O artífice do sertão | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
28767 visitas/dia
851 mil/mês
Mais Recentes
>>> Livro narra a trajetória do empresário que transformou a história urbana de São Paulo
>>> TV Brasil destaca polêmica das fake news no Mídia em Foco desta segunda (22/10)
>>> Ruy Castro e Frei Betto em novembro, no IEL
>>> Operação Condor, Direitos Indígenas, Cine Nuevo e Economia serão temas do 36º EPAL/PROLAM
>>> Sidney Rocha lança seu novo livro, A Lenda da Seca
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Voto de Meu Pai
>>> A barata na cozinha
>>> Inferno em digestão
>>> Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos
>>> As pedras de Estevão Azevedo
>>> O artífice do sertão
>>> De volta à antiga roda rosa
>>> O papel aceita tudo
>>> O tigre de papel que ruge
>>> Alice in Chains, Rainier Fog (2018)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> A moral da dúvida em Oakeshott e Ortega Y Gasset
>>> Por um triz
>>> Sete chaves a sete cores
>>> Feira livre
>>> Que galho vai dar
>>> Relâmpagofágico
>>> Caminhada
>>> Chama
>>> Ossos perduram
>>> Pensamentos à política
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Apresentação
>>> Apresentação
>>> Um defeito de cor, um acerto de contas
>>> Cuidado: Texto de Humor
>>> O Oratório de Natal, de J. S. Bach
>>> My fair opinion
>>> Hitler e outros autores
>>> A alma boa de Setsuan e a bondade
>>> Cigarro, apenas um substituto da masturbação?
Mais Recentes
>>> Direito Processual do Trabalho (Reforma e Efetividade) de Luciano Athaíde Chaves (Org) pela LTr / Anamatra (2007)
>>> Lições de Direito Penal - Parte Geral de Heleno Cláudio Fragoso pela Forense (2003)
>>> Curso de Direito Penal - Parte geral - Volume 1 de Fernando Capez pela Saraiva (2007)
>>> On Love: A novel de Alain de Botton pela Grove Press (1994)
>>> Tarô dos Vampiros O Oráculo da Noite Eterna de David Corsi pela Madras (2010)
>>> Aptidao fisica-um convite a saude de Valdir j. barbanti pela Manole dois (2018)
>>> Science for all children de National academic press pela National academic press (2018)
>>> Restauraçao da mata atlantica em areas de sua primitiva ocorencia natural de Antonio paulo mendes galvao e antonio carlos de souza galvao pela Mapa (2018)
>>> O caminho para o amor de Deepak chopra pela Rocco (2018)
>>> O livro do juizo final de Roselis von sass pela Ordem do graal na terra. (2018)
>>> Meu anjo de Fausto de olveira pela Seame (2018)
>>> Perversas Famílias (um castelo no pampa 1) de Luiz Antonio de Assis Brasil pela L&PM (2010)
>>> Evoluçao consciente de Sergio motta pela Ediouro (2018)
>>> Carrie, a estranha de Stephen King pela Suma de Letras (2013)
>>> Pesquisa e planejamento de marketing e propaganda de Marcia valeria paixao pela Ibpex (2018)
>>> Pedra do Céu de Isaac Asimov pela Aleph (2016)
>>> A guerra se torna mundial--4. de Folha de sao paulo pela Folha de sao paulo (2018)
>>> A guerra se torna mundial--4. de Folha de sao paulo pela Folha de sao paulo (2018)
>>> Escola de cozinha--entradas de cozinha de Circulo do livro pela Circulo do livro (2018)
>>> Graos & cereais--coma bem,viva melhor de Readers digest pela Readers digest (2018)
>>> Lanchonete da cidade-novos sanduiches como antigamente de Romulo fialdini pela Dba (2018)
>>> Ossos,musculos & articulaçoes de Readers digest pela Readers digest (2018)
>>> Educaçao do filho de deus de Seicho-no-ie pela Seicho-no-ie (2018)
>>> Medicina preventiva de Kurt kloetzel pela Edart (2018)
>>> Medicina preventiva de Kurt kloetzel pela Edart (2018)
>>> The golden book of morocco de Bonechi pela Bonechi (2018)
>>> Galerie des offices-guide officiel toutes les ceuvres de Gloria fossi pela Giunti (2018)
>>> Novo manual-nova cultural-redaçao-gramatica-literatura-interpretaçao de textos-testes e exercicios. de Emilia amaral/secerino antonio/mauro ferreira do patrocinio pela Nova cultural (2018)
>>> Dom Casmurro de Machado de Assis pela Record - Altaya (2002)
>>> Criação e Dialética: o Pensamento de Cornelius Castoriadis de Fernando César Teixeira França pela Edusp/Fapesp (1996)
>>> Juó Bananére: as Cartas d'Abax'o Pigues de Benedito Antunes pela Unesp (1998)
>>> Os investigadores de Daniel J. Boorstin pela Civilização Brasileira (2003)
>>> O essencial de Stephen King de Stephen J. Spignesi pela Madras (2003)
>>> Fundamentos da Filosofia - História e Grandes Temas de Gilberto Cotrim pela Saraiva (2006)
>>> Bilac, o jornalista 3 volumes de Antonio Dimas pela Edusp/Imprensa Oficial/Unicamp (2006)
>>> Introdução ao pensamento filosófico de Karl Jaspers pela Cultrix (1980)
>>> A Revolução de 30. Da República Velha ao Estado Novo de Manoel Correia de Andrade pela Mercado Aberto (1988)
>>> Manipulação da Linguagem e Linguagem da Manipulação de Claudinei Jair Lopes pela Paulus (2008)
>>> Mobilidade Religiosa: Linguagens, Juventude, Política de Pedro a Ribeiro de Oliveira, Geraldo de Mori Org pela Paulinas (2012)
>>> Em Sonho. uma Boa Conversa Entre o Romeiro Sebastião e Padre Cícero de Annette Dumoulin pela Paulinas (2017)
>>> Em Desnuda Oração de Paulo Gabriel pela Paulinas (2010)
>>> Santa Teresa Verzeri - Vida e Obra de Rosa Cassinari pela Paulinas (2008)
>>> Santa Teresa Verzeri de Rosa Cassinari pela Paulinas (2008)
>>> Educação para a Comunicação nos Institutos de Filosofia e Teologia de Cnbb pela Paulinas/sepac (2001)
>>> Educação para a Comunicação nos Institutos de Filosofia e Teologia de Cnbb pela Paulinas/sepac (2001)
>>> Lucíola de José de Alencar pela Ct (2001)
>>> Casa Velha de Machado de Assis pela Ct (2001)
>>> A Espada e a Pena. Como Atingir o Desenvolvimento Humano pelo Racional de Mauro Monteiro de Andrade pela Nobel (1999)
>>> Goethe e Barrabás de Deonísio da Silva pela Novo Século (2008)
>>> Umberto Eco - o Labirinto do Mundo de Daniel Salvatore Schiffer pela Globo (2000)
COLUNAS

Terça-feira, 9/10/2018
O artífice do sertão
Celso A. Uequed Pitol

+ de 300 Acessos

Corria o 3 de dezembro de 1902. O crítico e ensaísta José Veríssimo, um dos mais respeitados da então incipiente cena literária do Rio de Janeiro, assinava uma coluna no jornal “Correio da Manhã” onde submetia à sua fina análise os últimos lançamentos editoriais brasileiros e portugueses, sempre lidos antes da publicação oficial. Um calhamaço de 637 páginas seria o objeto de apreciação naquele dia: intitulava-se “Os Sertões”, de autoria do engenheiro e jornalista Euclides da Cunha. Sobre ele, Veríssimo escreveu:

“(....) O livro do sr. Euclides da Cunha, ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geógrafo, um geólogo, um etnógrafo, ; de um homem de pensamento,um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista, que sabe ver e descrever, que vibra e sente tanto aos aspectos da natureza como ao contato do homem e estremece todo, tocado até ao fundo da alma, comovido até as lágrimas, em face da dor humana, venha ela das condições fatais do mundo físico, as secas que assolam os sertões do Norte brasileiro, venha da estupidez ou da maldade dos homens, como a Campanha de Canudos”.

O entusiasmo tão precoce, vindo de figura tão qualificada da intelligentsia nacional da época, destinado a obra de escritor estreante, funcionário público sem fama e sem grandes ambições, não era efêmero ou despropositado, quando se tem em mente o impacto por ele causado. Foguete sem queda e com apogeu incerto, “Os Sertões” vendeu os mil exemplares de sua primeira edição em menos de seis meses; os dois mil da segunda, em um ano e meio; os outros dois mil da terceira em mais dois anos e meio, e isso tudo em um país onde mais de 80% dos 14 milhões de habitantes eram analfabetos. Um sucesso completo e inesperado, tanto que outra figura ilustre da crítica brasileira, Sílvio Romero, afirmou: “de Euclides da Cunha se pode dizer que se deitou obscuro e acordou célebre com a publicação d´Os Sertões. Merecia-o.” Nem o próprio autor de História da Literatura Brasileira poderia imaginar que a obra de Euclides seria objeto de discussão, e até de comemoração, passados mais de cem anos de seu lançamento nas livrarias do país.

Ganharia o mundo inteiro em poucos anos. O poeta Gerardo Mello Mourão relata um episódio ocorrido na Universidade de Pequim, onde foi indagado por um acadêmico chinês a respeito de um longo poema épico vindo do Brasil. Possuía, na verdade, uma tradução chinesa de “Os Sertões” que, miraculosamente, sobreviveu à fúria revolucionária maoísta. Como explicar o engano ao jovem oriental?

Seria engano? Estariam também enganados os poetas Efrain Tomás Bó e Godofredo Iommi, dois dos mais afamados escritores hispano-americanos, que, quando iniquiridos sobre o maior poema da América Latina, responderam “Os Sertões”? Trata-lo como romance é apenas questão de costume. O caso seria igual se o considerássemos tratado geomorfológico, estudo de etnologia ou simples reportagem: esqueceríamos as outras faces da Hidra, ficando numa só, o que é, mais do que errôneo, impossível.

E quantas faces! Por reunir citações e conceitos de topografia, história, etnologia, geologia, botância, zoologia, psicologia social e outras ciências, pode-se aplicar ao livro a previsão, algo apocalíptica, sobre o futuro do povo ali descrito: “não teremos unidade de raça; não a teremos, talvez, nunca”. Lúcia Miguel Pereira não inclui “Os Sertões” no estudo sobre a literatura brasileira da virada do século XIX. O pioneiro José Veríssimo, assim como Tristão de Athayde e José Guilherme Merquior, dizem: é ficção. Outros, como Afrânio Coutinho, vão mais longe: “trata-se de romance-poema-epopéia. Uma narrativa heróica, da família de ´Guerra e Paz` e cujo antepassado mais ilustre é a ´Ilíada´” (permito-me acrescentar outro nome: “Comentários sobre a Guerra Gálica”, de Caio Júlio César). Uma Ilíada sem deuses; ao desistir de invocar a inspiração das Musas, Euclides pede auxílio à ciência, o ídolo de seu tempo. Homem de formação técnica, dava pleno crédito ao método científico e às descobertas do conhecimento humano, o que só lhe autorizaria a discorrer sobre um tema tão complexo com o devido substrato da razão. A ciência é,em “Os Sertões”, reafirmação de convicções e definição de caminhos a seguir, além de fixar o estilo euclidiano, único, de encarar e descrever a realidade.

Na “Nota Preliminar”, o autor reafirma o desejo de legar às gerações vindouras: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. Euclides via a si próprio como a personificação da figura do homem público, aquele tem como ideal de vida servir à Pátria.

A zona de influência de “Os Sertões” ultrapassou as fronteiras brasileiras. O húngaro Sándor Marái leu-o, apaixonou-se e escreveu “Veredicto em Canudos”. O peruano Mario Vargas Llosa tomou o sertão de Euclides como pano de fundo para narrar a “Guerra do Fim do Mundo”, e Borges incluiu Antônio Conselheiro em um de seus contos. Dentro do país, ajudou a fundar uma corrente regionalista, cujo ápice seria atingido em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Múltipla é também a utilidade do livro. Serviu e serve de estímulo aos patriotas fervorosos, aos acossados pelo complexo de inferioridade, aos vestibulandos desesperados e até aos entusiastas de um ex-presidente, legítimo representante dos homens traçados pelas coordenadas euclidianas e elevado por alguns à categoria de principal personagem de uma saga brasileira da qual “Os Sertões” seria o retrato paradigmático. A diferença reside no resultado final das duas contendas: o referido senhor venceu, e com boa vantagem, de fazer inveja aos soldados republicanos.

Pelas palavras de Euclides, o brasileiro passou a conhecer o sertão. Poderia nega-lo; ignora-lo, nunca mais. O Brasil atrasado, ibérico, medieval, rural, esquecido e fechado em si mesmo ia ao encontro dos grandes centros urbanos europeístas através dos períodos curtos e impactantes do engenheiro fluminense, como se cada frase fosse uma máxima.

Mais do que descrever o sertão, Euclides o desenha. Pioneiro, sua criação foi imitada à exaustão e corresponde, hoje, à triste imagem que temos daquela região. Essa mimese amplia os horizontes do chamado período realista em voga na época e antecipa tendências, como o neo-realismo italiano, mais preocupado em criar realidades do que em retratar uma. Sua ciência acaba valendo pouco diante do seu ímpeto inventivo, coroado até hoje. Sociólogos como Gobineau, citados à farta pelo autor, são hoje tidos como ultrapassados. Falar em raças inferiores nos dias atuais é cair no ridículo em qualquer colóquio de antropologia. O tempo foi implacável com o positivismo tão prezado pelo autor, e Comte é hoje figura mais presente na Bandeira Nacional do que nas discussões filosóficas. Da imensidão de aspectos que a obra abordou, esse mesmo tempo, sábio seletor, preservou o literário. Tal foi o destino de Euclides: queria ser homem público. Era, sem o saber, um artista.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 9/10/2018


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos de Jardel Dias Cavalcanti
02. As pedras de Estevão Azevedo de Wellington Machado
03. O papel aceita tudo de Jardel Dias Cavalcanti
04. De volta à antiga roda rosa de Elisa Andrade Buzzo
05. Alice in Chains, Rainier Fog (2018) de Luís Fernando Amâncio


Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol em 2018
01. Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração - 29/5/2018
02. Raio-X do imperialismo - 22/5/2018
03. De Middangeard à Terra Média - 10/4/2018
04. 40 anos sem Carpeaux - 20/3/2018
05. Reflexões sobre o ato de fotografar - 13/2/2018


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




IRACEMA - COLEÇÃO LITERATURA BRASILEIRA
VÁRIOS AUTORES
CIRANDA CULTURAL
(2014)
R$ 8,00



HISTÓRIA DO CONDE PIERRE E A PRINCESA MAGALONA
HISTÓRIA DO CONDE PIERRE E A PRINCESA MAGALONA
ANTÔNIO TEODORO DOS SANTOS
(2014)
R$ 15,00



O TESOURO PERDIDO DO GIGANTE GIGANTESCO
EDSON GABRIEL GARCIA
FTD
(2008)
R$ 5,00



A VIDA DO BEBÊ - 41ª EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA
DR. RINALDO DE LAMARE
EDIOURO
(2001)
R$ 15,00



POESIA REUNIDA
MARTHA MEDEIROS
L&PM
(2002)
R$ 10,00



THE GOLDEN TREASURY
FRANCIS TURNER PALGRAVE
PENGUIN GROUP
(1991)
R$ 49,90



A GUERREIRA DA LAPINHA
ELIESER CESAR
CASARÃO DO VERBO
(2012)
R$ 15,00



DAÍ NIPPON
WENCESLAU DE MORAES
NORDICA
(1993)
R$ 33,00



ROBINSON CRUSOÉ
DANIEL DEFOE
ABRIL CULTURAL
(1979)
R$ 18,00



A CABANA
WILLIAM P. YOUNG
SEXTANTE
(2008)
R$ 23,90





busca | avançada
28767 visitas/dia
851 mil/mês