Sob Custódia, de Anita Desai | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
65370 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Missão à China
>>> Universidade do Livro desvenda os caminhos da preparação e revisão de texto
>>> Mississippi Delta Blues Festival será On-line
>>> Tykhe realiza encontro com Mauro Mendes Dias sobre O Discurso da Estupidez
>>> Trajetória para um novo cinema queer em debate no Diálogos da WEB-FAAP
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Alameda de água e lava
>>> Entrevista: o músico-compositor Livio Tragtenberg
>>> Cabelo, cabeleira
>>> A redoma de vidro de Sylvia Plath
>>> Mas se não é um coração vivo essa linha
>>> Zuza Homem de Mello (1933-2020)
>>> Eddie Van Halen (1955-2020)
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - II
>>> Vandalizar e destituir uma imagem de estátua
>>> Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes
Colunistas
Últimos Posts
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
>>> Como elas publicavam?
>>> Van Halen no Rock 'n' Roll Hall of Fame
>>> A última performance gravada de Jimmi Hendrix
Últimos Posts
>>> Normal!
>>> Os bons companheiros, 30 anos
>>> Briga de foice no escuro
>>> Alma nua
>>> Perplexo!
>>> Orgulho da minha terra
>>> Assim ainda caminha a humanidade
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Asia de volta ao mapa
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Micronarrativa e pornografia
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Literatura Falada (ou: Ora, direis, ouvir poetas)
>>> Viva a revolução
>>> AC/DC 1977
>>> As maravilhas do mundo que não terminam
>>> Nem Aos Domingos
>>> A pintura do caos, de Kate Manhães
Mais Recentes
>>> Les Confessions de Jean-Jacques Rousseau pela Hachete (1903)
>>> O primo Basílio de Eça de Queirós pela Abril Cultural (1979)
>>> Revue Française de Science Politique Volume XXI Numéro 3 juin 1971 de Jean Brusset, Mattei Dogan e outros pela Puf (1971)
>>> Introdução à Geografia da População de Wilbur Zelinsky pela Zahar (1974)
>>> Revista do Brasil de Antonio Candido, Celso Furtado, Julio Cortázar, Manoel Bonfim, Poty e outros pela Rioarte / Funarte (1984)
>>> Painel da Literatura em Língua Portuguesa de José de Nicola pela Scipione (2010)
>>> Crónica de una muerte anunciada de Gabriel García Márquez pela Plaza Janés (1999)
>>> Marlene D de Marlene Dietrich pela Nordica (1984)
>>> Notícia de un secuestro de Gabriel Gacía Máquez pela Plaza Janés (1999)
>>> Há Males Que Vêm Para Bem de Alec Guinness pela Francisco Alves (1990)
>>> Vivir para Contarla de Gabriel García Márquez pela Debolsillo (2017)
>>> Tango Solo de Anthony Quinn, Daniel Paisner pela Nova Fronteira (1995)
>>> El Coronel no Tiene Quien le Escriba de Gabriel Gacía Máquez pela Plaza Janés (1999)
>>> Laços Eternos de Zibia Gasparetto pela Edicel (1979)
>>> A garota que eu quero de Markus Zusak pela Intrínseca (2013)
>>> O inverno das fadas de Carolina Munhóz pela Casa da palavra (2012)
>>> Treinando a emoção para ser feliz de Augusto Cury pela Academia (2010)
>>> E se for você? de Rebecca Donovan pela Globo (2016)
>>> O guardião de Nicholas Sparks pela Arqueiro (2013)
>>> O casamento de Nicholas Sparks pela Arqueiro (2012)
>>> Inferno atlântico. Demonologia e colonização. Séculos XVI-XVIII de Laura de Mello e Souza pela Companhia das Letras (1993)
>>> Um porto seguro de Nicholas Sparks pela Novo Conceito (2012)
>>> Ouse ir Além - Coaching para Resultados Extraordinários de José Roberto Marques pela Ibc (2016)
>>> Segundo - Eu me chamo Antônio de Pedro Gabriel pela Intrínseca (2014)
>>> Doce Cuentos Peregrinos de Gabriel García Márques pela Plaza Janés (1999)
>>> A cadeira de prata - As crônicas de Nárnia de C. S. lewis pela Martins Fontes (2003)
>>> Ases nas alturas - Wild Cards de George R. R. Martin pela Leya (2013)
>>> Homens de grossa aventura. Acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro 1790-1830 de João Luís Fragoso pela Civilização Brasileira (1998)
>>> Anjos caídos de Asa Schwarz pela Planeta (2010)
>>> Um conto do destrino de Mark Helprin pela Novo Conceito (2014)
>>> O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Mello e Souza pela Companhia das Letras (1986)
>>> O Antigo Regime nos trópicos de João Fragoso & Maria Fernanda Bicalho & Maria de Fátima Gouvêa. Organizadores pela Civilização Brasileira (2010)
>>> Dominguinhos o Neném de Garanhuns de Antônio Vilela de Souza pela Garanhuns (2014)
>>> Viva a Vagina de Nina Brochman / Ellen Sorkken Dahl pela Pararela (2017)
>>> Grandes Pensadores em Psicologia - 10A de Rom Harré pela Roca (2009)
>>> A Amiga Genial de Elena Ferrante pela Biblioteca Azul/ Globo (2015)
>>> Steve Jobs : a biografia de Walter Isaacson pela Companhia Das Letras (2011)
>>> A Encantadora de Bebês de Tracy Hogg; Melinda Brau pela Manole (2006)
>>> Cien Años de Soledad de Gabriel Garcia Marques pela Plaza Janés (1999)
>>> O Taro Adivinhatório de Vários pela Pensamento
>>> Os Segredos de Uma Encantado de Bebês de Tracy Hogg; Melinda Brau pela Manole (2002)
>>> A Droga da Obediência de Pedro Bandeira pela Moderna (2009)
>>> O Paraíso na Outra Esquina de Mario Vargas Llosa pela Arx (2003)
>>> A Festa da Insignificância de Milan Kundera pela Companhia das Letras (2014)
>>> História da Menina Perdida de Elena Ferrante pela Biblioteca Azul/ Globo (2017)
>>> A Lenda do Graal (Do Ponto de Vista Psicológico) de Emma Jung e Marie Louise Von Franz pela Cultrix (1991)
>>> Capitães da Areia de Jorge Amado pela Record (1975)
>>> O Verão Sem Homens de Siri Hustvedt pela Companhia das Letras (2013)
>>> Hostória de Quem Foge e de Quem Fica de Elena Ferrante pela Biblioteca Azul/ Globo (2016)
>>> Pontos De Fuga - O Lugar Mais Sombrio - Vol. 2 de Milton Hatoum pela Companhia das Letras (2019)
COLUNAS

Segunda-feira, 15/12/2008
Sob Custódia, de Anita Desai
Ricardo de Mattos

+ de 4200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

"Percebeu que amava a poesia não por sua arte de tornar as coisas imediatas, mas porque as removia para uma posição onde se tornavam suportáveis." (Anita Desai)

A porção do planeta que nos costumamos referir simplesmente como "Oriente" parece um navio que se aproximou lenta e majestosamente, aportou, e do qual subimos ansiosos as rampas a fim de conhecer os tesouros trazidos. O rótulo superficial de exotismo é rejeitado e abrimos estupefatos os contêineres plenos de riquezas a serem apreciadas e conhecimento a ser agregado. Inútil tentar estabelecer de onde vem a maior fartura. China? Japão? Tibet? Israel? Países Islâmicos? Índia? Junto de lamentáveis notícias de guerra e conflitos, chegam as de ordem política e econômica e chegam as de ordem cultural. No caso específico da Índia, se Salman Rushdie consolida seu nicho nas nossas editoras e livrarias, começa a dividir espaço com Pankaj Mishra, Kiran Desai e outros. É a ocasião de resgatar nomes veteranos que já foram traduzidos aqui, mas não receberam a devida atenção, como Anita Desai.

A escritora indiana Anita Mazumdar Desai nasceu em 1937, filha de mãe alemã e pai bengali. Poliglota, é versada em alemão, inglês, bengali, hindi e urdu. Começou a escrever aos sete anos, publicando sua primeira história aos nove. Estreou em 1963 ao publicar a novela The Peacock. Sob Custódia data de 1984. Foi adaptado para o cinema em 1993, ano em que a escritora vinculou-se ao departamento de Humanidades do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Por ele, Desai recebeu uma das suas três indicações ao Booker Prize, prêmio que afinal coube a sua filha Kiran Desai. Este último nome poderá soar mais familiar ao leitor, pois Kiran esteve na FLIP de 2007 e seu primeiro romance, intitulado Rebuliço no pomar de goiabeiras, já foi traduzido no Brasil.

Sob Custódia narra os transtornos provocados e sofridos pelo professor universitário Deven Sharma para entrevistar e escrever um artigo sobre o velho poeta Nur, um dos últimos nomes da agonizante poesia urdu. Para perceber o detalhe e compreender o conflito decorrente, é necessário esclarecer que o urdu era a língua culta dos muçulmanos que um dia habitaram em maior número o atual território indiano, no qual erigiram mesquitas e universidades e estabeleceram cortes de refinada cultura. Na década de quarenta do século passado, a Índia conquistou sua independência, mas parte de sua área foi destacada para criação do Paquistão. Estes fatos ocorreram quase quarenta anos antes da novela, o que revela o ancião como sobrevivente de uma época afastada e isolado de um povo que procurou outros horizontes. Deven é professor de hindi, a língua que prevaleceu mas tida como vulgar pelos nostálgicos defensores do urdu. Caso análogo retrata-nos Tolstoi na Rússia do século XVIII, quando a nobreza falava um francês castiço e desprezava o russo nativo.

Deven é um professor universitário cuja existência foi esgotada pela mediocridade e pobreza. Leciona hindi, mas estuda e escreve em urdu nas horas livres. O estudo da língua culta permite-lhe conviver com algo mais nobre entre a penúria em que transita pelo plano terrestre. Vive em Mirpore, uma cidade apresentada como injustificada, ou seja, não há um porto, um centro comercial, universitário ou industrial que explique sua origem. Seus templos e mesquitas são vazios de referências, apenas ocupam lugar no espaço e são usados. Isso num país que preza seu passado e tradições. Apesar da vontade fraca e da auto-estima quase nula, é aquele sujeitinho que fala alto em casa e agride a mulher, principalmente por ver-se nela como que num espelho. Cada um vive no seu incomunicável mundo de ilusões: "Uma vítima não procura ajuda em outra vítima; procura alguém que a liberte".

Outro personagem ligado a ele é seu "amigo" Murad. Foi ele quem encomendou a entrevista, com o objetivo de publicá-la na revista da qual é editor. Numa catástrofe como a que recentemente atingiu Santa Catarina, Murad estaria entre as pessoas que invadiriam as casas particulares em busca de despojos, jamais para resgatar.

Deven é e tem certeza de sua insignificância. Seu pai era outro anódino, mas legou-lhe o gosto pela poesia de Nur, na qual encontrou conforto durante a vida. Encontrando-se com o poeta, desaponta-se. Esperava um velhinho erudito entre companheiros dos bons tempos, conversando sobre poesia e flores. Depara-se com um homem comum, padecente dos limites da idade e das dores provocadas pelas hemorróidas. Um homem de temperamento fraco, explorado por falsos amigos e pelas esposas. No lugar da conversação literária imaginada, sucedem-se algazarras e conflitos familiares. Deven idealizou o poeta de tal forma que sofre ao encarar a realidade, perdendo-se em negações e indagações. Ele não entende como o autor de sublime obra pode levar vida tão desprezível entre aproveitadores. Na vida medíocre de Deven, Nur e sua produção ocupam o centro. Abalar este núcleo, esta ilusão tão bem elaborada, reflete na compensação da sua existência apagada. Por pior que sejam sua vida e sua rotina, elas são acalentadas por uma imagem. Desconfiar que a imagem esteja errada implica em reconsiderações e no enfrentamento de fatos desconfortáveis. Por outro lado, preservar aquilo que se amou e valorizou a vida inteira é preservar a si mesmo.

Justamente por abalar os fundamentos de sua existência é que a frustração sofrida por Deven é mais grave que outros casos apresentados pela Literatura. Em À sombra das raparigas em flor, o personagem de Proust demora-se adivinhando como será a encenação da Fedra de Racine, tantas vezes lida e estudada. Desencantado com a apresentação, segue seu caminho. Humberto de Campos ― esse Luis Fernando Verissimo do começo do século XX ― descreve em suas Memórias Inacabadas a decepção de encontrar o Barão de Itapari: procurou uma figura saída dos livros de História Medieval e encontrou um homem ordinário aguardando o bonde. Posso até citar um caso pessoal. Em torno dos dezoito anos li uma resenha sobre Hipérion, de Friedrich Hölderlin e gravei na memória uma frase: "Envolvemo-nos com a Filosofia, e perdemos nossa inocência; agora devemos seguir até o fim e salvar nossas almas". Entre idas e vindas, esgotamentos e reedições, aos 32 anos finalmente adquiro um exemplar e desaponto-me com o romantismo derramado, baboso.

De qualquer forma, após algumas desilusões o ser humano tem dois caminhos. Ou fica demasiado cínico, ou aprende a conhecer melhor seu semelhante antes de julgá-lo. Sim, porque forma-se o conceito de alguém com base em fatos e impressões. Criada a imagem, cobra-se de quem foi idealizado o comportamento esperado. Daí temos um degrau a mais no aprofundamento do assunto: já pensamos na desilusão causada por nós a alguma pessoa?

Outro aspecto ressaltado da personalidade de Deven é o da inabilidade, da incompetência em evitar situações ruinosas. Diversas vezes fica encurralado, em todas ele recebe ajuda inesperada, mas sempre estraga tudo. Desperdiça cada auxílio recebido em termos de dinheiro, oportunidade e tempo, quando o mínimo de realismo e planejamento afastaria o aperto. O talento de Anita Desai revela-se no fato de ela não recorrer a nada de extraordinário ao elaborar a trama. A escritora demonstra a idiotice do personagem camada após camada num realismo exasperante, que incomoda justamente porque se sabe existir pessoas assim. Apesar das diferenças culturais, tipos como Deven são encontrados em qualquer canto, nivelados pela mediocridade.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 15/12/2008



Quem leu este, também leu esse(s):
01. O crime da torta de morango de Elisa Andrade Buzzo
02. Paulo César Saraceni (1933-2012) de Humberto Pereira da Silva
03. O centenário de Contos Gauchescos de Marcelo Spalding
04. A novíssima arquitetura da solidão de Marta Barcellos
05. Você cumpre as promessas de final de ano? de Débora Carvalho


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2008
01. O Presidente Negro, de Monteiro Lobato - 29/7/2008
02. Sobre o Acordo Ortográfico - 24/10/2008
03. Sobre o Caminho e o Fim - 20/3/2008
04. Sob Custódia, de Anita Desai - 15/12/2008
05. Olímpica - 26/8/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
16/12/2008
08h58min
Anita Desai é um canto do mundo, uma estrela que viaja, e ilumina, com seus raios, as paisagens diferentes.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




X-MEN EXTRA Nº 42 - JUNHO DE 2005
MARVEL COMICS
PANINI COMICS
(2005)
R$ 7,00



CONSTRUÇÕES DA FELICIDADE - INVENÇÕES DEMOCRÁTICAS
ANDRÉ ROCHA
AUTÊNTICA
(2015)
R$ 40,00



MADAME WALEWSKA - GRANDE AMOR DE NAPOLEÃO
OCTAVE AUBRY
VECCHI
(1943)
R$ 14,00



NÚMEROS E AROMAS DO AMOR - O LIVRO DO RELACIONAMENTO E DA CONQUISTA
APARECIDA LIBERATO E BETO JUNQUEIRA
BEST SELLER
(2000)
R$ 15,00



CURSO DE DIREITO CIVIL BRASILEIRO 2
MARIA HELENA DINIZ
SARAIVA
(1985)
R$ 6,90



FORA DA PISTA
ADONIAS FILHO
DO BRASIL
R$ 4,13



JOGOS DE ESCALAS - A EXPERIÊNCIA DA MICROANÁLISE
JACQUES REVEL (ORG)
FGV
(2020)
R$ 149,90



VAGALOVNIS
ANTONIO BARRETO; DIOGO DROSCHI
GRUPO AUTÊNTICA
(2011)
R$ 6,90



RENOVAÇÃO DE CASAS II
JUAN DE CUSA
PLÁTANO
(1999)
R$ 27,91



FIM
FERNANDA TORRES
CIA. DAS LETRAS
(2013)
R$ 20,00





busca | avançada
65370 visitas/dia
2,1 milhões/mês