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> O computador de antigamente
>>> Privacidade
>>> A nova Casa da MPB em São Paulo
>>> Carnaval só ano que vem, da Orquestra Imperial
Mais Recentes
>>> Revista hot--36--frances sarado. de Sisal pela Sisal
>>> Revista hot--22--picape corsa--opala x opala. de Sisal pela Sisal
>>> Revista carstereo tuning--70--maremoto de Crazy turkey pela Crazy turkey
>>> Carros antigos--02--40 modelos de Escala pela Escala
>>> Revista opala & cia--10--ss caravan--discreto street rod. de On line pela On line
>>> Revista transporte mundial--6--catalogo de onibus e microonibus 2005 de Motor press brasil pela Motor press brasil (2005)
>>> Office 2007 Excel 2007 Básico de Gilberto Carniatto dos Santos pela Senac (2008)
>>> Info Profissional EXCEL de Vários pela Abril (2021)
>>> Venda Mais Nº79 - 2000 GAY de Vários pela Quantum (2000)
>>> Você s/a Exame. As melhores empresas para você trabalhar (edição de 15 anos) de Vários pela Abril (2011)
>>> Nova escola Nº271/2014 (avaliação processual) de Vários pela Abril (2014)
>>> Carta Fundamental Nº44 Era uma vez de Vários pela Carta capital (2013)
>>> Brasil Almanaque Cultura Popular. (edição de aniversário) Nº144 de Vários pela Andreato (2011)
>>> Não se apega, não de Isabela Freitas pela Intrínseca (2015)
>>> Não se apega, não de Isabela Freitas pela Intrínseca (2015)
>>> Pro Teste nº31/nov/2004 - nº34/Mar/2005 - nº22/Fev/2004 de Vários pela Proteste (2004)
>>> Pro Teste Nº129/2013 (Sabões em pó e líquido) de Vários pela Proteste (2013)
>>> Em busca do tempo perdido Vol 3. Dic Porto Fr-Pt-Pt-Fr c/ CD. O Escafandro e a Borboleta de Marcel Proust / Porto / Jean-Dominique Bauby pela Globo
>>> Pro Teste nº67/2008 - nº48/2006 de Vários pela Proteste (2008)
>>> Pro Teste nº122/mar/2013 - nº49/Jul/2006 de Vários pela Proteste (2013)
>>> Pro Teste nº127 - nº123 de Vários pela Proteste (2013)
>>> Password English Dictionary For Speakers of Portuguese de Martins Fontes pela Martins Fontes (1998)
>>> Vidas Secas de Graciliano Ramos pela Record
>>> New Framework 4a de Richmond pela Richmond
>>> New Framework Student Book 2A de Rich pela Richmond
COLUNAS

Quinta-feira, 2/2/2012
O balé dos coletivos
Elisa Andrade Buzzo

+ de 2800 Acessos


foto: Sissy Eiko

São Paulo é muito mais profunda e extensa do que se pode imaginar - para além dos pontos cardeais há terras sem fim, paisagens perenes, uma cidade que se dispõe em vagões com suor, volumes e esbarrões. Vamos desta vez embarcar na Barra Funda, sentido Itaquera, na famigerada linha vermelha do metrô. Depois que vem à tona do subterrâneo centro velho, o mundo se espalha nas janelas em um mar residencial, um ou outro prédio que se eleva como desajustado espigão, mancha colorida que se desdobra no horizonte. São Paulo é, ainda, ao se estender o trajeto para o trem em seus municípios vizinhos, a cidade das casas, em algum lugar no mapa, Vila Matilde, Arthur Alvim, Manuel Feio vemos a dobradura da periferia se levantar imperiosa de seu espaço vasto.

E o coletivo de Zorra Total, cuja locomotiva, caricata, se assim podemos dizer, é bastante esvaziada de vida, a realidade é, portanto, mais distinta e franzina. Seja lá qual for a situação, no trem vazio ou lotado, um dá licença sempre cai bem, um cidadão cansado tombará ao seu lado um sono incontrolável, uma mão disfarçadamente procurará a sua ou se estenderá em oferta, nua. Há um ou outro passageiro meio Valéria que grita "Estação Favela". É como se a gente, entrando aos gritos e solavancos, daí tirasse seu ganha-pão final. Ah, se todos os dias o trem girasse no infinito das cores em movimento, Guaianazes e sua vista de infinitos tijolinhos, o CEU imenso preenchendo o vermelho de furta-cor, e os trilhos, num balanço cinza monocromático. De quem serão estas existências que se escondem, labirínticas, por dentro destas outras janelas dentro das minhas janelas?

No traçado monótono das periferias se superpõe shoppings centers gigantes, colados ao metrô, com seus vendedores sonâmbulos de juventude desperdiçada, o que resta de entretenimento para a população. A princípio, vejo em seus olhos que para eles sou uma paisagem qualquer de trem - já vai passar a carruagem em desalento -, sua vida é a própria embarcação num contínuo e repetitivo movimento exaustivo, de quem vê mil rostos e não enxerga nem se atém a ninguém. E para mim assim são os locais de passagem: um desejo que forte se anuncia, um arranque descompassado e duro, ou uma frenagem traumática - sempre é necessário parar e, daí, recomeçar?

Na estação domingueira, guardas bocejam e até o maquinista olha para mulher bonita. Estações às vezes pouco resguardadas de operações exclusas, belas e desgastadas, frenéticas e solitárias, protegidas e vulneráveis, abertas ao mundo e gradeadas - elas podem ser sobremaneira pacatas, a via férrea vazia, cachorros latindo, passarinhos, Júpiter e a Lua rebrilhando como únicas espectadoras desse romance à espera de seus personagens. Ou então, elas palpitam de gente cansada ou festiva, passando a existir a realidade pelo movimento e pela passagem, o caminho de fios, metal e aço foi por completo perpassado, resta aguardar um novo balanço, um apito desgovernado. Para, então, depois desaparecer.

As estações de trem têm algo de tristeza e despedida - uma revoada negra de pássaros, um frio entardecer. Não há como não me lembrar de Pureza ("Lá pela madrugada ouvi um apito de trem muito de longe. E, nada é mais triste nessas ocasiões do que um trem que se comunica, envia sua mensagem por dentro da noite"), cidade inventada no romance de José Lins do Rêgo, em que um homem sem rumo no mundo enfim se prende desastradamente a duas mulheres, para depois restituir sua libertação. É a estação da estrada de ferro sinal de mesmice, revelia, transformação.

Também há algo de encontro, de puro e doce nesta atmosfera férrea, pois alguém sempre está a chegar na estação. Alguém sempre aguarda na plataforma, seja lá o que for, se planta nos bloqueios ou se lança às escadas. Tal espera amorosa é esperançosa e, plena de faísca da vida, rende força à locomotiva. E desse encontro que se desencontra, se bate e se resigna, se faça a moção de gente, o contato metálico entre vagão, lama, serpente.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 2/2/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1 de Renato Alessandro dos Santos
02. Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos de Jardel Dias Cavalcanti
03. O gueto dos ricos de Marta Barcellos
04. O problema da Petrobras são vários de Julio Daio Borges
05. Do outro lado, por Mary del Priore de Ricardo de Mattos


Mais Elisa Andrade Buzzo
Mais Acessadas de Elisa Andrade Buzzo em 2012
01. Lobo branco em selva de pedra: Eduardo Semerjian - 1/3/2012
02. O lilás da avenida sou eu - 13/9/2012
03. Perdidos em Perdizes - 28/6/2012
04. O crime da torta de morango - 18/10/2012
05. Ode ao outono - 12/4/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Problemas Filosóficos de La Matematica Moderna
Bernard Haussman
Nuevos Esquemas
(1968)
R$ 35,82



Turma da Mônica Coleção Histórica Mônica Nº 38
Maurício de Souza
Panini Comics
(2013)
R$ 12,00



As Origens da Família de Jesus
João Baptista do Valle
João Baptista do Valle
(2005)
R$ 30,00



A Divina Melodia
Bhagwan Shree Rajneesh
Cultrix
(1993)
R$ 48,00



As Pupilas do Senhor Reitor - Tomo 1
Júlio Diniz
Minha
R$ 5,00



Emílio ou Da Educação
J.J.Rousseau
Martins Fontes
(2004)
R$ 65,00



Esquinas Da Vida
Dionisio Rulli Soares
Best Seller
(1990)
R$ 13,00



Projeto Delicatta IV Poesia
Varios Autores
Delicatta
(2011)
R$ 9,30



O Dinossauro Que Fazia Au-au
Pedro Bandeira; Com Suplemento
Moderna
(1994)
R$ 20,00



Praia de Manhattan
Jennifer Egan
Intrínseca
(2018)
R$ 35,00





busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês