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Quinta-feira, 13/4/2017
Os Doze Trabalhos de Mónika. 1. À Beira do Abismo
Heloisa Pait

+ de 1900 Acessos

Está no ar a segunda aventura de Mónika, O Catolotolo.

O campus era lindo. Os pequenos prédios de concreto pintado dispunham-se em ziguezague, ligados por passarelas de terra vermelha que de tempos em tempos alguém resolvia calçar. De inverno a outono, o sol brilhava. O calendário flutuava conforme as greves. Mónika retomava hoje o hábito interrompido de passear à tarde pelo campus, quebrando assim as horas diante do computador. Cruzou o jardim central, onde recentemente tinham erigido um prédio, e circundou o refeitório. Um grupo de jovens cuidava da horta comunitária. Outro sustentava cartazes frente à diretoria. Atrás, uma construção nova, de um piso só, abrigava salas de apoio variadas. Depois o pomar, com as árvores todas da terra. Tinha um loureiro, com suas folhas duras e grossas. E também árvores que davam frutinhas mais azedas que pitanga. Sempre pensava em levar algumas para casa, mas na correria acabava esquecendo!

Andou até o campo de futebol, o sol já estava baixo. Luminoso, mas baixo. Depois passou pelos abacateiros, e aí aquela espécie de cisterna, não sabia bem o que era, talvez tratamento de esgoto, um cogumelo de concreto parecido com o que seus pais descreviam haver na Romênia. Ficou olhando a cisterna ou o que fosse. Por que ninguém ia ali? Será que era perigoso? Nem bitucas de cigarro, nem preservativos, nada. Nenhum encontro clandestino. A cisterna seria, sei lá, contaminada, radioativa? Nem pichações. Um domo de concreto e Mónika olhando. Não era uma mulher corajosa. Só que não temia por antecipação, não pensava: “Não vou lá pois ninguém vai e é perigoso.” Quando temia, já era tarde demais, estava ali e aquela cisterna podia degluti-la que ninguém saberia. Abandono de emprego.

Contemplou a cisterna como se fosse uma pirâmide egípcia, um monumento inca. Aí fugiu, só que avançando na mata. Havia uma trilha, ela caminhou bem cuidadosa. E se tropeçasse? Estava longe de qualquer um, nem grito ouviriam. A trilha descia um pouco, depois terminava numa pirambeira. Mas onde? A mata encobria. Agachou para enxergar entre os troncos, se inclinou para frente, ia cair de boca, jogou o corpo pra trás, caiu de bunda, escorregou mas conseguiu se prender a um tronco grosso, com o braço. Estava pendurada pelo cotovelo e no mais parecia solta. Teve medo do ombro se despregar, teve um pânico infernal. Depois se acalmou, viu que tinha apoio no quadril, e podia buscar um lugar onde apoiar o pé direito. O joelho esquerdo meio encalacrado numa árvore, imprestável. Empurrou-se para cima, conseguiu botar a mão esquerda no tronco, empurrou-se mais um pouco, finalmente sentou na beira da trilha, as mãos todas sujas de barro. Teve ânsia, viu o vômito escorrendo pirambeira abaixo, observou as mãos tremendo, sentiu o coração aos poucos se acalmando pensou: “quase me estrepo toda.” Respirou fundo, enxugou a boca no braço da camisa, levantou-se e voltou ao campus.

Não estava bem. As pernas tremiam, não conseguia passar perto da cisterna, não estava bem mesmo.

– Professora, Professora Mónika, a senhora está bem?

Mónika procurava a voz.

– Professora, aqui, a senhora está bem?

Um senhor acenava para ela mais ao alto. Ela fez que sim. Ele se aproximou.

– Está bem mesmo?

– Que bom o senhor aqui, na verdade queria um copo d’água, sentar um pouco. Que bom o senhor passando.

– Depois que a vi nos abacateiros, resolvi acompanhá-la com os olhos.

É verdade, um funcionário da faculdade havia puxado conversa sobre os abacateiros. Tinha falado de outras árvores também, plantas frutíferas.

Caminhavam juntos.

– O senhor tem um sotaque, de onde é?

– Sou da Galícia.

– Espanhola?

– Por certo, a Galícia espanhola. Conhece galego?

– Alguns autores só. Nunca estive lá. O senhor trabalha aqui?

– Sim, sou o supervisor da manutenção. Já nos vimos algumas vezes.

– Perdão, sou distraída. Perdão.

– Não há razão. Venha, vou lhe oferecer um copo d’água e um banquinho para se sentar.

O homem lhe estendeu o braço e ela, que não sabia muito bem andar apoiada, aceitou. Andaram pela grama alta até um pequeno casebre de madeira, com uma porta precária fechada a cadeado.

– Venha, sente-se cá.

O lugar era escuro. A vista demorou a se adaptar. Mónika ficou em pé, olhando o espaço apertado, iluminado por uma lâmpada pensa ao teto.

– Joaquín – ele disse, adiantando-se na apresentação e oferecendo um copo d’água. Havia no lugar uma pia de mármore, copos de vidro grosso, e o filtro de barro. Não se parecia com os outros lugares do campus, feitos de alumínio e plástico.

– Prazer. Desculpe. – Ao invés de agradecer, ela se desculpava.

Sentou e voltou a desculpar-se.

– Desculpe.

Ele ficou de pé, tirou um pano pendurado na torneira, molhou, torceu e ofereceu para ela. Ela passou no rosto, depois na boca, aos poucos o gosto ruim ia embora. Finalmente agradeceu:

– Obrigada. O que o senhor faz mesmo?

– Sou o supervisor de manutenção.

– Mas que é isso?

– Se uma porta se quebra, é meu setor que conserta.

– E o vespeiro?

Havia um vespeiro no meio do prédio de aulas. Mónika entrava na sala e se perguntava o que aconteceria se alguém incomodasse as vespas, se elas iriam para cima dos alunos dela. E se alguém tivesse alergia, como seria?

Joaquín riu.

– Agora entendo por que uma mulher tão bonita quanto a senhora tem tantos adversários. – Jogou a cabeça para trás e riu novamente. – Praticamente a salvo do abismo e a senhora vem me cobrar a respeito do ninho de insetos. É mesmo uma pândega.

Mónika riu também. Gostava que rissem dela. Virou a cabeça para baixo e para o lado, sorriu.

– Mas o vespeiro é um perigo, não?

– Sim, mas é responsabilidade da vigilância sanitária, não da universidade. Não se pode perturbar assim a natureza ao bel-prazer. Se a vigilância atestar que há um risco, aí podemos contratar um serviço de remoção.

– Entendo. – Mónika já não pensava nas vespas. Voltava a atenção ao quartinho, com a copa à direita, ferramentas penduradas na parede atrás de si, e uma enorme estante na outra, no lado oeste. – Vejo que tem muitos livros aqui. Da biblioteca?

A estante, observando bem, estava a um palmo da parede. Joaquín cuidava bem dos livros, e não queria umidade. A prateleira superior, além disso, tinha uma espécie de cobertura por cima, como um chapéu, um teto.

– Alguns são, sim, emprestados. A maioria comprei, alguns são doações de professores. Tenho fama de ler, então mos dão.

– E você... esse lugar... você sempre vem aqui?

– É um canto que construí para mim, não é parte do campus. Quer dizer, está no campus, mas não oficialmente, entende? Então venho aqui ler uns livros e passar o tempo. Apetece-lhe o lugar, pois não?

– Sim. Acho que sim.

– Venha quando quiser, professora.

Entre o banquinho e a estante, cortando o puxado todo, havia uma rede de dormir. Atrás dela, uma luminária nova em folha, cromada, potente. Era ali que Joaquín lia, com certeza. Olhou para ele e sorriu, sem jeito. Estava toda ela sem jeito ali naquele barraco.

– Acho que estou cansada, o... o incidente, o susto, cansei mesmo.

– Fique à vontade, professora. Querendo deitar-se na rede, ela está aí para isso mesmo, para que nos recuperemos.

Ela pulou para a rede, ele ocupou o banquinho.

– Queria apenas, se não fosse importuná-la, tocar-lhe os belos seios, mas isso apenas se não houver qualquer objeção de sua parte.

– Nenhuma – ela disse.

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência


Heloisa Pait
São Paulo, 13/4/2017


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