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Segunda-feira, 15/10/2012
Negrinha e os donos do sentido
Gian Danton

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Em um texto publicado na revista Isaac Asimov Magazine (n. 19), o autor de "Eu robô" explica que o termo "ironia" vem de uma palavra grega que significa "dissimulação". Segundo ele, o ironista desperta a indignação através da inversão.

A primeira vez que o escritor se viu diante de uma ironia foi ao ler As Aven¬turas do Sr. Pickwick, de Charles Dickens, aos dez anos. No Capítulo 2 ele encontrou uma descrição dos "gestos de bondade" de um personagem chamado Tracy Tupman. Nas palavras de Di¬ckens, "O número de ocasiões... em que esse bondoso homem encaminhou mendigos às residências de outros membros em busca de roupas usadas ou ajuda pecuniária é inacreditável.".

Asimov ficou espantou. Pensou consigo que mandar os pobres procurarem outros membros em vez de ele mesmo ajudá-los não poderia ser considerado um gesto de caridade. Por que, então, o rótulo de bondoso? "Logo, porém, percebi a verdade. O Sr. Tupman não era bondoso. Na verdade, concluí, indignado, não passava de um avaro nojento, e a antipatia que senti por ele perdura até hoje. Eu não sabia que o que acabara de ler era um exemplo de ironia, mas compreendi a idéia daquele dia em diante, até finalmente aprender a palavra".

Como o próprio Asimov adverte, nem todo mundo é capaz de entender uma ironia.

Esse parece ser o caso de Antônio Gomes da Costa Neto. Ele entrou com uma ação na Controladoria Geral da União contra a compra do livro Negrinha, de Monteiro Lobato, para bibliotecas. O autor do requerimento considera que o conto que dá nome ao volume é um exemplo de racismo e sexismo.

Para entender o caso, é interessante conhecer o conteúdo do polêmico conto.

Negrinha foi escrito em 1920. Naquela época, já ia longe o fim da escravidão, mas as condições dos negros na sociedade brasileira ainda era lamentável. Exemplo disso é a Negrinha do título.

Lobato conta que era uma pobre órfã de sete anos, mulatinha escura, magra e de olhos eternamente assustados. Nascera em uma senzala, de mãe escrava, e vivera os primeiros anos nos cantos escuros da cozinha, sobre uma velha esteira e trapos imundos. Durante o conto, Negrinha será vítima dos maus-tratos da patroa, Dona Inácia. Lobato assim a descreve: "Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, animada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. [...] Uma virtuosa senhora, em suma — 'dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral', dizia o reverendo".

Era uma ótima senhora, mas não admitia choro de criança. Quando a menina começava a chorar, a mãe corria com ela para o quintal, torcendo-lhe em caminho com beliscões de desespero. Mas aquele choro nunca vinha sem razão. Era sempre fome ou frio. Aos quatro anos morreu-lhe a mãe.

A pobre menina aprendera a andar, mas não andava. Era obrigada a ficar sentada, de braços cruzados, imóvel, no canto da sala, por horas e horas. "Que ideia faria de si uma criança que nunca ouviu uma palavra de carinho?", pergunta Lobato. O corpo da criança era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nela havendo ou não motivo.

"A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas de ferozes (...). Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco".

Como não tinha mais como maltratar escravos, mantinha Negrinha em casa como remédio para seus frenesis: "Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade". Era pouco, mas melhor do que nada e, de vez em quando, vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar de saudades do bom tempo. Foi assim com o caso do ovo.

Uma criada nova roubara do prato de Negrinha um pedaço de carne e esta se revoltara, chamando-a pelo nome que lhe chamavam: Peste. A criada foi contar à boa senhora, que, desentalando do trono as banhas, foi para a cozinha:

- Traga um ovo.

Dona Inácia pô-lo a ferver. A criança, escolhida num canto, aguardava trêmula alguma coisa nunca vista. Quando o ovo chegou ao ponto, a boa senhora mandou: abra a boca. E usando uma colher jogou ali o ovo fervente. Antes que o urro de dor saísse, as mãos da senhora amordaçaram-na até que ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente e esperneou. Nada mais. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo.

Logo chegou o vigário e a boa senhora foi recebê-lo e reclamar que não se podia ser boa na vida, como lhe cansava cuidar de Negrinha ao que o vigário respondeu: "a caridade é a mais bela das virtudes cristãs".

Um dia Dona Inácia recebeu a visita de duas sobrinhas. As duas irromperam pela sala como anjos, alegres, brincando e Negrinha, num ímpeto, acompanhou-as. "Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos o som cruel de todos os dias: Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga?".

Um dia as meninas lhe mostraram uma boneca. Negrinha nem sabia o que era aquilo e como se chamava, para diversão das duas, que a incentivaram a pegar uma. Negrinha morria de medo, mas pegou. Pela primeira vez na vida Dona Inácia apiedou-se, e deixou-a brincar.

Esse foi o seu fim. Pois naquele dia Negrinha percebeu que tinha alma, que não era coisa, era um ser humano como qualquer outro. Sentia, vibrava. Quando aquilo se acabou e as meninas foram embora, a menina recusou-se a voltar ao seu estado de coisa, de objeto de torturas da senhora, e morreu. Deixou saudades no nó dos dedos de Dona Inácia: "Como era boa para um croque".

Lobato escreve o conto, um drama, par denunciar as condições terríveis que os negros continuavam vivendo mesmo depois do fim da escravidão. Dona Inácia representa aqueles que não aceitavam o novo regime em que os negros eram iguais aos brancos — e até mesmo o vigário fecha dos olhos para suas maldades.

Pois os autores da petição vislumbram em Negrinha um exemplo de racismo. Para eles, o livro só pode ser lido para provar que Lobato era racista e sexista: "que seja obrigatória a presença de Nota de Apresentação sobre a obrigatoriedade das questões étnico-raciais e sexistas", diz a petição.

Ou seja: qualquer outra leitura deve ser descartada. Os autores da petição citam como exemplo do racismo de Lobato a forma como ele descreve a senhora. O trecho seguinte é citado como exemplo: "Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, animada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. [...] Uma virtuosa senhora, em suma — 'dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral', dizia o reverendo".

Se, segundo os autores da petição, a ex-dona de escravos merece adjetivos favoráveis, negrinha é descrita com adjetivos negativos. É magra, atrofiada, com olhos eternamente assustados. Para os autores da ação, a forma como Lobato descreve as duas personagens mostra que ele simpatiza com Dona Inácia e com todas as torturas a que ela submete Negrinha. (É de se perguntar se magra pode ser considerado, hoje, um adjetivo negativo, e gorda um adjetivo positivo).

Os autores da petição ignoram completamente que Lobato está sendo irônico. Quando ele diz que Dona Inácia é uma boa senhora, ele está fazendo o mesmo que Dickens, está provocando a indignação através da inversão. O objetivo dele é provocar a indignação do leitor contra a senhora que adorava judiar da criança negra, "que nunca se afizera a esse novo regime — essa indecência de negro igual a branco". A palavra indecência aí, é também uma ironia.

Asimov conseguiu entender o que era uma ironia aos 10 anos. Tudo bem que ele era um gênio, mas creio que a maioria dos leitores adolescentes conseguiria perceber que Lobato não está elogiando Dona Inácia ou vangloriando as suas ações. Ele as está denunciando. Negrinha não é um livro infantil, é um livro adulto e entende-se que um adulto seja capaz de compreender uma ironia, ainda mais no conto Negrinha, em que Lobato usa toda sua capacidade literária para criar no leitor afeição à pobre vítima.

O autor da ação, que poder ser lida aquiaqui parecem ter sido incapazes de perceber que Lobato estava sendo irônico. E querem impor sua leitura a todos os outros.

Mais, eles pedem punição para os pareceristas do MEC que liberaram a compra da obra: "sujeitando-se seus autores a responsabilidade em face da contratação acertada ou equivocada".

Ou seja: para eles, a obra deve ser lida literalmente, e não como ironia, e essa deve ser a única leitura possível. São os donos do sentido. Qualquer outra interpretação da obra está errada.

A campanha contra Lobato é apenas a ponta de lança de um movimento maior. Ao proibir as obras de Lobato em bibliotecas, abre-se caminho para pedir a proibição de qualquer outra obra. Qualquer escritor que tenha usado uma ironia, ou até mesmo uma metáfora, sujeita-se a ser mal-interpretado e, portanto, ser vítima desse movimento.

Nas palavras de Ray Bradbury:

"Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista, irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista, sionista, adventista-do-sétimo-dia, feminista, republicana, homossexual, do evangelho quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio (...) Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Farenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiro pelas minorias, cada uma rasgando uma página ou um parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estava vazios e as mentes caladas e as bibliotecas sempre fechadas."


Gian Danton
Goiânia, 15/10/2012


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