Mas isso é arte??? | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
38108 visitas/dia
862 mil/mês
Mais Recentes
>>> Punk 77: Tributo aos 40 anos do Punk com shows gratuitos em SP (29/7)
>>> Teatro do Incêndio promove oficina de teatro e artes integradas para jovens e crianças na Bela Vista
>>> A artista Claudia Malaguti participa de coletiva no Centro Cultural Light
>>> MAIOR EXPOSIÇÃO DE POESIA DO BRASIL PROMOVE SARAUS NA CAIXA CULTURAL RIO DE JANEIRO
>>> 2º Festival Cine Inclusão abre inscrições para oficinas de capacitação em cinema para idosos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Apontamentos de inverno
>>> Literatura, quatro de julho e pertencimento
>>> O Abismo e a Riqueza da Coadjuvância
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
>>> Um caso de manipulação
>>> Brasil, o buraco é mais embaixo
>>> Nós que aqui estamos pela ópera esperamos
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 3. Um Jogo de Poker
>>> Retratos da ruína
>>> Notas confessionais de um angustiado (VI)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
Últimos Posts
>>> Os opostos se atraem
>>> Coração de mãe
>>> Mascarando a dor
>>> Quanto às perdas II
>>> Pesquisa e blog discutem
>>> Náiades
>>> Equino
>>> Vágado
>>> Raízes II
>>> ITINERÁRIO (Poemeto kafkiano)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O amor é um jogo que ganha quem se perde
>>> A revista Bizz
>>> Retratos da ruína
>>> A essência do sabor
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> Amar la Trama, de Jorge Drexler
>>> Com intervalos de música séria
>>> Recordações da casa dos mortos
>>> Para ler o Pato Donald
Mais Recentes
>>> A Mãe ( Saúde e Cura no Yoga)
>>> O Progresso
>>> 1 Corintios 11 a 16
>>> Uma Introdução à Bíblia. (Coleção completa, 8 volumes)
>>> Uma Introdução à Bíblia. As comunidades cristãs a partir da segunda geração (Vol. VIII)
>>> Uma Introdução à Bíblia. As comunidades cristãs da primeira geração (Vol. VII)
>>> Uma Introdução à Bíblia. Período Grego e Vida de Jesus (Vol. VI)
>>> Uma Introdução à Bíblia. Exílio babilônico e dominação persa (Vol. V)
>>> Uma Introdução à Bíblia. Reino dividido (Vol. IV)
>>> Uma Introdução à Bíblia. Formação do Império de Davio e Salomão (Vol. III)
>>> Uma Introdução à Bíblia. Formação do Povo de Israel (Vol. II)
>>> Uma Introdução à Bíblia. Porta de entrada (Vol. I)
>>> O mercador de tapetes
>>> O Sári Vermelho
>>> Contos De Todos Os Cantos - Projeto Literário 2013
>>> Quem é Quem na Bíblia
>>> Bíblia Deus Conosco: Introdução à Bíblia
>>> Deus. Onde estás?. Uma introdução prática à Bíblia
>>> Jesus, O Maior Psicólogo Que Já Existiu
>>> O Que Toda Mulher Inteligente Deve Saber
>>> Quem Mexeu No Meu Queijo?
>>> Química - Volume Único - 7ª ed. reformulada
>>> Diário de um Banana
>>> O Arco Íris De Feynman
>>> Meios de Comunicão e Democracia: Além do Estado e do Mercado
>>> Diário de um Banana, Rodrick é o cara
>>> A Escada Dos Anos
>>> A Quinta Estação
>>> O Teorema Katherine
>>> Nenê Bonet
>>> Greenwich Village 1963
>>> A Elite
>>> Pós Modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio
>>> A Seleção
>>> Quando Nietzsche chorou
>>> Estudo da Filosofia Espírita
>>> Nietzsche para estressados
>>> O Degustador de Pamonhas
>>> Fronteiras do medo, quando Hollywood refilma o horror japonês
>>> O mundo de Sofia
>>> Casablanca, a criação de uma obra-prima involuntária do cinema
>>> Era Uma Vez no Spaghetti Western: o Estilo de Sergio Leone
>>> Maretenebrae: a queda de Sieghard
>>> O Menino que Perdeu a Magia
>>> Mundo de Fantas
>>> O Reino Dourado: Em Nome de Fanom
>>> Delírio, poesia e morte: a solidão de Álvares de Azevedo
>>> Livraria Limítrofe
>>> As HQs dos Trapalhões
>>> E Cuidado com o Sal
COLUNAS >>> Especial Arte

Quarta-feira, 29/8/2001
Mas isso é arte???
Daniela Sandler

+ de 6300 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Yara Mitsuishi

“Mas isso é arte???” Você talvez já tenha feito essa pergunta. Eu já perguntei, diante de muita instalação em galeria de arte, como por exemplo um monte de saquinhos de vômito de avião, olhando em redor para ver se algum especialista definia a palavra. “Arte”, o que é? Não adianta olhar no dicionário. Não estou falando dos muitos sentidos do termo nem da definição clássica. Estou pensando na conotação especial, mágica – fetichista, se quiserem –, mística que acompanha a idéia de objetos artísticos, artistas, criação, obra de arte.

Quando os modernos, no começo do século 20, romperam a representação figurativa da realidade com manchas coloridas ou formas geométricas, muita gente torceu o nariz. “Mas isso é arte???” Horror dos horrores, aqueles quadros e esculturas expostos poderiam ter sido feitos por uma criança! Ou talvez as formas e cores distorcidas fossem o produto de mentes degeneradas, como diziam os nazistas! Alguns temiam que fosse simples tiração de sarro. Público e críticos – incluindo Monteiro Lobato com o célebre ataque a Anita Malfatti em “Paranóia ou Mistificação?” – reagiram muitas vezes com violência.

O curioso é que, hoje em dia, quase cem anos depois, as obras modernas estão devidamente consagradas pelas instituições que ditam as normas culturais (museus, faculdades, livros...), e a situação se inverteu. Boa parte do público e críticos de arte vai torcer o nariz diante daquilo que, há um século, parecia seguramente ser arte: paisagens, retratos, representações fiéis e convencionais da realidade, pinturas acadêmicas. Quadros que você pode ver na loja do Roberto Camasmie (com o devido outdoor eletrônico), na Praça da República, em algumas galerias de arte comerciais. “Mas isso é arte???” De novo, o coro escandalizado – e violento.

Berço e cadeirão

Lembro-me de uma visita ao Masp há dez anos. Eu estava no terceiro colegial e fui com amigos mostrar nosso museu a um intercambista canadense. Lá no andar de baixo, junto às rampas vermelhas, arte contemporânea brasileira. Um dos artistas expunha três obras (todas intituladas “Sem título”, como sempre): um berço, uma banheirinha suspensa de bebê e um cadeirão. As três peças eram evidentemente da mesma linha, pois o plástico que as revestia tinha a mesma estampa. As peças estavam meio detonadas: plástico rasgado, manchas de tinta, revestimento descascado.

Veja bem: éramos um grupo privilegiado em termos artísticos. Tínhamos aula de história da arte, conhecíamos as inovações modernistas, freqüentávamos museus. Mas foi demais. Não gastamos muito tempo vociferando: estávamos nos divertindo. Meu amigo jogou sua mochila no chão, no meio do piso, e eu passei em volta da mochila, admirando: “Oh que obra de arte profunda!” Tudo virou obra de arte – ou melhor, tudo virou piada: a mochila, a lata de lixo, nós mesmos em pose de estátua, a pedra do piso. Rindo castigas mais (assim está em O Nome da Rosa, e com razão), mas rir não resolve o nosso problema.

Tenho de confessar, se é que os mais atentos já não pensaram nisso: faço doutorado no Departamento de... História da Arte! Devia já ter chegado a alguma conclusão, não? Não. Tenho a desculpa confortável de que o meu negócio é arquitetura, não arte. Arquitetura é mais fácil: está na interseção entre arte e utilidade, criação e técnica.

Mas a desculpa não me convém. Digo com todas as letras que, mesmo tendo feito cursos sobre arte, lido textos teóricos, mesmo estando rodeada por historiadores da arte e por artistas, eu não tenho a resposta para a pergunta: “Mas isso é arte?”

Em parte porque o tema é complexo demais (e, enquanto eu escrevo esse texto, vou pensando em dezenas de implicações e desdobramentos que gostaria de citar aqui – o que não farei, para não transformar a coluna em mau ensaio acadêmico). Em parte, porém, há outro motivo mais importante: porque arte é definida historicamente. Socialmente. Não é como uma cenoura, por exemplo, que é cenoura para mim, para você, para o coelho e para Picasso. Que sempre foi cenoura desde que cenoura apareceu na Terra (independente do nome que lhe damos).

Arte, como outros termos abstratos e complexos, tem significado contigente e sempre em transformação. Muda o que nós entendemos por arte, mas não só isso: muda tudo. Muda a maneira de produzir arte, mudam os artistas, e muda o produto final. Quando o produto muda, muda também nossa maneira de olhar, perceber e reagir. E, por fim, muda o conceito, afetado por tudo isso – e por sua vez afetando todos esses modos também.

Todas essas mudanças não são gratuitas. As condições de vida mudam, a tecnologia progride, o mundo material que nos rodeia se transforma; as relações sociais também se modificam, as crenças, os valores; os eventos históricos se sucedem, e, pensando assim, não é de surpreender que mudem as obras de arte, assim como as roupas, as comidas e até os corpos (ou os ideais de beleza).

Poder místico

Mas e o tal poder mágico ou místico da obra de arte? Será que é só porque está no museu? Não haverá algum critério?

Sempre penso em como tudo começou. As primeiras obras de arte foram as pinturas nas paredes das cavernas e as estatuetas femininas. Esses objetos tinham funções mágicas ou místicas: atrair sucesso na caça ao bisão, garantir fertilidade. Por que sua importância cultural? Porque testemunham a capacidade para o pensamento simbólico e abstrato, a representação de eventos por meio de ícones, a atribuição de significado a determinadas formas. Não apenas a raiz do pensamento simbólico: também a origem do contrato social, já que o significado dos desenhos ou amuletos era uma convenção, um acordo entre os membros de um grupo (voltamos aí ao caráter convencional, socialmente definido, da arte).

A arte, na origem, tinha esse poder mágico. Não surpreende que a arquitetura grega seja magnífica em templos dedicados aos deuses, ou que boa parte da produção estética e intelectual da Idade Média tenha sido sacra. Quando penso nisso, penso que é como se essa conotação mística e religiosa tivesse impregnado nossa expectativa em relação à arte até hoje – como se isso tivesse sobrevivido às outras mudanças (ou quase – há gente que vê arte de um ponto de vista puramente intelectual; há também os cínicos).

É nisso que eu penso quando vou a um museu. Quero dizer, quando vou ao museu como eu mesma e não como doutoranda em Estudos Culturais e Visuais. Eu me ponho diante da obra e, no meio de toda a análise formal ou histórica, sempre me faço uma espécie de pergunta, ou me abro para a resposta que a obra pode me dar: pode ser um insight, um sentimento, um estímulo ao pensamento, uma cadeia de associações-livres... às vezes a obra faz um comentário político, às vezes me emociona, às vezes traz uma lembrança. Uma obra que é significativa, para mim, vai me atingir de alguma dessas formas, antes mesmo que eu formule a questão: “Mas isso é arte?”

Sei que alguns hão de discordar da maneira jocosa com que me referi, no começo do texto, a uma obra da artista Jac Leirner – a tal obra que usou um monte de saquinhos de vômito, e que ganhou certa notoriedade por conta disso. Sem nenhuma intenção de ofensa, eu comecei a tentar lembrar como era a obra, para poder descrevê-la aqui. Não lembrava se eram costurados, se era em forma de corda, se era em forma de manta, se eram amontoados... Só lembrava que era um monte de saquinho de vômito junto (sem vômito, diga-se). Achei minha falha de memória significativa. Afinal, só o que lembro, em relação à obra, são os saquinhos de vômito. Uma instalação que é lembrada por isso – e não por sua “mensagem” artística ou por suas qualidades formais: gente, preciso dizer mais???

Antes que meu tempo acabe, uma última consideração: embora eu me deixe envolver por objetos artísticos (até já chorei diante de gravura em museu), sou contra a confusão entre arte e “arteterapia”. Acho bacana que qualquer um possa socar argila ou empunhar pincéis para exorcizar fantasmas (ou divertir as mãos), mas não é isso que faz do produto uma obra de arte. Do mesmo modo que o meu diário não é literatura.

Para quem se interessar pelo assunto, recomendo o texto “A Obra de Arte na Era da Reprodução Mecânica”, do Walter Benjamin. É um texto, por assim dizer, básico. Benjamin tem um estilo fluente, solto, nada empoeirado. É um dos textos que mais me ajudaram a entender o que é arte.


Daniela Sandler
Rochester, 29/8/2001


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O dia que nada prometia de Luís Fernando Amâncio
02. Marcador de página inteligente de Wellington Machado
03. Novos velhos e lagostas de Carla Ceres
04. Procure saber: os novos donos da história de Gian Danton
05. Blue Man Group: uma crítica bem-humorada ao rock de Diogo Salles


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2001
01. O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece - 8/8/2001
02. Quiche e Thanksgiving - 21/11/2001
03. A língua da comida - 29/5/2001
04. Mas isso é arte??? - 29/8/2001
05. Notícias do fim-do-mundo - 24/10/2001


Mais Especial Arte
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/10/2001
00h00min
Daniela, gostei da matéria e gostaria de saber exatamente em que livro do Walter Benjamin está esse texto.Abração do Mário!
[Leia outros Comentários de Mário G. Montaut]
2/10/2002
08h13min
Oi, Gostei do texto. Gostei principalmente pq, apesar de dizer o q acha de certas "representações artísticas", vc deixou em aberto q quem pensa o contrário não é exatamente um idiota, expediente muito comum em alguns de seus colegas de digestivo. Parabéns
[Leia outros Comentários de elvis]
28/12/2013
10h11min
Fico com Braque, Gerhard Richter e tantos outros artistas que ao longo de toda história disseram a mesma coisa com palavras diferentes: Falar sobre arte, explicar a arte, é desnecessário. Da primeira metade do século XX pra cá, principalmente, o observador passou a exercer papel fundamental nas obras. Percebeu-se que interpretações múltiplas podiam e deviam ser aceitas, o que não anula a questão do contexto histórico e da intenção do artista, apenas se torna, no mínimo, igualmente importante.
[Leia outros Comentários de Raphaela]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CINCO NOVELAS EXEMPLARES - MIGUEL DE CERVANTES (LITERATURA ESPANHOLA)
MIGUEL DE CERVANTES
ARTE E LETRA
(2012)
R$ 18,00



RASTRO DA FÉ
MARTHA HUMBARD
BETÂNIA
(1980)
R$ 49,90
+ frete grátis



O TERRAÇO E A CAVERNA
MAURÍCIO LIMEIRA
FUNDAÇÃO CULTURAL DO ESTADO DO PARÁ
(2016)
R$ 27,00
+ frete grátis



MACHADO DE ASSIS - MELHORES CRÔNICAS
MACHADO DE ASSIS
GLOBAL
(2003)
R$ 20,00



DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA E O VATICANO II
LUIZ GONZAGA SCUDELER
PAULUS
(2014)
R$ 17,00



REVELAÇÕES - ASSASSIN'S CREED
OLIVER BOWEN
GALERA
(2013)
R$ 12,00



A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - OS 2174 DIAS QUE MUDARAM O MUNDO
MARTIN GILBERT
CASA DA PALAVRA
(2014)
R$ 35,00



TRABALHO CORPORAL INTUITIVO
LOIL NEIDHOEFER
SUMMUS
(1994)
R$ 14,00



O LIVRO DAS ATITUDES
SÔNIA CAFÉ
PENSAMENTO
(1992)
R$ 15,75
+ frete grátis



HAMLET - ADAPTAÇÃO DE LEONARDO CHIANCA
WILLIAM SHAKESPEARE
SCIPIONE
(2002)
R$ 27,90





busca | avançada
38108 visitas/dia
862 mil/mês