O Menino que Morre, ou: Joe, o Bárbaro | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 8/5/2012
O Menino que Morre, ou: Joe, o Bárbaro
Duanne Ribeiro

+ de 4000 Acessos

Joe é o menino que morre. É o que diz a profecia. Na etapa final de sua jornada, o veremos frente a frente com a representação da morte, um soldado cabeça-de-caveira sentado em um trono, atrás dele uma bandeira dos Estados Unidos alterada, de cores sombrias: o vermelho e branco das listras trocados por azul e preto, as estrelas pretas em fundo vermelho. O local do encontro é um campo de batalha: ali e além se confrontam os exércitos da escuridão e da luz. Centenas de portas flutuam acima da batalha final entre as partes; portas talvez a outro mundo, ao mundo real de Joe, em que sofre uma crise de hipoglicemia e se arrasta pela sua própria casa em semiconsciência, vivendo uma alucinação e se aproximando de uma morte apenas trivial. Joe é um adolescente banal, com problemas na saúde, na família, na escola.

Criada e roteirizada por Grant Morrison e desenhada por Sean Murphy, a minissérie Joe, O Bárbaro terminou de ser publicada pela Vertigo neste mês de abril (oito partes, edições 21 a 28, ainda disponíveis pelo site). A HQ terá em breve uma adaptação cinematográfica. É um conto que fala de guerra, doença, medo e morte, e de um garoto obrigado a enfrentá-los, de uma vez e sem controle do próprio corpo. Joe é um herói improvável.

O diabetes se tornou crítico e causou as alucinações após um dia particularmente ruim. Sem muitos amigos, introspectivo, Joe é perturbado pelos bullies típicos, sofre pela morte do pai (ocorrida em uma incursão militar no Iraque) e a casa em que mora com a mãe está para ser perdida, por falta de documentos que comprovem a propriedade. No seu quarto, ele se dá conta do baixo nível de glicose. Precisa de açúcar, mas já está abalado. Em pouco tempo, já se vê noutro mundo, Hypogea. Avista um exército em fuga - seus bonecos de super-herói, combalidos e feridos. Eles o reconhecem como um salvador anunciado ("the dying boy"), a esperança contra as hordes do Rei Morte, que destrói aquela dimensão.

A escada que desce à cozinha é uma imensa montanha. A torneira aberta no banheiro deixa a água correr pelos degraus: é uma cachoeira que jorra sobre a pedra. Ao mesmo tempo em que é jogado numa luta que a princípio não é sua, Joe sabe mais ou menos que aquilo não é verdadeiro, que está em sua casa, que passa mal e precisa de pelo menos um refrigerante. É uma dualidade presente em toda a história, e que gera tensão: enquanto briga com criaturas nefastas num mundo, ele está somente tentando chegar ao porão e acender a luz. Não sabe o problema real que tem, e como que enfrenta a metáfora. É uma jornada cega e trágica.

Realidade vs Fantasia
"Eu gosto que minhas criações sejam bem reais e fundadas no dia-a-dia, então eu não quis criar um mundo frívolo de puro faz-de-conta através do espelho ou além do arco-íris. Uma boa história de fantasia precisa de alguma relevância imediata e genuína para o mundo em que vivemos", disse Morrison. O autor procurou por uma doença que pudesse arrancar seu protagonista do mundo real, e encontrou a diabetes: "Eu li vários depoimentos em primeira pessoa, pragmáticos, de partir o coração, sobre como controlar uma crise. Se você é uma criança que carrega uma doença que pode te matar se não monitorada, então você tem uma relação com a morte diferente das outras pessoas, e é disso que a minha obra trata".

Escrevi antes que o poder da fantasia está na sobreposição de real e irreal - a entrevista de Morrisson segue no mesmo sentido dessa afirmação. Há o perigo, no entanto, dessa relação entre o de verdade e o fantástico resultar simplória demais: é a crítica de Hector Lima a Joe - a HQ seria como "um sonho com tags explicativas". Creio que a história consiga ir além da autorreferência simplista: o enredo desmente um paralelo rígido e os personagens têm em si uma riqueza maior do que só o de serem símbolos do protagonista.

Por exemplo: é sugerido às vezes que os mundos se misturam. Em dado momento, Joe está em um quarto de palácio, e dois amigos no corredor externo. Quando passam pela porta, os vemos na casa real, e um deles diz: "Onde é isso?", que seria incompreensível se apenas tivesse se visto em um outro cômodo palaciano. Logo depois, estão todos em Hypogea, e ficamos só com a sugestão. Alguns personagens têm conhecimento de um outro mundo, e mesmo observam o herói nele, através de monitores. E o inimigo máximo parece se reconhecer como parte de uma alucinação: "Consegue sentir? Hipoglicemia. Está suando agora, tremendo, o coração mais parece um cavalo galopante, os membros estão dormentes. Logo a própria consciência cederá espaço a pesadelo e convulsões. Então, eu. Então, morte".

Ou seja, Morrison fundou sua história no cotidiano, mas deixou frestas.

Já os personagens do mundo fantástico, diferente de uma obra como Ponte para Terabítia, em que são apenas traduções de pessoas do mundo real, têm uma riqueza própria, história e personalidade. É o caso de Jack, um rato samurai em Hypogea e o hamster de Joe. O menos corajoso e habilidoso de sete irmãos guerreiros, o único deles que sobrou. Ele terá se tornar maior do que sempre foi. Ou de Zyxxy, que talvez se refira a uma amiga da escola, mas que aqui é a garota audaz da Cidade da Invenção - local em que se louva a criação científica e em que a população, covarde por princípio, não se envolve na guerra. Ela terá de superar os limites do lugar onde nasceu. E assim por diante.

Descoberta da Coragem
Vê-se que além da dupla realidade e fantasia existe outra: a da coragem e do medo. Esses personagens podem ser vistos como representações de Joe, assim como de dificuldades da adolescência: a necessidade de aceitação, a insegurança, o desconhecimento da própria força são constantes. É com esses companheiros que ele segue ao confronto final: os que sobraram, os que nunca tiveram chance alguma, e aos quais cabe a última tentativa. Todos se veem cercados por limitações, mas de repente não podem dar tanto valor a elas. E então podem descobrir a coragem, na forma como a descreveu Mark Twain - não a ausência do medo, mas o passo consciente para além dele.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 8/5/2012


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