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Quinta-feira, 17/5/2012
Uma nova corrida espacial?
Vicente Escudero

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Os segredos escondidos na escuridão do espaço sempre interessaram a espécie humana desde as primeiras civilizações catalogadas pela arqueologia. Somos a única espécie capaz de dormir deitada de costas, observando o céu, como lembra Neil deGrasse Tyson, e de refletir sobre a própria condição comparada a outras criações da natureza. Esta combinação extraordinária entre anatomia e inteligência pode ser considerada um importante fator que proporcionou, ao longo da evolução, o surgimento do interesse pela investigação de nossa posição perante todos os outros objetos vistos no céu, durante o dia e a noite.

A escuridão do espaço lança uma sombra na existência humana maior do que o lado da Terra privado da luz na intermitência dos dias. Talvez não tenha sido o fator mais importante na manutenção da nossa curiosidade até o atual ponto do processo evolutivo, mas se apresenta em todos os momentos cruciais da evolução cultural e científica da nossa espécie como um divisor comum de questões diversas da filosofia, religião e ciências naturais. Há 25.000 anos, usávamos a posição da Lua e dos astros para prever as estações do ano. O registro mais antigo de interpretação e tentativa de definição de um astro espacial data da primeira civilização descoberta, a Suméria, que ocupou a região da Mesopotâmia, no Oriente Médio, entre os anos de 4500 e 2500 a.C., onde a religião local escolheu os deuses Inanna, Utu e Nanna como representantes de Vênus, do Sol e da Lua.

A contínua representação e investigação dos astros pela religião foram aos poucos se misturando com uma astronomia rudimentar, usada para suprir as necessidades nascidas da evolução das cidades, determinando a existência de períodos específicos do ciclo meteorológico e solar, importantes, por exemplo, para a agricultura. Entre a produção de bens e a organização do poder dentro das cidades, originário de grupos religiosos, o homem começou a se indagar sobre sua condição perante os objetos celestes. A primeira concepção de um universo, criada pelos sumérios, correspondia apenas à superfície plana da Terra, que seria coberta por um domo de metal. Os astros, considerados deuses, eram tratados como entidades externas.

A visão geocêntrica do universo foi duradoura. A primeira investigação filosófica de um modelo surge apenas a partir do século VI a.C., na Grécia, através dos filósofos pré-socráticos, que continuaram a concepção suméria, retirando o domo e cercando o universo pela água. Apenas com a investigação de Platão e Aristóteles, no século IV a.C, foi concebida a forma redonda da Terra. Entretanto, o universo proposto ainda era geocêntrico, com nosso planeta localizado no centro e cercado por esferas girando ao seu redor. Este modelo sobreviveu até o século XVI, com os estudos de Copérnico e a adaptação do modelo criado pelo filósofo grego Aristarco, no século III a.C, em que o Sol localiza-se no centro do universo, com a Terra girando no próprio eixo e ao seu redor.

Tal concepção reconstruída por Copérnico custou a liberdade de Galileu, em 1622, quando foi julgado e condenado a prisão domiciliar pelo tribunal cristão da Santa Inquisição por defender o heliocentrismo. Séculos passaram, a Via Láctea foi identificada e, só após o Grande Debate entre os astrônomos Harlow Shapley e Heber Curtis sobre o tamanho do universo e a natureza das nebulosas em espiral, em abril de 1920, complementado pelo resultado das pesquisas de Edwin Hubble, foi descoberto que a Via Láctea não é o centro do universo e as outras nebulosas em forma de espiral, na verdade, constituem galáxias independentes.

O sucesso e o aumento do investimento na pesquisa científica durante o século XX validaram a astronomia como ciência e sua prevalência sobre a concepção religiosa do universo. O espaço -antes inatingível e incompreensível- passou a ser tratado como mais uma fronteira a ser conquistada. A Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria criaram as condições para o investimento maciço na pesquisa da exploração espacial e foram responsáveis pela chegada do homem à Lua e também pelo lançamento de telescópios e satélites por toda a órbita baixa terrestre.

Hoje, a exploração do espaço que já foi morada de deuses e provedor de respostas às angustias existenciais do ser humano está estagnada e longe da pujança dos investimentos do período entre as décadas de 1960 e 1980. Os dois países responsáveis pelos maiores avanços, a Rússia (antiga União Soviética) e os Estados Unidos, sofrem para manter suas atividades espaciais, que funcionam com orçamentos congelados há mais de 15 anos, um indicativo de que as descobertas constantes do século XX parecem estar longe de se repetir no futuro próximo.

Mudanças no horizonte

O ser humano ainda é capaz de se deitar e observar as estrelas? Felizmente, sim. Depois de quase duas décadas de pequenas conquistas, sinais positivos de mudança parecem surgir com a mesma intensidade de uma aurora boreal no inverno do Polo Norte.

O governo dos Estados Unidos, logo no início da administração Barack Obama, traçou objetivos claros para a pesquisa espacial da NASA: uma missão tripulada a um asteroide até 2025 e outra a Marte por volta de 2035. Outra medida importante foi a abertura do transporte de astronautas para a Estação Espacial Internacional à disputa entre empresas privadas, uma novidade iniciada pela Rússia, que cobrava quase vinte milhões de dólares para transportar turistas ao único hotel com gravidade zero. A China também começou a mostrar sua aptidão, lançando o primeiro taikonauta ao espaço e já iniciou a construção de uma estação espacial própria. Especula-se que esta chegada da China inicie, em alguns anos, outra corrida espacial nos moldes da Guerra Fria.

Embora a disputa entre as três grandes potências econômicas possa trazer a arrancada necessária a uma nova corrida espacial, o sinal mais otimista para o avanço vem da iniciativa privada, do Vale do Silício, na Califórnia, com as empresas financiadas pelos bilionários desbravadores da internet, como Elon Musk (co-fundador do PayPal), Paul Allen (co-fundador da Microsoft), Jeff Bezos (fundador da Amazon) e Larry Page e Eric Schmidt (fundador e executivo do Google) que investiram alto e criaram empresas para competir no novo mercado de exploração espacial.

Os horizontes das empresas não são curtos. Elon Musk apresentou as intenções da SpaceX de enviar uma missão tripulada a Marte em dez anos. Atualmente, a empresa tem contrato com a NASA para transportar cargas à Estação Espacial Internacional e, se tudo correr dentro do prazo estipulado, no próximo dia 19 maio a SpaceX será a primeira empresa privada a enviar uma cápsula espacial, sem tripulantes, para se acoplar à estação.



Jeff Bezos e sua empresa Blue Origin, sediada no Texas, trabalham na criação de um foguete reutilizável, capaz de pousar na vertical -o que reduziria grande parte do custo de consumo das viagens- e também se preparam para participar da disputa pelo transporte de astronautas para a Estação Espacial Internacional, financiada pela NASA. Paul Allen e o engenheiro Burt Rutan criaram a Stratolaunch Systems, voltada ao turismo espacial e incubadora de novos projetos de veículos de lançamento. Todas empresas apostam alto, mas a que mais impressiona é a Planetary Resources, que conta com a participação da dupla do Google, além do cineasta James Cameron, como conselheiro, e do ex-chefe das missões a Marte da NASA, os robôs Pathfinder, Opportunity e Spirit, o engenheiro Chris Lewicki.



A Planetary Resources pretende realizar a mineração de asteroides próximos à Terra utilizando pequenos satélites e robôs em missões não tripuladas. A intenção inicial é a extração de água e a produção de oxigênio e hidrogênio para reabastecimento do combustível de foguetes no próprio espaço, o maior custo das missões espaciais fora da órbita da Terra. Numa segunda etapa, a exploração vai visar a extração de minérios raros como platina e ouro.



A empresa pretende dividir a exploração em três estágios: observação dos asteroides, exame de suas composições e extração dos recursos. O início da primeira fase já está marcado para meados de 2015 e os satélites para análise dos asteroides estão em fase final de desenvolvimento. O plano não é só incrível pelas dificuldades de engenharia e tecnologia envolvidas na atividade, mas também pelos limites legais criados no decorrer do período da Guerra Fria para as atividades espaciais, que dificultam a exploração econômica indiscriminada destes recursos decorrentes da mineração espacial.

Existe um vácuo legislativo internacional sobre a exploração econômica dos recursos pretendidos pela Planetary Resources. O Tratado do Espaço Exterior, de 1967, estabelece apenas que o espaço é um bem comum, de toda a humanidade, portanto, não pode ser apropriado por nenhum país ou pessoa, o que impede a aplicação da legislação dos Estados Unidos para proteger as atividades de mineração da empresa. Outro problema seria a tentativa de outra empresa explorar os mesmos recursos ocupados pela Planetary Resources. Não existe instrumento legal para proibir esta concorrência, ainda que este cenário seja improvável.

A jurisprudência internacional sobre as consequências da exploração espacial também é quase inexistente. Um dos casos mais extravagantes, sobre o direito de propriedade de objetos celestes, foi proposto nos EUA por Gregory W. Nemitz, do projeto Eros, que pretende estabelecer uma colônia de mineração no asteroide 433 Eros, localizado próximo à orbita da Terra, e que contém grandes quantidades de ferro, potássio, magnésio e alumínio. Nemitz declarou-se proprietário do asteroide e processou a NASA para cobrar uma "taxa de estacionamento" depois da nave NEAR Shoemaker orbitá-lo e pousar em sua superfície. Nemitz desistiu do processo depois da NASA defender-se argumentando que os objetos espaciais não são suscetíveis de apropriação, em referência ao Tratado do Espaço Exterior de 1967.

Questão importante é a responsabilização do país onde são exercidas as atividades da empresa, pelos danos causados enquanto funciona no espaço, de acordo com a Convenção para a Responsabilidade no Espaço, que expande o tema no Tratado do Espaço Exterior. Outro documento interessante é o Tratado Sobre a Lua de 1979, que apesar de não ter nenhuma potência espacial como aderente, poderá servir de salvaguarda e instrumento de negociação, pois impede a exploração de recursos espaciais que não seja comandada por uma coalizão internacional e exige a aprovação de outros países aderentes antes do início da exploração.

O ser humano passou diversos milênios imaginando como seria a realidade atrás da atmosfera da Terra e a natureza dos astros que cercam nosso planeta. Depois de tanto tempo, começam a ser dados os passos para uma conquista maior e mais importante do que a mera presença do homem no espaço. Vamos começar a alterar a natureza de objetos celestes e, talvez em cinquenta anos, seremos uma espécie interplanetária com uma pequena base em Marte. Depois de um caminho tão longo, percorrido entre tantas guerras e conquistas, a esperança é de que os valores mais nobres do ser humano prevaleçam fora da Terra afinal, não temos um histórico irretocável na descoberta e exploração de novas fronteiras. Que os deuses nos protejam de nós mesmos!


Vicente Escudero
Campinas, 17/5/2012


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