A forca de cascavel — Angústia (Fuvest) | Renato Alessandro dos Santos | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 24/9/2019
A forca de cascavel — Angústia (Fuvest)
Renato Alessandro dos Santos

+ de 47700 Acessos


Muitos leitores preferem Angústia a qualquer outro livro de Graciliano Ramos. Não é meu caso. Ainda. Mas até agora Vidas secas é pra mim aquele monolito de 2001: uma odisseia no espaço. Por quê? Se o MacGyver, com um arame, dava vida a um carro, Graciliano, com meia dúzia de personagens, cria um monumento. Mas Angústia, diante do que exige do leitor, pode realmente tornar-se o Graciliano preferido justamente por sua escrita minuciosa e circular. Como em Vidas secas. É uma escolha que, após o mergulho do leitor nas caraminholas profundas de Luís da Silva, personagem-narrador de Angústia, torna tudo mais difícil, tal a altura que Graciliano alcança com sua obra. Não é pouco, e o autor de Memórias do cárcere, Caetés, Infância etc., figura na ordem das coisas como aquele escritor do qual, se tudo correr bem, a gente vai dessa pra melhor só depois de ter lido T.U.D.O. o que ele escreveu.

Luís da Silva, 35 anos, ama Marina, e vão casar, mas ela se engraça com outro, Julião Tavares, que a engravida. O casal até vinha preparando o enxoval, minando as economias do anti-herói, mas ela, feito carrapicho que se enrosca na barra da calça, bastou Julião passar, foi se enganchar no calcanhar dele, que nem tornozeleira eletrônica. Por falar nisso, já viu Vis a vis, na Netflix?

O casamento colapsa e também Luís, que vai atravessar os nove círculos do inferno, sozinho, sem nenhum Virgílio para lhe segurar a mão, além da gente, que não conta. Abismo adentro, ele abre a porta apenas para nos deixar passar, seus seguidores, como você já sabe, nos dando acesso à sua cabeça de esturjão. Estúrdio, estúrdio... Lá dentro, mergulhamos fundo no castigo que inflige a si mesmo, num desabafo sem autopiedade, sem concessão, sem vergonha alheia. Luís pode parecer um niilista, mas é mais alguém que passou por uma experiência traumática, levando sua revolta ao nível daqueles que perdem a razão, e aí fazem besteira. É o caso desse revoltado que tem de, como no primeiro disco do Metallica, procurar e destruir. Procurar o quê? Sarna? Não, V, de vingança, de vendetta. Como muita gente que, desvalorizada, se vê traída, autocomiseração nas alturas, Hosana e tal, ele não vai aceitar os poucos grãos que a vida lhe dá, e armado com uma metralhadora giratória imaginária, que não passa de sua verborragia carregada de rancor e ódio, leva-nos bem no meio da selva onde seu coração, em trevas, queima. É um romance que exige a atenção do leitor e, mais do que isso, paciência, e mais ainda do que isso, releitura.

Paciência, sim. Sabe aquela história de jogar o livro longe, tipo Dorothy Parker? Não faça isso. Luís da Silva passando na rua, talvez, não chamasse a atenção de ninguém, mas ele, sozinho, carregando nas costas seu calvário pessoal, torna-se interessante, interessantíssimo! Com ele, chegamos ao fundo do poço, sem menos nem mais: quer saber o que passa pela moringa de uma pessoa fora de si, transtornada, prestes a pifar? Se você vier a ler Angústia, vai encontrar uma mente em parafuso; não que alguns estejam faltando, ou talvez até estejam, mas o sujeito desinteressante atravessando a rua vira um narrador-personagem de primeira, daqueles que têm algo importante a dizer e, por isso, só por isso, não dá para deixá-lo sozinho, sem nada na despensa, e é meio impossível não se espantar com a esgrima literária de alguém que, tendo acabado de cometer um crime, comenta: “Corria e chorava, certo de que o esforço era perdido, porque o meu chapéu tinha ficado à beira do caminho, sobre as moitas. No dia seguinte passaria de mão em mão e chegaria à minha cabeça”. Essa capota, esse chapéu, é agonia e perplexidade... É preciso partilhar o pão, e Luís o divide com os leitores, mesmo sem nenhuma Coca-Cola ou qualquer outro refrigerante sobre a mesa. O pão está seco, duro e prestes a mofar.

Releitura, sim. Uma boa estratégia a quem não entende totalmente o final do romance é... voltar ao início. Sim, ao início:

"Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios."


De cara, esse primeiro parágrafo de Angústia já é uma resposta ao último, e é coerente com a narrativa circular, psicológica, que Luís oferece, sofrendo como títere nas mãos de um audacioso Graciliano. É engenhoso. É voltar ao início para reler o que Luís conta e, quando menos se imagina, as fichas vão caindo, uma a uma, para a satisfação do leitor que não se deu por vencido e pelejou, lá e de volta outra vez...

Cordas, círculos, fios, arames, cascavéis

Um personagem não deve chegar ao final de um romance e morrer de pneumonia, se, antes, em nenhum momento, nem sequer tossiu, certo? Certo. Essa é uma lição que grandes autores passam. Não que o protagonista vá morrer de pneumonia, mas por todo o romance, até o clímax - que dura 20 e poucas páginas da mais pura aflição ao personagem e à gente, que, nessas contradições do espírito, até torce para o moço se safar de um crime, sem castigo, se possível, mas se esquecendo de que, na verdade, ele escapou mesmo, certo? Ileso? Não. Psicologicamente, não. Decompôs-se, fragmentando, evadindo sua loucura em algo que, em literatura, pode ser tangível e mensurável -, Luís vai ver a presença de cordas em tudo quanto é canto: fios, arames, cascavéis, canos... O leitor, especialmente aquele adestrado na arte da leitura, desconfia de que virá algo daí e vai se preparando: Luís olha para o encanamento anexado à parede, exposto, e imagina uma corda estendida; nota os fios de eletricidade e pensa em cordas que não afrouxam; nem mesmo a garganta apertada pelo nó da gravata escapa etc., mas nada supera a cascavel que se enrosca no pescoço do avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, numa das invocações que faz do passado — aqui, da infância. Vale a leitura:

"As cascavéis torciam-se por ali. Uma delas enroscou-se no pescoço de Trajano, que dormia no banco do alpendre. Trajano acordou, mas não acordou inteiramente, porque estava caduco. Levantou-se, tropeçando, gritando, e sapateou desengonçado como um doente de coreia. Uma alpercata saltou-lhe do pé. E ele, arrepiado, metia os dedos entre os anéis do colar vivo: — Tira, tira, tira. Quem ia tirar a cascavel que chocalhava no pescoço do velho? Eu era miúdo e olhava aquilo com espanto. Parecia-me que a cobra era um enfeite, uma coisa que Trajano enrolara no pescoço para ficar diferente dos outros velhos. Quem ia tocar nela? — Tira, tira, tira. Quitéria puxava o rosário de contas brancas e azuis: — “Misericórdia!” Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva dançava no chão de terra batida. Afinal a cobra se soltou, Camilo Pereira da Silva matou-a com o macete de capar boi e Quitéria levou-a pendurada num pau, a cabeça encostada ao rabo, balançando como uma corda, e foi jogá-la para lá dos juazeiros."

O que dizer dessa sensação por que passa Trajano? Uma corda, ou melhor, uma cascavel enforcando, enforcando... Os dedos do avô entre o pescoço e o bicho, enquanto ele não se livra da... forca... E por que Luís narra com tanta naturalidade o que aí vai terrível, como se uma cascavel no pescoço fosse algo tão comum quanto... atravessar uma rua num domingo à tarde?

A linguagem é uma cavalaria, e no lombo, nós, pendurados à crina do bichinho, e, horas dessas, a gente vai caindo: Luís vai do presente ao passado sem nem mesmo mudar de parágrafo. O mergulho é medula adentro. A narrativa é costurada aqui, ali, com prezar de rendeira — as rugas a despontar uma a uma. É que diante de tamanho engenho, em retribuição, o leitor não deve desistir, e ele não desiste; insiste, sobe de novo no cavalinho, até que cai, e levanta, cai, e levanta, cai e levanta, cai e levanta cai e levanta cai e levanta cai e levanta... Assim mesmo: de tropeço em tropeço até o galope definitivo quando, finalmente, é laçado, numa expressão que leva a gente de novo às cordas.

No romance, o leitor não estranha quando Seu Ivo, um mendigo, presenteia Luís com um pedaço de corda que, em hora grave, o agressor vai encontrar em seu bolso. Como toda vingança, não há paladar que se ajuste ao prato servido cru, e se tudo poderia melhorar, tornar-se um assassino não há de ser nunca uma recompensa adequada ao que há de vir. Assim, no galho de uma árvore (símbolo de vida), um corpo ficará balançando, feito um pêndulo, que de lá para cá vai ceifando a sanidade do narrador, para desespero nosso, seus leitores, que ao final até poderíamos ficar incapazes de saber se um crime teve seu castigo em curso — feito essas maldições que num filme de terror sempre chegam ao seu destino —, o que não foi o caso; o caso é que, longe da prisão, o diabo foi mesmo tomar cachaça dentro da cabeça do protagonista, com as janelas da casa cerradas, enquanto à revelia uma festa ia acontecendo — uma festa à qual Luís da Silva não queria ir e que se estende, circular, ininterrupta, do primeiro ao último parágrafo, feito uma corda, feito a forca de cascavel do avô Trajano.

Nota do Autor
Renato Alessandro dos Santos, 47, é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia e de O espaço que sobra, seu primeiro livro de poesia (ambos publicados pela Engenho e arte).

Nota do Editor
Você encontra várias edições de Angústia no Portal dos Livreiros. Também, outros títulos clássicos de Graciliano Ramos.


Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 24/9/2019


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